{N}1,{/}1: (1-4) Desde o in\u00edcio, Jo\u00e3o destaca o centro de toda a revela\u00e7\u00e3o de Deus: {C}a vida{/}. Do Pai para o Filho, do Filho para as suas testemunhas, das testemunhas para os fi\u00e9is, ela transmite-se e vai-se ampliando como participa\u00e7\u00e3o, comunh\u00e3o e alegria. A revela\u00e7\u00e3o, portanto, n\u00e3o \u00e9 uma ideia abstracta; \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o de Deus no seio da Hist\u00f3ria, comunicando a vida concreta, presente em Jesus Cristo. E a verdadeira Igreja \u00e9 uma comunh\u00e3o voltada para a vida; por isso, ela gera alegria e comprova a uni\u00e3o \u00edntima com o Pai e com o Filho.

{N}1,{/}5: (5-7) A luz de Deus \u00e9 o seu amor pelos homens (cf. Jo 3,16). A Igreja est\u00e1 em comunh\u00e3o com Deus quando a pr\u00f3pria realidade do Deus revelado - o seu amor pelos homens - se exprime na vida da Igreja como amor fraterno que gera comunh\u00e3o (cf. Jo 13,34-35). Estar nas trevas \u00e9 estar longe de Deus. Isto, na pr\u00e1tica, significa estar afastado do irm\u00e3o; por outras palavras, odi\u00e1-lo (2,11). O grande pecado \u00e9 a incoer\u00eancia de uma Igreja que pretendesse estar em comunh\u00e3o com Deus, mas n\u00e3o gerasse a comunh\u00e3o entre os seus membros e grupos.

{N}1,{/}8: (1,8-2,2) A Igreja que n\u00e3o se reconhece pecadora vive no farisa\u00edsmo, e consequentemente faz de Deus um mentiroso, tornando-O c\u00famplice dos seus pecados. Com efeito, a revela\u00e7\u00e3o mostra que Deus perdoa o pecado. E mais: Cristo entregou a sua pr\u00f3pria vida para que os homens sejam libertados da injusti\u00e7a e tenham a vida. \u00c9 confessando os pr\u00f3prios pecados que a Igreja declara ao mundo a inoc\u00eancia e a justi\u00e7a do Deus vivo.

{N}2,{/}3: (3-11) O conhecimento de Deus demonstra-se por uma pr\u00e1tica concreta, isto \u00e9, quando a pessoa faz a vontade de Deus. Essa vontade foi revelada e concretizada em Jesus e consiste no mandamento novo, como \u00e9 expresso em Jo 13,34-35. E \u00e9 a pr\u00e1tica do mandamento do amor que faz com que as pessoas e os grupos sociais saiam do pr\u00f3prio ego\u00edsmo e isolamento, que geram a morte, para viverem as rela\u00e7\u00f5es fraternas que geram a vida.

{N}2,{/}12: (12-17) Jo\u00e3o d\u00e1 as linhas gerais que comp\u00f5em o retrato do crist\u00e3o: este foi perdoado (passou da morte para a vida); \u00e9 algu\u00e9m que conserva a mem\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o mediante o an\u00fancio do Evangelho; conhece o Pai e vive a fraternidade; e \u00e9 algu\u00e9m que tem for\u00e7a para vencer continuamente o mal personificado pelo diabo (Maligno). Nos vv. 15-17 Jo\u00e3o caracteriza as duas ofertas de vida: a {C}vida que vem do mundo{/} (desejos desenfreados, ambi\u00e7\u00e3o de possuir e auto-sufici\u00eancia da riqueza) e a {C}vida que vem de Deus{/} e que \u00e9 possu\u00edda pelo homem quando este p\u00f5e em pr\u00e1tica a vontade de Deus. A vida que o mundo oferece \u00e9 falsa e, por isso, fr\u00e1gil e passageira; a vida que Deus oferece \u00e9 a sua pr\u00f3pria vida e, por isso, preenche o desejo do homem e permanece para sempre. Cabe ao homem escolher definitivamente um desses tipos de vida.

{N}2,{/}18: (18-28) A revela\u00e7\u00e3o crist\u00e3 mostra que a salva\u00e7\u00e3o \u00e9 o dom da vida que o Pai concede aos homens atrav\u00e9s de Jesus. Anticristos s\u00e3o aqueles que rejeitam Jesus como Cristo, isto \u00e9, como Messias e Salvador; deste modo, rejeitam tamb\u00e9m o Pai e, portanto, a pr\u00f3pria vida. Crist\u00e3os verdadeiros s\u00e3o aqueles que aceitam Jesus como Salvador, e assim recebem a vida que vem do Pai. Jesus tinha anunciado que no fim dos tempos (per\u00edodo que vai da ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus at\u00e9 ao final da Hist\u00f3ria) apareceriam anticristos, que procurariam desviar os fi\u00e9is (cf. Mc 13,22). Os crist\u00e3os, por\u00e9m, nada devem temer, porque receberam a un\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito que mant\u00e9m sempre viva neles a mem\u00f3ria de Jesus e ensina os crist\u00e3os a encarnar Jesus Cristo em qualquer tempo e lugar (cf. Jo 14,14-17). A comunidade crist\u00e3, portanto, \u00e9 carism\u00e1tica: os seus membros receberam o Esp\u00edrito que lhes ensina tudo sobre Jesus, e por isso n\u00e3o precisam de depender de mediadores externos.

{N}2,{/}29: (2,29-3,2) Jo\u00e3o come\u00e7a um novo tema: {C}Deus \u00e9 justo{/}. Jesus Cristo manifestou inteiramente a Deus porque, atrav\u00e9s da sua vida, mostrou concretamente o que \u00e9 a justi\u00e7a divina. Do mesmo modo, quem pratica a justi\u00e7a mostra que \u00e9 filho de Deus justo, \u00e0 semelhan\u00e7a de Jesus. N\u00e3o basta ser baptizado para ser filho de Deus: \u00e9 preciso praticar a justi\u00e7a. Esta realidade, por\u00e9m, ainda est\u00e1 em crescimento, e s\u00f3 se realizar\u00e1 totalmente quando puderem contemplar toda a gl\u00f3ria de Jesus Cristo. O mundo n\u00e3o reconhece o Deus justo, porque o princ\u00edpio que rege a vida do mundo \u00e9 a injusti\u00e7a. Deste modo, o mundo considera como inimigos perigosos o Deus justo e os seus filhos que revelam a justi\u00e7a.

{N}3,{/}3: (3-10) {C}Praticar a justi\u00e7a \u00e9 amar o irm\u00e3o{/}: esta \u00e9 a vida na gra\u00e7a de quem conheceu a justi\u00e7a de Deus - o seu amor pelos homens - revelada em Jesus Cristo. Quem n\u00e3o ama o irm\u00e3o pratica a injusti\u00e7a, isto \u00e9, est\u00e1 do lado do Diabo e vive no pecado, que \u00e9 odiar o irm\u00e3o. Esse \u00f3dio, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 apenas sentimento interior; \u00e9 princ\u00edpio de vida que rege todo o pensamento e ac\u00e7\u00e3o, e se manifesta atrav\u00e9s de preconceitos, separatismo, explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o. Com Jesus come\u00e7ou a era da justi\u00e7a: o amor ao irm\u00e3o leva \u00e0 rela\u00e7\u00e3o, \u00e0 comunh\u00e3o, \u00e0 partilha e fraternidade.

{N}3,{/}11: (11-24) O dom do Esp\u00edrito produz nas pessoas a cont\u00ednua mem\u00f3ria e compreens\u00e3o sobre a pessoa de Jesus (cf. Jo 14,26). \u00c9 o Esp\u00edrito, portanto, que gera a f\u00e9 em Jesus, e f\u00e9 \u00e9 compromisso que produz vida nova. Essa vida, por\u00e9m, n\u00e3o se traduz apenas por um conhecimento intelectual, mas pela pr\u00e1tica do mandamento do amor, que n\u00e3o significa apenas amar com sentimento e com afecto, mas atrav\u00e9s de ac\u00e7\u00f5es concretas que promovam a vida e a liberdade dos irm\u00e3os. A pr\u00e1tica do amor n\u00e3o tem limites, pois devemos amar como Jesus amou: assim como Ele foi at\u00e9 ao fim dando a sua vida por n\u00f3s, tamb\u00e9m n\u00f3s devemos dar a vida pelos irm\u00e3os. O Evangelho n\u00e3o exige que sejamos perfeitos para depois amar; pede-nos que amemos concretamente, certos de que Deus \u00e9 maior do que a nossa consci\u00eancia e compreende e perdoa todas as nossas imperfei\u00e7\u00f5es.

{N}4,{/}1: (1-6) Os crist\u00e3os deparam-se continuamente com religi\u00f5es, projectos pol\u00edticos, propostas sociais, sistemas de pensamento, e todos eles se apresentam como salvadores. Como discernir o que vem de Deus e o que \u00e9 engano que vem do mundo? Como distinguir a verdade do erro? Jo\u00e3o mostra-nos que o crit\u00e9rio est\u00e1 no projecto que Deus manifestou atrav\u00e9s de Jesus encarnado: Ele realizou uma pr\u00e1tica que promovia a vida e a liberdade dos homens. Todo o projecto (religi\u00e3o, pensamento, sistema ou proposta) que n\u00e3o coincida com a pr\u00e1tica de Jesus n\u00e3o vem de Deus.

{N}4,{/}7: (7-21) O centro da vida \u00e9 a pr\u00e1tica do amor. Esse amor testemunha concreta e visivelmente o conhecimento e a uni\u00e3o que temos com Deus, com o seu Filho e com o Esp\u00edrito. De facto, Deus Pai torna-Se conhecido pelos homens no acto de dar, por amor, o seu Filho ao mundo (Jo 3,16). O Filho \u00e9 conhecido pela entrega de Si mesmo, no amor, at\u00e9 ao fim (Jo 13,1). O Esp\u00edrito gera a mem\u00f3ria do Pai e do Filho nos crist\u00e3os, isto \u00e9, a pr\u00f3pria vida no amor. A f\u00e9 na Trindade \u00e9 a teoria de uma pr\u00e1tica que se exprime no amor concreto aos irm\u00e3os, a quem Deus ama. A incoer\u00eancia fundamental seria afirmar uma f\u00e9 na Trindade que n\u00e3o correspondesse \u00e0 pr\u00e1tica do amor. Jo\u00e3o deixa claro que o julgamento de Deus ser\u00e1 feito sobre a pr\u00e1tica do amor vivida ou n\u00e3o (cf. Mt 25,31-46). Por isso, quem ama n\u00e3o teme o julgamento.

{N}5,{/}1: (1-12) Todos n\u00f3s buscamos a plenitude da vida; mas, onde \u00e9 que ela se encontra? A B\u00edblia responde-nos: Deus \u00e9 vida plena e, gra\u00e7as ao seu amor por n\u00f3s, Ele deu a sua pr\u00f3pria vida atrav\u00e9s do seu Filho encarnado. Os homens t\u00eam acesso \u00e0 vida atrav\u00e9s da f\u00e9. E \u00e9 a f\u00e9 que acolhe o dom que Deus realiza em Jesus. \u00c9 esta f\u00e9 que faz experimentar desde j\u00e1 a vida eterna. Mas, o que \u00e9 a f\u00e9? \u00c9 o compromisso com o testemunho que Jesus deu desde o baptismo (\u00e1gua) at\u00e9 \u00e0 sua morte (sangue). Quem desperta esse compromisso \u00e9 o Esp\u00edrito, que nos faz recordar, compreender e viver esse testemunho de Jesus, que dissipa todo o ego\u00edsmo, mentira e morte (vence o mundo).

{N}5,{/}13: (13-17) Porque \u00e9 que \u00e0s vezes rezamos, e Deus n\u00e3o nos responde? Jo\u00e3o mostra-nos que a ora\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um meio para satisfazermos os nossos caprichos ego\u00edstas, mas para nos colocarmos dentro do projecto de Deus e pedirmos a realiza\u00e7\u00e3o da sua vontade amorosa, que gera vida e liberdade. Por isso, o pedido fundamental para n\u00f3s e para os outros \u00e9 sempre: \u00abvenha a n\u00f3s o vosso Reino\u00bb.
Os crist\u00e3os pecam, porque continuam sujeitos \u00e0 fraqueza humana. O \u00abpecado que leva \u00e0 morte\u00bb \u00e9 a rejei\u00e7\u00e3o do projecto que Deus realizou atrav\u00e9s de Jesus Cristo, pois fora desse projecto o homem caminha para a morte.

{N}5,{/}18: (18-21) Ap\u00f3s um resumo da carta, Jo\u00e3o recomenda que os crist\u00e3os tenham cuidado com os \u00eddolos. Para ele, \u00eddolos s\u00e3o as pessoas, coisas, estruturas e projectos que produzem escravid\u00e3o e morte e se apresentam como absolutos, pretendendo substituir o projecto de vida e liberdade que Deus realizou em Jesus Cristo.

