{N}1,{/}1: (1-16) Na cena inicial, Jonas tenta escapar \u00e0 miss\u00e3o recebida de Jav\u00e9 porque N\u00ednive, capital da Ass\u00edria, representa um dos maiores e mais encarni\u00e7ados inimigos de Israel, valor tradicional que subsiste mesmo com N\u00ednive destru\u00edda pelos Medos em 612. O profeta foge na direc\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria, para o fim do mundo (T\u00e1rsis). A tempestade barra-lhe a fuga e, no decurso agitado da viagem, Jonas, mau grado seu, torna-se instrumento das primeiras convers\u00f5es: os marinheiros invocam a Jav\u00e9.

{N}2,{/}1: (1-11) A fuga n\u00e3o surtiu efeito. Lan\u00e7ado ao mar, Jonas \u00e9 engolido por um peixe providencial. Nessa ang\u00fastia mortal, o profeta reencontra-se consigo mesmo e com Deus, a ponto de voltar a estar apto para cumprir a miss\u00e3o. O salmo aqui introduzido p\u00f5e nos l\u00e1bios de Jonas um belo mosaico de textos, uma s\u00faplica e ac\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as antecipadas, que sublinham o alcance religioso do livro.

{N}3,{/}1: (1-10) Uma nova ordem de Jav\u00e9, e desta vez Jonas obedece. N\u00ednive \u00e9 o s\u00edmbolo do mundo pag\u00e3o. Na margem esquerda do rio Tigre, frente \u00e0 actual Mossul, as ru\u00ednas de N\u00ednive, que se adivinham debaixo de simples eleva\u00e7\u00f5es de terra, s\u00e3o impressionantes. Mesmo j\u00e1 arrasada quando o livro foi escrito, o nome de N\u00ednive continua a ser o caso-tipo para uma narrativa exemplar como esta. O profeta proclama a amea\u00e7a-apelo. E vemos a\u00ed, na capital dum imp\u00e9rio detestado pelo povo escolhido, aquilo que nenhum profeta conseguiu em Israel: a totalidade dos moradores, da corte ao povo, dos humanos aos animais, abra\u00e7a a causa da penit\u00eancia e da convers\u00e3o. Naturalmente, Deus perdoa.

{N}4,{/}1: (1-11) Curiosamente quem n\u00e3o se alegra com o rumo dos acontecimentos \u00e9 o pregador; fica despeitado com a convers\u00e3o dos ninivitas e com o perd\u00e3o que Deus lhes concede. Qual crian\u00e7a mimada e de cora\u00e7\u00e3o fechado, n\u00e3o consegue aceitar que Deus seja bom tamb\u00e9m para os outros. Com delicadeza e at\u00e9 com doce ironia (vv. 10-11), Deus insiste com o seu mensageiro para que estenda o olhar para al\u00e9m do seu ego\u00edsmo. Est\u00e1 assim aberto o caminho \u00e0 novidade evang\u00e9lica do Deus-Amor. O final relembra de perto Lc 15,25-32.

{N}4,{/}11: {C}DEUS SALVA TODOS OS HOMENS{/}
Jonas n\u00e3o ama os pag\u00e3os, e se Deus os salva, ele n\u00e3o est\u00e1 disposto a pagar por isso. Mas estas mesquinhezes, pr\u00f3prias de um crente bem med\u00edocre, n\u00e3o devem ocultar-nos um esc\u00e2ndalo do qual pareceria que Deus \u00e9 que tem a culpa. Como \u00e9 que Deus salva todos os homens, se ao mesmo tempo repete, ao longo de toda a B\u00edblia, que o \u00fanico eleito \u00e9 Israel, que s\u00f3 Jesus tem palavras de vida, e que n\u00e3o podemos ser salvos sem o baptismo? Acaso Deus tem duas maneiras de falar? Ou ent\u00e3o devemos crer que a salva\u00e7\u00e3o crist\u00e3 \u00e9 uma entre todas as que Deus deu aos povos de diferentes culturas e religi\u00f5es?
Um dos primeiros a interrogar-se acerca disso, o fil\u00f3sofo e m\u00e1rtir S\u00e3o Justino, pensou que, j\u00e1 antes de Jesus, o Verbo de Deus esteve no mundo como uma semente de verdade, e que iluminou os s\u00e1bios de todas as religi\u00f5es. Santo Agostinho, ao contr\u00e1rio, tomou ao p\u00e9 da letra (Mc_16,16): \u00abQuem n\u00e3o acreditar, ser\u00e1 condenado\u00bb. Por isso viu-se obrigado a demonstrar que tudo o que vemos de bom nos n\u00e3o-crist\u00e3os \u00e9 fruto de um orgulho secreto. Neles n\u00e3o h\u00e1 sen\u00e3o virtudes humanas, ou seja, uma perfei\u00e7\u00e3o aparente que n\u00e3o tem valor aos olhos de Deus. Esta solu\u00e7\u00e3o radical inflamava o entusiasmo dos baptizados, e a Igreja n\u00e3o demorou a adopt\u00e1-la.
Deve dizer-se que a Igreja j\u00e1 se tinha sentado no trono de gl\u00f3ria que era perten\u00e7a s\u00f3 de Cristo, seu esposo. Sendo Ele o \u00fanico Salvador, a Igreja colocava-se como intermedi\u00e1ria que ningu\u00e9m podia ignorar se n\u00e3o queria condenar-se para sempre. Era verdade que o mist\u00e9rio da Igreja abra\u00e7ava a Humanidade inteira, mas confundiam-se duas quest\u00f5es: \u00e9 a Igreja necess\u00e1ria para a salva\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria humana? E estoutra: Acaso n\u00e3o h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o para aqueles que est\u00e3o fora da estrutura eclesial?
Foi assim que a Igreja do Ocidente se encastelou na posi\u00e7\u00e3o de Santo Agostinho e a refor\u00e7ou com a doutrina do pecado original, de que ele tinha tra\u00e7ado as grandes linhas (veja-se o coment\u00e1rio a (Gn_3,1) e a (Rm_5,12)). Sustentava-se imperturbavelmente que, devido ao pecado de Ad\u00e3o, todos os homens eram condenados ao Inferno, excepto aqueles que tinham sido baptizados ou que pelo menos tinham manifestado a vontade de receber o baptismo. E isto pregou-se at\u00e9 h\u00e1 bem pouco tempo.
Foi s\u00f3 na primeira metade do s\u00e9culo XX, especialmente no Conc\u00edlio Vaticano II, que este muro se abateu oficialmente. Durante os tr\u00eas s\u00e9culos anteriores, essa condena\u00e7\u00e3o sem apelo de todas as religi\u00f5es e da grande maioria dos homens que n\u00e3o entraram no movimento crist\u00e3o, tinha escandalizado in\u00fameros esp\u00edritos abertos, contribuindo para o ate\u00edsmo ocidental, mas a Igreja (ou melhor, as Igrejas) continuavam imut\u00e1veis. N\u00e3o podemos admirar-nos de que, mal se reconheceu que a vontade de Deus era a de salvar todos os homens (e isto n\u00e3o s\u00f3 em teoria, ou seja, que \u00abDeus quer salvar todos os homens na condi\u00e7\u00e3o de que acreditem e se tornem cat\u00f3licos romanos\u00bb), a massa dos crist\u00e3os tenha come\u00e7ado a desestimar a sua religi\u00e3o. N\u00e3o a negavam, pensavam que talvez era a melhor, mas que todas as religi\u00f5es tinham o mesmo valor. Bem depressa se chegou a pensar que neste campo n\u00e3o h\u00e1 caminho que se imponha e que cada um se salva como pode, se \u00e9 que ainda se pode falar de salvar-se ou ser salvo.
Os crente de hoje n\u00e3o podem assimilar, nalguns anos ou mesmo no decorrer dum s\u00e9culo, uma viragem de tal grandeza, e sem d\u00favida seremos incapazes, antes de passar muito tempo, de entender de vez  como Deus ama e salva todos os homens, e como o chamamento \u00e0 f\u00e9 \u00e9 uma gra\u00e7a \u00fanica. Devemos ouvir o que Deus diz ao profeta Jonas, mas n\u00e3o esqueceremos, apesar disso, que Jesus \u00e9 muito mais que qualquer Jonas ou Salom\u00e3o (Mt_12,41), mais que qualquer s\u00e1bio ou profeta do Oriente ou do Ocidente. Ningu\u00e9m, fora d'Ele, recebeu o Nome divino sem o qual a Humanidade n\u00e3o se salvar\u00e1 (Act_4,12).


