{N}1,{/}1: Todo o Evangelho de S. Marcos \u00e9 o {C}come\u00e7o{/} da Boa Not\u00edcia que Deus dirige aos homens. Ela continua, em todos os tempos e lugares, atrav\u00e9s daqueles que seguem a Jesus.

{N}1,{/}2: (2-8) A prega\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Baptista \u00e9 uma grande advert\u00eancia. Ele anuncia a vinda do Messias, que vai provocar uma grande transforma\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso estar preparado, purificando-se e mudando o modo de ver a vida e de viv\u00ea-la.

{N}1,9{/}: (9-11) Os {C}c\u00e9us abertos{/}: Na pessoa de Jesus, a separa\u00e7\u00e3o que havia entre Deus e os homens rompeu-se. A voz apresenta o mist\u00e9rio do homem de Nazar\u00e9: Ele \u00e9 o Filho de Deus, o Messias-Rei (Sl 2,7) que vai estabelecer o Reino de Deus atrav\u00e9s do servi\u00e7o, como o Servo de Jav\u00e9 (Is 42,1-2).

{N}1,{/}12: (12-13) A tenta\u00e7\u00e3o no deserto resume os conflitos que Jesus vai experimentar em toda a sua vida. Dever\u00e1 enfrentar o representante das for\u00e7as do mal que escravizam os homens. E Deus apoi\u00e1-l'O-\u00e1 nesta luta.

{N}1,{/}14: (14-15) S\u00e3o as primeiras palavras de Jesus: elas apresentam a chave para interpretar toda a sua actividade. {C}Cumprimento{/}: em Jesus, Deus entrega-Se totalmente. N\u00e3o \u00e9 tempo de esperar. \u00c9 hora de agir. O Reino \u00e9 o amor de Deus que provoca a transforma\u00e7\u00e3o radical da situa\u00e7\u00e3o injusta que domina os homens. {C}Est\u00e1 pr\u00f3ximo{/}: o Reino \u00e9 din\u00e2mico e est\u00e1 sempre a crescer. {C}Convers\u00e3o{/}: a ac\u00e7\u00e3o de Jesus exige mudan\u00e7a radical da orienta\u00e7\u00e3o de vida. {C}Acreditar na Boa Not\u00edcia{/}: \u00e9 aceitar o que Jesus realiza e empenhar-se com Ele.

{N}1,{/}16: (16-20) O chamamento dos primeiros disc\u00edpulos \u00e9 um convite aberto a todos os que ouvem as palavras de Jesus. Sim\u00e3o e Andr\u00e9 deixam a profiss\u00e3o; Tiago e Jo\u00e3o deixam a fam\u00edlia... Seguir a Jesus implica deixar as seguran\u00e7as que possam impedir o compromisso com uma ac\u00e7\u00e3o transformadora.

{N}1,{/}21: (21-28) A ac\u00e7\u00e3o demon\u00edaca escraviza e aliena o homem, impedindo-o de pensar e de agir por si mesmo (por exemplo: ideologias, propagandas, estruturas, sistemas, etc.): outros pensam e agem atrav\u00e9s dele. O primeiro milagre de Jesus \u00e9 fazer o homem voltar \u00e0 consci\u00eancia e \u00e0 liberdade. S\u00f3 assim o homem pode segui-l'O.
S. Marcos n\u00e3o diz qual era o ensinamento de Jesus; contudo, mencionando-o juntamente com uma ac\u00e7\u00e3o de cura, sugere que o ensinamento com autoridade repousa numa pr\u00e1tica concreta de liberta\u00e7\u00e3o: com a sua ac\u00e7\u00e3o, Jesus interpreta as Escrituras de modo superior a toda a cultura dos doutores da Lei.

{N}1,{/}29: (29-34) Para os antigos, a febre era de origem demon\u00edaca. Libertos do dem\u00f3nio, os homens podem levantar-se e come\u00e7ar a trabalhar. Os dem\u00f3nios reconhecem quem \u00e9 Jesus, porque sentem que a sua palavra e ac\u00e7\u00e3o amea\u00e7am o dom\u00ednio que eles t\u00eam sobre o homem.

{N}1,{/}35: (35-39) O deserto \u00e9 o ponto de partida para a miss\u00e3o. A\u00ed Jesus encontra o Pai, que O envia para salvar os homens. Mas encontra tamb\u00e9m a tenta\u00e7\u00e3o: Pedro sugere que Jesus aproveite a popularidade conseguida num dia. \u00c9 o primeiro di\u00e1logo com os disc\u00edpulos e j\u00e1 se nota alguma tens\u00e3o.

{N}1,{/}40: (40-45) O leproso era marginalizado, devendo viver fora da cidade, longe do conv\u00edvio social, por motivos higi\u00e9nicos e religiosos (Lv 13,45-46). Jesus fica irado contra uma sociedade que produz a marginaliza\u00e7\u00e3o. Por isso, o homem curado deve apresentar-se para dar testemunho contra um sistema que n\u00e3o cura, mas s\u00f3 declara quem pode ou n\u00e3o participar na vida social. O marginalizado agora torna-se testemunho vivo que anuncia Jesus, Aquele que purifica. E Jesus est\u00e1 fora da cidade, lugar que se torna o centro de uma nova rela\u00e7\u00e3o social: o lugar dos marginalizados \u00e9 o lugar onde se pode encontrar Jesus.

{N}2,{/}1: (1-12) Segundo os antigos, a doen\u00e7a era causada pelo pecado. Para libertar o homem, Jesus vai directo \u00e0 raiz: o{C} pecado {/}invis\u00edvel que causa os {C}males{/} externos e vis\u00edveis. A oposi\u00e7\u00e3o a Jesus come\u00e7a: os doutores da Lei s\u00f3 se preocupam com teorias religiosas e n\u00e3o em transformar a situa\u00e7\u00e3o do homem. A ac\u00e7\u00e3o de Jesus \u00e9 completa. \u00c9 um dizer e fazer que cura por dentro e por fora, fazendo com que o homem reconquiste a capacidade de caminhar por si.

{N}2,{/}13: (13-17) Os cobradores de impostos eram desprezados e marginalizados porque colaboravam com a domina\u00e7\u00e3o romana, cobrando impostos e, em geral, aproveitando para roubar. Jesus rompe os esquemas sociais que dividem os homens em bons e maus, puros e impuros. Chamando um cobrador de impostos para ser seu disc\u00edpulo e comendo com os pecadores, Jesus mostra que a sua miss\u00e3o \u00e9 reunir e salvar aqueles que a sociedade hip\u00f3crita rejeita como maus.

{N}2,{/}18: (18-22) O jejum caracterizava o tempo de espera. Mas esse tempo j\u00e1 terminou. Chegou a hora da festa do casamento, isto \u00e9, da nova e alegre rela\u00e7\u00e3o entre Deus e os homens. A actividade de Jesus mostra que o amor de Deus vem para salvar o homem concreto e n\u00e3o para manter as estruturas que sugam o homem. A novidade rompe estas estruturas simbolizadas pela roupa e barris velhos. Jesus n\u00e3o veio para reformar; Ele exige mudan\u00e7a radical.

{N}2,{/}23: (23-28) O centro da obra de Deus \u00e9 o homem, e prestar culto a Deus \u00e9 fazer o bem ao homem. N\u00e3o se trata de estreitar ou alargar a lei do s\u00e1bado, mas de dar um sentido totalmente novo a todas as estruturas e leis que regem as rela\u00e7\u00f5es entre os homens. Porque s\u00f3 \u00e9 bom aquilo que faz o homem crescer e ter mais vida. Toda a lei que oprime o homem \u00e9 lei contra a pr\u00f3pria vontade de Deus, e deve ser abolida.

{N}3,{/}1: (1-6) Jesus mostra que a lei do s\u00e1bado deve ser interpretada como liberta\u00e7\u00e3o e vida para o homem. Ao mesmo tempo, partidos que eram inimigos entre si re\u00fanem-se para planear a morte deste profeta: afinal, Ele est\u00e1 a destruir a ideia de religi\u00e3o e sociedade que eles tinham.

{N}3,{/}7: (7-12) Jesus retira-Se mas atrai a multid\u00e3o de todos os lugares. Ele acolhe o povo, mas tamb\u00e9m Se distancia. O projecto de Jesus n\u00e3o pode ser dificultado por um assistencialismo que s\u00f3 atende \u00e0s necessidades imediatas. \u00c9 preciso destruir pela raiz as estruturas injustas; estas \u00e9 que produzem toda a esp\u00e9cie de necessidades na vida do povo.

{N}3,{/}13: (13-19) Dentre a multid\u00e3o e os disc\u00edpulos Jesus escolhe doze. Um pequeno grupo que ser\u00e1 o come\u00e7o de um novo povo. A miss\u00e3o deste grupo compreende tr\u00eas atitudes: comprometer-se com Jesus (estar com Ele) para anunciar o Reino (pregar), libertando os homens de tudo aquilo que os escraviza e aliena (expulsar os dem\u00f3nios).

{N}3,{/}20: (20-30) Em Jesus est\u00e1 presente o Esp\u00edrito Santo, que O leva \u00e0 miss\u00e3o de libertar e desalienar os homens. Por isso Ele \u00e9 acusado de estar \u00abpossu\u00eddo por um esp\u00edrito mau\u00bb. Tal acusa\u00e7\u00e3o \u00e9 pecado sem perd\u00e3o. Para os acusadores, o bem \u00e9 mal e o mal \u00e9 bem. Eles, na verdade, est\u00e3o comprometidos com o mal e tiram proveito dele; por isso, n\u00e3o reconhecem e n\u00e3o aceitam Jesus.

{N}3,{/}31: (31-35) Enquanto a fam\u00edlia segundo a carne est\u00e1 \u00abfora\u00bb, a fam\u00edlia segundo o compromisso da f\u00e9 est\u00e1 \u00abdentro\u00bb, ao redor de Jesus. A sua verdadeira fam\u00edlia \u00e9 formada por aqueles que realizam na pr\u00f3pria vida a vontade de Deus, que consiste em continuar a miss\u00e3o de Jesus.

{N}4,{/}1: (1-9) Apesar de todos os obst\u00e1culos, o semeador realiza o seu trabalho, confiando na colheita que vai ter. Jesus tamb\u00e9m: apesar de todas as reac\u00e7\u00f5es, obst\u00e1culos e incompreens\u00f5es, a sua miss\u00e3o chegar\u00e1 ao fim e ser\u00e1 bem sucedida.

{N}4,{/}10: (10-12) As par\u00e1bolas s\u00e3o hist\u00f3rias que ajudam a ler e compreender toda a miss\u00e3o de Jesus. Mas \u00e9 preciso \u00abestar dentro\u00bb, isto \u00e9, seguir Jesus, para perceber que o Reino de Deus se est\u00e1 a aproximar atrav\u00e9s da sua ac\u00e7\u00e3o. Os que n\u00e3o seguem Jesus ficam \u00abfora\u00bb, e nada podem compreender.

{N}4,{/}13: (13-20) A explica\u00e7\u00e3o da par\u00e1bola localiza os v\u00e1rios terrenos, mostrando o efeito que a miss\u00e3o de Jesus (contada pela palavra do Evangelho) tem sobre os ouvintes ou leitores. Cada pessoa v\u00ea e entende a partir do lugar que ocupa na sociedade e das dificuldades que encontra para se comprometer com Jesus e para continuar a sua ac\u00e7\u00e3o.

{N}4,{/}21: (21-25) A liberta\u00e7\u00e3o iniciada por Jesus n\u00e3o \u00e9 para ser abafada ou ficar escondida, mas para se tornar conhecida e contagiar a todos. Quem acolhe a Boa Not\u00edcia, aprende a ver e agir de acordo com a vis\u00e3o e a ac\u00e7\u00e3o de Jesus. E a compreens\u00e3o vai aumentando \u00e0 medida que se age. Quem n\u00e3o age, perde at\u00e9 mesmo a pouca compreens\u00e3o que j\u00e1 tem.

{N}4,{/}26: (26-29) A miss\u00e3o de Jesus \u00e9 portadora do Reino de Deus e da transforma\u00e7\u00e3o que provoca. Uma vez iniciada, a ac\u00e7\u00e3o de Jesus cresce e produz fruto de maneira imprevis\u00edvel e irresist\u00edvel.

{N}4,{/}30: (30-34) Diante das estruturas e ac\u00e7\u00f5es deste mundo, a actividade de Jesus e daqueles que O seguem parece impotente e mesmo rid\u00edcula. Mas ela crescer\u00e1, at\u00e9 atingir o mundo inteiro.

{N}4,{/}35: (35-41) Jesus atravessa o mar com os disc\u00edpulos para a terra dos pag\u00e3os. O mar agitado \u00e9 s\u00edmbolo das na\u00e7\u00f5es pag\u00e3s que amea\u00e7am destruir a comunidade crist\u00e3. Mas Jesus \u00e9 o Senhor da Hist\u00f3ria e dos povos. O medo dos disc\u00edpulos \u00e9 sinal da falta de f\u00e9: eles n\u00e3o conseguem ver que a ac\u00e7\u00e3o de Jesus transforma as situa\u00e7\u00f5es.

{N}5,{/}1: (1-20) A atitude dos que pedem para Jesus Se ir embora \u00e9 a mesma de uma sociedade que valoriza mais a posse dos bens do que a liberta\u00e7\u00e3o dos alienados e escravizados. Em primeiro lugar, Deus quer que o homem viva. A sociedade que p\u00f5e qualquer coisa acima da vida humana \u00e9 uma sociedade que rejeita Jesus.

{N}5,{/}21: (21-43) Toda a mulher menstruada ou que sofresse de corrimento de sangue era considerada impura (Lv 15,19.25), e impuros ficavam tamb\u00e9m os que fossem tocados por ela. A f\u00e9 em Jesus faz que essa mulher viole a Lei e seja curada. A miss\u00e3o de Jesus \u00e9 restaurar os homens na vida total: n\u00e3o s\u00f3 libert\u00e1-los da doen\u00e7a que os diminui e exclui do conv\u00edvio social, mas tamb\u00e9m salv\u00e1-los da morte, que os exclui da vida antes do tempo.

{N}6,{/}1: (1-6) Os conterr\u00e2neos de Jesus escandalizam-se: n\u00e3o querem admitir que algu\u00e9m como eles possa ter sabedoria superior \u00e0 dos profissionais e realize ac\u00e7\u00f5es que indiquem uma presen\u00e7a de Deus. Para eles, o empecilho para a f\u00e9 \u00e9 a encarna\u00e7\u00e3o: Deus feito homem, situado num contexto social.

{N}6,{/}7: (7-13) Os disc\u00edpulos s\u00e3o enviados para continuarem a miss\u00e3o de Jesus: pedir mudan\u00e7a radical da orienta\u00e7\u00e3o de vida (convers\u00e3o), desalienar as pessoas (libertar dos dem\u00f3nios), restaurar a vida humana (curas). Os disc\u00edpulos devem estar livres, ter bom senso e estar conscientes de que a miss\u00e3o vai chocar com os que n\u00e3o querem transforma\u00e7\u00f5es.

{N}6,{/}14: (14-29) A narra\u00e7\u00e3o da morte de Jo\u00e3o Baptista apresenta o destino de Jesus e dos que O seguem. A morte de Jo\u00e3o acontece dentro de um banquete de poderosos. Assim, o profeta que pregava o in\u00edcio de uma transforma\u00e7\u00e3o radical \u00e9 morto por aqueles que se sentem incomodados com essa transforma\u00e7\u00e3o.

{N}6,{/}30: (30-44) Enquanto Herodes celebra o banquete da morte com os grandes, Jesus celebra o banquete da vida com o povo simples. Marcos n\u00e3o diz o que Jesus ensina, mas o grande ensinamento de toda a cena est\u00e1 no facto de que n\u00e3o \u00e9 preciso muito {C}dinheiro{/} para {C}comprar{/} comida para o povo. \u00c9 preciso simplesmente {C}dar{/} e {C}repartir{/} entre todos o pouco que cada um possui. Jesus projecta uma nova sociedade, onde o com\u00e9rcio \u00e9 substitu\u00eddo pela oferta, e a posse pela partilha. Mas, para que isso realmente aconte\u00e7a, \u00e9 preciso organizar o povo. Dando e repartindo, todos ficam satisfeitos, e ainda sobra muita coisa.

{N}6,{/}45: (45-56) O epis\u00f3dio mostra o verdadeiro Deus a ser revelado em Jesus (\u00abEu Sou\u00bb - cf. Ex 3,14). Os disc\u00edpulos n\u00e3o conseguem ver a presen\u00e7a de Deus em Jesus, porque n\u00e3o entenderam o acontecimento dos p\u00e3es. Para quem n\u00e3o entende que o com\u00e9rcio e a posse devem ser substitu\u00eddos pela oferta e pela partilha, Jesus torna-Se fantasma ou apenas fazedor de milagres que provoca medo, e n\u00e3o a presen\u00e7a do Deus verdadeiro.

{N}7,{/}1: (1-13) Jesus desmascara o que est\u00e1 por detr\u00e1s de certas pr\u00e1ticas apresentadas como religiosas. E toma um exemplo concreto referente ao quarto mandamento.{C} Corb\u00e3{/} era o voto pelo qual uma pessoa consagrava a Deus os pr\u00f3prios bens, tornando-os intoc\u00e1veis e reservados ao tesouro do Templo. Aparentemente Deus era louvado, mas na realidade os pais ficavam privados do sustento necess\u00e1rio, enquanto o Templo e os sacerdotes ficavam ainda mais ricos.

{N}7,{/}14: (14-23) O que vem de fora n\u00e3o torna o homem pecador, mas sim o que sai do cora\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, da consci\u00eancia humana, que cria os projectos e d\u00e1 uma direc\u00e7\u00e3o \u00e0s coisas. Jesus anuncia uma nova forma de moralidade, onde os homens podem relacionar-se entre si na liberdade e na justi\u00e7a. Com isto, aboliu a lei sobre a pureza e impureza (Lv 11), cuja interpreta\u00e7\u00e3o era o fundamento de uma sociedade injusta, baseada em tabus que criavam e solidificavam diferen\u00e7as entre as pessoas, gerando privilegiados e marginalizados, opressores e oprimidos.

{N}7,{/}24: (24-30) A salva\u00e7\u00e3o trazida por Jesus n\u00e3o \u00e9 privil\u00e9gio de um povo determinado, mas \u00e9 para todos os que acreditam n'Ele e na sua miss\u00e3o, mesmo que sejam considerados como c\u00e3es, isto \u00e9, estrangeiros. N\u00e3o s\u00e3o a ra\u00e7a e o sangue que unem as pessoas a Deus, mas a f\u00e9 em Jesus e no mundo novo e transformado que Ele desperta.

{N}7,{/}31: (31-37) A miss\u00e3o de Jesus inicia uma nova Cria\u00e7\u00e3o (Gn 1,31). Para isso Ele abre os ouvidos e a boca dos homens, para que sejam capazes de ouvir e falar, isto \u00e9, discernir a realidade e dizer a palavra que a transforma.

{N}8,{/}1: (1-9) A cena \u00e9 uma outra vers\u00e3o do mesmo facto j\u00e1 apresentado em 6,30-44. Agora, por\u00e9m, o banquete \u00e9 realizado em territ\u00f3rio pag\u00e3o: o convite para formar uma nova sociedade \u00e9 dirigido a todos, e n\u00e3o apenas a um grupo ou povo de privilegiados.

{N}8,{/}10: (10-13) Jesus aqui n\u00e3o d\u00e1 nenhuma prova de ser o Messias que veio de Deus e que realiza a vontade de Deus. Quem est\u00e1 disposto pode concluir isso, ao ver a pessoa e a actividade de Jesus. Pedir outra prova \u00e9 querer um messias triunfalista, que provoca admira\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o liberta.

{N}8,{/}14: (14-21) Os disc\u00edpulos preocupam-se por n\u00e3o terem acumulado p\u00e3o. Jesus chama-lhes a aten\u00e7\u00e3o para n\u00e3o ficarem presos a um sistema que visa acumular coisas para ter seguran\u00e7a (fermento dos fariseus e de Herodes). \u00c9 preciso confiar na partilha: tudo o que se reparte torna-se at\u00e9 mais do que suficiente.

{N}8,{/}22: (22-26) A cura em dois tempos \u00e9 um s\u00edmbolo do que acontece com os disc\u00edpulos. Eles acompanham Jesus e v\u00eaem tudo o que Ele faz, mas ainda n\u00e3o percebem que Jesus \u00e9 o Messias. S\u00f3 compreender\u00e3o claramente a partir da cena seguinte, onde Jesus come\u00e7a a revelar o seu destino (Mc 8,27-10,52).

{N}8,{/}27: (27-33) A pergunta de Jesus for\u00e7a os disc\u00edpulos a fazer uma revis\u00e3o de tudo o que Ele realizou no meio do povo. Este povo n\u00e3o entendeu quem \u00e9 Jesus. Os disc\u00edpulos, por\u00e9m, que acompanham e v\u00eaem tudo o que Jesus tem feito, reconhecem agora, atrav\u00e9s de Pedro, que Jesus \u00e9 o Messias. A ac\u00e7\u00e3o messi\u00e2nica de Jesus consiste em criar um mundo plenamente humano, onde tudo \u00e9 de todos e repartido entre todos. Este messianismo destr\u00f3i a estrutura de uma sociedade injusta, onde h\u00e1 ricos \u00e0 custa dos pobres, e poderosos \u00e0 custa dos fracos. Por isso, aquela sociedade vai matar Jesus, antes que Ele a destrua. Mas os disc\u00edpulos imaginam um messias glorioso e triunfante.

{N}8,{/}34: (34-38) A morte de cruz era reservada a criminosos e subversivos. Quem quer seguir a Jesus deve estar disposto a tornar-se marginalizado por uma sociedade injusta (perder a vida), e mais, a sofrer o mesmo destino de Jesus: morrer como subversivo (tomar a cruz).

{N}9,{/}1: (1-13) A vida e ac\u00e7\u00e3o de Jesus n\u00e3o terminam na sua morte. A transfigura\u00e7\u00e3o \u00e9 sinal da Ressurrei\u00e7\u00e3o: a sociedade n\u00e3o conseguir\u00e1 deter a pessoa e a actividade de Jesus, que ir\u00e3o continuar atrav\u00e9s dos seus disc\u00edpulos. A voz de Deus mostra que, daqui por diante, Jesus \u00e9 a \u00fanica autoridade. Todos os que ouvem o convite de Deus e seguem Jesus at\u00e9 ao fim, come\u00e7am desde j\u00e1 a participar na sua vit\u00f3ria final, quando ressuscitarem com Ele.

{N}9,{/}14: (14-29) Os disc\u00edpulos de Jesus s\u00f3 poder\u00e3o ajudar os homens a discernir a realidade (ouvir) e dizer a palavra transformadora (falar) se estiverem plenamente convictos de que Deus quer realizar uma sociedade justa. A ora\u00e7\u00e3o exprime a uni\u00e3o \u00edntima com Deus e com o seu plano, porque Deus pode desalienar o homem, vencendo o mal.

{N}9,{/}30: (30-37) Os disc\u00edpulos n\u00e3o compreendem as consequ\u00eancias que a ac\u00e7\u00e3o de Jesus vai provocar, pois ainda concebem uma sociedade onde existem diferen\u00e7as de grandeza. Quem \u00e9 o maior? Jesus mostra que a grandeza da nova sociedade n\u00e3o se baseia na riqueza e no poder, mas no servi\u00e7o sem pretens\u00f5es e interesses.

{N}9,{/}38: (38-41) Jesus n\u00e3o quer que o grupo daqueles que O seguem se torne uma seita fechada e monopolizadora da sua miss\u00e3o. Toda e qualquer ac\u00e7\u00e3o que desaliena o homem \u00e9 parte integrante da miss\u00e3o de Jesus.

{N}9,{/}42: (42-50) Pequeninos s\u00e3o os pobres e fracos que esperam confiantes uma sociedade fraterna e igualit\u00e1ria. Eles ficariam escandalizados se os seguidores de Jesus andassem \u00e0 busca de poder e formassem uma casta privilegiada. Isso seria trair a miss\u00e3o de Jesus, mal que deve ser cortado pela raiz.

{N}10,{/}1: (1-12) Jesus recusa ver o matrim\u00f3nio a partir de permiss\u00f5es ou restri\u00e7\u00f5es legalistas. Ele reconduz o matrim\u00f3nio ao seu sentido fundamental: alian\u00e7a de amor e, como tal, aben\u00e7oada por Deus e com voca\u00e7\u00e3o de eternidade. Diante deste princ\u00edpio fundamental, marido e mulher s\u00e3o igualmente respons\u00e1veis por uma uni\u00e3o que deve crescer sempre, e os dois equiparam-se quanto a direitos e deveres.

{N}10,{/}13: (13-16) Aqui a crian\u00e7a serve de exemplo n\u00e3o pela inoc\u00eancia ou pela perfei\u00e7\u00e3o moral. Ela \u00e9 o s\u00edmbolo do ser fraco, sem pretens\u00f5es sociais: \u00e9 simples, n\u00e3o tem poder nem ambi\u00e7\u00f5es. Principalmente na sociedade do tempo de Jesus, a crian\u00e7a n\u00e3o era valorizada, n\u00e3o tinha nenhum direito social. A crian\u00e7a \u00e9, portanto, o s\u00edmbolo do pobre marginalizado, que est\u00e1 vazio de si mesmo, pronto para receber o Reino.

{N}10,{/}17: (17-31) Para entrar no Reino (ou vida eterna) \u00e9 preciso mais do que observar leis ou regras. O Reino \u00e9 dom de Deus aos homens, e nele tudo deve ser partilhado entre todos. Isto significa repartir as riquezas em vista de uma igualdade, abolindo o sistema classicista. \u00c9 por isso que os ricos ficam tristes e dificilmente entram no Reino. E o que acontece quando se deixa tudo para seguir Jesus e continuar o seu projecto? Encontra-se uma nova sociedade, embora no meio de persegui\u00e7\u00f5es, e j\u00e1 se vive a certeza da plenitude que vir\u00e1.

{N}10,{/}32: (32-45) Jesus anuncia a sua morte como consequ\u00eancia de toda a sua vida. Entretanto, Tiago e Jo\u00e3o sonham com poder e honrarias, suscitando disc\u00f3rdia e competi\u00e7\u00e3o entre os outros disc\u00edpulos. Jesus mostra que a \u00fanica coisa importante para o disc\u00edpulo \u00e9 seguir o exemplo d'Ele: servir e n\u00e3o ser servido. Na nova sociedade que Jesus projecta, a autoridade n\u00e3o \u00e9 exerc\u00edcio de poder, mas a qualifica\u00e7\u00e3o para servi\u00e7o que se exprime na entrega de si mesmo para o bem comum.

{N}10,{/}46: (46-52) O \u00faltimo milagre de Jesus \u00e9 uma cura significativa. Ele n\u00e3o abre apenas os olhos do cego, mas tamb\u00e9m o cora\u00e7\u00e3o. E o cego curado reconhece Jesus como o Messias (filho de David). E, com mais coragem do que Pedro (8,32) e do que o homem rico (10,22), segue Jesus no caminho para a morte. Deste modo, Bartimeu torna-se o modelo do verdadeiro disc\u00edpulo.

{N}11,{/}1: (1-11) Jesus \u00e9 o Rei-Messias que vai confrontar-Se com o centro da sociedade judaica, simbolizada por Jerusal\u00e9m e pelo Templo, sede do poder econ\u00f3mico, pol\u00edtico, ideol\u00f3gico e religioso. Ele entra na cidade, n\u00e3o como rei guerreiro mas como simples homem, humilde e pac\u00edfico. Ele traz consigo a invers\u00e3o de um sistema de sociedade apoiado na viol\u00eancia da for\u00e7a militar, que defende os privilegiados. O povo aclama-O como Aquele que traz o reino da verdadeira justi\u00e7a.

{N}11,{/}12: (12-14) A figueira simboliza a sociedade que Jesus encontra. Tem folhas, mas n\u00e3o tem frutos; tem apar\u00eancia de vida, mas n\u00e3o alimenta o povo faminto.

{N}11,{/}15: (15-19) Acusando e atacando o com\u00e9rcio existente dentro do Templo, Jesus retira as bases sobre as quais se apoiava toda uma sociedade. Com efeito, era com esse com\u00e9rcio que se sustentava grande parte da economia do pa\u00eds. O gesto de Jesus mexe n\u00e3o s\u00f3 com um modo de vida religiosa, mas com toda uma estrutura que usa a religi\u00e3o para estabelecer e assegurar privil\u00e9gios de uma classe e sustentar uma vis\u00e3o mesquinha de salva\u00e7\u00e3o. Por isso, os favorecidos com este sistema pensam em matar Jesus, mas temem o povo.

{N}11,{/}20: (20-26) A figueira secou: a sociedade que n\u00e3o acolhe a ac\u00e7\u00e3o transformadora de Jesus morre sem dar frutos. Diante dela Jesus inicia uma comunidade que ser\u00e1 o novo templo: comprometida com Ele na f\u00e9 e na confian\u00e7a em Deus, a comunidade crist\u00e3 ser\u00e1 a semente de nova \u00e1rvore frut\u00edfera para os homens.

{N}11,{/}27: (27-33) As autoridades tentam montar uma armadilha para desacreditar a autoridade de Jesus diante do povo. Mas Jesus usa o mesmo truque: se as autoridades responderem, elas \u00e9 que ficar\u00e3o desacreditadas.

{N}12,{/}1: (1-12) Jesus passa ao ataque. A figueira n\u00e3o d\u00e1 frutos, e o Templo tornou-se lugar de roubo, porque as autoridades (sumos sacerdotes, doutores da Lei, anci\u00e3os do Sin\u00e9drio) exploram e oprimem, apoderando-se daquilo que pertence a Deus, isto \u00e9, o povo da alian\u00e7a (vinha). Depois de muitos profetas que pregavam a justi\u00e7a (empregados), Deus envia o pr\u00f3prio Filho com o Reino. A rejei\u00e7\u00e3o e morte do Filho trazem a senten\u00e7a: o povo de Deus, agora congregado em torno de Jesus (pedra), passa a outros chefes, que n\u00e3o devem tomar posse, mas servir.

{N}12,{/}13: (13-17) O imposto era o sinal da domina\u00e7\u00e3o romana; os fariseus rejeitavam-na, mas os partid\u00e1rios de Herodes aceitavam-na. Se Jesus responde \u00absim\u00bb, os fariseus desacredit\u00e1-l'O-\u00e3o diante do povo; se diz \u00abn\u00e3o\u00bb, os partid\u00e1rios de Herodes poder\u00e3o acus\u00e1-l'O de subvers\u00e3o. Mas Jesus n\u00e3o discute a quest\u00e3o do imposto. Ele s\u00f3 Se preocupa com o povo: a moeda \u00e9 \u00abde C\u00e9sar\u00bb, mas o povo \u00e9 \u00abde Deus\u00bb. O imposto s\u00f3 \u00e9 justo quando reverte em benef\u00edcio do bem comum. Jesus condena a transforma\u00e7\u00e3o do povo em mercadoria que enriquece e fortalece tanto a domina\u00e7\u00e3o interna como a estrangeira.

{N}12,{/}18: (18-27) Jesus desmoraliza os saduceus, apresentando o cerne das Escrituras: Deus \u00e9 o Deus comprometido com a vida. Ele n\u00e3o criou ningu\u00e9m para a morte, mas para a alian\u00e7a consigo para sempre. A vida da ressurrei\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser imaginada como c\u00f3pia do modo de vida deste mundo.

{N}12,{/}28: (28-34) Jesus resume a ess\u00eancia e o esp\u00edrito da vida humana num acto \u00fanico com duas faces insepar\u00e1veis: {C}amar a Deus com entrega total de si mesmo,{/} porque o Deus verdadeiro e absoluto \u00e9 um s\u00f3 e, entregando-se a Deus, o homem desabsolutiza-se a si mesmo, o pr\u00f3ximo e as coisas; {C}amar ao pr\u00f3ximo como a si mesmo,{/} isto \u00e9, a rela\u00e7\u00e3o num esp\u00edrito de fraternidade e n\u00e3o de opress\u00e3o ou de submiss\u00e3o. O dinamismo da vida \u00e9 o amor que tece as rela\u00e7\u00f5es entre os homens, levando-os aos encontros, confrontos e conflitos que geram uma sociedade cada vez mais justa e mais pr\u00f3xima do Reino de Deus.

{N}12,{/}35: (35-37) O t\u00edtulo \u00abfilho de David\u00bb indicava a origem e o projecto do Messias: o descendente iria refazer a fam\u00edlia real e a gl\u00f3ria do reino de David. Mas Jesus critica esta concep\u00e7\u00e3o do Messias. Ele est\u00e1 acima de David e n\u00e3o veio instaurar uma monarquia.

{N}12,{/}38: (38-40) Jesus critica os intelectuais da classe dominante que transformam o saber em poder, aproveitando-se da pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o para viverem ricamente \u00e0 custa das camadas mais pobres do povo. Disfar\u00e7ando tal explora\u00e7\u00e3o com ora\u00e7\u00f5es, isto \u00e9, com motivo religioso, tornam-se ainda mais culpados.

{N}12,{/}41: (41-44) Enquanto os doutores da Lei \u00abexploram as vi\u00favas e roubam as suas casas\u00bb, uma vi\u00fava pobre deposita no Tesouro do Templo \u00abtudo o que possu\u00eda para viver\u00bb. \u00c9 o \u00fanico facto positivo que Jesus v\u00ea em Jerusal\u00e9m. Por isso proclama solenemente esse gesto (\u00abEu vos garanto\u00bb), em contraposi\u00e7\u00e3o \u00e0 solenidade ostensiva dos ricos. Mostra, assim, o significado dessa oferta: as rela\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas que devem vigorar numa sociedade que cr\u00ea em Deus s\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es de doa\u00e7\u00e3o total, que abandonam as pr\u00f3prias seguran\u00e7as, e n\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es baseadas no sup\u00e9rfluo.

{N}13,{/}1: (1-8) Jesus anuncia a destrui\u00e7\u00e3o do Templo de Jerusal\u00e9m, que se deu no ano 70, e as batalhas que se verificaram entre os anos 66 e 70. O Templo era o s\u00edmbolo da rela\u00e7\u00e3o de Deus com o povo escolhido. Jesus salienta que o fim de uma institui\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa o fim do mundo, nem o fim da rela\u00e7\u00e3o entre Deus e os homens.

{N}13,{/}9: (9-13) A rela\u00e7\u00e3o entre Deus e os homens continua atrav\u00e9s dos disc\u00edpulos, que dever\u00e3o prosseguir a miss\u00e3o de Jesus pelo testemunho, anunciando a Boa Not\u00edcia a todas as na\u00e7\u00f5es. Contudo, assim como Jesus encontrou resist\u00eancia, tamb\u00e9m os disc\u00edpulos a encontrar\u00e3o: ser\u00e3o perseguidos, presos, torturados, julgados e at\u00e9 mesmo mortos por continuarem a ac\u00e7\u00e3o de Jesus. Mas os disc\u00edpulos n\u00e3o devem ficar preocupados com a pr\u00f3pria defesa. O importante \u00e9 a coragem de permanecer firmes at\u00e9 ao fim.

{N}13,{/}14: (14-23) Aqui retoma-se o que j\u00e1 foi dito em 13,1-8. A \u00ababomina\u00e7\u00e3o da desola\u00e7\u00e3o\u00bb indica a profana\u00e7\u00e3o do Templo pelos Romanos. O tempo de crise \u00e9 terr\u00edvel: os disc\u00edpulos devem estar atentos para n\u00e3o desanimar e n\u00e3o se deixar enganar por pessoas que apresentam falsos projectos de salva\u00e7\u00e3o.

{N}13,{/}24: (24-27) A queda de Jerusal\u00e9m manifesta e antecipa o julgamento com que Deus acompanha toda a Hist\u00f3ria, e que se consumar\u00e1 no fim dos tempos. O Filho do Homem \u00e9 Jesus que, pela sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o, testemunhadas pelos disc\u00edpulos, ir\u00e1 reunir todo o povo de Deus (cf. Dn 7,13-14).

{N}13,{/}28: (28-37) Somente agora Jesus responde \u00e0 pergunta dos disc\u00edpulos (v. 4). Mas, em vez de dizer \u00abquando\u00bb ou \u00abcomo\u00bb acontecer\u00e1 o fim, Ele indica apenas como o disc\u00edpulo se deve comportar na Hist\u00f3ria. A tarefa do disc\u00edpulo \u00e9 testemunhar sem desanimar, continuando a ac\u00e7\u00e3o de Jesus. A espera da plena manifesta\u00e7\u00e3o de Jesus e do mundo novo por Ele prometido impede, por um lado, que o disc\u00edpulo se instale na situa\u00e7\u00e3o presente; por outro, evita que o disc\u00edpulo desanime, caso ache que o projecto de Jesus \u00e9 dif\u00edcil, distante e invi\u00e1vel.

{N}14,{/}1: (1-11) A actividade de Jesus vai lev\u00e1-l'O \u00e0 morte. Entre a conspira\u00e7\u00e3o das autoridades e a decis\u00e3o que Judas toma de trair Jesus, temos o gesto significativo de uma mulher: reconhecendo o verdadeiro sentido da pessoa de Jesus, ela unge-O como Messias (un\u00e7\u00e3o na cabe\u00e7a) que vai morrer. O que ela faz \u00e9 mais importante do que dar esmola aos pobres: n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel realmente fazer-lhes bem sen\u00e3o dentro do projecto de Jesus. A aus\u00eancia f\u00edsica de Jesus ser\u00e1 depois ocupada pelos pobres, que se tornar\u00e3o sacramento da sua presen\u00e7a.

{N}14,{/}12: (12-21) A celebra\u00e7\u00e3o da P\u00e1scoa marcava a noite em que o povo de Deus foi libertado da escravid\u00e3o do Egipto. Jesus vai ser morto como o novo cordeiro pascal: a sua vida e morte s\u00e3o o in\u00edcio de um novo modo de vida, no qual n\u00e3o haver\u00e1 mais escravid\u00e3o do dinheiro e do poder.

{N}14,{/}22: (22-25) A ceia pascal de Jesus com os disc\u00edpulos recorda a multiplica\u00e7\u00e3o dos p\u00e3es. Ela substitui as cerim\u00f3nias do Templo e torna-se o centro vital da comunidade formada pelos que seguem a Jesus. O gesto e as palavras de Jesus n\u00e3o s\u00e3o apenas afirma\u00e7\u00e3o da sua presen\u00e7a sacramental no p\u00e3o e no vinho. Manifestam tamb\u00e9m o sentido profundo da sua vida e morte, isto \u00e9: Jesus viveu e morreu como dom gratuito, como entrega de Si mesmo aos outros, opondo-Se a uma sociedade em que as pessoas vivem para si mesmas e para os seus pr\u00f3prios interesses. Na aus\u00eancia de Jesus, os disc\u00edpulos s\u00e3o convidados a fazer o mesmo (\u00abtomai\u00bb): partilhar o p\u00e3o com os pobres e viver para os outros.

{N}14,{/}26: (26-31) Jesus sabe que vai ser tra\u00eddo por um disc\u00edpulo e abandonado pelos outros. Mostra assim a plena gratuidade do seu dom, sendo fiel aos disc\u00edpulos at\u00e9 ao fim: marca um novo encontro na Galileia (cf. 16,7). Ali Jesus reunir\u00e1 novamente os disc\u00edpulos para continuar a sua ac\u00e7\u00e3o.

{N}14,{/}32: (32-42) O que se passa no \u00edntimo de Jesus? Uma luta dram\u00e1tica, em que se confrontam a companhia e a solid\u00e3o, o medo e a serenidade, a coragem de continuar o projecto at\u00e9 ao fim e a vontade de desistir e fugir. A ora\u00e7\u00e3o \u00e9 a fonte que reanima o projecto de vida segundo a vontade do Pai; a vigil\u00e2ncia impede que o homem se torne inconsciente diante das situa\u00e7\u00f5es.

{N}14,{/}43: (43-52) Um dos disc\u00edpulos alia-se ao poder repressivo das autoridades e trai Jesus com um gesto de amizade. Um dos presentes tenta defender Jesus com as mesmas armas dos opressores. Por fim, todos fogem e Jesus fica sozinho e \u00e9 preso. Aquele que realiza o projecto de Deus e atrai o povo \u00e9 considerado pelos poderosos com um bandido perigoso. Mas eles n\u00e3o t\u00eam coragem de O prender \u00e0 luz do dia.

{N}14,{/}53: (53-65) Para as autoridades, Jesus \u00e9 r\u00e9u, e elas j\u00e1 tinham decretado a sua morte. Agora, montam um processo teatral e falso para justificar tal decreto. Jesus n\u00e3o Se defende, porque as acusa\u00e7\u00f5es realmente n\u00e3o O culpam de nada. No projecto de Deus, as coisas invertem-se: este homem, condenado por uma sociedade injusta, \u00e9 o Messias, o Filho de Deus, que inaugura a sociedade justa do Reino de Deus. Por isso, de r\u00e9u passa a ser juiz (o Filho do Homem: cf. Dn 7,13), que condena o sistema causador da sua morte. As duas for\u00e7as que se chocam s\u00e3o inconcili\u00e1veis e o rompimento \u00e9 inevit\u00e1vel (rasgar as vestes).

{N}14,{/}66: (66-72) Enquanto Jesus fala corajosamente diante das autoridades, Pedro n\u00e3o \u00e9 capaz de vigiar e cai na tenta\u00e7\u00e3o de abandonar o seguimento de Jesus, negando-O covardemente diante de pessoas simples.

{N}15,{/}1: (1-15) Sob a domina\u00e7\u00e3o romana, o Sin\u00e9drio podia condenar \u00e0 morte, mas n\u00e3o podia executar a senten\u00e7a. Por isso, Jesus \u00e9 entregue ao governador romano, sob a falsa acusa\u00e7\u00e3o de ser um pol\u00edtico subversivo que pretende retomar o reino judaico contra a domina\u00e7\u00e3o romana. O processo diante de Pilatos \u00e9 tamb\u00e9m uma grande farsa dominada pelos interesses de ambas as autoridades.
Jesus ou Barrab\u00e1s? Pilatos prefere Jesus, porque n\u00e3o O v\u00ea como perigo para a autoridade romana; al\u00e9m disso, desconhece o alcance do projecto de Jesus. As autoridades dos judeus sabem muito bem que Jesus \u00e9 mais perigoso para a estrutura interna do pa\u00eds do que Barrab\u00e1s (zelota). A multid\u00e3o fica do lado das suas autoridades, porque depende delas e porque agora est\u00e3o a enfrentar a autoridade estrangeira. Pressionado, Pilatos defende o seu prest\u00edgio e entrega Jesus \u00e0 multid\u00e3o. Barrab\u00e1s torna-se uma pe\u00e7a no jogo de interesses entre as duas autoridades; Jesus n\u00e3o participa na farsa e \u00e9 condenado. Se Ele fosse solto negaria todo o seu projecto.

{N}15,{/}16: (16-20) Os soldados revestem Jesus com todos os sinais do poder (p\u00farpura, coroa, adora\u00e7\u00e3o). Mas, somente despojado desse poder (\u00abvestiram-n'O de novo com as pr\u00f3prias vestes\u00bb) e fora do sistema defendido por esse poder (\u00abe levaram-n'O para fora\u00bb), \u00e9 que o Rei poder\u00e1 dar a pr\u00f3pria vida para salvar o seu povo.

{N}15,{/}21: (21-32) Jesus est\u00e1 completamente s\u00f3. O seu corpo poderoso \u00e9 reduzido \u00e0 fraqueza extrema. Contudo, Ele permanece at\u00e9 ao fim consciente da sua entrega e recusa a bebida entorpecente. A inscri\u00e7\u00e3o, com o motivo da senten\u00e7a, inaugura na Hist\u00f3ria o tempo da realeza que n\u00e3o oprime, mas que d\u00e1 a pr\u00f3pria vida. As zombarias revelam a verdadeira identidade de Jesus: Ele \u00e9 o novo Templo e o Messias-Rei que n\u00e3o age em vista dos seus interesses.

{N}15,{/}33: (33-41) No \u00e1pice do abandono, as situa\u00e7\u00f5es invertem-se imediatamente. A cortina do Templo, s\u00edmbolo de um sistema econ\u00f3mico-pol\u00edtico-religioso, rasga-se: \u00e9 a ruptura total entre o projecto de Jesus e a estrutura dos projectos deste mundo. A exclama\u00e7\u00e3o do oficial romano marca tamb\u00e9m outra ruptura: os pag\u00e3os que adoram os poderosos deste mundo come\u00e7am a reconhecer que Jesus \u00e9 o Filho de Deus. No momento do aparente fracasso total, o Evangelho de Marcos atinge o seu ponto culminante, desvendando definitivamente a identidade de Jesus. As mulheres que acompanharam Jesus desde a Galileia j\u00e1 podem voltar, pois o servi\u00e7o a Jesus vai continuar.

{N}15,{/}42: (42-47) Jesus morre e o seu corpo \u00e9 encerrado num t\u00famulo. Aparentemente, a hist\u00f3ria acabou e o sistema que condenou Jesus pode ficar tranquilo. Mas as mulheres est\u00e3o ali, \u00e0 espera: alguma coisa vai acontecer...

{N}16,{/}1: (1-8) Estes vers\u00edculos s\u00e3o o final primitivo do Evangelho de Marcos. O t\u00famulo vazio \u00e9 o sinal de que a ac\u00e7\u00e3o de Deus em Jesus n\u00e3o termina ali, na morte e no medo. Jesus de Nazar\u00e9 ressuscitou e vai estar de novo no lugar onde havia come\u00e7ado a sua actividade: na Galileia (1,14). Os disc\u00edpulos s\u00f3 poder\u00e3o encontrar-se de novo com Jesus se continuarem o projecto por Ele iniciado. Jesus ressuscitado n\u00e3o \u00e9 apenas um corpo redivivo mas uma presen\u00e7a cont\u00ednua entre aqueles que continuam o seu caminho. O Evangelho de Marcos \u00e9 somente o {C}come\u00e7o{/} (1,1), a introdu\u00e7\u00e3o de um livro muito maior, que dever\u00e1 narrar a Boa Not\u00edcia de Jesus, o Messias, o Filho de Deus, atrav\u00e9s dos seus disc\u00edpulos em todos os tempos e lugares.

{N}16,{/}9: (9-20) Este trecho difere muito do livro at\u00e9 aqui; por isso \u00e9 considerado obra de outro autor. Os crist\u00e3os da primeira gera\u00e7\u00e3o provavelmente quiseram completar o livro de Marcos com um resumo das apari\u00e7\u00f5es de Jesus e uma apresenta\u00e7\u00e3o global da miss\u00e3o da Igreja. Parece que se inspiraram no \u00faltimo cap\u00edtulo de Mateus (28,18-20), em Lucas (24,10-53), em Jo\u00e3o (20,11-23) e no in\u00edcio do livro dos Actos dos Ap\u00f3stolos (1,4-14).
Embora seja acr\u00e9scimo de retalhos tomados de outros escritos do Novo Testamento, o trecho conserva o pensamento de Marcos, isto \u00e9: os disc\u00edpulos devem continuar a ac\u00e7\u00e3o de Jesus.

