{N}1,{/}1: (1a-1l) O sonho de Mardoqueu resume tudo o que se vai narrar no livro: mergulhado em conflito amea\u00e7ador, o povo justo clama a Deus, e Este responde, fazendo justi\u00e7a e libertando o seu povo.
{N}1,{/}1m-1r: O conflito come\u00e7a no pal\u00e1cio do rei, entre Mardoqueu e Am\u00e3. Ao que tudo indica, Am\u00e3 estava do lado dos conspiradores. A recompensa contradiz 6,1-3.
{N}1,{/}1-8: Os banquetes s\u00e3o armas nas m\u00e3os dos poderosos. O primeiro (vv. 3-4) serve para fazer ostenta\u00e7\u00e3o do poder e manter a subservi\u00eancia dos oficiais e colaboradores. O segundo (vv. 5-8) oferece aos habitantes de Susa uma semana de festa e abund\u00e2ncia, talvez para esconder outras necessidades.

{N}1,{/}9: (9-22) Vasti \u00abagiu mal\u00bb, n\u00e3o s\u00f3 por desobedecer \u00e0 ordem do rei, mas por criar o princ\u00edpio de viola\u00e7\u00e3o da autoridade. O seu comportamento poder\u00e1 ser imitado em todos os escal\u00f5es e abalar a ordem vigente. Trata-se de um problema estrutural: para o dominador, o desacato a qualquer autoridade \u00e9 amea\u00e7a que deve ser reprimida a qualquer custo, antes que a ferrugem corroa todo o metal.

{N}2,{/}1: (1-18) Naqueles tempos, ter muitas mulheres era sinal de poderio econ\u00f3mico e prest\u00edgio social. Ester \u00e9 \u00f3rf\u00e3 e vem do meio dos pobres e oprimidos, mas a sua beleza n\u00e3o tinha rival. O nome dela significa provavelmente \u00aba escondida\u00bb ou \u00abaquela que esconde\u00bb - talvez para indicar o Deus que Se esconde na ac\u00e7\u00e3o dos fracos. De facto, Ester penetra no mais \u00edntimo da corte e o final do v. 18 j\u00e1 anuncia a interven\u00e7\u00e3o libertadora, que ela vai realizar em favor de todo o seu povo.

{N}2,{/}19: (19-23) Outra vers\u00e3o do facto j\u00e1 narrado em 1,1m-1r (cf. nota). Aqui Mardoqueu avisa o rei atrav\u00e9s de Ester. N\u00e3o se fala nem de recompensa, nem de que Am\u00e3 estivesse do lado dos conspiradores. 

{N}3,{/}1: (1-6) Mardoqueu recusa dobrar os joelhos, porque \u00e9 {C}judeu{/} e Am\u00e3 \u00e9 {C}agagita,{/} quer dizer, descendente dos amalecitas. O povo amalecita guerreou contra Israel logo depois da sa\u00edda do Egipto, e tornou-se s\u00edmbolo do inimigo que procura impedir a marcha do povo para a liberdade (cf. notas em Ex 17,8-16 e Dt 25,17-10). Ex 17,16 diz que \u00abhaver\u00e1 guerra de Jav\u00e9 contra Amalec, de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o\u00bb. Essa guerra continua no livro de Ester: por tr\u00e1s de Mardoqueu est\u00e1 Jav\u00e9 e o povo de Israel, e por tr\u00e1s de Am\u00e3 est\u00e1 o povo amalecita e todos os inimigos da liberta\u00e7\u00e3o. O conflito inicia-se com a atitude de Mardoqueu: um conflito pessoal entre Am\u00e3 e Mardoqueu assume propor\u00e7\u00f5es de problema de Estado.

{N}3,{/}7: (7-11) Na P\u00e9rsia a sorte era lan\u00e7ada no primeiro m\u00eas, a fim de determinar os dias prop\u00edcios para as comemora\u00e7\u00f5es. No caso presente, tenta-se descobrir o melhor dia para destruir os judeus. O facto de cair a sorte no \u00faltimo m\u00eas mostra que esse mesmo ano \u00e9, de facto, um s\u00edmbolo da hist\u00f3ria toda, em que se decide a sorte do povo de Deus.
Quais as raz\u00f5es da trama? Espalhado pelas na\u00e7\u00f5es, o povo continua {C}separado,{/} tem identidade diferente dos outros povos. A diferen\u00e7a decisiva est\u00e1 na sua {C}Lei,{/} que procura orientar tudo de modo a produzir uma sociedade justa e fraterna, onde todos possam ter liberdade e vida (cf. Ex 19-23 e todo o livro do Deuteron\u00f3mio). A acusa\u00e7\u00e3o de Am\u00e3 revela uma tremenda injusti\u00e7a: um povo que n\u00e3o pense nem proceda como ele, n\u00e3o tem direito a existir... Sem inqu\u00e9ritos, nem testemunhas, nem julgamento. A grande soma de dinheiro \u00e9 para compensar a queda dos lucros, que acontecer\u00e1 com a extin\u00e7\u00e3o da m\u00e3o-de-obra.

{N}3,{/}12: (12-15) O decreto de exterm\u00ednio tem car\u00e1cter universal (todas as autoridades, escritas e l\u00ednguas): \u00e9 como se o mundo inteiro fosse convocado para acabar com o povo de Deus. A promulga\u00e7\u00e3o do decreto (13 de Nis\u00e3) cai na v\u00e9spera da P\u00e1scoa: o povo de Deus torna-se o cordeiro pascal. Ao mesmo tempo, essa data faz pensar na reviravolta libertadora que a celebra\u00e7\u00e3o da P\u00e1scoa marcou para sempre (cf. nota em Ex 12,1-14). Al\u00e9m disso, no dia 13 do m\u00eas de Adar tinha nascido Mois\u00e9s, o chefe da liberta\u00e7\u00e3o.
Comparado com os factos, o texto do decreto \u00e9 uma selva de contradi\u00e7\u00f5es, e apresenta-se como exemplo do modo arbitr\u00e1rio como os poderosos agem, sem examinar a veracidade das acusa\u00e7\u00f5es e at\u00e9 mesmo sem conhecer as v\u00edtimas, invocando, \u00e0 sua maneira, os valores da \u00abmodera\u00e7\u00e3o\u00bb, da \u00abordem\u00bb e da \u00abpaz\u00bb, para eliminar seres humanos.

{N}4,{/}1: (1-17) O povo oprimido e condenado entra num vaiv\u00e9m apressado de luto, sofrimento e comunica\u00e7\u00e3o. Ora, Deus ouve esse grito e prepara-Se para agir em ordem \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o (cf. notas em Ex 2,23-25; 3,7-10).
O massacre do povo exige {C}op\u00e7\u00e3o radical{/}: Mardoqueu veste-se de luto e vai solidarizar-se com os irm\u00e3os. Ester passa pelo dilema da autoridade e tem de escolher: ou continua rainha para dar prazer ao opressor, ou se torna rainha em favor do seu povo, nem que seja arriscando a vida.

{N}4,{/}17: (17a-17i) Acusado at\u00e9 \u00e0 morte, o condenado inocente descobre, no seu pr\u00f3prio grito de dor, a mais elevada consci\u00eancia a que a humanidade pode chegar: saber que Deus \u00e9 o supremo aliado e fonte da vida, que est\u00e1 acima de todos os sistemas humanos de poder. Na s\u00faplica est\u00e1 a for\u00e7a para resistir at\u00e9 ao fim, criando o princ\u00edpio que subverte radicalmente tudo o que se apresenta como absoluto e divino. 

{N}4,{/}17j: (17j-17z) Na sua s\u00faplica, Ester recorre ao argumento supremo: lembrar ao pr\u00f3prio Deus que foi Ele quem fez alian\u00e7a com o povo, agora em situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil. Desse modo, antes mesmo de atender \u00e0s necessidades humanas, h\u00e1 que salvaguardar a honra e o nome de Deus.

{N}5,{/}1: (1-14) O clamor e pesquisa dos atingidos chegam ao seu limite. As situa\u00e7\u00f5es est\u00e3o prestes a ser invertidas: atrav\u00e9s da fraqueza dos oprimidos (Ester), Deus come\u00e7a a agir para quebrar a for\u00e7a dos poderosos (Assuero) e derrotar o poder do inimigo (Am\u00e3). Enquanto isso, os oprimidos (Mardoqueu), mesmo amea\u00e7ados, n\u00e3o se dobram diante do opressor.

{N}6,{/}1: (1-14) O livro est\u00e1 a chegar ao ponto culminante, em que as situa\u00e7\u00f5es se invertem. A revis\u00e3o da Hist\u00f3ria traz sempre \u00e0 tona a justi\u00e7a e o trabalho dos oprimidos. Note-se que Am\u00e3 \u00e9 obrigado a fazer em honra de Mardoqueu o que nunca havia conseguido que Mardoqueu lhe fizesse. Deus \u00e9 capaz de inverter o sujeito da Hist\u00f3ria e, para tanto, conta com a persist\u00eancia dos justos.

{N}7,{/}1: (1-10) O pedido e desejo de Ester s\u00e3o os mesmos de todo o povo: a vida. No entanto, para que todos tenham vida \u00e9 preciso denunciar a perversidade do opressor, que vende o povo para ser {C}exterminado,{/}{C} morto{/} e {C}aniquilado{/}. A atitude de Ester \u00e9 exemplo ousado: arrisca a pr\u00f3pria vida para salvar a vida do povo. O vv. 9-10 s\u00e3o contundentes: o feiti\u00e7o virou-se contra o feiticeiro.

{N}8,{/}1: (1-17) Afastada a amea\u00e7a, o quadro da justi\u00e7a compreende castigos e novos reconhecimentos. Resta, depois, criar condi\u00e7\u00f5es para que semelhantes golpes n\u00e3o se repitam. N\u00e3o n\u00e3o basta substituir pessoas. \u00c9 necess\u00e1rio tamb\u00e9m abolir leis e criar outras dignas e apropriadas. Ent\u00e3o, todos poder\u00e3o dar largas \u00e0 luz, \u00e0 festa e ao triunfo.

{N}9,{/}1: (1-19a) Conforme o decreto (cf. 8,12s), o povo tem o direito de se defender, desarticulando os mecanismos que visavam destru\u00ed-lo. Quando procura realizar a justi\u00e7a, o povo torna-se temido. Ao mesmo tempo, a n\u00e3o realiza\u00e7\u00e3o de saques, mostra que a pr\u00e1tica da justi\u00e7a n\u00e3o pode ser pretexto para agir em proveito pessoal.

{N}9,{/}20: (20-32) A festa dos \u00abPurim\u00bb era provavelmente uma festa popular, talvez de origem estrangeira. Depois foi assumida pelo povo judaico, adquirindo ent\u00e3o significado libertador. Longe da sua origem provavelmente ass\u00edria, o Senhor reivindica, para a Hist\u00f3ria, o poder de decidir da sorte do seu povo.

{N}10,{/}1: (1-3l) O texto apresenta as ambiguidades do poder, realidade que se imp\u00f5e, ora pela for\u00e7a, ora pela estima e considera\u00e7\u00e3o. O sonho de Mardoqueu (1,1d-1l) agora \u00e9 desvendado: a \u00abpequena fonte\u00bb \u00e9 o primeiro passo na reestrutura\u00e7\u00e3o do poder, que acaba por se transformar em rio. Os drag\u00f5es em luta s\u00e3o, de um lado, os que defendem os seus pr\u00f3prios interesses, e do outro, os que defendem a causa do povo. As na\u00e7\u00f5es s\u00e3o os mecanismos de opress\u00e3o que devem ser extirpados. E o povo dos justos s\u00e3o os oprimidos sedentos de justi\u00e7a e vida. Dentro dessas ambiguidades do poder, a justi\u00e7a vence sempre, porque o pr\u00f3prio Deus est\u00e1 do lado de quem a busca.
O v. 3l mostra que uma c\u00f3pia do livro de Ester j\u00e1 tinha chegado \u00e0 comunidade judaica do Egipto em 114 a.C.

