{N}1,{/}1: Zacarias (=Jav\u00e9 lembra-Se) inicia a sua actividade em 520 a.C., poucos meses depois da primeira interven\u00e7\u00e3o de Ageu. Nessa \u00e9poca, Dario I, rei da P\u00e9rsia, preocupou-se em reorganizar o imp\u00e9rio, dividindo-o em satrapias ou prov\u00edncias. A Palestina, juntamente com a S\u00edria, formaram a quinta satrapia.

{N}1,{/}2: (2-6) O livro abre com um convite \u00e0 convers\u00e3o. A partir do reconhecimento dos erros passados, que afastaram o povo de Deus e pesaram sobre ele, a convers\u00e3o continua na obedi\u00eancia \u00e0 palavra de Deus, anunciada agora pelo profeta. \u00c9 que a palavra de Deus \u00e9 eficaz (cf. Is 55,11) e Zacarias recebeu encargo de a pronunciar (2,15; 6,15).

{N}1,{/}7: (7-17) A primeira vis\u00e3o data de Fevereiro de 519. Os cavaleiros (servi\u00e7os persas ou anjos), formando quatro grupos como em 6,2, inspeccionam os quatro cantos do mundo e informam o \u00abanjo\u00bb (vv. 8 e 11) que a terra est\u00e1 sossegada, em paz, sob o reinado de Dario. A verifica\u00e7\u00e3o \u00e9 inquietante dado que, no estilo apocal\u00edptico, a realiza\u00e7\u00e3o do projecto divino \u00e9 precedida do alvoro\u00e7o das na\u00e7\u00f5es. Jav\u00e9 anuncia que vai subverter essa \u00abpaz\u00bb: Jerusal\u00e9m e o Templo ser\u00e3o reconstru\u00eddos, e haver\u00e1 uma verdadeira paz e prosperidade para as cidades de Jud\u00e1.

{N}2,{/}1: (1-4) Segunda vis\u00e3o: O chifre \u00e9 o s\u00edmbolo da for\u00e7a e do poder. Os quatro chifres representam a for\u00e7a dos imp\u00e9rios da Terra, que se unem para destruir a na\u00e7\u00e3o judaica. O profeta, por\u00e9m, com a imagem dos ferreiros, encarregados de cortar os chifres, assegura que a for\u00e7a dos imp\u00e9rios ser\u00e1 aniquilada pelo poder de Deus.

{N}2,{/}5: (5-9) Terceira vis\u00e3o: Medir \u00e9 ac\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica que significa reconstruir e proteger (cf. Ez 41,12-15). Jerusal\u00e9m ser\u00e1 reconstru\u00edda e ficar\u00e1 sempre aberta (sem muros) para acolher todos aqueles que queiram fazer parte do povo da Alian\u00e7a. E os que foram libertos n\u00e3o precisar\u00e3o de buscar ref\u00fagio (muro), pois Jav\u00e9 protege-os, como protegeu os hebreus no \u00eaxodo (cf. Ex 13,21-22).

{N}2,{/}10: (10-17) Or\u00e1culo intercalar em que o profeta apressa os exilados, ainda instalados na Babil\u00f3nia, a reunirem-se aos seus irm\u00e3os na Palestina, porque Deus est\u00e1 novamente ligado ao seu povo, a \u00abpupila dos seus olhos\u00bb. Os vv. 14-17 abrem uma perspectiva universal: as na\u00e7\u00f5es pag\u00e3s far\u00e3o parte do povo de Deus, que tem Jerusal\u00e9m como centro.

{N}3,{/}1: (1-10) A quarta vis\u00e3o apresenta a investidura de Josu\u00e9. A partir de agora, ser\u00e3o os sacerdotes que governar\u00e3o a comunidade. Vindo do ex\u00edlio (ti\u00e7\u00e3o tirado do fogo), Josu\u00e9 est\u00e1 pronto a abandonar o luto ou a ser purificado (roupas limpas) e a servir de mediador entre Jav\u00e9 e o povo. {C}Satan\u00e1s {/}desempenha aqui o papel de promotor de acusa\u00e7\u00e3o na sess\u00e3o celeste; s\u00f3 mais tarde ser\u00e1 assimilado ao Dem\u00f3nio, esp\u00edrito do mal, inimigo de Deus e do homem.
A purifica\u00e7\u00e3o e o restabelecimento do sacerd\u00f3cio pressagia a salva\u00e7\u00e3o, a qual passa tamb\u00e9m pelo advento do servo \u00abGerme\u00bb, nome messi\u00e2nico criado por Jeremias (23,5; 33,15; cf. Is 11,1-2). A misteriosa \u00abpedra com sete olhos\u00bb confiada a Josu\u00e9, pode representar a nova economia sacerdotal (cf. Ex 39,30) \u00abconsagrada ao Senhor\u00bb, ou o Templo ou mesmo o Messias na sua clarivid\u00eancia. A imagem final da sombra da vinha e da figueira sugere a prosperidade e a seguran\u00e7a esperadas (cf. 1Rs 5,5; Mq 4,4).
  3-4: A comunidade p\u00f3s-ex\u00edlica centrou as suas esperan\u00e7as de liberta\u00e7\u00e3o em duas pessoas: Zorobabel e Josu\u00e9. Zorobabel, descendente de David, retomaria o poder civil, e Josu\u00e9 daria ao Templo a gl\u00f3ria que ele teve na \u00e9poca de Salom\u00e3o. Entretanto, o imp\u00e9rio persa viu nessa proposta pol\u00edtica uma tentativa de rebeli\u00e3o e impediu que prosseguisse (talvez, por isso, Zorobabel tenha sido morto). Sem outra perspectiva, a comunidade judaica voltou as vistas unicamente para o lado religioso (Josu\u00e9), com o consentimento dos persas.

{N}4,{/}1: (1-10) Quinta vis\u00e3o: O candelabro com sete l\u00e2mpadas representa a presen\u00e7a e a manifesta\u00e7\u00e3o de Deus no meio do seu povo; governa o mundo e dirige a Hist\u00f3ria. As duas oliveiras s\u00e3o Josu\u00e9, consagrado para o culto, e Zorobabel, que se espera seja consagrado rei, por ser descendente de David: \u00e9, portanto, a promessa de que os dois poderes (religioso e civil) ir\u00e3o consolidar a constitui\u00e7\u00e3o do povo. Os factos, por\u00e9m, se encarregariam de desfazer esse equil\u00edbrio: Zorobabel desaparece de cena e o povo ser\u00e1 governado por uma casta sacerdotal. Os vv. 6b-10a intercalam tr\u00eas palavras a Zorobabel: convidam-no a confiar sobretudo na for\u00e7a divina, atestam a seguran\u00e7a da sua governa\u00e7\u00e3o futura.

{N}5,{/}1: (1-4) Sexta vis\u00e3o: um livro em forma de rolo, escrito dos dois lados, como em Ez 2,10, com as dimens\u00f5es simb\u00f3licas do p\u00f3rtico do Templo (1Rs 6,3), voa pelo territ\u00f3rio a proclamar que a ordena\u00e7\u00e3o da nova comunidade implica o exterm\u00ednio de dois males que violam a alian\u00e7a: o roubo das terras e a injusti\u00e7a nos tribunais (jurar falso como testemunha de acusa\u00e7\u00e3o).

{N}5,{/}5: (5-11) Segundo a s\u00e9tima vis\u00e3o, Dona Maldade, raiz de todos os pecados, prefigurada no rosto de mulher que avan\u00e7a dentro da vasilha, ser\u00e1 impedida de actuar e banida da Terra Santa; ser\u00e1 largada em Senaar - nome antigo da Babil\u00f3nia -, exemplar pra\u00e7a forte do paganismo que se op\u00f5e a Deus e ao seu projecto.

{N}6,{/}1: (1-8) Do alto da sua morada (montanhas de bronze), Deus est\u00e1 presente e age em toda a Terra (4 carros = 4 cores = 4 cantos do mundo). A ac\u00e7\u00e3o principal \u00e9 a de enviar mensageiros ao Norte, isto \u00e9, para a Babil\u00f3nia, a fim de chamar os exilados, que ainda a\u00ed permanecem, para que voltem e participem na reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds (cf. 6,15).

{N}6,{/}9: (9-15) Na coroa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, as ins\u00edgnias do poder s\u00e3o entregues a Josu\u00e9, prova da preponder\u00e2ncia conquistada pelo sacerd\u00f3cio no governo da comunidade. No teor primitivo do texto, Zorobabel, da linhagem de David, era quem recebia a coroa e desempenhava a miss\u00e3o descrita nos vv. 12-13. Como em 4,1-10, a comunidade alimentava a esperan\u00e7a de contemplar um governo harmonizado, exercido a partir de dois p\u00f3los de compet\u00eancia: o profano e o sagrado. O desaparecimento de Zorobabel, a depend\u00eancia do exterior e o pr\u00f3prio tempo desequilibraram este ideal.

{N}7,{/}1: (1-14) Est\u00e3o em curso os trabalhos da reconstru\u00e7\u00e3o do Templo. Uma comitiva \u00e9 enviada aos sacerdotes e profetas para perguntar se se devem manter ou n\u00e3o o luto e o jejum comemorativos da destrui\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m e do Templo em 587 (cf. 2Rs 25,8). A resposta est\u00e1 em 8,18-19: o jejum e o luto devem ser substitu\u00eddos pela festa. Um redactor, seguindo o esp\u00edrito de Is 58,1-14, introduziu os vv. 5-14, mostrando que o verdadeiro jejum que Deus espera e exige \u00e9 a justi\u00e7a social e o amor ao pr\u00f3ximo, a come\u00e7ar pelos marginalizados.

{N}8,{/}1: (1-23) Uma s\u00e9rie de or\u00e1culos de esperan\u00e7a e salva\u00e7\u00e3o messi\u00e2nicas. S\u00e3o dez palavras que d\u00e3o alento para enfrentar o futuro. Entre as decep\u00e7\u00f5es passadas e as promessas de prosperidade, o or\u00e1culo dos vv. 9-13 incute \u00e2nimo aos construtores do Templo, tal como fizera Ageu 1,5-11... A inten\u00e7\u00e3o dos vv. 16-17 retoma 7,9-10, em moldes estereotipados mas incisivos: a justi\u00e7a social est\u00e1 bem no centro do projecto divino. A resposta \u00e0 quest\u00e3o dos jejuns (vv. 18-19) acrescenta mais dois aos referidos em 7,3: o da brecha aberta nas muralhas e o do in\u00edcio do cerco, respectivamente nos 4.\u00ba e 10.\u00ba meses (cf. 2Rs 25,1-4). Al\u00e9m disso, fala-se do regresso, da fidelidade, da cidade, da paz; e da nova alian\u00e7a a estabelecer entre Deus e os homens (v. 8), numa perspectiva universalista (vv. 20-22), limitada apenas pela concentra\u00e7\u00e3o dos povos em Jerusal\u00e9m.

{N}9,{/}1: (1-8) Sem o dizer explicitamente, o texto acompanha com precis\u00e3o a campanha militar de Alexandre Magno e a destrui\u00e7\u00e3o de Tiro em 332 a.C. \u00c9 a m\u00e3o de Deus que julga os opressores e se vinga das cidades vizinhas, cr\u00f3nicas inimigas de Israel, convidando os habitantes \u00e0 purifica\u00e7\u00e3o e \u00e0 agrega\u00e7\u00e3o ao seu povo. Ao jeito apocal\u00edptico, a agita\u00e7\u00e3o precede de perto a era messi\u00e2nica.
  9-14: A segunda parte do livro corresponde a um verdadeiro D\u00eautero-Zacarias, com horizonte hist\u00f3rico dos fins do s\u00e9culo IV a.C., estando os gregos em cena. As aten\u00e7\u00f5es viram-se para a transforma\u00e7\u00e3o interna da comunidade e para os combates apocal\u00edpticos, com o triunfo final do povo de Deus.

{N}9,{/}9: (9-10) A mudan\u00e7a esperada n\u00e3o decorre, sem mais, da agita\u00e7\u00e3o das na\u00e7\u00f5es; ser\u00e1 obra do Messias, rei pacificador, justo, atento aos humildes ou \u00abpobres de Jav\u00e9\u00bb. Construir\u00e1 a paz, isto \u00e9, a vida plena para todas as na\u00e7\u00f5es, chamadas a integrar o povo de Deus. Notar o j\u00fabilo da sauda\u00e7\u00e3o programada para os tempos messi\u00e2nicos (v. 9; cf. Is 62,11; Sf 3,14; Lc 1,28) e a realiza\u00e7\u00e3o deste an\u00fancio em Mt 21,4-9.

{N}9,{/}11: (11-17) Como ir\u00e1 Jav\u00e9 realizar o seu projecto? Primeiro, libertar\u00e1 o seu povo, superando o velho cisma (v. 13); depois, torn\u00e1-lo-\u00e1 instrumento da sua ac\u00e7\u00e3o na Hist\u00f3ria, julgando a na\u00e7\u00e3o opressora e garantindo aos seus a liberdade e a vida na alegria. Os \u00abfilhos de Jav\u00e3\u00bb (v. 13) s\u00e3o os Gregos (Gn 10,2-5; Ez 27,13), refer\u00eancia que ajuda a datar o livro e designa, em geral, os povos hostis a derrotar no combate final.

{N}10,{/}1: (1-2) Ap\u00f3s o combate purificador, o texto seguinte mostra que Jav\u00e9 \u00e9 o \u00fanico salvador. N\u00e3o adianta continuar a recorrer aos \u00eddolos enganadores; seria prolongar a ilus\u00e3o, caminhar sem rumo.

{N}10,{/}3: (10,-11,3) O profeta critica os reis estrangeiros que oprimem o povo. Qual guerreiro poderoso, Deus toma as coisas em m\u00e3o e, com Jud\u00e1 (e Jos\u00e9) ao centro, proceder\u00e1 a um novo \u00eaxodo libertador. Por mais long\u00ednquos que se encontrem, os dispersos afluir\u00e3o \u00e0 sua terra, transbordar\u00e3o jubilosamente as fronteiras, enquanto os outros imp\u00e9rios humanos (cedros, carvalhos, le\u00f5ezinhos) desabar\u00e3o.

{N}11,{/}4: (4-17) No Oriente \u00e9 comum a associa\u00e7\u00e3o rei-pastor. O libelo dos pastores (Ez 34) desabrocha em esperan\u00e7a messi\u00e2nica em 13,7-9. Aqui, a den\u00fancia visa os governantes-pastores de Israel que, em vez de zelarem pelo rebanho, tiraram proveito dele. Da\u00ed as invas\u00f5es, os desastres, o ex\u00edlio. O pr\u00f3prio Jav\u00e9, bom pastor com os cajados \u00abFavor\u00bb e \u00abLa\u00e7os\u00bb, quis encaminhar as ovelhas que, no entretanto, ficaram ingovern\u00e1veis. Com o mau pastor, volta-se aos erros antigos: cresce a opress\u00e3o estrangeira, consuma-se o cisma interno. O v. 14 talvez seja a mais antiga alus\u00e3o \u00e0 separa\u00e7\u00e3o definitiva entre a comunidade de Jerusal\u00e9m e a de Samaria. No ano 328, os \u00abSamaritanos\u00bb constru\u00edram, no monte Garizim, um templo rival do de Jerusal\u00e9m, comprometendo radicalmente o velho sonho da reuni\u00e3o fraterna dos dois reinos.

{N}12,{/}1: (1-8) Quando tudo parecia perdido, o horizonte alonga-se at\u00e9 aos \u00faltimos tempos: mediante um combate escatol\u00f3gico, o povo ser\u00e1 libertado dos inimigos externos, a come\u00e7ar pela popula\u00e7\u00e3o rural e pastoril da Judeia, para que a metr\u00f3pole, a Jerusal\u00e9m gloriosa e real, saiba o que \u00e9 a humildade.

{N}12,{/}9: (12,9-13,1) Em contexto apocal\u00edptico do cerco da cidade e luto nacional (vv. 10-14), o povo recebe um esp\u00edrito novo, olha para Deus como \u00fanico Absoluto, e d\u00e1-se a morte dum misterioso \u00abTrespassado\u00bb que parece abrir acesso a uma fonte purificadora (13,1). O IV Evangelho (Jo 19,27) viu nisto um elemento da paix\u00e3o de Jesus, que assumiu os pecados de todos.

{N}13,{/}2: (2-6) Este processo de purifica\u00e7\u00e3o elimina os \u00eddolos da sociedade e, juntamente com eles, tamb\u00e9m os falsos profetas que sustentam a idolatria.

{N}13,{/}7: (7-10) O pastor est\u00e1 aqui inclu\u00eddo num texto de tom messi\u00e2nico. A espada introduz a \u00faltima prova\u00e7\u00e3o, descrita sob roupagens sugestivas: o rebanho sem pastor, o resto fiel, o ter\u00e7o que vinga, o fogo purificador. O povo, ent\u00e3o, estar\u00e1 apto para a Nova Alian\u00e7a (v. 9; cf. Jr 31,33).

{N}14,{/}1: (1-21) Cap\u00edtulo tardio, talvez da \u00e9poca dos Macabeus, \u00e9 chave de ouro do livro. Articula desenvolvimentos sobre o combate escatol\u00f3gico com descri\u00e7\u00f5es da nova ordem: o esplendor de Jerusal\u00e9m coincide com a instaura\u00e7\u00e3o definitiva do reino de Deus. A nova humanidade adorar\u00e1 o \u00fanico e verdadeiro Deus. O culto ser\u00e1 fonte de vida. As na\u00e7\u00f5es converter-se-\u00e3o e afluir\u00e3o a Jerusal\u00e9m.
As convuls\u00f5es c\u00f3smicas sugerem o espect\u00e1culo da interven\u00e7\u00e3o soberana de Deus no ju\u00edzo final (cf. Jl 3,3-4; Mt 24,29-31). A {C}festa das Tendas,{/} celebrada ao termo do ano agr\u00edcola, era na \u00e9poca a solenidade mais popular, proclamava a soberania do Deus criador e a sua realeza sobre o mundo (Ne 8,13-18; Nm 29,12-39).

