{N}1,{/}1: Na B\u00edblia, Salom\u00e3o \u00e9 o patrono da sabedoria. Da\u00ed a atribui\u00e7\u00e3o dos {C}Prov\u00e9rbios{/} a este descendente de David, com fama de governante talentoso e de criador de senten\u00e7as (cf. 1Rs 5,9-14; 10,1-23), sem excluir o m\u00e9rito de ter introduzido nos servi\u00e7os da corte israelita um grupo de escribas instru\u00eddos. A anota\u00e7\u00e3o n\u00e3o define propriamente o autor; indica sim a corrente liter\u00e1ria em que a obra se inscreve.

{N}1,{/}2: (2-7) Uma curta introdu\u00e7\u00e3o geral explica o conte\u00fado e justifica o t\u00edtulo da obra: um programa de educa\u00e7\u00e3o, baseado na experi\u00eancia humana e ensinado pelos mestres. O fundamento da sabedoria e do caminho para a adquirir \u00e9 o {C}temor de Jav\u00e9,{/} atitude filial e reverencial para com Deus, o Deus dos pais e da lei, sempre presente.

{N}1,{/}8: (8-19) O tratamento pai-filho \u00e9 comum nos livros sapienciais; indica a fam\u00edlia como primeiro enquadramento respons\u00e1vel pela transmiss\u00e3o da sabedoria, podendo depois designar o relacionamento entre o s\u00e1bio e seus disc\u00edpulos. A primeira instru\u00e7\u00e3o \u00e9 evitar as m\u00e1s companhias, que desviam do caminho da justi\u00e7a.
  1,8-9,18: Parece ser a sec\u00e7\u00e3o mais recente do livro, em que o tratamento dos temas conta com a consist\u00eancia da estrofe. \u00c9 uma esp\u00e9cie de introdu\u00e7\u00e3o alargada que valoriza e fornece a chave para a leitura desta obra. O pai exorta o filho a fugir das m\u00e1s companhias e da mulher-perigo, a guardar-se para a {C}Sabedoria{/} que, personalizada, toma a palavra em discurso directo e se dirige aos seus destinat\u00e1rios (1,20-33; 8,22-35).

{N}1,{/}20: (20-33) A Sabedoria, experi\u00eancia da vida, aqui personificada, tem voz pr\u00f3pria e clama, solene e alegre, convidando \u00e0 convers\u00e3o. Trata-se de mudar de vida, adquirindo esp\u00edrito cr\u00edtico e bom-senso. Isto \u00e9 tanto mais importante quanto a vida mostra que cada um tem de assumir as consequ\u00eancias da pr\u00f3pria escolha. Portanto, \u00e9 melhor tomar consci\u00eancia e mudar, antes que seja tarde de mais.

{N}2,{/}1: (1-22) Deus d\u00e1 sabedoria ao povo, fazendo-o discernir atrav\u00e9s da experi\u00eancia, a justi\u00e7a e o direito que o levam \u00e0 vida. A mulher estrangeira (v. 16) personifica a idolatria que produz insensatez e desvia o homem para o caminho da morte.

{N}3,{/}1: (1-12) Atitude fundamental para adquirir a sabedoria \u00e9 {C}temer a Jav\u00e9,{/} reconhecendo que a sabedoria vem d'Ele como dom, comunicado atrav\u00e9s da disciplina. Esta leva o homem a viver na alian\u00e7a com Deus. Dessa forma, o homem percebe que a sabedoria humana \u00e9 sempre limitada e, por isso, deve estar aberta \u00e0 sabedoria divina.

{N}3,{/}13: (13-20) A sabedoria \u00e9 o bem mais precioso, porque \u00e9 a pr\u00f3pria ci\u00eancia que vem de Deus. Ela \u00e9 a \u00e1rvore cujo fruto \u00e9 a vida.

{N}3,{/}21: (21-35) A tranquilidade e honradez dependem do bom senso e do discernimento, que testemunham a liga\u00e7\u00e3o com Jav\u00e9. Tudo isto gera uma pr\u00e1tica social de paz e confian\u00e7a, partilha e respeito.

{N}4,{/}1: (1-9) A sabedoria \u00e9 uma preciosa aprendizagem da experi\u00eancia transmitida de pai para filho. Cabe \u00e0 nova gera\u00e7\u00e3o assimil\u00e1-la e dar um passo em frente.

{N}4,{/}10: (10-27) N\u00e3o existe meio termo: ou seguimos o caminho da sabedoria, que leva \u00e0 justi\u00e7a e \u00e0 vida, ou ca\u00edmos na insensatez, que produz injusti\u00e7a e morte.

{N}5,{/}1: (1-14) A mulher ad\u00faltera ou estrangeira (cf. 2,16-17) era amea\u00e7a para os costumes e ocasi\u00e3o de desvios idol\u00e1tricos. A morte \u00e9 apresentada nesta sec\u00e7\u00e3o como resultado inevit\u00e1vel da pervers\u00e3o dos costumes (v. 5; 5,23; 7,22-27). O apelo \u00e9 claro; ningu\u00e9m poder\u00e1 dizer que n\u00e3o sabia (vv. 12-14).

{N}5,{/}15: (15-23) A mulher da juventude \u00e9 comparada \u00e0s fontes de frescura, t\u00e3o importantes em terras \u00e1ridas orientais: cisterna, po\u00e7o, fonte, nascente. As imagens tecem o elogio da mulher leg\u00edtima, perfil feminino acabado, talvez n\u00e3o alheio \u00e0 descri\u00e7\u00e3o da sabedoria personificada (cf. 31,10-34).

{N}6,{/}1: (1-5) Numa \u00e9poca em que os neg\u00f3cios eram celebrados com base na garantia da palavra, exigia-se a m\u00e1xima prud\u00eancia.
  6,1-19: Quatro conselhos tirados da experi\u00eancia, interrrompendo a sequ\u00eancia que continua em 6,20.

{N}6,{/}6: (6-11) A vida exige que a pessoa seja prudente, respons\u00e1vel e aplicada, sem precisar de ser vigiada ou conduzida.

{N}6,{/}12: (12-15) N\u00e3o adianta querer ganhar a vida usando a esperteza para enganar os outros. Cedo ou tarde, o jogo ser\u00e1 descoberto.

{N}6,{/}16: (16-19) A f\u00f3rmula proverbial x+1 (aqui 6+1) serve para ordenar uma s\u00e9rie de coisas, chamando a aten\u00e7\u00e3o para a \u00faltima, considerada a mais importante. Outros prov\u00e9rbios num\u00e9ricos em 30,15-31.

{N}6,{/}20: (20-35) O adult\u00e9rio \u00e9 pior que a prostitui\u00e7\u00e3o, porque a prostituta contenta-se com o pagamento, enquanto a ad\u00faltera exige o sacrif\u00edcio de toda uma vida. A severidade da B\u00edblia frente ao adult\u00e9rio n\u00e3o visa tanto a rela\u00e7\u00e3o sexual, mas sim a viola\u00e7\u00e3o do relacionamento familiar: a casada \u00e9 \u00abmulher de outrem\u00bb, perten\u00e7a do marido. Tamb\u00e9m poderia ser entendida como a mulher estrangeira de 5,1-14.

{N}7,{/}1: (1-27) Um apelo insistente \u00e0 fidelidade \u00e0s normas e ensinamentos dos mestres da sabedoria - uma nova lei inscrita nas t\u00e1buas do cora\u00e7\u00e3o (cf. 3,3; Dt 6,6-8) -, seguido de nova advert\u00eancia contra o adult\u00e9rio. A sedutora n\u00e3o \u00e9 prostituta profissional; tem marido e lar, mas toma ares de cortes\u00e3.

{N}8,{/}1: (1-11) Experi\u00eancia global da vida, aqui personificada, a Sabedoria clama nos lugares de ajuntamentos, qual profeta que convida a perceber a verdade. A\u00ed est\u00e1 o mais alto valor, que leva o povo a construir uma sociedade justa.

{N}8,{/}12: (12-21) A Sabedoria faz o seu pr\u00f3prio elogio e oferece a todos aquelas qualidades que Is 11,1-9 atribu\u00eda ao Rei-Messias. Embora em contexto real (v. 15), as vantagens da sabedoria s\u00e3o para todos os indiv\u00edduos e dispensam organiza\u00e7\u00f5es centrais. Isso vai acontecendo \u00e0 medida que o povo agu\u00e7a a capacidade de discernir o seu pr\u00f3prio caminho. Ver notas em Ap 21,1-22,5.

{N}8,{/}22: (22-36) \u00c9 o ponto mais alto da reflex\u00e3o dos s\u00e1bios. A Sabedoria \u00e9 a primeira criatura de Deus, uma esp\u00e9cie de arquitecto que O acompanhou e inspirou em toda a sua actividade criadora. Pode-se dizer, portanto, que ela \u00e9 o {C}sentido vital{/} que Deus imprimiu a toda a Cria\u00e7\u00e3o. Observando o mundo e a Hist\u00f3ria, a humanidade pode encontr\u00e1-la e tom\u00e1-la como guia para a realiza\u00e7\u00e3o da vida. Jo\u00e3o teve por certo presente este texto quando escreveu o pr\u00f3logo do seu evangelho (cf. Jo 1,1-5).

{N}9,{/}1: (1-6) A Dama Sabedoria tem casa posta e banquete preparado; envia emiss\u00e1rios para encher a sala de convidados; pretende fazer disc\u00edpulos. Assimilar a sabedoria \u00e9 como participar num banquete que restaura as for\u00e7as e estimula a caminhada.

{N}9,{/}7: (7-12) S\u00f3 quem permanece aberto para aprender \u00e9 capaz de assimilar a sabedoria e encontrar o caminho da realiza\u00e7\u00e3o. A pessoa tem a vida nas m\u00e3os: depois de compreender, est\u00e1 completamente livre para escolher o seu caminho. A vantagem ou desvantagem correm por sua pr\u00f3pria conta. E muito cuidado: N\u00e3o se deve atirar p\u00e9rolas aos porcos (Mt 7,6).

{N}9,{/}13: (13-18) A insensatez tamb\u00e9m faz o seu convite, que \u00e9 uma verdadeira caricatura daquilo que a sabedoria oferece. Tal como h\u00e1 {C}dois caminhos{/} - o do bem e o do mal -, tamb\u00e9m h\u00e1 dois banquetes que se oferecem aos humanos: a sabedoria e a loucura. Cabe-lhes escolher.

{N}10,{/}1: (10,1-15,33) Este pequeno tratado de moral social procura orientar as pessoas, relativamente aos problemas da conviv\u00eancia social. O tema importante \u00e9 a oposi\u00e7\u00e3o entre justo e injusto: o justo \u00e9 a pessoa aberta para as rela\u00e7\u00f5es com Deus, com o pr\u00f3ximo e consigo mesmo; o injusto \u00e9 a pessoa auto-suficiente e completamente fechada a essas rela\u00e7\u00f5es.
  10,1-22,16: A primeira colec\u00e7\u00e3o salomoniana re\u00fane 376 senten\u00e7as isoladas sobre a vida moral. Os prov\u00e9rbios aqui agrupados s\u00e3o muito antigos. Foram provavelmente compilados e editados no tempo do rei Josias, que organizou uma reforma pol\u00edtico-religiosa (cf. 2Rs 22-23). De facto, a motiva\u00e7\u00e3o religiosa do comportamento e a men\u00e7\u00e3o de Jav\u00e9 s\u00e3o mais patentes nesta sec\u00e7\u00e3o, talvez por influ\u00eancia do Deuteron\u00f3mio.

{N}16,{/}1: (16,1-22,16) Comp\u00eandio destinado sobretudo aos que desempenham cargos administrativos. Esp\u00e9cie de manual para a forma\u00e7\u00e3o dos altos funcion\u00e1rios. O tema principal \u00e9 o discernimento da justi\u00e7a nas rela\u00e7\u00f5es sociais.

{N}22,{/}17: (17-21) S\u00e3o trinta m\u00e1ximas que se inspiram na estrutura do texto eg\u00edpcio, adaptado \u00e0 perspectiva da religi\u00e3o javista. Formam as primeiras directivas para a classe governante.
  22,17-24,22: Esta colec\u00e7\u00e3o de \u00abpalavras dos S\u00e1bios\u00bb, inspira-se claramente no livro eg\u00edpcio conhecido por Sabedoria ou Ensinamentos de Amenemope que, por volta do ano 1000 a.C., j\u00e1 circulava pelo M\u00e9dio Oriente. O facto \u00e9 sinal da expans\u00e3o alargada das sabedorias orientais e mostra como a sabedoria em Israel, contrariamente \u00e0 lei, superou facilmente as fronteiras e atingiu par\u00e2metros universais. O conte\u00fado contempla a forma\u00e7\u00e3o de altos funcion\u00e1rios e diplomatas.

{N}22,{/}22: (22,22-24,22) Estas m\u00e1ximas d\u00e3o uma ideia dos problemas que j\u00e1 existiam na \u00e9poca. Apresentam o comportamento ideal do funcion\u00e1rio que desempenha bem as suas tarefas. Anote-se o not\u00e1vel perfil sarc\u00e1stico do \u00e9brio (23,29-35).

{N}24,{/}23: (23-34) \u00c9 um aditamento \u00e0 colec\u00e7\u00e3o anterior. Os vv. 28-29 j\u00e1 denotam a tentativa de superar a lei do tali\u00e3o: olho por olho (cf. Ex 21,23-25). Os vv. 30-34 desenham a sorte do pregui\u00e7oso.

{N}25,{/}1: (25-29) A segunda colec\u00e7\u00e3o atribu\u00edda a Salom\u00e3o agrupa 127 senten\u00e7as, em d\u00edsticos regulares, talvez as pe\u00e7as mais antigas do livro. Aos \u00abfuncion\u00e1rios de Ezequias\u00bb, isto \u00e9, aos escribas e funcion\u00e1rios do rei se devem a recolha e transcri\u00e7\u00e3o deste material, antes disperso ou apoiado apenas na tradi\u00e7\u00e3o oral. Assim se conservou parte do patrim\u00f3nio da experi\u00eancia, da consci\u00eancia e cultura do povo de Deus.

{N}25,{/}2: (25,2-27,27) Pequeno tratado de moral social, procurando orientar o comportamento do povo face aos problemas da conviv\u00eancia social. \u00c9 uma esp\u00e9cie de tratado de educa\u00e7\u00e3o moral e c\u00edvica.

{N}28,{/}1: (28,1-29,27) Outro comp\u00eandio destinado a quem desempenha cargos no governo. Uma esp\u00e9cie de manual para a forma\u00e7\u00e3o de altos funcion\u00e1rios.

{N}30,{/}1: (1-14) Breve colec\u00e7\u00e3o atribu\u00edda ao estrangeiro Agur. O homem simples admira-se com o mist\u00e9rio do Universo, e principalmente com a injusti\u00e7a social que massacra os pobres.

{N}30,{/}15: (15-33) Pequena colec\u00e7\u00e3o formada de prov\u00e9rbios, na sua maioria em estilo num\u00e9rico, assim chamado porque enumera certa quantidade de observa\u00e7\u00f5es, e acrescenta mais uma. O prop\u00f3sito \u00e9 chamar a aten\u00e7\u00e3o para a \u00faltima coisa. Cf. Am 1-2.

{N}31,{/}1: (1-9) Trecho de origem estrangeira, em forma de conselhos maternos, para que o filho saiba governar com justi\u00e7a. A sabedoria n\u00e3o conhece fronteiras nacionalistas.

{N}31,{/}10: (10-31) Mais do que elogio a uma determinada esposa ou \u00abmulher de car\u00e1cter\u00bb, o poema proclama a sabedoria personificada como esposa ideal, que encaminha o homem para a justi\u00e7a, honra, prosperidade e vida. \u00c9 a companheira ideal para todos, homens e mulheres. O poema apresenta estrutura alfab\u00e9tica, isto \u00e9, emprega, ao come\u00e7o de cada frase, as letras segundo a sua ordem no alfabeto hebraico, simbolizando a dimens\u00e3o total e acabada da realidade que trata. Comparar com o retrato da Sabedoria em 9,1-6.

