{N}1,{/}1: (1-54) Ap\u00f3s ser libertado da escravid\u00e3o no Egipto, o povo de Deus prepara-se no deserto para conquistar a terra que Deus lhe vai dar, onde ir\u00e1 formar uma sociedade conforme o projecto de Deus. Para isso, contudo, \u00e9 preciso {C}organizar-se{/} e estar preparado para a luta, pois ter\u00e1 que enfrentar aqueles que n\u00e3o querem viver segundo esse projecto. E no meio do povo que se organiza, Deus est\u00e1 presente (tenda da alian\u00e7a), como aliado que sustenta e dirige a luta do seu povo. Devido ao pecado, \u00e9 tamb\u00e9m um perigo, embora atenuado pela fun\u00e7\u00e3o dos levitas.

{N}2,{/}1: (1-34) O povo organizado que se p\u00f5e em marcha \u00e9 o ex\u00e9rcito que sai para enfrentar o inimigo; ao mesmo tempo, \u00e9 uma prociss\u00e3o. Toda a organiza\u00e7\u00e3o do povo se torna uma luta guiada pela f\u00e9, quando a finalidade \u00e9 sair da opress\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o para construir uma sociedade justa e fraterna. \u00c9 luta, porque os opressores n\u00e3o querem perder os seus privil\u00e9gios; \u00e9 f\u00e9, porque o povo acredita que os opressores ser\u00e3o vencidos pois o pr\u00f3prio Deus est\u00e1 no meio daqueles que procuram realizar o seu projecto na Hist\u00f3ria. Note-se que os levitas e sacerdotes, embora n\u00e3o participem directamente da luta, caminham com o povo, interpretando e estimulando a luta.

{N}3,{/}1: (3,1-4,49) Nestes cap\u00edtulos que anotam o recenseamento e as fun\u00e7\u00f5es dos levitas, o mais importante \u00e9 a substitui\u00e7\u00e3o dos primog\u00e9nitos pelos levitas (caps. 3,12-13.40-51). Para entender isto, \u00e9 necess\u00e1rio lembrar o que significa o resgate dos primog\u00e9nitos no contexto do \u00caxodo (cf. Ex 13,11-16; 13,1-2 e notas). Os levitas passam a ser um sinal de liberdade e vida no meio do povo. Agora, eles s\u00e3o \u00abum sinal na m\u00e3o e um frontal entre os olhos\u00bb, para lembrar que Jav\u00e9 \u00e9 o Deus da liberdade e da vida, que rejeita qualquer tipo de escravid\u00e3o e morte. Sobre a fun\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica dos levitas dentro do povo de Deus, cf. o livro do Deuteron\u00f3mio.

{N}5,{/}1: (1-4) A medida visava proteger o acampamento. Mais tarde, tornou-se uma regra social que exclu\u00eda os pobres e doentes do conv\u00edvio social. Sobre isto, cf. Mc 1,40-45; 7,14-23 e notas.
  5-6: A tradi\u00e7\u00e3o sacerdotal colocou aqui estas leis diversas para as ligar \u00e0 revela\u00e7\u00e3o do Sinai. Pelo teor e esp\u00edrito, s\u00e3o pr\u00f3ximas da {C}Lei da Pureza{/} (Lv 11-16) e da {C}Lei da Santidade{/} (Lv 17-26).

{N}5,{/}5: (5-10) Qualquer preju\u00edzo causado ao pr\u00f3ximo \u00e9 ofensa contra o pr\u00f3prio Deus: ambos devem ser reparados. O v. 8 sup\u00f5e que o prejudicado tenha morrido.

{N}5,{/}11: (11-31) Embora respirando mentalidade machista, o texto prev\u00ea, a seu modo, um meio para a mulher se defender contra a suspeita do marido. Numa sociedade governada pela justi\u00e7a, todos t\u00eam o direito de defender a pr\u00f3pria honra e dignidade. Cf. Jo 8,1-11 e nota.

{N}6,{/}1: (1-21) No povo de Deus sempre houve e haver\u00e1 pessoas que, atrav\u00e9s de uma promessa, se consagraram e se consagrar\u00e3o a Deus de alguma maneira particular, tornando-se assim sinal de que o povo todo pertence a Deus.

{N}6,{/}22: (22-27) A b\u00ean\u00e7\u00e3o \u00e9 um sinal da presen\u00e7a protectora e vivificante de Deus no meio do seu povo. O texto conserva uma b\u00ean\u00e7\u00e3o muito antiga, em que Jav\u00e9 \u00e9 invocado tr\u00eas vezes. Tal b\u00ean\u00e7\u00e3o mostra que o povo pertence a Deus e que este o aben\u00e7oa com a paz, quer dizer com a vida plena, segundo o modo b\u00edblico de entender a paz.

{N}7,{/}1: (1-9) Os membros da comunidade recebem os meios necess\u00e1rios para realizar cada um a pr\u00f3pria fun\u00e7\u00e3o. Encarregados de transportar os objectos mais sagrados, os filhos de Caat podem aproximar-se do que \u00e9 sagrado; por isso, n\u00e3o recebem carros nem animais.

{N}7,{/}10: (10-89) A consagra\u00e7\u00e3o do altar \u00e9 cercada de solenidade, pois o altar \u00e9 o centro do culto israelita. A descri\u00e7\u00e3o minuciosa das ofertas e dos grupos que as apresentam, mostra que todo o povo, devidamente representado, \u00e9 respons\u00e1vel pelo culto e nele participa num esp\u00edrito de partilha. A rela\u00e7\u00e3o com Deus \u00e9 ocasi\u00e3o para exprimir as rela\u00e7\u00f5es de fraternidade e partilha que devem existir na vida do povo de Deus.

{N}8,{/}1: (1-4) O candelabro, com sete l\u00e2mpadas que ardiam continuamente, \u00e9 s\u00edmbolo da luz de Jav\u00e9 espalhada pelo mundo todo (o n\u00famero 7 \u00e9 s\u00edmbolo de totalidade).

{N}8,{/}5: (5-26) Este texto reflecte a situa\u00e7\u00e3o do grupo dos levitas, depois do ex\u00edlio, quando estava subordinado aos sacerdotes. Mas a sua fun\u00e7\u00e3o no santu\u00e1rio ainda se justifica pela tradicional liga\u00e7\u00e3o com os antigos levitas.

{N}9,{/}1: (1-14) O texto reflecte os tempos em que a festa da P\u00e1scoa j\u00e1 se havia distanciado da sua significa\u00e7\u00e3o original - comemorar a liberta\u00e7\u00e3o do Egipto (cf. nota em Ex 12,1-14) - para se tornar um simples sacrif\u00edcio obrigat\u00f3rio oferecido a Jav\u00e9. Os vv. 10-14 mostram que j\u00e1 estamos numa \u00e9poca em que muitos t\u00eam de viajar para celebrar a festa em Jerusal\u00e9m. A novidade est\u00e1 em permitir, por raz\u00f5es de impureza ou outras, celebrar a P\u00e1scoa um m\u00eas depois.

{N}9,{/}15: (15-23) A nuvem luminosa \u00e9 s\u00edmbolo da iniciativa de Deus, que protege e guia o seu povo pelos caminhos da Hist\u00f3ria. O povo n\u00e3o age simplesmente por pr\u00f3pria iniciativa, mas obedece a Deus e analisa os acontecimentos, procurando neles o momento oportuno que Deus lhe d\u00e1 para agir.

{N}10,{/}1: (1-10) O toque da trombeta lembra as principais actividades do povo de Deus: reunir-se para tomar decis\u00f5es em comum, colocar-se em marcha na Hist\u00f3ria, partir para a luta e celebrar o seu Deus. No Novo Testamento, o toque da trombeta significa an\u00fancio do julgamento e do Reino (cf. Ap 8-11).

{N}10,{/}11: (11-36) Cf. nota em 2,1-34. O sogro de Mois\u00e9s recebe v\u00e1rios nomes: Hobab (v. 29), Raguel (Ex 2,18) e Jetro (Ex 3,1). Trata-se de algu\u00e9m que participou activamente no processo de liberta\u00e7\u00e3o e que, por isso, \u00e9 convidado a participar do povo de Deus.

{N}11,{/}1: (1-9) Ap\u00f3s o processo de liberta\u00e7\u00e3o surgem as dificuldades e obst\u00e1culos que desafiam a coragem do povo para construir uma nova realidade. Nesse momento surge a tenta\u00e7\u00e3o de se acomodar numa simples lembran\u00e7a do passado, onde a falta de liberdade era compensada pela possibilidade de consumir bens variados. Ser livre \u00e9 uma conquista cont\u00ednua, e a maior tenta\u00e7\u00e3o \u00e9 a de vender a liberdade a qualquer pre\u00e7o. 

{N}11,{/}10: (10-15) O povo n\u00e3o pode colocar sobre os ombros do chefe a responsabilidade do pr\u00f3prio destino, nem o chefe, em s\u00e3 consci\u00eancia, pode assumir tal responsabilidade.

{N}11,{/}16: (16-25) Jav\u00e9 responde tanto \u00e0s cr\u00edticas do povo (cf. nota vv. 31-35), como \u00e0s de Mois\u00e9s. Um ponto importante, no processo de liberta\u00e7\u00e3o, \u00e9 fazer que a chefia n\u00e3o fique ligada a uma s\u00f3 pessoa, mas que seja repartida entre representantes leg\u00edtimos de todo o povo. Isso, contudo, ainda n\u00e3o \u00e9 o ideal (cf. nota seguinte).

{N}11,{/}26: (26-30) O ideal de liberta\u00e7\u00e3o e constru\u00e7\u00e3o de uma nova sociedade \u00e9 que o povo todo seja capaz de discernir e participar conscientemente em todos os passos do processo. O epis\u00f3dio mostra que Deus n\u00e3o Se limita aos canais oficiais de estruturas e institui\u00e7\u00f5es, por melhores que elas sejam. Cf. nota em Mc 9,38-41.

{N}11,{/}31: (31-35) No processo de liberta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o querer enfrentar as dificuldades e julgar que a liberta\u00e7\u00e3o deixou de existir porque n\u00e3o existe ainda abund\u00e2ncia de bens, \u00e9 uma atitude ego\u00edsta, que acaba por destruir o pr\u00f3prio processo. Aqueles que assim procedem s\u00e3o exclu\u00eddos da caminhada. 

{N}12,{/}1: (1-16) Deus revela o seu projecto aos profetas, que s\u00e3o homens capazes de ler nos acontecimentos a ac\u00e7\u00e3o de Deus, e que dirigem o povo para a liberdade e a vida. Mois\u00e9s foi o profeta por excel\u00eancia que discerniu e manifestou, pela palavra e ac\u00e7\u00e3o, esse projecto divino. Por isso, ele tornou-se o modelo de toda a actividade prof\u00e9tica. Nenhum profeta poder\u00e1 contradizer a proposta de Deus, manifestada atrav\u00e9s de Mois\u00e9s, sob pena de retardar a caminhada do povo para a vida.

{N}13,{/}1: (1-33) Chega o momento de se alcan\u00e7ar a \u00abterra onde corre leite e mel\u00bb (v. 27), isto \u00e9, o ideal de todo um projecto de liberta\u00e7\u00e3o. A an\u00e1lise da realidade (explora\u00e7\u00e3o do pa\u00eds) vai demonstrar que as coisas n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o simples como se pode imaginar. Ser\u00e1 preciso enfrentar os cananeus que dominam essa terra. Eles s\u00e3o fortes e parecem invenc\u00edveis (gigantes, cidades grandes e fortificadas). Ent\u00e3o, o pr\u00f3prio objectivo a ser alcan\u00e7ado \u00e9 minimizado ou falsificado: desprezar e denegrir o ideal \u00e9 a maneira mais f\u00e1cil de fugir da luta ou evitar que ela seja desencadeada. Sob a capa desse desprezo e fuga esconde-se a covardia.

{N}14,{/}1: (1-45) No processo de liberta\u00e7\u00e3o, as incertezas provocam uma s\u00e9rie de tenta\u00e7\u00f5es: voltar \u00e0s seguran\u00e7as concedidas e prometidas pelo opressor (v. 2), desistir no meio da caminhada (vv. 2 e 3), renegar os verdadeiros chefes (cf. Ex 17,4), esquecer as conquistas j\u00e1 conseguidas (vv. 11.13-14), queimar etapas para chegar mais depressa ao objectivo (14,39-45), desprezar o ideal da liberta\u00e7\u00e3o (cf. Nm 13,1-33); fazer separa\u00e7\u00e3o entre a religi\u00e3o e os problemas concretos (cf. Ex 32). Tudo isso faz com que o projecto se torne muito mais dif\u00edcil e seja retardado por gera\u00e7\u00f5es inteiras.

{N}15,{/}1: (1-21) A oferta de alimentos para Jav\u00e9, tanto de origem animal como vegetal, tem como finalidade recordar que Ele \u00e9 a fonte da vida e que todos os dons prov\u00eam d'Ele.

{N}15,{/}22: (22-31) A ideia de {C}pecado involunt\u00e1rio{/} \u00e9 estranha para n\u00f3s. Entretanto, se sairmos do contexto do culto, e entrarmos no contexto mais amplo da caminhada para a liberta\u00e7\u00e3o e a vida, a ideia ganha sentido: qualquer erro, mesmo involunt\u00e1rio, pode prejudicar o processo. Ser\u00e1 preciso tomar consci\u00eancia dos erros cometidos, para os poder evitar.

{N}15,{/}32: (32-36) A lei do s\u00e1bado, originalmente, visava providenciar o descanso necess\u00e1rio para o povo usufruir a vida. Jesus criticar\u00e1 a transforma\u00e7\u00e3o do s\u00e1bado numa lei que oprime o homem e o impede de viver (cf. Mc 2,23-28; 3,1-6).

{N}15,{/}37: (37-41) Essas borlas deviam lembrar a alian\u00e7a feita com o Deus libertador e as normas que orientam para a constru\u00e7\u00e3o de uma nova sociedade. Mais tarde, esse memorial vai transformar-se em simples motivo de ostenta\u00e7\u00e3o vazia (cf. Mt 23,5).

{N}16,{/}1: (1-35) O cap\u00edtulo re\u00fane, desajeitadamente, duas tradi\u00e7\u00f5es, ficando \u00e0s vezes confuso. De um lado, temos um grupo que, diante das dificuldades, preferiria ter ficado na terra da escravid\u00e3o, em vez de enfrentar o caminho dif\u00edcil, que \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de uma nova sociedade. Por outro lado, temos o conflito entre os levitas e os descendentes do sacerdote Aar\u00e3o; estes lutam pelos direitos do sacerd\u00f3cio, provavelmente na \u00e9poca do p\u00f3s-ex\u00edlio.

{N}17,{/}1: (1-26) Aqui desenvolve-se o tema da supremacia do sacerd\u00f3cio de Aar\u00e3o e seus descendentes. Ressalta-se tamb\u00e9m o papel do verdadeiro chefe: zelar e promover o bem da comunidade. 

{N}17,{/}27: (27-18,7) Diante do problema levantado pelos levitas, o presente texto procura delimitar a fun\u00e7\u00e3o dos sacerdotes e a fun\u00e7\u00e3o dos levitas. A ideia reflectida aqui ir\u00e1 criar mais tarde outra mentalidade: que os diversos graus de proximidade com Jav\u00e9 \u00e9 que determinam o grau de santidade e pureza, ou seja, aqueles que est\u00e3o mais perto do santu\u00e1rio \u00e9 que s\u00e3o mais santos, e aqueles que est\u00e3o distantes, s\u00e3o pecadores e impuros. O Novo Testamento ir\u00e1 contra essa mentalidade, mostrando que Deus est\u00e1 perto de todo o povo, principalmente dos mais pobres e necessitados.

{N}18,{/}8: (8-32) Todos t\u00eam direito a viver do pr\u00f3prio trabalho. E o trabalho dos sacerdotes e levitas \u00e9 servir a Deus e \u00e0 comunidade; e disso \u00e9 que eles devem receber o necess\u00e1rio para o seu sustento. A cobi\u00e7a, por\u00e9m, \u00e9 uma tenta\u00e7\u00e3o constante e, na \u00e9poca de Jesus, o Templo j\u00e1 se havia transformado em lugar de explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o do povo (cf. Jo 2,13-22).

{N}19,{/}1: (1-22) A \u00e1gua da purifica\u00e7\u00e3o, que se preparava com as cinzas de uma novilha vermelha, \u00e9 uma antiga pr\u00e1tica m\u00e1gica assimilada pelos israelitas e aplicada ao sacrif\u00edcio pelo pecado. Essa pr\u00e1tica \u00e9 lembrada em Hb 9,13-14: a purifica\u00e7\u00e3o total s\u00f3 se consegue gra\u00e7as ao sangue de Cristo.
{N}
20,{/}1: (1-13) O epis\u00f3dio relembra Ex 17,1-7 (cf. nota). \u00c9 dif\u00edcil perceber qual foi a falta de Mois\u00e9s e Aar\u00e3o. Provavelmente, est\u00e1 no facto de que Deus mandou Mois\u00e9s falar \u00e0 rocha e n\u00e3o ao povo; em vez disso, Mois\u00e9s desafia o povo e toca na rocha com a vara. Talvez o texto queira somente justificar o facto de Mois\u00e9s e Aar\u00e3o n\u00e3o terem entrado na Terra Prometida.

{N}20,{/}14: (14-21) Na sua marcha para a vida, o povo liberto encontra muitos grupos que nem sequer lhe permitem a passagem.

{N}20,{/}22: (22-29) A morte de Aar\u00e3o \u00e9 apresentada como castigo pela sua falta de confian\u00e7a (cf. nota em 20,1-13).

{N}21,{/}1: (1-3) As cidades cananeias do Sul percebem a grande amea\u00e7a apresentada por esse povo liberto, disposto a conquistar uma terra. A {C}consagra\u00e7\u00e3o ao exterm\u00ednio{/} (ou lei do an\u00e1tema) significava destruir completamente tudo o que pertencia ao inimigo; desse modo, evitava-se a contamina\u00e7\u00e3o com qualquer sistema de vida contr\u00e1rio ao projecto de Jav\u00e9, nomeadamente a sedu\u00e7\u00e3o dos cultos cananeus (cf. Dt 7, 1-5; 33, 55). Horma significa exterm\u00ednio. 

{N}21,{/}4: (4-9) Na antiguidade, havia um culto \u00e0 serpente, adorada como divindade protectora e curadora. O texto mostra que Israel assimilou esse culto (cf. 2Rs 18,4). Aqui, por\u00e9m, a serpente de bronze \u00e9 s\u00edmbolo da protec\u00e7\u00e3o de Jav\u00e9, que conduz o povo para a vida, entre os perigos da caminhada. Ao mesmo tempo, lembra os erros cometidos e as consequ\u00eancias desses erros, para que a marcha se mantenha dentro do projecto libertador de Jav\u00e9. O Evangelho de Jo\u00e3o aplica a imagem da serpente a Jesus crucificado, sinal de salva\u00e7\u00e3o (Jo 3,14).

{N}21,{/}10: (10-20) O \u00abLivro das Guerras de Jav\u00e9\u00bb e o \u00abC\u00e2ntico do Po\u00e7o\u00bb s\u00e3o textos muito antigos que narravam tradi\u00e7\u00f5es sobre a chegada do povo. Deles foram conservados aqui alguns fragmentos. 

{N}21,{/}21: (21-35) Quando procura conquistar espa\u00e7os alternativos para formar uma nova sociedade segundo o projecto do Deus libertador, o povo coloca-se inevitavelmente diante de grupos que n\u00e3o o apoiam, e at\u00e9 procuram impedir a conquista desses espa\u00e7os. O povo n\u00e3o deve temer, porque Jav\u00e9 est\u00e1 do seu lado. A presen\u00e7a de um canto amorreu na B\u00edblia (vv. 27-30) mostra que havia grupos descontentes com a pol\u00edtica opressora do rei. Tais grupos unem-se a Israel para lutar contra o sistema opressor.

{N}22,{/}1: (1-41) O povo que assume o projecto de Deus e procura realiz\u00e1-lo historicamente, vai-se tornando pouco a pouco mais numeroso. No entanto, muitos resistem e op\u00f5em-se, porque sentem o povo como amea\u00e7a aos seus interesses e projectos. Tais advers\u00e1rios procuram paralisar e anular a realiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de uma forma alternativa de vida. Contudo, ningu\u00e9m consegue amaldi\u00e7oar o projecto de Deus, porque esse projecto \u00e9 uma resposta aos mais profundos anseios humanos. O texto faz-nos pensar no epis\u00f3dio de Paulo na estrada de Damasco (Act 9).
  22-24: Resultante da jun\u00e7\u00e3o de duas tradi\u00e7\u00f5es mal articuladas, o longo epis\u00f3dio de Bala\u00e3o apresenta um caso singular de profetismo. Chamado pelo rei de Moab para amaldi\u00e7oar o povo de Israel, o adivinho ou mago de poderes decisivos acaba por fazer o contr\u00e1rio. Tal \u00e9 o esp\u00edrito poderoso de Deus. Na \u00e9poca, b\u00ean\u00e7\u00e3os e maldi\u00e7\u00f5es, uma vez pronunciadas, eram eficazes e irrevog\u00e1veis (cf. Gn 27,33).

{N}23,{/}1: (1-12) \u00c9 na obedi\u00eancia a Deus que surge o verdadeiro discernimento: o povo que luta para conquistar a liberdade e a vida \u00e9 sempre aben\u00e7oado por Deus. Quem iria amaldi\u00e7oar um povo no qual se realiza a promessa feita a Abra\u00e3o? (cf. Gn 13,16; 28,14).

{N}23,{/}13: (13-26) Um povo que luta pela liberdade e pela vida n\u00e3o est\u00e1 a cometer crime nenhum; pelo contr\u00e1rio, est\u00e1 a lutar para que o projecto de Deus se realize na Hist\u00f3ria. Ir contra esse povo \u00e9 querer lutar contra o pr\u00f3prio Deus.

{N}23,{/}27: (27-24,13) Quem poder\u00e1 desafiar um povo que luta para realizar o projecto de Deus? Ele \u00e9 aben\u00e7oado e conseguir\u00e1 a vit\u00f3ria sobre os inimigos. O rei a que se alude no v. 7 \u00e9 provavelmente Saul, vitorioso contra os amalecitas (cf. 1Sm 15,8).

{N}24,{/}14: (14-25) O texto primitivo mostrava na {C}estrela{/} a chegada de grupos marginalizados que iriam construir uma nova sociedade. Mais tarde, a estrela passou a indicar o rei David, visto como o ideal da autoridade pol\u00edtica, pois ele libertou o povo dos inimigos e reuniu-o para viver conforme a justi\u00e7a e o direito. O Novo Testamento v\u00ea esse ideal realizado em Jesus Cristo, o descendente de David (cf. Mt 2,2-7).

{N}25,{/}1: (1-18) O perigo de um povo que luta para construir uma sociedade nova \u00e9 cair na sedu\u00e7\u00e3o da idolatria. Pode deixar-se levar por falsos absolutos, que o desviam da meta proposta, traindo o ideal da luta pela vida e liberdade.

{N}26,{/}1: (1-65) A gera\u00e7\u00e3o do \u00eaxodo pereceu na sua totalidade por causa de sua incoer\u00eancia e infidelidade: afastou-se do projecto de liberta\u00e7\u00e3o, que constr\u00f3i uma nova sociedade (cf. nota em Nm 14,1-45). O presente recenseamento mostra que a nova gera\u00e7\u00e3o se prepara para herdar a terra e reparti-la igualitariamente.

{N}27,{/}1: (1-11) No antigo Israel, a heran\u00e7a passava de pai para filho. Procurava-se, assim, perpetuar o nome da fam\u00edlia dentro do povo, mediante a posse da terra. A reivindica\u00e7\u00e3o das filhas de Salfaad introduz, nos costumes relativos \u00e0 heran\u00e7a, uma novidade que passa a ser lei: as mulheres t\u00eam o direito de conservar a heran\u00e7a do pai, do mesmo modo que outros parentes pr\u00f3ximos.

{N}27,{/}12: (12-23) Na transmiss\u00e3o do cargo de Mois\u00e9s para Josu\u00e9, notamos que o povo de Deus conta com chefes humanos, que devem estar submissos \u00e0 vontade de Deus. Aqui, a vontade de Jav\u00e9 \u00e9 expressa atrav\u00e9s de sorteio feito com os {C}urim{/}. Eram, provavelmente, dois objectos de cor ou tamanho diferentes, que os sacerdotes traziam no bolso. A extrac\u00e7\u00e3o de um ou de outro ao acaso era uma forma de sorteio, que podia responder \u00e0s perguntas de modo positivo ou negativo.

{N}28,{/}1: (1-30,1) O texto \u00e9 um acr\u00e9scimo feito pelos sacerdotes ap\u00f3s o ex\u00edlio, para regulamentar os sacrif\u00edcios no Templo (cf. Lv 1-7; 23; Ez 45).

{N}30,{/}2: (2-17) O voto e a promessa s\u00e3o modos espont\u00e2neos de fazer alguma coisa al\u00e9m do que \u00e9 prescrito pela lei. Note-se a diferen\u00e7a entre a legisla\u00e7\u00e3o que atinge o homem (v. 3) e a outra que atinge a mulher (vv. 4-16): numa sociedade patriarcal, a mulher est\u00e1 sempre subordinada ao pai ou marido.

{N}31,{/}1: (1-24) Sobre a lei do exterm\u00ednio ou an\u00e1tema, cf. Nm 21,1-3 e nota. Sobre o caso de Fegor, cf. Nm 25,1-18 e notas. O texto, redigido ap\u00f3s o ex\u00edlio, recorda as normas da guerra santa, para mostrar o perigo de Israel perder a pr\u00f3pria identidade atrav\u00e9s de matrim\u00f3nios mistos.

{N}31,{/}25: (25-54) O texto salienta a partilha dos bens conquistados. A parte reservada para Jav\u00e9 \u00e9 uma lembran\u00e7a cont\u00ednua de que Ele \u00e9 o chefe do povo e Aquele que concede os bens da vida.

{N}32,{/}1: (1-42) A ocupa\u00e7\u00e3o de terras pelos israelitas na Transjord\u00e2nia \u00e9 um facto historicamente complicado. O texto quer salientar a solidariedade entre os diversos grupos: ningu\u00e9m pode ficar acomodado enquanto todos n\u00e3o tiverem encontrado o seu lugar para morar e viver dignamente. 

{N}33,{/}1: (1-49) A lista procura conservar na mem\u00f3ria do povo de Deus os lugares por onde os hebreus passaram no deserto, antes de alcan\u00e7ar a Terra Prometida. Relembrar esses lugares significa reavivar as vit\u00f3rias e derrotas, a coragem e infidelidades, que activaram ou retardaram a realiza\u00e7\u00e3o do projecto libertador de Jav\u00e9. Essa recorda\u00e7\u00e3o ajuda a corrigir os erros passados e incentiva a coragem nessa etapa final da caminhada. 

{N}33,{/}50: (50-56) A Terra dada por Deus deve ser purificada de qualquer culto idol\u00e1trico, que poderia manter uma sociedade baseada na injusti\u00e7a e desigualdade. O texto salienta que a Terra \u00e9 dom de Deus e dever\u00e1 ser repartida igualitariamente entre todos.

{N}34,{/}1: (1-15) A delimita\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica da Terra Prometida parece estar aqui ligada ao sistema pol\u00edtico ideal das tribos. A demarca\u00e7\u00e3o das fronteiras n\u00e3o coincide com o auge do imp\u00e9rio de Salom\u00e3o, e critica o expansionismo e a desigualdade, caracter\u00edsticas dessa \u00e9poca. Tamb\u00e9m n\u00e3o aceita a redu\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio israelita, por ocasi\u00e3o das invas\u00f5es estrangeiras. Provavelmente, por detr\u00e1s dessa delimita\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica h\u00e1 uma cr\u00edtica a dois factores que destru\u00edram o sistema igualit\u00e1rio e fraterno: a pol\u00edtica interna de Salom\u00e3o e a domina\u00e7\u00e3o estrangeira.

{N}34,{/}16: (16-29) Na coordena\u00e7\u00e3o da partilha, a escolha dos chefes de tribos indica que \u00e9 necess\u00e1ria a participa\u00e7\u00e3o de todos os grupos interessados, para que n\u00e3o haja decis\u00f5es arbitr\u00e1rias e impositivas. Com isso procura evitar qualquer injusti\u00e7a na distribui\u00e7\u00e3o da terra.

{N}35,{/}1: (1-8) Mois\u00e9s e Aar\u00e3o pertenciam \u00e0 tribo de Levi. Foi esta tribo a respons\u00e1vel pela transmiss\u00e3o das tradi\u00e7\u00f5es sobre Jav\u00e9, o Deus libertador que d\u00e1 a terra ao povo. Essa tribo n\u00e3o recebeu territ\u00f3rio pr\u00f3prio, mas ficou espalhada entre todas as outras tribos, entre as quais exercia papel de fermento.

{N}35,{/}9: (9-34) A Terra Prometida \u00e9 lugar de vida: qualquer derramamento de sangue a profana. A legisla\u00e7\u00e3o a respeito das cidades de ref\u00fagio procura proteger a vida do homicida involunt\u00e1rio. O {C}vingador do sangue{/} ou {C}redentor {/}\u00e9 um parente pr\u00f3ximo que procura vingar a v\u00edtima e realizar a justi\u00e7a, matando o homicida.

{N}36,{/}1: (1-12) Esta lei completa a outra que regula a heran\u00e7a das filhas (cf. nota em 27,1-12).

