{N}1,{/}1: (1-5) O livro de Rute abre-se com o drama dos pobres: for\u00e7ado pela carestia e fome, o casal tem que deixar a pr\u00f3pria terra, Bel\u00e9m, e emigrar para Moab, buscando maneiras de sobreviver. Mas o drama continua: a fam\u00edlia \u00e9 atingida pela desgra\u00e7a, e s\u00f3 restam tr\u00eas mulheres indefesas. 

{N}1,{/}6: (6-22) No auge da desgra\u00e7a e desiludida da terra para onde migrou, Noemi decide voltar para a terra natal. Isso \u00e9 um verdadeiro acto de f\u00e9, porque nada lhe d\u00e1 certeza ou garantia de \u00eaxito. Quem estar\u00e1 disposto a solidarizar-se com ela? A atitude de Rute \u00e9 o comportamento de todos aqueles que est\u00e3o dispostos a deixar as suas seguran\u00e7as para se comprometerem com outros, que nada mais t\u00eam, a n\u00e3o ser a esperan\u00e7a que nasce da f\u00e9.

{N}2,{/}1: (1-7) O respigo da colheita, comummente oferecido \u00e0s divindades, deve ser deixado para os pobres, porque no projecto de Jav\u00e9 os bens devem ser partilhados entre todos. As {C}sobras,{/} portanto, n\u00e3o devem ser acumuladas, mas distribu\u00eddas aos pobres (cf. notas em Dt 24,19-22; 26,12-15). O texto de Rute, por\u00e9m, deixa entender que o exerc\u00edcio desse direito podia ser ocasi\u00e3o de alegria ou de constrangimento.

{N}2,{/}8: (8-14) A solidariedade entre os pobres tem repercuss\u00f5es entre aqueles que est\u00e3o abertos para a justi\u00e7a: Booz disp\u00f5e-se \u00e0 fraternidade e partilha. Note-se que os vv. 11-12 salientam o modo como algu\u00e9m come\u00e7a a pertencer ao povo de Deus. Primeiro, Rute deixa as suas seguran\u00e7as, como fez Abra\u00e3o (Gn 12,1). Depois, ela compromete-se com os pobres e oprimidos, que Jav\u00e9 liberta (Ex 19,4).

{N}2,{/}15: (15-23) O v. 20 lembra que Booz tem o direito de resgate. Trata-se aqui do dever dele em socorrer o parente em situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil. O texto parece misturar dois costumes. Primeiro, o {C}resgate,{/} pelo qual o parente pr\u00f3ximo deve impedir a aliena\u00e7\u00e3o do patrim\u00f3nio da fam\u00edlia (4,4; cf. Lv 25,23-25). E, segundo, o {C}levirato,{/} que obriga o irm\u00e3o do falecido a desposar a vi\u00fava, a fim de perpetuar a descend\u00eancia e o nome do irm\u00e3o falecido (4,5; cf. Dt 25,5-10). Esse duplo costume mostra o seguinte: Deus quer que todos tenham e possam preservar o seu peda\u00e7o de ch\u00e3o, e participem da {C}Hist\u00f3ria,{/} preservando o nome de fam\u00edlia.

{N}3,{/}1: (1-8) O plano de Noemi mostra que n\u00e3o basta simplesmente ficar \u00e0 espera. Ao contr\u00e1rio, com bom senso, discernimento e coragem, urge planear o caminho que desag\u00fae no cumprimento do direito.

{N}3,{/}9: (9-18) O que Rute pede a Booz n\u00e3o \u00e9 um favor, mas um direito previsto na lei. As reivindica\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o dilig\u00eancias cujo resultado dependa do capricho alheio. Mas, em tudo h\u00e1 uma arte. Uma sociedade justa n\u00e3o surge atrav\u00e9s de mecanismos injustos e humilhantes (favoritismo, proteccionismo, \u00abuso da for\u00e7a\u00bb), mas atrav\u00e9s do confronto digno e corajoso, capaz de produzir a pr\u00e1tica da justi\u00e7a.

{N}4,{/}1: (1-8) Noemi vive a situa\u00e7\u00e3o dos pobres. Para terem o que comer, eles precisam de vender o seu pequeno patrim\u00f3nio. Deste modo, ficam sempre mais desenraizados. Para defender a situa\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia, o livro de Rute mistura duas leis: a do resgate e do levirato, ampliando o dever implicado nesta \u00faltima. Assim, n\u00e3o s\u00f3 o cunhado, mas tamb\u00e9m outros parentes t\u00eam obriga\u00e7\u00e3o de perpetuar o nome do fale-cido.

{N}4,{/}9: (9-12) Booz solidarizou-se de facto, e acompanhou at\u00e9 ao fim a caminhada de Noemi e Rute. Que ganhou ele com isso? Apenas o gosto da fraternidade e da justi\u00e7a, que se alegram com a liberta\u00e7\u00e3o dos outros. O nome Booz significa: \u00abFor\u00e7a-nele\u00bb. Ele \u00e9 a personifica\u00e7\u00e3o de todos aqueles que gratuitamente colocam a sua for\u00e7a e capacidade ao servi\u00e7o da esperan\u00e7a e da vida. Ao ver o gesto de Booz, o povo faz-lhe um grande elogio, porque desse gesto generoso nasce a esperan\u00e7a de uma sociedade que faz justi\u00e7a.

{N}4,{/}13: (13-17) Com o nascimento do menino, a situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 resgatada e renascem as esperan\u00e7as da fam\u00edlia e do povo. Obed significa {C}servo{/}. Colocando-o como antepassado do rei David, o livro de Rute espelha a esperan\u00e7a dos pobres: ter um rei ao servi\u00e7o da jus-ti\u00e7a.

{N}4,{/}18: (18-22) Estes vers\u00edculos finais foram acrescentados mais tarde, para destacar que uma estrangeira foi antepassada de David. O Evangelho conservar\u00e1 o nome de Rute como antepassada de Jesus (Mt 1,5). Desse modo, a hist\u00f3ria de Rute imp\u00f5e-se como casamento misto que resulta e como sugest\u00e3o universalista que abre a todos a salva\u00e7\u00e3o messi\u00e2nica.

