{N}1,{/}1: (1-5) Job \u00e9 o modelo do homem justo. Segundo a teologia da retribui\u00e7\u00e3o, Deus premeia-lhe a justi\u00e7a com a prosperidade: filhos, riquezas, harmonia familiar, rectid\u00e3o religiosa que toca o perfeccionismo do escr\u00fapulo. Em Job realiza-se, portanto, o ideal que toda a pessoa de f\u00e9 espera.
  1-2: A cena inicial faz lembrar um conto sobre um homem justo e santo, que \u00e9 posto \u00e0 prova e se mant\u00e9m fiel e, por fim, \u00e9 duplamente recompensado. Talvez comum na \u00e9poca, a hist\u00f3ria integra o nome de Job, \u00e9 relatada em prosa nos cap\u00edtulos 1-2, e suspende a conclus\u00e3o at\u00e9 42,7-17, para introduzir o longo debate de 3-41.

{N}1,{/}1: (6-12) A corte celeste, que decide os rumos da Hist\u00f3ria, re\u00fane-se \u00e0 maneira de uma corte oriental. Sat\u00e3, que significa advers\u00e1rio no tribunal, n\u00e3o \u00e9 aqui uma personifica\u00e7\u00e3o do mal, e sim uma esp\u00e9cie de investigador. A grande quest\u00e3o \u00e9 a seguinte: Existe a religi\u00e3o gratuita, independente de qualquer interesse? Se o homem perder tudo o que possui, continuar\u00e1 fiel a Deus?

{N}1,{/}13: (13-22) Em vagas encadeadas e progressivas, a desgra\u00e7a cai sobre Job que perde tudo: rebanhos, empregados, filhos e filhas. De rico e pr\u00f3spero, torna-se pobre e sem futuro. Todavia, permanece fiel, reconhecendo que Deus tem o direito de tirar tudo o que lhe havia dado. Em tal situa\u00e7\u00e3o, Job personifica todos os pobres do mundo, os quais, mesmo perdendo tudo ou nada possuindo, n\u00e3o se revoltam contra Deus. Haja sa\u00fade! - costumam dizer.

{N}2,{/}1: (1-7a) Mesmo empobrecido, o homem continua fiel a Deus. \u00abPele por pele\u00bb era um prov\u00e9rbio usado para caracterizar trocas de valores ou g\u00e9neros equivalentes. Sat\u00e3 insinua ironicamente que Job ainda se mant\u00e9m fiel a Deus por um interesse: conservar a integridade f\u00edsica. O que acontecer\u00e1, por\u00e9m, se o pobre for atingido no seu pr\u00f3prio corpo e perder a sa\u00fade?

{N}2,{/}7: (7b-10) Para os antigos, doen\u00e7as de pele eram sempre sinal de lepra, e o doente deveria afastar-se do conv\u00edvio social e familiar. Empobrecido, doente e marginalizado, Job \u00e9 o retrato da mis\u00e9ria humana. Tem sentido viver assim? A mulher aconselha-o a que apresse a morte, amaldi\u00e7oando a Deus. Job, por\u00e9m, continua fiel: Deus sabe o que faz.

{N}2,{/}11: (11-13) Os gestos realizados pelos tr\u00eas amigos s\u00e3o sinais de desespero e luto: a \u00fanica perspectiva \u00e9 a morte.

{N}3,{/}1: (1-10) Job n\u00e3o maldiz directamente a Deus, por\u00e9m amaldi\u00e7oa o dia em que nasceu e a noite em que foi concebido. Se a vida \u00e9 assim, para qu\u00ea foi gerado e nasceu um homem?
  3,1-42,6: Come\u00e7a o longo debate entre Job e os seus amigos, numa tentativa de compreender, \u00e0 luz da teologia da \u00e9poca, os motivos de tudo o que aconteceu a Job. Desaparece o \u00abpaciente Job\u00bb da lenda e do livro ap\u00f3crifo do mesmo nome. Em seu lugar, surge o Job questionador, a pessoa que luta com todas as for\u00e7as para conservar o \u00fanico bem que ainda lhe resta: a integridade de car\u00e1cter, a consci\u00eancia que tem da sua justi\u00e7a.
  3-31: Come\u00e7a aqui o di\u00e1logo em verso entre Job, seguro e revoltado, e os tr\u00eas amigos, Elifaz, Baldad e Sofar, apresentados como s\u00e1bios do Oriente que, no entanto, assumem a fun\u00e7\u00e3o de porta-vozes da doutrina vigente em Israel, procurando trazer o her\u00f3i sofredor \u00e0 raz\u00e3o. O di\u00e1logo prossegue sem pressa, em tr\u00eas ciclos de seis discursos cada, enquadrados por dois mon\u00f3logos de Job: 3 e 29-31.

{N}3,{/}11: (11-19) Se a vida \u00e9 assim, era melhor ter sido um aborto, ou ter morrido logo ao nascer. Isso evitaria que a pessoa sofresse e estaria no sossego incolor da morada dos mortos.

{N}3,{/}20: (20-26) Job raciocina: Quando n\u00e3o se tem nenhuma perspectiva, \u00e9 melhor morrer. Que pode o homem fazer, quando Deus n\u00e3o lhe abre nenhum caminho?

{N}4,{/}1: (1-11) Elifaz exp\u00f5e e defende o princ\u00edpio da retribui\u00e7\u00e3o, que \u00e9 o cerne da teologia da \u00e9poca e estar\u00e1 em debate ao longo de todo o livro. Conforme esse dogma, Deus recompensa o justo e castiga o injusto. Se Job \u00e9 justo, nada tem a temer.

{N}4,{/}12: (12-21) Recorrendo ao artif\u00edcio de uma vis\u00e3o reveladora, Elifaz discretamente garante a Job que \u00e9 imposs\u00edvel a um homem ter raz\u00e3o diante de Deus. Desta forma, antecipa o que Job mais adiante vai afirmar.

{N}5,{/}1: (1-7) Elifaz sugere que o homem \u00e9 o causador da sua pr\u00f3pria desgra\u00e7a.

{N}5,{/}8: (8-27) Elifaz aconselha Job a reconhecer o pr\u00f3prio sofrimento como correc\u00e7\u00e3o, sugerindo que entregue a sua causa a Deus, como fazem os fracos e pobres. Ent\u00e3o poder\u00e1 ter a certeza de que Deus o restabelecer\u00e1 na sua situa\u00e7\u00e3o antiga.

{N}6,{/}1: (1-7) Elifaz apresentou um belo discurso espiritual, mas te\u00f3rico. Diante disso, Job recoloca a pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o, mostrando que tem s\u00e9rios motivos para reclamar.

{N}6,{/}8: (8-13) Chegando ao limite da resist\u00eancia, Job deseja apenas que Deus o mate. Isso poup\u00e1-lo-ia ao suic\u00eddio ou \u00e0 revolta contra Deus.

{N}6,{/}14: (14-21) No desespero, Job lembra aos amigos que o dever fundamental da amizade \u00e9 solidarizar-se com quem sofre. Os amigos, por\u00e9m, desiludem-no, como rio tempor\u00e1rio que seca, frustrando a sede da caravana.

{N}6,{/}22: (22-30) Job est\u00e1 plenamente convencido da pr\u00f3pria inoc\u00eancia. Isso leva-o a sentir as palavras dos amigos como reprova\u00e7\u00e3o por um erro que n\u00e3o cometeu.

{N}7,{/}1: (1-5) A condi\u00e7\u00e3o do doente \u00e9 t\u00e3o dolorosa, que o tempo parece arrastar-se demasiado lentamente. Por tr\u00e1s da impaci\u00eancia esconde-se o anseio pela cura ou, se esta \u00e9 imposs\u00edvel, pela liberta\u00e7\u00e3o do sofrimento atrav\u00e9s da morte.

{N}7,{/}6: (6-16) A dor n\u00e3o s\u00f3 provoca a sensa\u00e7\u00e3o de que o tempo se arrasta, mas tamb\u00e9m faz descobrir que a vida \u00e9 extremamente curta e fr\u00e1gil. Job n\u00e3o \u00e9 nenhum monstro ou oceano que possa suportar tanta persegui\u00e7\u00e3o (v. 12): de dia, o sofrimento atroz; de noite, o terror dos pesadelos. No entanto, sabe que Deus o ama, e logo acrescenta: Se Deus continuar a tratar-me assim, quando me procurar n\u00e3o me encontrar\u00e1 mais (cf. v. 8).

{N}7,{/}17: (17-21) \u00c9 uma esp\u00e9cie de imita\u00e7\u00e3o ou pl\u00e1gio do salmo 8, mas em sentido inverso: enquanto o salmista se maravilha com os cuidados que Deus tem pelo homem, Job reclama da severa vigil\u00e2ncia com que Deus persegue o homem. No v. 21 reaparece a mesma argumenta\u00e7\u00e3o do v. 8: N\u00e3o ser\u00e1 melhor Deus perdoar? Caso contr\u00e1rio, quando o procurar, ser\u00e1 tarde de mais.

{N}8,{/}1: (1-7) Baldad recorre directamente ao dogma da retribui\u00e7\u00e3o: Deus \u00e9 justo e certamente est\u00e1 a castigar Job pelos crimes que os seus filhos cometeram. Aconselha Job a suplicar a Deus, que n\u00e3o tardaria em lhe conceder uma prosperidade ainda maior que a de antes. Desta forma, Baldad incorre numa vis\u00e3o comercial da religi\u00e3o, o que foi denunciado pelo pr\u00f3prio Sat\u00e3 (cf. notas em 1,6-12 e 2,1-7).

{N}8,{/}8: (8-22) Baldad recorre \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o dos antepassados, que \u00e9 fonte de sabedoria para a gera\u00e7\u00e3o presente. Segundo essa tradi\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m marcada pelo dogma da retribui\u00e7\u00e3o, os injustos s\u00e3o castigados e perecem definitivamente. Baldad insinua que Job est\u00e1 assim porque \u00e9 injusto, por se esquecer de Deus (v. 13).

{N}9,{/}1: (1-13) Job admite a justi\u00e7a de Deus, mas proclama que ela \u00e9 um mist\u00e9rio que parece encerrar algum arb\u00edtrio. Quem poder\u00e1 disputar com o Criador Todo-poderoso? Ele n\u00e3o somente cria, mas tamb\u00e9m modifica a sua Cria\u00e7\u00e3o, inclusive dominando as for\u00e7as do mal, que amea\u00e7am destru\u00ed-la. Al\u00e9m disso, Deus \u00e9 inating\u00edvel: embora pr\u00f3ximo do homem, escapa totalmente a uma percep\u00e7\u00e3o sens\u00edvel.

{N}9,{/}14: (14-24) Ao mesmo tempo que reconhece a justi\u00e7a divina, Job afirma tamb\u00e9m que Deus \u00e9 t\u00e3o arbitr\u00e1rio como poderoso. Tanto faz ser inocente ou culpado. A experi\u00eancia mostra que Deus trata a todos com igual arbitrariedade: v\u00ea injustos prosperar e justos cair na desgra\u00e7a.

{N}9,{/}25: (25-35) Embora sabendo-se inocente, Job est\u00e1 cansado de que Deus o trate como culpado. Estrategicamente, pensa em reconhecer-se culpado e pedir perd\u00e3o, mas duvida que Deus o absolva. Que fazer? Deus \u00e9 Deus, e o homem n\u00e3o \u00e9 Deus. Entre os dois h\u00e1 uma dist\u00e2ncia infinita. Job imagina a possibilidade de um \u00e1rbitro, que dirimisse a contenda imparcialmente.

{N}10,{/}1: (1-7) Deus \u00e9 justo e Job \u00e9 inocente. Apesar disso, Deus trata-o como culpado. Desta forma, Job mostra os limites do dogma da retribui\u00e7\u00e3o e salienta a necessidade de dar um passo em frente na teologia vigente que n\u00e3o abarca a vida nem favorece Deus.

{N}10,{/}8: (8-17) Como conjugar o amor do Deus justo, que Se desvela pela sua criatura, com o tratamento que inflige agora a Job? Longe do amor, Job experimenta um Deus que est\u00e1 {C}contra ele{/}.

{N}10,{/}18: (18-22) Perseguido por Deus, Job sente-se encurralado entre o extremo sofrimento e a morte. A vida \u00e9 curta, e o seu \u00fanico desejo \u00e9 que Deus o abandone, para que possa respirar, isto \u00e9, viver um pouco, at\u00e9 que a sombra da morte o alcance.

{N}11,{/}1: (1-12) Sofar declara que a sabedoria de Deus \u00e9 mais vasta do que tudo o que homem possa imaginar. Por isso, Deus \u00e9 capaz de ver culpas que o homem nem consegue perceber. Se Ele falasse, Job certamente teria que se reconhecer culpado. Esmagado e vazio (v. 12), n\u00e3o tem hip\u00f3tese de ju\u00edzo esclarecido.

{N}11,{/}13: (13-20) Sofar indica a Job a \u00fanica sa\u00edda, segundo o dogma da retribui\u00e7\u00e3o: reconhecer as pr\u00f3prias culpas, suplicar a Deus e converter-se. Ent\u00e3o Deus o recompensar\u00e1 com sa\u00fade e prosperidade renovadas.

{N}12,{/}1: (1-25) Insultado por Sofar, Job ironiza, mostrando que todos t\u00eam acesso \u00e0 experi\u00eancia humana e podem falar do seu testemunho. Contudo, de que vale o bom senso? Deus pode, repentinamente, confundir a sabedoria dos homens e deix\u00e1-los completamente desorientados.

{N}13,{/}1: (1-16) Job faz uma acusa\u00e7\u00e3o s\u00e9ria: a teologia dos seus amigos, pretendendo defender a Deus, acaba por condenar o homem que sofre. \u00c9 o grande perigo de qualquer teologia que pretenda dar a \u00faltima palavra sobre Deus e sobre o homem. A teologia torna-se, ent\u00e3o, idolatria e estorvo entre a f\u00e9 e a experi\u00eancia de Deus. Job exige que os porta-vozes da teologia oficial se calem. A concep\u00e7\u00e3o que se tem de Deus pode ser o maior empecilho para o encontro com o pr\u00f3prio Deus. Assim, correndo todos os riscos, Job quer confrontar-se directamente com Deus.

{N}13,{/}17: (17-27) Plenamente convencido da pr\u00f3pria inoc\u00eancia, Job come\u00e7a a discutir directamente com Deus. Antes, por\u00e9m, coloca duas condi\u00e7\u00f5es: que o alivie um pouco no sofrimento para que possa falar, e n\u00e3o use viol\u00eancia. A seguir, vai directo \u00e0 quest\u00e3o fundamental: que Deus lhe mostre os pecados que cometeu.

{N}13,{/}28: (13,28-14,12) Partindo do seu caso pessoal, Job faz uma considera\u00e7\u00e3o sobre a pequenez e fragilidade da vida humana. Sem nenhuma perspectiva de vida al\u00e9m da morte, o homem parece n\u00e3o ter esperan\u00e7a, estando portanto em pior situa\u00e7\u00e3o que as \u00e1rvores. Porque ser\u00e1 que Deus persegue os humanos, impedindo-os de usufru\u00edrem em paz a curta vida?

{N}14,{/}13: (13-22) Job faz uma proposta curiosa: ficar escondido no t\u00famulo, at\u00e9 que a ira de Deus passasse. Depois Deus sentiria saudade da sua criatura e iria busc\u00e1-la ao mundo dos mortos. Todavia, essa ideia de ressurrei\u00e7\u00e3o s\u00f3 tomar\u00e1 corpo muito mais tarde, no s\u00e9culo II a.C.

{N}15,{/}1: (1-16) Na sua segunda interven\u00e7\u00e3o, Elifaz acusa Job de esconder a pr\u00f3pria culpa atr\u00e1s de uma linguagem passional. Job pretende ser mais s\u00e1bio que a pr\u00f3pria tradi\u00e7\u00e3o dos antepassados, destruindo a religi\u00e3o que, atrav\u00e9s dos tempos, acumulou explica\u00e7\u00f5es para todos os acontecimentos. Assim, o caso particular de Job fica reduzido \u00e0 busca de causas ocultas, o que elimina tudo o que possa haver de novo na situa\u00e7\u00e3o.

{N}15,{/}17: (17-35) Recorrendo explicitamente a uma falta que Job estaria a esconder, Elifaz exp\u00f5e o destino do \u00edmpio, segundo o dogma da retribui\u00e7\u00e3o: o injusto vive intranquilo, e, cedo ou tarde, acaba sempre mal. Se Job sofre desgra\u00e7as, \u00e9 por ser injusto.

{N}16,{/}1: (1-6) Quando se est\u00e1 bem, \u00e9 f\u00e1cil dirigir palavras consoladoras a quem sofre... Mas isso implica desrespeitar e minimizar aquilo que \u00e9 importante para o outro ou, pior ainda, aumentar o sofrimento alheio. O importante \u00e9 a atitude de compaix\u00e3o: ser capaz de sofrer juntamente com a pessoa que sofre. S\u00f3 a solidariedade permite compreender a situa\u00e7\u00e3o do outro.

{N}16,{/}7: (7-14) Job sente-se atacado e julgado como num tribunal. Deus condena-o e entrega-o aos carrascos para que executem a senten\u00e7a.

{N}16,{/}15: (15-22) Sentindo-se esmagado pelo pr\u00f3prio Deus, Job pede que a terra n\u00e3o lhe beba o sangue, que \u00e9 vida, e n\u00e3o abafe o seu clamor pedindo justi\u00e7a. Os seus amigos n\u00e3o se solidarizaram, e Deus n\u00e3o comparece. Job ent\u00e3o afirma que a sua \u00fanica testemunha de defesa, provavelmente o seu pr\u00f3prio sangue e clamor, servir\u00e1 de mediador no debate. Volta aqui o mesmo tipo de intui\u00e7\u00e3o de 9,33: \u00e9 necess\u00e1rio um mediador vivo entre o homem e Deus.

{N}17,{/}1: (1-16) Empobrecido, doente, marginalizado, incompreendido pelos amigos, objecto de espanto e zombaria, Job encontra-se \u00e0 beira do desespero. Ele sabe que j\u00e1 n\u00e3o pode contar com mais nada: a sua esperan\u00e7a morrer\u00e1 com ele.

{N}18,{/}1: (1-21) Provocado pela ousadia de Job, Baldad trata o destino do injusto, segundo o dogma da retribui\u00e7\u00e3o. De modo indirecto, insinua que Job est\u00e1 a viver esse destino.

{N}19,{/}1: (1-22) Job descreve o abandono total em que foi deixado pelos concidad\u00e3os, parentes, familiares e at\u00e9 pela pr\u00f3pria esposa. Inclusive os amigos, de quem Job esperaria solidariedade e compreens\u00e3o, todos se afastaram, considerando-o pecador. Diante disso, implora piedade e declara: \u00abFoi Deus quem violou o meu direito... a m\u00e3o de Deus me feriu!\u00bb (vv. 6.21). Job clama por solidariedade, o que implica um compromisso que supera uma vis\u00e3o simplista da realidade e chega a uma vis\u00e3o nova da justi\u00e7a de Deus, do marginalizado e do relacionamento entre ambos.

{N}19,{/}23: (23-29) Job n\u00e3o pode contar com a solidariedade de ningu\u00e9m. Sabe que \u00e9 inocente, apesar de os outros o considerarem pecador. Bem gostaria que as suas palavras fossem gravadas em mat\u00e9ria dur\u00e1vel: tem a certeza de que o seu {C}redentor{/} (cf. Lv 25,25; Rt 4,4) est\u00e1 vivo e intervir\u00e1, a seu tempo, em sua defesa, fazendo-lhe justi\u00e7a. Quanto a ele, morto ou ressuscitado, veria Deus e a raz\u00e3o que, desde sempre esteve do seu lado e n\u00e3o na boca dos interlocutores obsessivamente fixados no princ\u00edpio da retribui\u00e7\u00e3o quase matem\u00e1tica, e na ideia de ver o sofrimento como castigo de um pecado.
O tema do redentor (v. 25) prolonga o desejo dum \u00e1rbitro (9,33) imparcial ou duma testemunha de defesa (16,19.21), em contexto aberto. A ressurrei\u00e7\u00e3o, eventualidade impens\u00e1vel e contr\u00e1ria \u00e0 experi\u00eancia em 14,12, parece aqui uma certeza suscept\u00edvel de reabilitar a sua honra e de lhe permitir ver a Deus. Se n\u00e3o \u00e9 certeza, ser\u00e1 ao menos recurso \u00e0 hip\u00f3tese dum \u00abimposs\u00edvel\u00bb que se fez esperan\u00e7a segura no s\u00e9culo II a.C., e dom na pessoa de Jesus.

{N}20,{/}1: (1-29) Sofar n\u00e3o se impressiona com o clamor angustiado de Job. Ao contr\u00e1rio, volta mais uma vez ao dogma da retribui\u00e7\u00e3o, mostrando o caminho da riqueza e poder do injusto e o fim tr\u00e1gico que o espera. A insinua\u00e7\u00e3o \u00e9 de que tamb\u00e9m Job era um injusto que se enriqueceu \u00e0 custa de outros. Por isso, Deus o castigou.

{N}21,{/}1: (1-6) Quem sofre n\u00e3o est\u00e1 disposto a ouvir aqueles que n\u00e3o partilham e nem sabem compreender a sua dor. O seu conforto \u00e9 falar e ser ouvido. Na dor do justo que sofre, h\u00e1 uma luta com o pr\u00f3prio Deus que apavora tanto o sofredor como aqueles que o escutam.

{N}21,{/}7: (7-13) Segundo o dogma da retribui\u00e7\u00e3o, Sofar tinha afirmado que \u00aba alegria do perverso dura apenas um instante\u00bb (20,5). Job desmente essa afirma\u00e7\u00e3o, mostrando que os injustos vivem muito bem, prosperam, se alegram e morrem felizes. E a justi\u00e7a de Deus?

{N}21,{/}14: (14-21) O pior \u00e9 que os injustos prosperam exactamente por rejeitarem Deus e o seu projecto. Mais ainda: para eles, \u00e9 in\u00fatil servir e rezar a Deus. Eles cuidam de si pr\u00f3prios. E quando \u00e9 que s\u00e3o atingidos pela calamidade? Que adianta os seus filhos serem castigados em lugar deles?

{N}21,{/}22: (22-34) Job mostra uma coisa certa: tanto o justo como o injusto morrem e s\u00e3o ro\u00eddos pelos vermes. E at\u00e9 na morte o injusto leva vantagem: funerais sumptuosos, belos t\u00famulos, muita gente no enterro... \u00c9 o que se pode verificar pela experi\u00eancia. Quanto \u00e0 sabedoria e justi\u00e7a de Deus, elas n\u00e3o cabem e rebentam com as nossas teorias e explica\u00e7\u00f5es. 

{N}22,{/}1: (1-11) O ataque de Elifaz \u00e9 violento. Ser\u00e1 que Deus esteja a castigar Job, sendo este inocente? Mas o castigo sup\u00f5e culpa grave, como a viola\u00e7\u00e3o da \u00e9tica social consagrada no Oriente. Por outras palavras, se Job tem coragem de se afirmar inocente, \u00e9 porque est\u00e1 completamente cego.

{N}22,{/}12: (12-20) Elifaz insiste: Job est\u00e1 na desgra\u00e7a porque acha que Deus n\u00e3o v\u00ea, nem julga os homens. Assim pensam os injustos, e por isso s\u00e3o castigados. 

{N}22,{/}21: (21-30) As \u00faltimas palavras de Elifaz s\u00e3o um convite \u00e0 convers\u00e3o dirigido a Job. Note-se, por\u00e9m, todo o interesse mercantilista por tr\u00e1s do dogma da retribui\u00e7\u00e3o: converter-se e servir a Deus {C}a fim de{/} ter tranquilidade e prosperidade. Tal relacionamento n\u00e3o deixa lugar para a miseric\u00f3rdia e a gratuidade, transformando a religi\u00e3o em meio de manipular o pr\u00f3prio Deus.

{N}23,{/}1: (1-9) Job n\u00e3o se contenta com os representantes oficiais da religi\u00e3o. Convencido da pr\u00f3pria inoc\u00eancia, quer uma oportunidade para comparecer pessoalmente diante de Deus, expor os seus argumentos e ganhar a causa. Como, por\u00e9m, encontrar a Deus? Ele parece andar a fugir.

{N}23,{/}10: (10-17) Apesar de tudo, Job est\u00e1 convencido de que Deus sabe que ele \u00e9 justo. Sabe tamb\u00e9m que Deus toma uma decis\u00e3o e a realiza, sem que ningu\u00e9m O consiga demover. Isso apavora Job, que preferiria esconder-se.

{N}24,{/}1: (1-17) A injusti\u00e7a social e a viola\u00e7\u00e3o do direito, tanto no campo como na cidade, s\u00e3o testemunhos claros da aus\u00eancia de Deus e do mist\u00e9rio que cerca o seu projecto. Porque \u00e9 que n\u00e3o interv\u00e9m? Mais ainda: Porque ser\u00e1 que n\u00e3o responde \u00e0s v\u00edtimas que Lhe suplicam?

{N}24,{/}18: (18-25) Estes vers\u00edculos interrompem bruscamente a palavra de Job. O texto provavelmente est\u00e1 fora de lugar e deveria ser lido imediatamente depois de 27,13-23, formando parte de uma interven\u00e7\u00e3o de Sofar. Cf. nota em 27,13-23.

{N}25,{/}1: (1-6) A interven\u00e7\u00e3o de Baldad continua em 26,5. Cf. nota em 26,5-14.

{N}26,{/}1: (1-4) A resposta de Job continua em 27,1. Cf. nota em 27,1-12.

{N}26,{/}5: (5-14) Contra essa aparente d\u00favida que Job levanta sobre a provid\u00eancia divina, Baldad apresenta um contraste entre a grandeza de Deus e a pequenez do homem (25,1-6), exaltando o poder do Criador, que n\u00e3o s\u00f3 cria e organiza o Universo, mas vence o mal que amea\u00e7a a Cria\u00e7\u00e3o (Raab e a serpente s\u00e3o monstros que personificam o caos e a destrui\u00e7\u00e3o).

{N}27,{/}1: (1-12) Depois de ironizar os amigos (26,1-4), Job declara energicamente que n\u00e3o vai abrir m\u00e3o da sua inoc\u00eancia e que, por fim, triunfar\u00e1 sobre os inimigos e advers\u00e1rios. A resposta de Job continua no cap\u00edtulo 29.

{N}27,{/}13: (13-23) Mais uma vez, Sofar descreve o destino do injusto, conforme o dogma da retribui\u00e7\u00e3o. Trata-se de outra indirecta: Ser\u00e1 que Job n\u00e3o \u00e9 capaz de se reconhecer nessa descri\u00e7\u00e3o do injusto? O texto de 24,18-25 deve ser lido imediatamente ap\u00f3s este trecho.

{N}28,{/}1: (1-13) O homem \u00e9 qualitativamente superior aos animais e, com a sua tecnologia, sabe buscar e extrair elementos preciosos. Contudo, a tecnologia humana falha na busca da sabedoria e da intelig\u00eancia. S\u00f3 estas s\u00e3o capazes de detectar o segredo da ac\u00e7\u00e3o de Deus na vida e na Hist\u00f3ria. Como chegar at\u00e9 l\u00e1?
  28: Este elogio da {C}Sabedoria{/} foi certamente introduzido aqui mais tarde, sem que se veja a sua liga\u00e7\u00e3o com o debate em curso, apesar de 27,11 e de antecipar de algum modo a manifesta\u00e7\u00e3o de Deus em 38,1-41,26. Merece, portanto, uma leitura \u00e0 parte. A focagem mostra a Sabedoria {C}inacess\u00edvel{/} ao homem, tal como em Baruc 3,9-4,21, onde no entanto ela se revela a Israel. Comparar esta personifica\u00e7\u00e3o da Sabedoria com outras, nomeadamente: Prov\u00e9rbios 8,22-31; Eclo 24.

{N}28,{/}14: (14-22) O homem vive na Terra e tem acesso ao mar e ao ar. Mas a sabedoria n\u00e3o se encontra em nenhum desses lugares. Resta o abismo ou morada dos mortos. Mas ela tamb\u00e9m n\u00e3o se encontra a\u00ed. Em resumo: a sabedoria n\u00e3o prov\u00e9m do mundo dos homens. Mais; mesmo que a encontrasse, n\u00e3o teria com que adquiri-la.

{N}28,{/}23: (23-28) Somente Deus tem acesso \u00e0 sabedoria que, no fundo, \u00e9 o seu pr\u00f3prio projecto. O que resta ao homem fazer? Primeiro, afastar-se do mal, isto \u00e9, n\u00e3o absolutizar projectos humanos. Depois, reconhecer que Deus \u00e9 o \u00fanico absoluto (temer ao Senhor) e abrir-se, esperando que Ele revele pouco a pouco o seu projecto sobre a vida e a Hist\u00f3ria.

{N}29,{/}1: (1-25) Recordando a vida passada, Job faz um verdadeiro retrato do justo, em conformidade com o princ\u00edpio da retribui\u00e7\u00e3o e segundo o ideal israelita antigo de uma vida feliz: protegido e \u00edntimo de Deus, pr\u00f3spero, respeitado por todos, defensor dos pobres e marginalizados, conselheiro e chefe social. Dentro desse quadro, a expectativa seria uma vida longa e feliz.
  29-31: Conclu\u00eddos os tr\u00eas ciclos de debates com os amigos, Job retoma a sua causa num apelo pungente a Deus, que s\u00f3 esbo\u00e7ar\u00e1 a resposta a partir de 38,1. O tr\u00edptico grandioso rememora a felicidade de outros tempos (29), foca a desgra\u00e7a presente (30) e faz a apologia de Job, que n\u00e3o enveredou pelos caminhos do pecado (31).

{N}30,{/}1: (1-15) Atingido pela desgra\u00e7a, Job v\u00ea-se reduzido \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de um fora-da-lei. Banido e humilhado, entrega-se ao desespero e, cheio de rancor, prepara-se para acusar o autor de tudo o que lhe acontece.

{N}30,{/}16: (16-23) Imerso no sofrimento, Job acusa o seu principal advers\u00e1rio: o pr\u00f3prio Deus. Em vez do protector que aben\u00e7oa, Deus mostra-Se inimigo feroz que nem sequer o deixa dormir. Tem f\u00e9 e clama, sem obter resposta. V\u00ea-se encaminhado para a morte.

{N}30,{/}24: (24-31) Job olha para tr\u00e1s e busca em v\u00e3o o motivo de toda a sua situa\u00e7\u00e3o. Como justo, esperava a felicidade, mas s\u00f3 recebeu desgra\u00e7a e sofrimento. 

{N}31,{/}1: (1-12) Job apresenta o protesto de inoc\u00eancia, confessando a sua integridade pessoal. Ele n\u00e3o se desviou da justi\u00e7a, nem mesmo ao n\u00edvel do desejo mais \u00edntimo. Quanto a isso, pode at\u00e9 fazer um desafio a Deus: caso encontrasse alguma falta, Deus poderia despoj\u00e1-lo de tudo.

{N}31,{/}13: (13-23) Tamb\u00e9m no seu comportamento social, Job foi \u00edntegro: partilhou os bens com os necessitados e defendeu a causa dos marginalizados. O v. 18 deve ser colocado imediatamente depois do v. 15.

{N}31,{/}24: (24-28) No plano religioso, Job serviu unicamente ao Deus vivo, evitando qualquer forma de idolatria (riquezas e astros). Os vv. 29-34 continuam o protesto de integridade social, iniciado em 31,13-23.

{N}31,{/}35: (35-40) Seguro da sua justi\u00e7a e integridade, Job lan\u00e7a o desafio: agora, que Deus responda e apresente a acusa\u00e7\u00e3o para justificar todo o castigo que sobre ele se abateu. Certo de que Deus nada ter\u00e1 a acusar, Job imagina-se a chegar junto de Deus como um pr\u00edncipe, coroado com o atestado da sua inoc\u00eancia, passado pelo pr\u00f3prio Deus. Os vv. 38-40 fazem parte do protesto de integridade social e devem ser lidos depois de 31,23. A sequ\u00eancia original do livro est\u00e1 em 38,1ss.

{N}32,{/}1: (1-22) Esta abertura mostra a inten\u00e7\u00e3o de Eli\u00fa: salvar o dogma da retribui\u00e7\u00e3o. Por isso, critica Job, porque este pretende ter raz\u00e3o contra Deus. Critica tamb\u00e9m os tr\u00eas amigos porque, incapazes de encontrar argumentos convincentes, acabam por deixar Deus na situa\u00e7\u00e3o de culpado. A situa\u00e7\u00e3o de Job n\u00e3o cabe nos limites da teologia em voga; exige uma resposta que seja nova, que s\u00f3 poder\u00e1 vir da novidade de Deus.
  32-37: Eli\u00fa aparece repentinamente, sem ter sido anunciado no in\u00edcio do livro. Al\u00e9m disso, o estilo e o tema destes cap\u00edtulos s\u00e3o diferentes. Trata-se, portanto, de um grande acrescentamento feito depois por outro autor inspirado que certamente pretendia dar novo rumo ao debate.

{N}33,{/}1: (1-12) Eli\u00fa disp\u00f5e-se a discutir de igual para igual. A primeira cr\u00edtica a Job \u00e9 que este pretende discutir com Deus em p\u00e9 de igualdade, a ponto de querer acus\u00e1-l'O de injusti\u00e7a.

{N}33,{/}13: (13-33) Job havia dito que Deus n\u00e3o respondia ao seu apelo. Eli\u00fa mostra que Deus responde sempre: o problema \u00e9 que as pessoas n\u00e3o percebem, n\u00e3o entendem ou at\u00e9 recusam o que Deus diz. Segundo Eli\u00fa, Deus fala ao homem atrav\u00e9s de sonhos, vis\u00f5es e, por fim, atrav\u00e9s do sofrimento. O homem precisa de encontrar um anjo mediador que interceda por ele e lhe salve a vida. Ent\u00e3o vir\u00e1 a convers\u00e3o na qual Deus torna justo o homem.
O tema do anjo mediador (vv. 23-24) relembra o \u00e1rbitro (9,33), a testemunha de defesa (16,19) e o vingador (19,25). Em todos esses trechos, alude-se a um misterioso mediador, sempre ligado \u00e0 iniciativa de Deus em favor do homem. Essa intui\u00e7\u00e3o realiza-se totalmente na Encarna\u00e7\u00e3o, onde Jesus \u00e9 Deus-presente do lado da humanidade.

{N}34,{/}1: (1-37) Job havia declarado a pr\u00f3pria inoc\u00eancia, afirmando que Deus era injusto com ele. Eli\u00fa rebate: a justi\u00e7a de Deus est\u00e1, em primeiro lugar, no facto de Ele conservar a vida de toda a Cria\u00e7\u00e3o. Em segundo lugar, e mais importante, Ele cuida para que a justi\u00e7a reine entre os homens, enfrentando mesmo os poderosos, para defender os fracos e os pobres. O sil\u00eancio de Deus n\u00e3o \u00e9 motivo para Job O acusar e condenar. O melhor seria Job reconhecer que errou ao acusar Deus de injusto e, ao mesmo tempo, pedir que lhe ensine o que \u00e9 verdadeiramente a sua justi\u00e7a.

{N}35,{/}1: (1-16) Job havia afirmado que Deus \u00e9 indiferente \u00e0 justi\u00e7a ou injusti\u00e7a do homem. Eli\u00fa responde que Deus interv\u00e9m sempre para socorrer os oprimidos e restaurar a rela\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a. S\u00f3 fica em sil\u00eancio quando as pessoas n\u00e3o cr\u00eaem n'Ele ou quando se fecham no orgulho. Indirectamente, o orgulho de Job explicaria o sil\u00eancio de Deus.

{N}36,{/}1: (1-25) Eli\u00fa volta a proclamar a justi\u00e7a de Deus, que supera a compreens\u00e3o humana e consiste principalmente em salvar o pobre e derrotar o injusto. Deus quer sempre a vida, e usa de todos os meios para educar o homem na justi\u00e7a, que \u00e9 o caminho para a vida. Entre eles est\u00e1 o sofrimento, que \u00e9 uma chamada de aten\u00e7\u00e3o para que a pessoa descubra os pr\u00f3prios erros ou orgulho e se converta. Cf. tamb\u00e9m nota em 33,13-33.

{N}36,{/}26: (36,26-37,5) O poder de Deus que se manifesta na Natureza para alimentar os homens, \u00e9 o mesmo que interv\u00e9m na Hist\u00f3ria para fazer justi\u00e7a.
  36,26-37,24: Os discursos de Eli\u00fa encerram com uma grande contempla\u00e7\u00e3o de Deus como Senhor do Universo, apresentado aqui como presidindo \u00e0s esta\u00e7\u00f5es do ano. Falta a Primavera. Certamente o autor considerava o discurso de Deus em 38,1-42,26 como a Primavera, s\u00edmbolo da manifesta\u00e7\u00e3o do Deus da vida.

{N}37,{/}6: (6-13) Os fen\u00f3menos da Natureza s\u00e3o um convite para todos reconhecerem a obra do Deus Criador e, ao mesmo tempo, um sinal da sua bondade ou castigo.

{N}37,{/}14: (14-24) Este texto final prepara imediatamente a grande manifesta\u00e7\u00e3o divina que vir\u00e1 logo a seguir. Quando os argumentos se esgotam, \u00e9 melhor calar e ficar \u00e0 espera da novidade de Deus.

{N}38,{/}1: (1-3) Deus fala do meio da tempestade, sinal grandioso da natureza que acompanhava as antigas teofanias ou manifesta\u00e7\u00f5es de Deus (cf. Ex 19,16; Ez 1,4). Curiosamente, a expectativa fica suspensa, pois Deus n\u00e3o avan\u00e7a respostas concretas. Pelo contr\u00e1rio, levanta outras perguntas. O encontro com Deus \u00e9 sempre um desafio para o homem. Trata-se de Jav\u00e9, o Deus do \u00eaxodo e da alian\u00e7a, Aquele que liberta e quer ser aliado do homem.
  38-42,6: Segue-se o di\u00e1logo entre Deus e Job: dois discursos de Jav\u00e9 e duas respostas de Job. O her\u00f3i havia pedido insistentemente uma audi\u00eancia com o pr\u00f3prio Deus, para fazer perguntas e rebater acusa\u00e7\u00f5es. Por fim, a resposta vem e Deus aceita mostrar-Se no debate.

{N}38,{/}4: (4-38) De modo provocante, Deus pergunta a Job onde estava quando o mundo foi criado. A seguir, faz uma s\u00e9rie de desafios que mostram, ao mesmo tempo, a grandeza e ci\u00eancia de Deus e a pequenez e ignor\u00e2ncia do homem. Por tr\u00e1s dessas quest\u00f5es, h\u00e1 uma pergunta latente: Se o homem n\u00e3o \u00e9 capaz de compreender as leis da Cria\u00e7\u00e3o, como pode atrever-se a questionar o Criador? Os vv. 26-27 chamam a aten\u00e7\u00e3o para o amor gratuito de Deus) cuida da Natureza, mesmo em lugares desabitados, onde n\u00e3o h\u00e1 qualquer testemunha. O v. 36 mostra que certos animais instintivamente conhecem certos segredos da Natureza que o homem desconhece, apesar de toda a sua ci\u00eancia.

{N}38,{/}39: (38,39-40,2) Os animais selvagens, com o seu instinto misterioso e irrefre\u00e1vel liberdade, fazem o homem maravilhar-se diante da for\u00e7a selvagem da vida. Se n\u00e3o foi o homem, quem criou os animais e lhes ensinou essa perfei\u00e7\u00e3o instintiva? 

{N}40,{/}3: (3-5) Job havia lutado de todos os modos para provar a sua honra e justi\u00e7a, n\u00e3o temendo acusar e desafiar at\u00e9 o pr\u00f3prio Deus. Contudo, perante tal apresenta\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia, grandeza e zelo de Deus por toda a Cria\u00e7\u00e3o, v\u00ea-se for\u00e7ado a reconhecer a pr\u00f3pria pequenez e lugar diante do mist\u00e9rio insond\u00e1vel de Deus. Todos os seus argumentos caem por terra, e nada mais consegue acrescentar.

{N}40,{/}6: (6-14) No di\u00e1logo, os amigos procuravam a todo o custo afirmar que Job estava a sofrer porque havia cometido alguma falta moral ou viola\u00e7\u00e3o da \u00e9tica. Por sua vez, Job defendia-se, afirmando a sua pr\u00f3pria justi\u00e7a. E aqui toca-se o impasse criado pelo dogma da retribui\u00e7\u00e3o: ou Deus est\u00e1 certo e Job errado, ou Job de facto \u00e9 justo e Deus injusto. O v. 8 mostra que, dentro dessa teologia, o homem chega a cometer, n\u00e3o um pecado moral, mas o pecado teol\u00f3gico, que consiste em se igualar a Deus para Lhe pedir contas e julg\u00e1-l'O. Exactamente o que acontece em Gn 3. Os vv. 9-14 mostram ironicamente a consequ\u00eancia: J\u00e1 que o homem critica a Deus para se deificar a si pr\u00f3prio, v\u00e1 ent\u00e3o at\u00e9 ao fim: realize a justi\u00e7a que acredita que Deus n\u00e3o realiza. Diante desse homem ridiculamente deificado, Deus ironiza: \u00abFa\u00e7a isso e at\u00e9 Eu lhe prestarei homenagem\u00bb.

{N}40,{/}15: (15-24) Beemot era o nome que os antigos davam ao hipop\u00f3tamo, animal considerado como s\u00edmbolo da for\u00e7a bruta que o homem \u00e9 incapaz de domesticar. No entanto, esse animal foi criado como o homem, e \u00e9 at\u00e9 apresentado como obra-prima da Cria\u00e7\u00e3o. Deus domina soberanamente as for\u00e7as que o homem n\u00e3o consegue controlar.

{N}40,{/}25: (40,25-41,26) Leviat\u00e3, muitas vezes representado pelo crocodilo, \u00e9 propriamente um drag\u00e3o m\u00edtico, que simboliza o poder do mal que amea\u00e7a a Cria\u00e7\u00e3o. Deus t\u00ea-lo-ia derrotado, confinando-o \u00e0 \u00e1gua. O desafio que Deus coloca a Job \u00e9 gigantesco: Seria ele capaz de dominar as for\u00e7as do mal como Eu fiz? Por tr\u00e1s disso, h\u00e1 um convite para o homem reconhecer as pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es e, a partir da\u00ed, confiar no Deus que \u00e9 capaz de controlar tudo.

{N}42,{/}1: (1-6) \u00c9 o ponto culminante e a chave de todo o livro. No balbuciamento de 40,3-5, Job, perante a grandeza e a ci\u00eancia de Deus, retira as palavras destitu\u00eddas de senso que proferira e decide remeter-se ao sil\u00eancio. Aqui vai mais longe: faz uma confiss\u00e3o de f\u00e9 no poder zeloso de Deus a quem nenhum projecto \u00e9 alheio. O alcance {C}cr\u00edtico{/} da obra incide sobre a seguran\u00e7a herdada, publicada e defendida na \u00e9poca, sobre o princ\u00edpio da retribui\u00e7\u00e3o aplic\u00e1vel durante a exist\u00eancia humana que decorre na Terra. Contrariamente \u00e0 doutrina dos amigos, d\u00e1-se um salto qualitativo a n\u00edvel religioso: do conhecimento divino \u00abpor ouvir dizer\u00bb, passa-se a uma certa experi\u00eancia directa de Deus (\u00abagora, os meus olhos v\u00eaem-Te\u00bb). Toda a teologia ou concep\u00e7\u00e3o de Deus \u00e9 sempre relativa e limitada, podendo mesmo impedir a experi\u00eancia do Deus vivo. A esta nova luz, j\u00e1 n\u00e3o interessa a Job multiplicar perguntas ou gritar interroga\u00e7\u00f5es.
A atitude de v. 6, embora com resqu\u00edcios penitenciais, mais do que uma retracta\u00e7\u00e3o, \u00e9 a descoberta emocionante da rela\u00e7\u00e3o insond\u00e1vel que o une ao Deus santo. Em termos de despojamento, o her\u00f3i foi-se desligando dos bens, dos servos e dos filhos; perdeu a pr\u00f3pria integridade f\u00edsica; mas continuava agarrado \u00e0 consci\u00eancia que tinha da sua justi\u00e7a (santidade). Deus desafiou-o a despojar-se at\u00e9 disso. E Job disse sim!

{N}42,{/}7: (7-9) Os tr\u00eas amigos s\u00e3o criticados porque na lenda original teriam dito algo parecido com o que a mulher de Job lhe havia sugerido (2,9). No conjunto do livro, por\u00e9m, a cr\u00edtica de Jav\u00e9 dirige-se a todos aqueles que, para defenderem a concep\u00e7\u00e3o que se fizeram de Deus, n\u00e3o t\u00eam escr\u00fapulos em massacrar seres humanos. Foi o pendor dos tr\u00eas amigos em rela\u00e7\u00e3o a Job. Agora, a sua vida depende precisamente da intercess\u00e3o daquele que fora o seu alvo.
  42,7-17: Este ap\u00eandice apresenta, de novo em prosa, o final primitivo da lenda, que come\u00e7a em 1,1-2,13. \u00c9 poss\u00edvel que ao autor do debate (3-42,6) - o n\u00facleo central da obra - interessasse terminar com a resposta de Job. Estava rompido o c\u00edrculo do princ\u00edpio da retribui\u00e7\u00e3o. Mas, ou para evitar esc\u00e2ndalos, ou por iniciativa de outro redactor, a conclus\u00e3o feliz da hist\u00f3ria figura aqui, sem que o retrocesso belisque o arrojo do debate e o vigor da cr\u00edtica que encerra.

{N}42,{/}10: (10-17) A lenda terminava com o regresso \u00e0 felicidade antiga, pr\u00e9mio pela fidelidade do justo. Job recebe o dobro de tudo o que havia perdido, com repara\u00e7\u00e3o por perdas e danos, prevista na Lei (Ex 22,6-8). N\u00e3o se fala na recupera\u00e7\u00e3o da sa\u00fade, mas o v. 16 sup\u00f5e a supera\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a. E, facto curioso, quando tudo fica resolvido, os parentes e amigos voltam...

