{N}1,{/}1: (1-3) Desde o in\u00edcio, Paulo j\u00e1 salienta o aspecto da unidade, que \u00e9 um dos temas fundamentais da carta: o \u00fanico Senhor das Igrejas \u00e9 Jesus Cristo.

{N}1,{/}4: (4-9) A evangeliza\u00e7\u00e3o da comunidade de Corinto foi completa: ela recebeu a riqueza do Evangelho e da sabedoria da vida crist\u00e3. Este \u00e9 outro tema importante da carta. Resta \u00e0 comunidade perseverar no testemunho de Jesus Cristo at\u00e9 ao fim.

{N}1,{/}10: (10-16) O que faz a unidade da comunidade crist\u00e3 \u00e9 o baptismo em Nome de Jesus e a submiss\u00e3o a Ele como \u00fanico Senhor. Os evangelizadores e chefes s\u00e3o apenas instrumentos para levar a comunidade a Jesus Cristo. Absolutizando as pessoas, ela divide-se, submetendo-se a outros senhores e falsificando a fun\u00e7\u00e3o dos chefes. 

{N}1,{/}17: (17-31) O projecto de Deus \u00e9 contr\u00e1rio aos projectos dos homens. Os homens valorizam e d\u00e3o lugar aos ricos, aos poderosos, aos intelectuais, aos que t\u00eam posi\u00e7\u00e3o social, beleza f\u00edsica, facilidade de express\u00e3o etc. Consequentemente, desprezam e n\u00e3o d\u00e3o import\u00e2ncia \u00e0queles que n\u00e3o se encaixam nestes padr\u00f5es. Deus, por\u00e9m, subverte a sociedade e os projectos humanos: para estabelecer e realizar os seus projectos, Ele alia-se aos pobres, fracos e simples, porque estes n\u00e3o s\u00e3o auto-suficientes e abrem-se a Deus. \u00c9 na pobreza e fraqueza destes que Deus manifesta a sua for\u00e7a (cf. 2Cor 12,9). E a manifesta\u00e7\u00e3o m\u00e1xima do poder e da gra\u00e7a de Deus \u00e9 Jesus crucificado, pois a cruz \u00e9 o s\u00edmbolo da fraqueza, do fracasso e da vergonha, porque nela eram executados os criminosos. A verdadeira comunidade crist\u00e3 \u00e9 a dos pobres: ela est\u00e1 aliada \u00e0 sabedoria do projecto de Deus; por isso, \u00e9 portadora da novidade que provoca transforma\u00e7\u00f5es radicais. 

{N}2,{/}1: (1-16) Paulo n\u00e3o se serviu de artif\u00edcios humanos para anunciar o Evangelho aos Cor\u00edntios. Pelo contr\u00e1rio, foi atrav\u00e9s da sua fraqueza que ele anunciou o cerne do projecto de Deus: Jesus crucificado. Se os Cor\u00edntios chegaram \u00e0 f\u00e9, foi pelo Esp\u00edrito que agiu neles atrav\u00e9s de Paulo. Os crist\u00e3os que aprofundaram a f\u00e9 possuem a verdadeira sabedoria, que consiste no seguinte: Deus salva o mundo por meio de Jesus Cristo. Esta compreens\u00e3o da f\u00e9 \u00e9 obra do Esp\u00edrito; o homem que s\u00f3 confia na sua pr\u00f3pria capacidade n\u00e3o consegue atingir essa compreens\u00e3o. 

{N}3,{/}1: (1-4) Enquanto os crist\u00e3os condicionarem a pr\u00f3pria f\u00e9 \u00e0 prefer\u00eancia por um pregador ou chefe, demonstram f\u00e9 imatura. Agindo assim, est\u00e3o a ser levados por princ\u00edpios que dividem e que s\u00e3o contr\u00e1rios ao princ\u00edpio b\u00e1sico que prov\u00e9m do Esp\u00edrito: a unidade em Jesus Cristo.

{N}3,{/}5: (5-17) Paulo serve-se de duas imagens (campo e edif\u00edcio) para apresentar o verdadeiro {C}agente de pastoral{/}. Este \u00e9 um {C}servidor{/} do projecto de Deus concretizado em Jesus Cristo e que consiste em reunir os homens no compromisso de f\u00e9 com Jesus, cuja ac\u00e7\u00e3o devem continuar. Se os agentes de facto servem a Cristo, nunca se contradizem. O sucesso n\u00e3o deve levar o agente \u00e0 vangl\u00f3ria, pois o projecto n\u00e3o \u00e9 seu; a efic\u00e1cia vem de Deus, que tamb\u00e9m d\u00e1 as aptid\u00f5es e capacidades. A responsabilidade \u00e9 grande, pois o agente dever\u00e1 prestar contas ao pr\u00f3prio Deus, que provar\u00e1 quanto vale a obra de cada um.

{N}3,{/}18: (18-23) A sabedoria do projecto de Deus critica e sobrep\u00f5e-se a todos os projectos da sociedade. Conhecendo e vivendo o projecto de Deus, a comunidade crist\u00e3 \u00e9 radicalmente livre e n\u00e3o deve dobrar-se diante de pessoas ou coisas, pois ela pertence unicamente a Cristo e a Deus.

{N}4,{/}1: (1-5) Os agentes de pastoral s\u00e3o servidores de Cristo e trabalham para que o projecto de Deus seja conhecido e vivido. O que deles se espera \u00e9 que sejam fi\u00e9is. Quem poder\u00e1 julg\u00e1-los? O julgamento humano, que se baseia em c\u00f3digos e opini\u00f5es socialmente estabelecidas, \u00e9 sempre parcial e injusto, pois apoia-se em apar\u00eancias e reflecte os conflitos de interesse dos grupos sociais. S\u00f3 Deus pode fazer verdadeira justi\u00e7a, pois s\u00f3 Ele conhece a totalidade e profundidade do homem, para al\u00e9m das apar\u00eancias e interesses. 

{N}4,{/}6: (6-13) Paulo ironiza com a comunidade que imagina ter conseguido a maturidade crist\u00e3. Ao orgulho, contrap\u00f5e a condi\u00e7\u00e3o dos Ap\u00f3stolos perseguidos, para lembrar \u00e0 comunidade que o Reino ainda n\u00e3o est\u00e1 realizado e que a Igreja vive sob o signo da cruz.

{N}4,{/}14: (14-21) A comunidade pode ter muitos pedagogos (cf. nota em Gl 3,19-24), mas Paulo \u00e9 o \u00fanico pai: foi ele que, atrav\u00e9s do Evangelho, fundou a comunidade. Nesse tempo, o Evangelho ainda n\u00e3o era um documento escrito, mas o seu conte\u00fado vivo era anunciado e testemunhado concretamente pela pessoa do Ap\u00f3stolo. Assim como o filho obedece ao pai que o educa e lhe transmite a heran\u00e7a, Paulo pede que a comunidade lhe obede\u00e7a, para que ele possa educ\u00e1-la e transmitir-lhe a heran\u00e7a do Evangelho. Tim\u00f3teo \u00e9 enviado \u00e0 comunidade como filho fiel: na pessoa deste, a comunidade poder\u00e1 reconhecer o verdadeiro evangelho como heran\u00e7a de Paulo.

{N}5,{/}1: (1-13) Paulo recrimina um comportamento que nem mesmo a lei judaica e o direito romano tolerariam.{C} {/}\u00abEntregar a Satan\u00e1s\u00bb significa expulsar da comunidade. Deste modo, o imoral tomar\u00e1 consci\u00eancia da sua culpa e poder\u00e1 arrepender-se; assim a comunidade livrar-se-\u00e1 do mau exemplo que provocaria cont\u00e1gios. Paulo usa a imagem do fermento em sentido oposto ao dos Evangelhos (cf. Mt 13,33). Ele n\u00e3o deseja que a comunidade seja uma esp\u00e9cie de \u00abgueto\u00bb no mundo; trata-se de viver no mundo sem estar comprometido com o mundo (cf. Jo 17,14-15).

{N}6,{/}1: (1-11) Pelo baptismo, os crist\u00e3os tornaram-se irm\u00e3os em Cristo e participam da mesma esperan\u00e7a do Reino. Como podem estes irm\u00e3os litigar entre si? Pior ainda, como podem recorrer a tribunais pag\u00e3os para dirimir conflitos? Estamos longe do esp\u00edrito do Evangelho (cf. Mt 5,38-48). Paulo n\u00e3o condena os tribunais do seu tempo, mas critica o esp\u00edrito de competi\u00e7\u00e3o e a aus\u00eancia de discernimento na comunidade.

{N}6,{/}12: (12-20) Paulo enfrenta uma falsa concep\u00e7\u00e3o de liberdade, extremamente permissiva em quest\u00f5es de vida sexual. Como princ\u00edpio, ele salienta que nem tudo conv\u00e9m \u00e0 condi\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Por outras palavras: o crist\u00e3o deve saber discernir o que leva ao crescimento e \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o da pessoa humana. Uma vez que foi resgatado por Cristo para viver a liberdade, n\u00e3o deve deixar-se escravizar de novo, nem mesmo pelo pr\u00f3prio corpo, muitas vezes injuriando o pr\u00f3prio corpo. 

{N}7,{/}1: (1-11) Alguns convertidos de Corinto pensam que o matrim\u00f3nio esteja ultrapassado: uns pregam a liberdade sexual, outros v\u00eaem o celibato como condi\u00e7\u00e3o \u00fanica de viver o Evangelho. Diante de tais exageros, a orienta\u00e7\u00e3o de Paulo \u00e9 extremamente realista: consciente das necessidades e da fragilidade humana, ele coloca no devido lugar tanto o celibato como o matrim\u00f3nio. O celibato goza das prefer\u00eancias de Paulo; no entanto, mostra que se trata de um dom, uma voca\u00e7\u00e3o, que para o celibat\u00e1rio n\u00e3o significa nenhum m\u00e9rito. O matrim\u00f3nio \u00e9 o lugar por excel\u00eancia da uni\u00e3o e da vida sexual; uni\u00e3o indissol\u00favel, feita de dom e disponibilidade rec\u00edproca (cf. Ef 5,4-33). Quanto ao div\u00f3rcio, Paulo ensina a mesma coisa que os Evangelhos (cf. Mt 19,9 e paralelos).

{N}7,{/}12: (12-16) Uma quest\u00e3o t\u00edpica das primeiras gera\u00e7\u00f5es crist\u00e3s: que fazer quando um dos c\u00f4njuges n\u00e3o se converte \u00e0 f\u00e9 crist\u00e3? Paulo quer a todo o custo preservar a uni\u00e3o matrimonial e confia na boa influ\u00eancia do c\u00f4njuge crist\u00e3o. Contudo, se a rela\u00e7\u00e3o se torna imposs\u00edvel, o c\u00f4njuge n\u00e3o crist\u00e3o, e s\u00f3 ele, pode tomar a decis\u00e3o de separar-se. Isso mostra que Paulo entende a indissolubilidade como algo estritamente ligado \u00e0 f\u00e9 crist\u00e3.

{N}7,{/}17: (17-24) O Evangelho n\u00e3o se dirige a determinada ra\u00e7a, grupo ou casta social; ele \u00e9 aberto a todos. Na vis\u00e3o de Paulo, o convertido n\u00e3o deve estar preocupado em mudar de posi\u00e7\u00e3o na escala social. O que importa \u00e9 compreender que a condi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 implica uma novidade radical: o \u00fanico Senhor que est\u00e1 sobre todos \u00e9 Jesus Cristo; n'Ele todos s\u00e3o livres e s\u00f3 a Ele devem submeter-se. Deste modo, Paulo v\u00ea a comunidade crist\u00e3 como semente de uma sociedade igualit\u00e1ria, onde todos os homens s\u00e3o chamados a ser livres e a encontrarem a pr\u00f3pria dignidade. 

{N}7,{/}25: (25-35) Para a Igreja primitiva eram iminentes o fim do mundo e a manifesta\u00e7\u00e3o final e gloriosa de Jesus (vv. 29.31). \u00c9 nessa perspectiva que podemos compreender muitos conselhos referentes ao matrim\u00f3nio, ao celibato e \u00e0 virgindade: se o fim est\u00e1 pr\u00f3ximo, para qu\u00ea casar-se e ter filhos? Na vis\u00e3o de Paulo, a virgindade \u00e9 vista como um dom total da pr\u00f3pria vida ao Senhor, como maneira de empenhar-se totalmente no testemunho do Evangelho. Jesus j\u00e1 destacava a grandeza do celibato na consagra\u00e7\u00e3o radical a Deus e ao Reino, mas sem o impor (cf. Mt 19,10-12).

{N}7,{/}36: (36-38) Trata-se talvez de um noivo que sente forte o est\u00edmulo do desejo sexual, mas se v\u00ea pressionado pelo ideal celibat\u00e1rio, apresentado por alguns da comunidade como \u00fanica maneira de realiza\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Paulo d\u00e1 ao noivo ansioso plena liberdade para se decidir.

{N}7,{/}39: (39-40) Paulo deixa total liberdade para as vi\u00favas se casarem de novo, mas apenas com c\u00f4njuge crist\u00e3o (\u00abno Senhor\u00bb). Sobre o conselho de \u00abficar como est\u00e1\u00bb, cf. nota em 7,25-35.

{N}8,{/}1: (1-13) As carnes sacrificadas a \u00eddolos eram carnes de animais oferecidas nos templos pag\u00e3os. Uma parte, n\u00e3o utilizada nos banquetes sagrados, era vendida no mercado (10,25) ou consumida nas depend\u00eancias do templo pag\u00e3o (8,10). Pode-se comer dessas carnes? Os crist\u00e3os mais esclarecidos dizem que sim; os mais escrupulosos dizem que \u00e9 idolatria. Paulo dirige-se aos{C} {/}\u00abescrupulosos\u00bb e afirma que eles s\u00e3o pouco s\u00e1bios. De facto, h\u00e1 um s\u00f3 Deus vivo e os \u00eddolos n\u00e3o s\u00e3o nada. Por isso, pode-se comer das carnes sacrificadas; entretanto, os \u00abesclarecidos\u00bb esquecem o princ\u00edpio supremo da sabedoria: o {C}amor{/}.

{N}9,{/}1: (1-14) Paulo apresenta-se como exemplo para os que t\u00eam consci\u00eancia{C} {/}\u00abesclarecida\u00bb. O mission\u00e1rio tem o direito de ser sustentado pela comunidade nas necessidades materiais. Paulo, contudo, renunciou a isso para n\u00e3o criar obst\u00e1culos \u00e0 evangeliza\u00e7\u00e3o. A vida crist\u00e3 \u00e9 sempre comunit\u00e1ria e cada um \u00e9 respons\u00e1vel pelos outros; por isso, deve ser capaz de renunciar aos direitos da pr\u00f3pria liberdade para testemunhar o primado do amor.

{N}9,{/}15: (15-27) Paulo n\u00e3o reivindica nenhum direito. N\u00e3o considera o seu minist\u00e9rio como profiss\u00e3o, da qual poderia tirar proveito e prest\u00edgio, mas como miss\u00e3o, na qual o Senhor o empenhou pessoalmente. Paulo vive a liberdade radical, que o leva a tornar-se dispon\u00edvel e solid\u00e1rio para com todos.
Usando as imagens do atletismo e do pugilato, Paulo incentiva os crist\u00e3os a lutarem pela f\u00e9; e isso n\u00e3o pode ser feito sem s\u00e9ria disciplina.

{N}10,{/}1: (1-13) Paulo faz uma releitura do Antigo Testamento, mostrando que a Hist\u00f3ria \u00e9 um exemplo e instru\u00e7\u00e3o para a comunidade crist\u00e3, que vive a etapa final dessa mesma Hist\u00f3ria (v. 11). Segundo as tradi\u00e7\u00f5es dos rabinos, a rocha golpeada por Mois\u00e9s (cf. Nm 20,1-13) seguia os hebreus para os abastecer de \u00e1gua. Essa interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 aqui usada para dizer que Cristo conduz o povo desde os tempos do \u00caxodo. O comportamento dos hebreus daquele tempo torna-se advert\u00eancia para que os crist\u00e3os se mantenham fi\u00e9is, confiando no apoio de Deus.

{N}10,{/}14: (14-22) Participar no culto \u00e9 entrar em comunh\u00e3o com a divindade \u00e0 qual se presta culto. Paulo op\u00f5e radicalmente a Eucaristia aos banquetes sagrados dos cultos pag\u00e3os, dizendo que \u00e9 urgente a op\u00e7\u00e3o e coer\u00eancia dos crist\u00e3os. Ao mesmo tempo salienta o lugar central da celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica: a Eucaristia exprime e cria a unidade do Corpo de Cristo, que \u00e9 a Igreja.

{N}10,{/}23: (10,23-11,1) A interpreta\u00e7\u00e3o individualista da liberdade n\u00e3o \u00e9 crist\u00e3. O livre agir do crist\u00e3o est\u00e1 submetido a valores maiores: a solidariedade comunit\u00e1ria e a responsabilidade pelo crescimento e amadurecimento comum de todos. Para atingir esses valores \u00e9 que existe a liberdade. 
A auto-sufici\u00eancia e o isolamento ego\u00edsta criam uma falsa liberdade. E a liberdade crist\u00e3 consiste em viver como filhos de Deus e irm\u00e3os dos outros. Dar gl\u00f3ria a Deus \u00e9 reconhecer que s\u00f3 Deus \u00e9 absoluto. Ser irm\u00e3o dos outros \u00e9 viver a solidariedade para crescer com eles. Paulo apresenta-se como modelo a imitar, pois tem consci\u00eancia de ser o{C} {/}\u00abEvangelho vivo\u00bb, isto \u00e9, de viver na sua vida o pr\u00f3prio comportamento de Jesus. 

{N}11,{/}2: (2-16) Para falar da depend\u00eancia da mulher, aqui s\u00e3o usados os mesmos argumentos machistas dos mestres judeus. De repente, por\u00e9m, Paulo nota que est\u00e1 a negar a igualdade de direitos entre os sexos e volta atr\u00e1s (vv. 11-12), dando a entender que os argumentos aduzidos t\u00eam pouco valor.

{N}11,{/}17: (17-34) O texto \u00e9 o mais antigo testemunho sobre a Eucaristia: foi escrito no ano 56, dez anos antes dos Evangelhos. No in\u00edcio, a celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica fazia-se depois de uma ceia, onde todos repartiam os alimentos que cada um levava. Em Corinto surge um problema: nas celebra\u00e7\u00f5es h\u00e1 divis\u00e3o de classes sociais e de mentalidades diferentes. Muitos chegam atrasados, provavelmente porque trabalhavam, e n\u00e3o encontram mais nada. Resultado: em vez de ser um testemunho de partilha, a celebra\u00e7\u00e3o tornava-se lugar de ostenta\u00e7\u00e3o, foco de discrimina\u00e7\u00e3o e contrastes gritantes. A situa\u00e7\u00e3o oferece oportunidade para um discernimento: quem \u00e9 crist\u00e3o de facto?
Nesse contexto, Paulo relembra a institui\u00e7\u00e3o da Eucaristia. Ela \u00e9 a mem\u00f3ria permanente da morte de Jesus como dom de vida para todos (corpo e sangue). A Eucaristia \u00e9 a celebra\u00e7\u00e3o da Nova Alian\u00e7a, isto \u00e9, da nova humanidade que nasce da participa\u00e7\u00e3o no acto de Jesus, n\u00e3o s\u00f3 no culto, mas na vida pr\u00e1tica. Por isso, a comunidade que celebra a Eucaristia anuncia o futuro de uma reuni\u00e3o de toda a humanidade.
Voltando ao problema, Paulo interpela a comunidade a examinar-se: N\u00e3o ser\u00e1 uma incoer\u00eancia celebrar a Eucaristia quando na pr\u00f3pria celebra\u00e7\u00e3o se fazem distin\u00e7\u00f5es e se marginalizam os mais pobres? Anteriormente (10,17), Paulo salientara que, ao participar na Eucaristia, a comunidade forma um s\u00f3 corpo. Se a comunidade n\u00e3o entender isso (\u00absem discernir o Corpo\u00bb, v. 29), estar\u00e1 a celebrar a sua pr\u00f3pria condena\u00e7\u00e3o, pois desligar\u00e1 a Eucaristia do seu antecedente e das suas consequ\u00eancias pr\u00e1ticas: solidariedade e partilha.
O julgamento do Senhor manifesta-se de dois modos: a pr\u00f3pria Eucaristia torna-se testemunho contra a comunidade; ao mesmo tempo, a fraqueza, doen\u00e7a e morte de muitos membros testemunham a falta de partilha e solidariedade.
Paulo termina com duas orienta\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas: esperar que todos cheguem para come\u00e7ar juntos a reuni\u00e3o (v. 33), e n\u00e3o transform\u00e1-la em ocasi\u00e3o de ostenta\u00e7\u00e3o e gula (vv. 21 e 34).

{N}12,{/}1: (1-3) Na efervesc\u00eancia carism\u00e1tica dos Cor\u00edntios existem tra\u00e7os pag\u00e3os. Estes re\u00fanem-se para cultivar o espectacular e o fasc\u00ednio pelo sobrenatural impregnado de m\u00edstica pag\u00e3; isso acaba por se tornar um verdadeiro \u00f3pio. Paulo adverte: nem todas as manifesta\u00e7\u00f5es de entusiasmo religioso prov\u00eam de Deus. Na m\u00edstica crist\u00e3, o primeiro crit\u00e9rio para discernir os verdadeiros dons do Esp\u00edrito \u00e9 reconhecer Jesus como Senhor.

{N}12,{/}4: (4-11) A Trindade \u00e9 a base sobre a qual a comunidade se constr\u00f3i: nesta, toda a ac\u00e7\u00e3o prov\u00e9m do Pai, todo o servi\u00e7o prov\u00e9m de Jesus e todos os dons (= carismas) prov\u00eam do Esp\u00edrito. Cada pessoa na comunidade recebe um dom, ou melhor, \u00e9 um dom para o bem de todos. Por isso, cada um, sendo o que \u00e9 e fazendo o que pode, {C}age{/} para o bem da comunidade, colocando-se ao {C}servi\u00e7o{/} de todos como dom gratuito. Deste modo, cada um e todos se tornam testemunho e sacramento da ac\u00e7\u00e3o, servi\u00e7o e dom do Pai, do Filho e do Esp\u00edrito Santo. Paulo enumera apenas os carismas de direc\u00e7\u00e3o e ensino. A lista n\u00e3o \u00e9 completa, pois cada pessoa \u00e9 um carisma para a comunidade.

{N}12,{/}12: (12-31) A imagem do corpo \u00e9 usada para falar da unidade, diversidade e solidariedade que caracterizam a comunidade crist\u00e3. Esta \u00e9 {C}una,{/} porque forma o corpo de Cristo, dado que todos receberam o mesmo baptismo e o mesmo Esp\u00edrito, que produzem a comunh\u00e3o e igualdade fundamental. Contudo, as pessoas s\u00e3o {C}diferentes{/} entre si; cada uma com a sua originalidade, contribui, de maneira indispens\u00e1vel, para a constru\u00e7\u00e3o e crescimento de todos; portanto, n\u00e3o h\u00e1 lugar para complexos de superioridade ou inferioridade. O cimento da vida comunit\u00e1ria \u00e9 a {C}solidariedade,{/} que faz que todos se voltem para cada um, principalmente para os mais fracos e necessitados, partilhando os sofrimentos e alegrias.

{N}13,{/}1: (1-13) O caminho que ultrapassa a todos os dons e ao qual todos os membros da comunidade devem aspirar \u00e9 o {C}amor{/}.{C} {/}\u00abDeus \u00e9 amor\u00bb (1Jo 4,8), Jesus \u00e9 o enviado do amor (Jo 3,16), e o centro do Evangelho \u00e9 o mandamento do amor (Mc 12,28-34), que sintetiza toda a vontade de Deus (Rm 13,8-10). O amor \u00e9 a fonte de qualquer comportamento verdadeiramente humano, pois leva a pessoa a discernir as situa\u00e7\u00f5es e a criar gestos oportunos, capazes de responder adequadamente aos problemas. Os outros dons dependem do amor, n\u00e3o podem substitu\u00ed-lo e sem ele nada significam. O amor \u00e9 a for\u00e7a de Deus e tamb\u00e9m a for\u00e7a da pessoa aliada a Deus. \u00c9 a fortaleza inexpugn\u00e1vel que sustenta o testemunho crist\u00e3o, pois \u00abtudo desculpa, tudo cr\u00ea, tudo espera, tudo suporta\u00bb. O amor \u00e9 eterno e transcende tempo e espa\u00e7o, porque \u00e9 a vida do pr\u00f3prio Deus, da qual o crist\u00e3o j\u00e1 participa. \u00c9 maior do que a f\u00e9 e a esperan\u00e7a, que nele est\u00e3o contidas.

{N}14,{/}1: (1-25) Os carismas s\u00e3o \u00fateis quando colaboram para o crescimento da comunidade, e n\u00e3o quando servem para a ostenta\u00e7\u00e3o de quem os recebeu. Paulo recomenda vivamente a profecia e \u00e9 restritivo quanto ao dom das l\u00ednguas. A profecia \u00e9 o dom pelo qual algu\u00e9m, sob a inspira\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, mostra a vontade de Deus dentro da situa\u00e7\u00e3o presente, levando a comunidade \u00e0 convers\u00e3o e ao esclarecimento da f\u00e9. O dom das l\u00ednguas \u00e9 uma esp\u00e9cie de ora\u00e7\u00e3o realizada em clima de \u00eaxtase religioso: a pessoa fala na reuni\u00e3o da comunidade com palavras incompreens\u00edveis, ou repetindo sons desordenados e louvando a Deus em l\u00ednguas desconhecidas, que um int\u00e9rprete traduz. Paulo n\u00e3o condena o fen\u00f3meno de{C} {/}\u00abfalar em l\u00ednguas\u00bb; mostra apenas a sua limita\u00e7\u00e3o e o rid\u00edculo em que a comunidade pode cair (v. 23).

{N}14,{/}26: (26-40) Parece que as reuni\u00f5es da comunidade de Corinto eram muito desordenadas. Ningu\u00e9m pedia a palavra, v\u00e1rios falavam ao mesmo tempo, e em tudo isto talvez sobressa\u00edssem as mulheres. Por essa raz\u00e3o, Paulo convida-as a calarem-se. Os que tinham dons especiais julgavam-se superiores aos outros e n\u00e3o respeitavam a ordem mais elementar.

{N}15,{/}1: (1-11) A certeza da f\u00e9 crist\u00e3 baseia-se num facto: a ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo. Paulo recorda o ensinamento tradicional da Igreja, e confirma-o enumerando as testemunhas que viram Cristo ressuscitado. Encontramos aqui os tra\u00e7os principais do Credo e, ao mesmo tempo, o mais antigo testemunho escrito sobre o ensinamento primitivo da Igreja a respeito das apari\u00e7\u00f5es de Jesus Cristo.

{N}15,{/}12: (12-19) Em Corinto, alguns pensavam que, depois da morte, a alma imortal continuava a viver sozinha, abandonando a mat\u00e9ria e o corpo, que s\u00e3o considerados coisas m\u00e1s e inferiores. Outros pensavam que tudo terminava com a morte e que era melhor aproveitar o momento presente. Paulo mostra que ambas as opini\u00f5es s\u00e3o contr\u00e1rias ao n\u00facleo da f\u00e9 crist\u00e3, porque se os mortos n\u00e3o ressuscitam verdadeiramente, nem Cristo ressuscitou.

{N}15,{/}20: (20-28) Dois estados da humanidade se op\u00f5em: o pecado e a morte, dos quais Ad\u00e3o \u00e9 o s\u00edmbolo; a gra\u00e7a e a vida, realizadas em Cristo (cf. Rm 5,17-21). A partir do pecado, existem na sociedade for\u00e7as e estruturas que invertem o destino humano, desagregando, pervertendo, e at\u00e9 mesmo levando os homens \u00e0 morte. Cristo foi morto por essas estruturas, mas Deus ressuscitou-O e deu-Lhe poder para as destruir. Ap\u00f3s vencer essas for\u00e7as, tamb\u00e9m a morte ser\u00e1 vencida; ent\u00e3o, o triunfo ser\u00e1 definitivo. Unida a Cristo, a humanidade estar\u00e1 de novo submetida a Deus e o Reino de Deus manifestar-se-\u00e1 completamente. 

{N}15,{/}29: (29-34) Dois argumentos apoiam a f\u00e9 na ressurrei\u00e7\u00e3o: o baptismo pelos mortos e o testemunho crist\u00e3o que n\u00e3o teme a morte. Quanto ao baptismo pelos mortos, trata-se de um rito desconhecido com que os crist\u00e3os procuravam assegurar a salva\u00e7\u00e3o dos seus parentes falecidos.

{N}15,{/}35: (35-49) N\u00e3o se pode imaginar a ressurrei\u00e7\u00e3o como simples reviver, ou simples regresso \u00e0s condi\u00e7\u00f5es da vida terrestre. O ser humano passar\u00e1 para uma condi\u00e7\u00e3o inteiramente nova: este corpo{C} {/}\u00abanimal\u00bb, mortal, que nos foi transmitido pelos nossos pais, torna-se \u00abespiritual\u00bb, isto \u00e9, recebe vida nova do Esp\u00edrito que Cristo nos d\u00e1. Paulo usa diversas imagens para nos dar a ideia da transfigura\u00e7\u00e3o pela qual passaremos. Nenhuma delas, por\u00e9m, \u00e9 capaz de dar uma ideia completa da misteriosa e real transforma\u00e7\u00e3o que nos tornar\u00e1 semelhantes ao pr\u00f3prio Cristo ressuscitado. 

{N}15,{/}50: (50-53) Paulo imagina que Cristo h\u00e1-de voltar antes que a sua gera\u00e7\u00e3o morra; os mortos ressuscitar\u00e3o e os que estiverem vivos ser\u00e3o transformados. Deste modo, ele salienta que a ressurrei\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas retorno \u00e0 vida.

{N}15,{/}54: (54-58) Depois que Cristo ressuscitou, nenhum tipo de morte ter\u00e1 a vit\u00f3ria final. Esta vit\u00f3ria de Cristo sobre a morte \u00e9 tamb\u00e9m vit\u00f3ria contra o pecado, que introduz e alimenta a morte no mundo, e contra a lei, que mostra o que \u00e9 pecado, mas n\u00e3o d\u00e1 for\u00e7as para o vencer. Quem acredita em Jesus ressuscitado pode cantar desde j\u00e1 o triunfo da vida.

{N}16,{/}1: (1-4) Cf. notas em 2Cor 8-9.

{N}16,{/}5: (5-18) Tim\u00f3teo teve papel importante nas rela\u00e7\u00f5es entre Paulo e a comunidade de Corinto (4,17; Act 15,41-16,5; 19,21-22). Apolo n\u00e3o quer voltar logo a Corinto, para n\u00e3o reagrupar um partido em torno do seu nome e do seu prest\u00edgio (1,12; 3,5-6; 4,6; Act 18, 24-19,1).

{N}16,{/}19: (19-24) {C}Marana-t\u00e1{/} \u00e9 express\u00e3o aramaica e significa{C} {/}\u00abVem, Senhor!\u00bb Entrou em uso na liturgia e exprime a espera da comunidade pela vinda gloriosa de Jesus.

