{N}1,{/}1: (1-27) Pressente-se aqui o relato antigo com o an\u00fancio da morte de Saul e J\u00f3natas (1Sm 31,3-5), o luto e a lamenta\u00e7\u00e3o (um dos mais primitivos poemas b\u00edblicos), resultantes da lealdade por parte de David. Foi adicionada outra vers\u00e3o sobre a morte de Saul (vv. 5-10) em que entra um amalecita a pensar, em v\u00e3o, nalguma recompensa (vv. 13-15). O respeito de David por Saul e a amizade com o seu filho J\u00f3natas facilitam a aproxima\u00e7\u00e3o com as tribos do Norte que rapidamente o aceitam como rei (cf. 2Sm 5).

{N}2,{/}1: (1-7) Com a morte de Saul, David consegue a realeza sobre a tribo de Jud\u00e1. Os vv. 5-7 mostram que ele procura, desde o in\u00edcio, ampliar o poder al\u00e9m das fronteiras da sua pr\u00f3pria tribo.

{N}2,{/}8: (8-32) Torna-se cada vez mais clara a oposi\u00e7\u00e3o e competi\u00e7\u00e3o entre as tribos do Norte e a tribo de Jud\u00e1. Come\u00e7a tamb\u00e9m a medi\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre Joab, partid\u00e1rio de David, e Abner, partid\u00e1rio da fam\u00edlia de Saul. A inten\u00e7\u00e3o de Asael \u00e9, provavelmente, n\u00e3o perder de vista Abner, para que a tropa que vem atr\u00e1s possa prend\u00ea-lo, desmobilizando o ex\u00e9rcito inimigo. O epis\u00f3dio mostra uma atitude de bom-senso, pois os comandantes notam que se trata de uma luta entre irm\u00e3os (vv. 26-27).

{N}3,{/}1: (1-5) Aqui s\u00e3o nomeados somente os primog\u00e9nitos de cada uma das esposas. Mais tarde, todos eles ir\u00e3o competir para suceder ao pai.

{N}3,{/}6: (6-39) O epis\u00f3dio salienta mais uma vez a t\u00e1ctica de David para conseguir o poder sobre todo o Israel: ele n\u00e3o quer usar a viol\u00eancia e o derramamento de sangue, mas o acordo pac\u00edfico.

{N}4,{/}1: (1-12) Isbaal tinha sido feito rei das tribos do Norte (cf. 2,9). Com a sua morte, fica aberto para David o caminho para unificar todas as tribos e formar uma na\u00e7\u00e3o \u00fanica.

{N}5,{/}1: (1-5) David colhe finalmente o fruto maduro de todos os seus esfor\u00e7os: a unifica\u00e7\u00e3o das tribos sob a sua chefia. E isso realizou-se conforme ele desejava: n\u00e3o atrav\u00e9s da imposi\u00e7\u00e3o, mas atrav\u00e9s do consentimento e a pedido do povo. Termina aqui o Sistema das Tribos, e Israel come\u00e7a a ser uma na\u00e7\u00e3o com regime mon\u00e1rquico. O {C}pacto{/} \u00e9 uma esp\u00e9cie de contrato entre o rei e os representantes (anci\u00e3os) das tribos, regulando uma troca de deveres e direitos. Parte importante nessa transac\u00e7\u00e3o \u00e9 o compromisso m\u00fatuo: o povo compromete-se a pagar o tributo; e o rei compromete-se a defender o povo dos inimigos externos e a organizar a vida da sociedade de acordo com a justi\u00e7a e o direito.

{N}5,{/}6: (6-16) A escolha de Jerusal\u00e9m como capital \u00e9 um acto estrat\u00e9gico e acertado de David que escolhe instalar-se na cidade de Jerusal\u00e9m, at\u00e9 ent\u00e3o em poder dos jebuseus (v. 6; cf. Js 15,63; Jz 1,21) e situada entre Israel e Jud\u00e1. Evita assim melindres de parte a parte. O texto n\u00e3o fala propriamente de uma conquista. \u00c9 prov\u00e1vel que David tenha feito um pacto com a dinastia sacerdotal que governava a cidade: David seria o chefe pol\u00edtico, e Sadoc o chefe religioso (cf. 2Sm 8,17 e Gn 14).

{N}5,{/}17: (17-25) Os filisteus assustam-se com o crescente poder de David e tentam conservar os territ\u00f3rios conquistados. David, por\u00e9m, encurrala-os cada vez mais junto \u00e0 costa mar\u00edtima.

{N}6,{/}1: (1-23) A arca era, por excel\u00eancia, o sacramento da religi\u00e3o das tribos. Colocando-a em Jerusal\u00e9m, David serve-se da religi\u00e3o para consolidar politicamente o seu reinado. O epis\u00f3dio dos vv. 6-10, por\u00e9m, mostra que a religi\u00e3o est\u00e1 acima da pol\u00edtica e n\u00e3o pode ser manipulada por ela. Ao mesmo tempo, o texto deixa claro que a sacralidade da arca n\u00e3o impede a express\u00e3o religiosa popular, em clima de alegria e festa.

{N}7,{/}1: (1-17) David quer construir uma casa, isto \u00e9, um templo para Jav\u00e9. Jav\u00e9 recusa, pois est\u00e1 presente no meio do povo que luta pela vida e liberdade. Em troca, \u00e9 Jav\u00e9 quem vai construir uma casa, isto \u00e9, uma dinastia para David: o poder estar\u00e1 sempre nas m\u00e3os dos seus descendentes. O or\u00e1culo \u00e9 sem d\u00favida uma interven\u00e7\u00e3o-promessa que procura justificar e preservar o poder din\u00e1stico da fam\u00edlia de David, a come\u00e7ar por Salom\u00e3o. As tribos do Norte, por\u00e9m, v\u00e3o logo rebelar-se contra esse verdadeiro "acto institucional'' (cf. 1Rs 12).
Mas o or\u00e1culo visa mais longe e deixa entrever um descendente privilegiado: o Messias. A profecia de Nat\u00e3 \u00e9 ponto culminante destes livros e primeiro anel da esperan\u00e7a messi\u00e2nica, elaborada tanto no Antigo como no Novo Testamento. Com o fracasso da realeza em Jud\u00e1, o Messias (rei descendente de David) torna-se o rei ideal que libertar\u00e1 o povo e o far\u00e1 viver conforme a justi\u00e7a e o direito (cf. Is 11,1-9 e nota). O Novo Testamento v\u00ea a pessoa de Jesus como a realiza\u00e7\u00e3o da promessa do Messias (Cristo=Ungido=Messias). 

{N}7,{/}18: (18-29) O texto \u00e9 uma esp\u00e9cie de resposta ao or\u00e1culo de Nat\u00e3 (vv. 4-17). Talvez seja originariamente uma ora\u00e7\u00e3o que os reis costumavam repetir em alguma celebra\u00e7\u00e3o solene, relembrando o sentido da fun\u00e7\u00e3o governativa dentro de um povo que foi libertado por Jav\u00e9.

{N}8,{/}1: (1-14) O resumo das conquistas de David mostra que ele cumpriu a primeira parte do contrato: livrar o povo dos seus inimigos.

{N}8,{/}15: (15-18) O outro dever do rei era governar o povo, fazendo-o viver segundo a justi\u00e7a e o direito. O texto mostra que David cumpriu a parte do contrato com o povo. Os vv. 16-18 comprovam a forma\u00e7\u00e3o inicial de uma pluralidade governativa, que se tornar\u00e1 bem mais complexa no tempo de Salom\u00e3o.

{N}9,{/}1: (1-13) David n\u00e3o esquece a amizade que tinha por J\u00f3natas e o compromisso que fizera com ele (1Sm 20,15-16.42); por isso, leva o \u00fanico filho sobrevivente do amigo para viver no pal\u00e1cio real.
  9-20: Come\u00e7a aqui um longo relato que se estende at\u00e9 1Rs 1-2, e cont\u00e9m a hist\u00f3ria da fam\u00edlia de David, com especial aten\u00e7\u00e3o \u00e0s lutas pela sucess\u00e3o do trono. Ele mostra que Salom\u00e3o \u00e9 o herdeiro de David que o Senhor escolheu, afastando os demais concorrentes, quer os descendentes de Saul - Meribaal (9) e Seba (20) - quer os pr\u00f3prios filhos - Amnon (13), Absal\u00e3o (14-20) e Adonias (1Rs 1-2). O conjunto prov\u00e9m duma admir\u00e1vel narrativa antiga, utilizada aqui quase sem retoques, onde se palpa a objectividade, que parece resultar do testemunho directo.

{N}10,{/}1: (1-19) Com a vit\u00f3ria sobre os amonitas e arameus, o reino de David atinge a sua m\u00e1xima extens\u00e3o. Ao mesmo tempo, esse aumento de poder provoca a decad\u00eancia de David, quando ele come\u00e7a a romper o contrato com o povo.

{N}11,{/}1: (1-27) A fun\u00e7\u00e3o da autoridade \u00e9 servir o povo, defendendo-o dos inimigos e fazendo-o viver segundo a justi\u00e7a e o direito. Ora, David trai completamente a sua fun\u00e7\u00e3o de autoridade: n\u00e3o acompanha mais o ex\u00e9rcito (deixa de defender o povo), torce a justi\u00e7a e viola o direito, usando o poder para satisfazer os seus caprichos pessoais.
O texto deixa claro que o poder \u00e9 sempre amb\u00edguo e pode tornar-se algo extremamente perigoso. O poder em si n\u00e3o \u00e9 pr\u00f3prio da humanidade, mas de Deus, e em m\u00e3os humanas s\u00f3 se justifica quando entendido como fun\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o, para que o povo tenha liberdade e vida. O poder torna-se totalmente mau, quando usado para satisfazer interesses pessoais e de grupos privilegiados, \u00e0 custa do povo.

{N}12,{/}1: (1-15) A par\u00e1bola contada por Nat\u00e3 for\u00e7a David a dar uma senten\u00e7a contra si pr\u00f3prio. O erro de David foi usar o poder em proveito pessoal, e isso desencadeou ambi\u00e7\u00f5es e competi\u00e7\u00f5es dentro da sua pr\u00f3pria fam\u00edlia. Come\u00e7a ent\u00e3o a luta pela sucess\u00e3o.

{N}12,{/}15: (15-25) A morte do filho de David foi uma condena\u00e7\u00e3o do seu pecado. O nascimento de Salom\u00e3o, desde j\u00e1 chamado "Querido de Jav\u00e9'', \u00e9 sinal de que Deus n\u00e3o abandonou David.

{N}12,{/}26: (26-31) Com a conquista de Rab\u00e1, termina a guerra contra os amonitas. Ao inv\u00e9s da consagra\u00e7\u00e3o ao exterm\u00ednio, os despojos s\u00e3o recolhidos e a popula\u00e7\u00e3o dominada \u00e9 submetida a trabalhos for\u00e7ados. Com isso come\u00e7a justamente aquilo que o sistema das tribos queria evitar: o acumular de riquezas e a opress\u00e3o.

{N}13,{/}1: (1-39) Come\u00e7a a competi\u00e7\u00e3o pelo poder e a luta pela sucess\u00e3o. Amnon \u00e9 o primog\u00e9nito e, naturalmente, o sucessor directo de David. Absal\u00e3o certamente n\u00e3o pretendia apenas vingar a honra da irm\u00e3, mas servir-se do caso para eliminar o mais forte concorrente ao trono.

{N}14,{/}1: (1-33) Absal\u00e3o \u00e9 o terceiro filho de David e, como nada se diz de Queleab (2Sm 3,3), \u00e9 o pretendente mais directo ao trono. Absal\u00e3o, por\u00e9m, est\u00e1 afastado de David. O estratagema de Joab visa fazer com que David se reconcilie com Absal\u00e3o, o que acontece em duas etapas: primeiro, David aceita o retorno do filho, mas n\u00e3o quer receb\u00ea-lo; mais tarde, David acolhe Absal\u00e3o. A hist\u00f3ria da mulher de T\u00e9cua \u00e9 confusa, mas uma coisa \u00e9 clara: David compromete-se com juramento a n\u00e3o aplicar a seu filho a pena do "vingador do sangue'' (v. 11; cf. nota em Nm 35,9-24).

{N}15,{/}1: (1-12) Absal\u00e3o alicia demagogicamente o povo, aproveitando para atacar um ponto importante no contrato entre o rei e o povo. \u00c9 que a administra\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a provavelmente arrastava-se nos meandros da burocracia. Com isso, Absal\u00e3o consegue preparar um golpe de estado. 

{N}15,{/}13: (15,13-16,14) Temendo os acontecimentos, David foge de Jerusal\u00e9m e vai para o deserto. Enquanto enfrenta a conspira\u00e7\u00e3o dentro de sua pr\u00f3pria fam\u00edlia, encontra fidelidade e apoio fora, inclusive de estrangeiros filisteus. Ao mesmo tempo, prepara um servi\u00e7o de espionagem, para manter-se informado sobre as manobras de Absal\u00e3o. Em plena fuga, David defronta-se com partid\u00e1rios e descendentes de Saul: um ajuda, e outro amaldi\u00e7oa. Na situa\u00e7\u00e3o de conjunto, podem-se perceber as divis\u00f5es dentro do reino.

{N}16,{/}15: (15-23) Estabelecendo-se em Jerusal\u00e9m e tomando as concubinas do pai, Absal\u00e3o assume o comportamento de verdadeiro sucessor. A profecia de Nat\u00e3 v\u00ea nisso um castigo pelo pecado de David (cf. 2Sm 12,11-12).

{N}17,{/}1: (1-23) David e aqueles que o acompanham s\u00e3o salvos de um massacre gra\u00e7as a Cusai, que consegue retardar o ataque, e devido \u00e0 rede de informa\u00e7\u00f5es montada por David, ao apoio e acolhimento de boa parte do povo.

{N}17,{/}24: (17,24-19,9) Em toda a vida, mesmo depois de rei, David n\u00e3o deixou que o poder e a ambi\u00e7\u00e3o se sobrepusessem aos seus sentimentos. Tal proceder, onde a afectividade vence a fria raz\u00e3o pol\u00edtica, embora pare\u00e7a paradoxal, talvez seja um dos motivos que o levou a buscar sempre a reconcilia\u00e7\u00e3o e a justi\u00e7a, e que o fez estimado de todo o povo.

{N}19,{/}9: (19,9-20,22) A volta de David n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil: durante a sua aus\u00eancia, os grupos tomaram partido, ora a favor, ora contra ele. A inten\u00e7\u00e3o do rei \u00e9 refazer pacificamente a unidade, mas a antiga rivalidade entre as tribos do Norte e a tribo de Jud\u00e1 reacende-se e exige que David tome atitudes de for\u00e7a para evitar a divis\u00e3o.

{N}20,{/}23: (23-26) Comparar com 2Sm 8,15-18. A presente lista mostra que a crise foi superada, e o governo de David novamente se estabilizou. Nota-se a preponder\u00e2ncia de cargos militares, ao lado de uma nova classe social, talvez de grupos dominados, destinada aos trabalhos for\u00e7ados, isto \u00e9, exclusivamente ao servi\u00e7o do Estado. Esse novo grupo vai aumentar ainda mais durante o reinado de Salom\u00e3o.

{N}21,{/}1: (1-14) A fome \u00e9 vista como castigo de Jav\u00e9 por causa do crime de Saul contra os gabaonitas, que violara o pacto feito em Js 9. \u00c9 prov\u00e1vel que a inten\u00e7\u00e3o principal de David seja livrar-se dos descendentes de Saul, poss\u00edveis rivais. Talvez o lugar mais pr\u00f3prio para este epis\u00f3dio seja antes do cap\u00edtulo 9.
  21-24: Esta s\u00e9rie de textos foi acrescentada posteriormente, interrompendo a hist\u00f3ria da sucess\u00e3o de David, que continua em 1Rs 1.

{N}21,{/}15: (15-22) Estes epis\u00f3dios, de sabor um tanto folcl\u00f3rico, ficariam melhor depois de 5,17-25, onde se narram as lutas contra os filisteus durante os primeiros anos do reinado de David.

{N}22,{/}1: (1-51) Com poucas diferen\u00e7as, este c\u00e2ntico est\u00e1 reproduzido no Sl 18. Trata-se de uma celebra\u00e7\u00e3o para agradecer a protec\u00e7\u00e3o de Jav\u00e9 e comemorar a vit\u00f3ria sobre os inimigos. Nesse contexto, aparece a primeira fun\u00e7\u00e3o da autoridade: libertar o povo dos seus inimigos. Cf. tamb\u00e9m Sl 18 e nota.

{N}23,{/}1: (1-7) O texto salienta a segunda fun\u00e7\u00e3o da autoridade: fazer que o povo possa viver segundo a justi\u00e7a e o direito. As autoridades justas s\u00e3o uma b\u00ean\u00e7\u00e3o para o povo e produzem vida; as autoridades injustas s\u00e3o como espinheiros, e ser\u00e3o rejeitadas e destru\u00eddas pelo pr\u00f3prio povo.

{N}23,{/}8: (8-39) Ap\u00f3s a fuga diante de Saul, David tornou-se o chefe de um grupo de descontentes (cf. 1Sm 22,1-5). Mesmo depois de rei, ele manteve o seu ex\u00e9rcito pessoal. Aqui s\u00e3o lembrados os nomes dos seus soldados principais, com alguns pormenores de car\u00e1cter \u00e9pico e popular.

{N}24,{/}1: (1-25) O recenseamento demonstrava ambi\u00e7\u00e3o: de um lado, permitia a cadastragem da popula\u00e7\u00e3o que contribu\u00eda com tributos (explora\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica); por outro lado, o levantamento dos homens aptos para a guerra (domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica). As duas coisas n\u00e3o s\u00e3o critic\u00e1veis em si; s\u00f3 se tornam m\u00e1s quando a autoridade as absolutiza e nelas coloca a sua total confian\u00e7a. Comparar o v. 1 com 1Cr 21,1: depois do ex\u00edlio, a tenta\u00e7\u00e3o \u00e9 atribu\u00edda a Sat\u00e3, e n\u00e3o a Jav\u00e9.
A eira comprada por David \u00e9 o local onde Salom\u00e3o mais tarde vai construir o Templo. A inten\u00e7\u00e3o do autor \u00e9 mostrar David como fundador do culto em Jerusal\u00e9m.

