{N}1,{/}1: (1,1-2,10) Da mesma forma que Mois\u00e9s no Egipto, Neemias ocupa posi\u00e7\u00e3o privilegiada na corte persa, pois goza da aten\u00e7\u00e3o pessoal do rei. Todavia, ao saber da situa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica do seu povo, solidariza-se com ele, renunciando a uma situa\u00e7\u00e3o c\u00f3moda para lutar em favor dos seus compatriotas. O texto recorda o \u00caxodo (cf. nota em Ex 2,11-22). Neemias faz uma s\u00faplica ao Deus que age na Hist\u00f3ria para libertar o povo. \u00c9 esse Deus que \u00abcom grande poder e m\u00e3o forte\u00bb (1,10) far\u00e1 o rei permitir que Neemias retorne para junto dos seus.
A miss\u00e3o de Neemias, \u00e0 primeira vista, \u00e9 apenas a reconstru\u00e7\u00e3o da muralha, iniciativa que visa dar seguran\u00e7a \u00e0 cidade e tornar poss\u00edvel uma organiza\u00e7\u00e3o do grupo judaico. Como o livro deixar\u00e1 claro, a miss\u00e3o de Neemias tinha um objectivo global: reunir os judeus e dar-lhes uma organiza\u00e7\u00e3o centralizada em Jerusal\u00e9m.
A reac\u00e7\u00e3o de Sanabalat e Tobias (2,10) mostra que eles perceberam o alcance da miss\u00e3o de Neemias. Sanabalat era fiscal do imp\u00e9rio na Samaria; Tobias, governador de Amon, era um judeu que bajulava o rei persa, a fim de conseguir os pr\u00f3prios interesses. Ambos, associados a Gosem, chefe dos povos \u00e1rabes do Sul (2,19), temem que os judeus se organizem, sob a chefia de Neemias, escapando assim ao seu controlo e formando um territ\u00f3rio independente.

{N}2,{/}11: (11-20) Neemias \u00e9 cauteloso e sagaz. N\u00e3o diz a ningu\u00e9m o que pretende realizar, certamente para evitar boicotes ou descr\u00e9dito. Primeiro, faz o levantamento da situa\u00e7\u00e3o; depois, fala ao povo e apresenta as suas credenciais: Deus est\u00e1 do seu lado e j\u00e1 fez com que o rei concordasse. Agindo assim, Neemias consegue o empenho de todos. Como reac\u00e7\u00e3o, as autoridades (vv. 19-20) buscam intimidar o povo, acusando-o de subvers\u00e3o. O que elas temem, na realidade, \u00e9 perder o dom\u00ednio sobre os judeus. Neemias deixa claro que a sua inten\u00e7\u00e3o \u00e9 reorganizar o povo, segundo o projecto de Jav\u00e9. Mostra tamb\u00e9m que Sanabalat, Tobias e Gosem perder\u00e3o completamente o controlo sobre os judeus.

{N}3,{/}1: (1-32) Temos aqui um documento, provavelmente tirado dos arquivos do Templo, que nos informa sobre a topografia de Jerusal\u00e9m e sobre a geografia pol\u00edtica da prov\u00edncia, formada por Jerusal\u00e9m, Bet-Acarem, Masfa, Betsur e Ceila. H\u00e1 not\u00e1veis, pessoas importantes que recusam trabalhar (v. 5). A reconstru\u00e7\u00e3o das muralhas \u00e9 uma obra de vulto, que proteger\u00e1 a cidade contra ataques inimigos.

{N}3,{/}33: (3,33-4,17) Neemias encontra forte oposi\u00e7\u00e3o das autoridades, que at\u00e9 ao momento controlavam a regi\u00e3o. De come\u00e7o, riem-se ironicamente para desanimar os trabalhadores; depois, vendo que a constru\u00e7\u00e3o prossegue, amea\u00e7am passar \u00e0 ac\u00e7\u00e3o directa (4,5). Desse modo, ao trabalho de reconstru\u00e7\u00e3o, junta-se uma resist\u00eancia tenaz.

{N}5,{/}1: (1-5) Os atritos pol\u00edticos enfrentados por Neemias ocultam, de facto, uma problem\u00e1tica social: os seus opositores enriquecem explorando o povo, j\u00e1 sobrecarregado pelos tributos que deve pagar ao estrangeiro, e que se v\u00ea cada vez mais empurrado para a pobreza e mis\u00e9ria. Primeiro, \u00e9 for\u00e7ado a penhorar a produ\u00e7\u00e3o; depois, tamb\u00e9m as propriedades; e finalmente, t\u00eam que vender os pr\u00f3prios filhos como escravos. O pior de tudo \u00e9 que essa condi\u00e7\u00e3o da maioria \u00e9 provocada por uma minoria privilegiada de not\u00e1veis e magistrados (v. 7) que pertence ao mesmo povo.
A situa\u00e7\u00e3o dos judeus ap\u00f3s o ex\u00edlio mostra, de modo bastante dr\u00e1stico, a forma\u00e7\u00e3o de grupos desiguais: uns vivem no estrangeiro e comandam de fora; dentro do territ\u00f3rio, um grupinho acomoda-se ao dom\u00ednio estrangeiro e enriquece, enquanto o povo tende a empobrecer.

{N}5,{/}6: (6-13) Foi ultrapassado o limite do suport\u00e1vel. O povo queixa-se com raz\u00e3o; Neemias enfrenta os opressores e publicamente denuncia o crime: vender os irm\u00e3os como escravos. N\u00e3o h\u00e1 justifica\u00e7\u00e3o para tal procedimento. Neemias {C}apela para o que h\u00e1 de mais sagrado:{/} o temor de Deus. A seguir, apresentando a sua pr\u00f3pria atitude como exemplo, {C}prop\u00f5e uma amnistia geral{/}. Os opressores n\u00e3o t\u00eam outra sa\u00edda, a n\u00e3o ser aceitar a proposta.

{N}5,{/}14: (14-19) Neemias \u00e9 o modelo de governador, que n\u00e3o usa o cargo para explorar o povo. O texto n\u00e3o deixa claro quem \u00e9 que sustentava os gastos do governo.

{N}6,{/}1: (1-19) Os inimigos pol\u00edticos de Neemias voltam \u00e0 carga. Desta vez, preparam ciladas, recorrem \u00e0 intimida\u00e7\u00e3o, manipulam profetas, escrevem amea\u00e7as. Se Neemias tivesse aceite o conselho de Sema\u00edas e se tivesse refugiado no santu\u00e1rio, teria ca\u00eddo no descr\u00e9dito e difama\u00e7\u00e3o, porque, al\u00e9m de ser proibido um leigo entrar no santu\u00e1rio, tal gesto seria um sinal de covardia.
Relacionado com a aristocracia e os sacerdotes de Jerusal\u00e9m, Tobias, governador de Amon, goza de muita influ\u00eancia entre os judeus. Os seus descendentes formaram uma fam\u00edlia que sempre esteve ao lado do poder estrangeiro, e isso garantia-lhe o controlo do com\u00e9rcio na regi\u00e3o.

{N}7,{/}1: (1-3) A reconstru\u00e7\u00e3o da muralha de Jerusal\u00e9m possibilitava espa\u00e7o e condi\u00e7\u00f5es para organizar pol\u00edtica e socialmente a comunidade judaica, independentemente da influ\u00eancia das outras prov\u00edncias. Trata-se de uma situa\u00e7\u00e3o fr\u00e1gil, pois Tobias, governador de Amon, tinha muitos aliados dentro de Jerusal\u00e9m, que poderiam facilmente provocar dissid\u00eancias e sabotagens. Da\u00ed as medidas de seguran\u00e7a para a cidade, tanto nas muralhas como nas casas.

{N}7,{/}4: (4-72a) Quando os repatriados voltaram do ex\u00edlio, encontraram Jerusal\u00e9m arruinada e fixaram-se em pequenas aldeias, perto dos campos que cultivavam. A partir de crit\u00e9rios geneal\u00f3gicos, Neemias redistribui a popula\u00e7\u00e3o, a fim de repovoar Jerusal\u00e9m, tornando-a centro da comunidade judaica, Cf. tamb\u00e9m nota em Esd 2,1-70.

{N}7,{/}72: (7,72b-8,12) No primeiro dia do s\u00e9timo m\u00eas de um ano situado na segunda metade do s\u00e9c. V. a.C., nasce o fen\u00f3meno englobante chamado {C}juda\u00edsmo{/}. O acontecimento marcante \u00e9 o {C}livro da Lei,{/} certamente o n\u00facleo do actual Pentateuco, promulgado publicamente como lei que reger\u00e1 a vida pol\u00edtica, social e religiosa da comunidade. Da\u00ed por diante e at\u00e9 aos nossos dias, o juda\u00edsmo pouco a pouco foi-se tornando a {C}religi\u00e3o do livro,{/} que acabou por substituir completamente o Templo e os sacrif\u00edcios.
A comunidade nasce quando todos ouvem a {C}Palavra de Deus,{/} que precisa de ser {C}traduzida{/} (esclarecida no seu significado original) e {C}explicada{/} (aplicada \u00e0 situa\u00e7\u00e3o concreta da comunidade), para que todos a compreendam. Essa Palavra gera sempre novo comportamento, que produz partilha, comunh\u00e3o e alegria (refei\u00e7\u00e3o). O centro vital da comunidade \u00e9 a compreens\u00e3o da Palavra, que leva a comunidade a praticar a justi\u00e7a da qual surge a vida para todos.

{N}8,{/}13: (13-18) Sobre a festa das Tendas, cf. nota em Dt 16,1-17. A recorda\u00e7\u00e3o do tempo de Josu\u00e9 (v. 17) parece indicar que a comunidade judaica revive o tempo em que as tribos se reuniram para constituir uma sociedade justa e fraterna. 

{N}9,{/}1: (1-37) Esta celebra\u00e7\u00e3o penitencial foi feita provavelmente ap\u00f3s as medidas tomadas por Esdras sobre os casamentos mistos. O texto, portanto, viria logo ap\u00f3s Esd 10,44. Os vv. 36-37, por\u00e9m, tornam mais ampla a situa\u00e7\u00e3o.
Os vv. 5-37 s\u00e3o um dos textos penitenciais mais completos e belos do Antigo Testamento. Temos a\u00ed uma revis\u00e3o de toda a hist\u00f3ria do povo, estruturada segundo a vis\u00e3o da hist\u00f3ria, desde a conquista da terra at\u00e9 ao ex\u00edlio na Babil\u00f3nia: {C}pecado e castigo, convers\u00e3o e gra\u00e7a{/} (cf. Introdu\u00e7\u00e3o ao livro dos Ju\u00edzes). O centro da celebra\u00e7\u00e3o penitencial \u00e9 o reconhecimento da verdade, e isso implica declarar que {C}Deus \u00e9 inocente{/} e reconhecer que a desgra\u00e7a prov\u00e9m da infidelidade do povo. (cf. notas em Sl 50 e 51). Toda a celebra\u00e7\u00e3o penitencial, portanto, \u00e9 um {C}momento de convers\u00e3o{/} e de volta ao projecto de Deus, porque s\u00f3 em Deus \u00e9 poss\u00edvel encontrar liberdade e vida. Se o povo de Deus n\u00e3o confessa publicamente os seus pecados, absolvendo Deus como \u00fanico inocente, corre o perigo de declarar que Deus \u00e9 c\u00famplice dos seus pecados.

{N}10,{/}1: (1-40) A confiss\u00e3o de f\u00e9 e o compromisso com Deus t\u00eam consequ\u00eancias sociais bem determinadas: p\u00f4r em pr\u00e1tica os mandamentos (v. 30), manter a identidade do povo (v. 31), reservar o s\u00e1bado para o culto e o descanso (v. 32), dar oportunidade a que os pobres se sustentem e refa\u00e7am a sua vida (v. 32), sustentar aqueles que governam ou que defendem os interesses do povo (vv. 33-40). O Templo merece especial aten\u00e7\u00e3o (v. 40), porque, na \u00e9poca, \u00e9 o \u00fanico ponto de uni\u00e3o na vida social da comunidade. 

{N}11,{/}1: (1-36) Com base na lista dos primeiros repatriados, procura-se redistribuir a popula\u00e7\u00e3o judaica, de modo que Jerusal\u00e9m seja repovoada. O recurso ao sorteio e o v. 2 deixam claro que, nesse tempo, era mais f\u00e1cil viver no interior do que na capital. Os vv. 20-36 mostram que os judeus se espalharam bastante para o Sul, no Negueb.

{N}12,{/}1: (1-26) Temos aqui uma tentativa de reunir documentos diferentes para dar uma vis\u00e3o conjunta das fam\u00edlias de levitas, desde o regresso do ex\u00edlio at\u00e9 405 a.C. Os vv. 10-11, com a lista dos sumos sacerdotes de 520 a 405 a.C., s\u00e3o provavelmente um acr\u00e9scimo.

{N}12,{/}27: (27-43) A obra de Neemias \u00e9 coroada com festa solene. O autor ressalta a presen\u00e7a dos levitas vindos de todas as cidades, e introduz Esdras dentro da cerim\u00f3nia. De facto, essa prociss\u00e3o ser\u00e1 organizada mais tarde, em per\u00edodos regulares, para festejar a reconstru\u00e7\u00e3o da cidade.

{N}12,{/}44: (44-47) O autor considera Zorobabel e Neemias como pioneiros de uma \u00e9poca ideal, em que os direitos e dignidades eram respeitados e a Lei observada \u00e0 risca. Mais uma vez, o autor salienta a fun\u00e7\u00e3o dos levitas, frente \u00e0s pretens\u00f5es exclusivistas dos sacerdotes. Em geral, estes eram mais favor\u00e1veis \u00e0 pol\u00edtica que os governadores persas exerciam nas regi\u00f5es vizinhas.

{N}13,{/}1: (1-14) A lei de Dt 23,3-6 visava proteger o povo contra influ\u00eancias estrangeiras que poderiam desfigurar o projecto de uma sociedade justa e fraterna. De modo algum significava um separatismo racial ou nacional (cf. Dt 23,7-9). Esta lei \u00e9 retomada a prop\u00f3sito da atitude do sacerdote Eliasib, que alojou dentro do Templo at\u00e9 o governador Tobias, inimigo declarado da reorganiza\u00e7\u00e3o da comunidade judaica.
Os vv. 10-14 mostram que Tobias n\u00e3o s\u00f3 ficou hospedado nas depend\u00eancias do Templo, mas intrometeu-se na organiza\u00e7\u00e3o da comunidade judaica. Tirando o sustento dos levitas e sacerdotes (v. 5), Tobias mudou o n\u00facleo unificador da comunidade, que era o culto (sacerdotes) e a prega\u00e7\u00e3o (levitas).

{N}13,{/}15: (15-22) Conforme a legisla\u00e7\u00e3o antiga (cf. Dt 5,12-15), o s\u00e1bado \u00e9 dia de repouso para todos. Ap\u00f3s o ex\u00edlio, adquire tamb\u00e9m sentido cultual (cf. Ex 20,8-11). Como dia de Jav\u00e9 e como dia do homem, o s\u00e1bado existe para celebrar a liberdade e a vida, a fim de gerar uma sociedade justa e fraterna durante a semana. A gan\u00e2ncia de lucro perverte o dia de Deus e do homem, produzindo uma sociedade constru\u00edda sobre a escravid\u00e3o e a opress\u00e3o.

{N}13,{/}23: (23-31) \u00c0 primeira vista, Neemias parece tomar atitude mais dura do que Esdras (cf. nota em Esd 9,1-10,17). Note-se, por\u00e9m, que o primeiro n\u00e3o exige a separa\u00e7\u00e3o das mulheres nem dos filhos nascidos de casamento entre judeus e estrangeiros. Relembrando a figura de Salom\u00e3o, Neemias deixa claro que a proibi\u00e7\u00e3o de casamentos com estrangeiros visa preservar o projecto do povo de Deus e n\u00e3o salvaguardar ent\u00e3o a pureza da ra\u00e7a. Se no tempo de Salom\u00e3o o casamento significava alian\u00e7a com pa\u00edses estrangeiros (cf. nota em 1Rs 11,1-13), no p\u00f3s-ex\u00edlio a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 mais cr\u00edtica ainda: a l\u00edngua e os costumes estrangeiros podiam dissolver completamente a exist\u00eancia da comunidade judaica. Por outro lado, o casamento com estrangeiros \u00e9 visto como \u00abprofana\u00e7\u00e3o\u00bb contra o sacerd\u00f3cio e contra \u00aba alian\u00e7a dos sacerdotes e levitas\u00bb. Essa alian\u00e7a \u00e9 provavelmente o eixo central de tr\u00eas livros: Cr\u00f3nicas, Esdras e Neemias. Trata-se talvez de um compromisso que os sacerdotes e levitas assumiram de organizar a comunidade judaica segundo o culto a Jav\u00e9 (sacerd\u00f3cio) e as tradi\u00e7\u00f5es dos antepassados, conservadas principalmente no livro do Deuteron\u00f3mio (levitismo; cf. Ne 13,1-2).

