{N}1,{/}1: (1-2,4a) A narrativa da Cria\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um tratado cient\u00edfico, mas um poema que contempla o Universo como criatura de Deus. Escrita por elementos da escola sacerdotal durante o ex\u00edlio na Babil\u00f3nia (586-538 a.C.), parte do caos onde n\u00e3o h\u00e1 vida e, por ordena\u00e7\u00f5es encadeadas, distribui oito obras por seis dias de ac\u00e7\u00e3o (parece antes: tr\u00eas mais tr\u00eas), a que se junta o s\u00e9timo para o descanso. O esquema da se-mana simboliza a totalidade e perfei\u00e7\u00e3o da iniciativa divina. O teor da narrativa p\u00f5e em destaque v\u00e1rios pontos. Primeiro, que existe um \u00fanico Deus vivo e criador. Segundo, que a Natureza n\u00e3o \u00e9 divina, nem est\u00e1 povoada por outras divindades. Terceiro, que o ponto mais alto da Cria\u00e7\u00e3o \u00e9 a humanidade: ho-mem e mulher, ambos criados \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus. E a humanidade \u00e9 chamada a dominar e a transformar o Universo, colaborando na obra da Cria\u00e7\u00e3o segundo o des\u00edgnio de Deus. Impor-ta notar o desvelo peculiar do Criador pelos seres vivos, feitos e aben\u00e7oados por Ele. Toda a Cria\u00e7\u00e3o  \u00e9 marcada pelo selo de Deus: \u00abviu que era bom..., muito bom\u00bb.

{N}2,{/}4: (4b-25) Esta segunda narrativa da cria\u00e7\u00e3o, elaborada nos tempos do rei Salom\u00e3o (s\u00e9culo X a.C.) pela tradi\u00e7\u00e3o javista, tem por base a experi\u00eancia do o\u00e1sis na vastid\u00e3o do deserto. A terra seca \u00e9 aus\u00eancia de vida. A \u00e1gua, a chuva \u00e9 a grande b\u00ean\u00e7\u00e3o inicial (vv. 4b-6), que permite ao Criador modelar o homem e os demais seres vivos. {C}Modelar {/}\u00e9 pr\u00f3prio do oleiro que se reconhece na sua obra. Os vv. 8-17 narram a hist\u00f3ria do \u00c9den, um para\u00edso na terra donde sai o rio que se divide em quatro (n\u00famero c\u00f3smico, a totalidade da terra), onde \u00e1rvores e frutos s\u00e3o abundantes. Deus criou a Terra para que o homem a cultive e guarde, usufrua dela e possua vida plena (\u00e1rvore da vida). A condi\u00e7\u00e3o \u00fanica \u00e9 de o homem obedecer a Deus: respeitar o seu projecto de vida e fraternidade (assenhorear-se, comer o fruto da \u00e1rvore do conhecimento do bem e do mal). Os vv. 18-25 salientam duas coisas: primeiro, que o homem, \u00abao dar nome aos animais\u00bb, colabora e participa do poder criativo de Deus; segundo, que a mulher, formada da costela do homem (osso circular da zona do cora\u00e7\u00e3o), est\u00e1 vocacionada para sua companheira, ambos unidos no amor e admira\u00e7\u00e3o.

{N}3,{/}1: (1-24) O texto procura explicar a condi\u00e7\u00e3o pecadora de todos os seres humanos mediante esta imagem exemplar da origem. O mal n\u00e3o pode proceder de Deus; vir\u00e1 do homem. Mas, para que este n\u00e3o fique esmagado com o seu peso e mist\u00e9rio, parte da responsabilidade recai sobre essa enigm\u00e1tica criatura, serpente ou dem\u00f3nio, que seduz e tenta. O centro da quest\u00e3o \u00e9 a pretens\u00e3o humana de ser igual a Deus (v. 5), rejeitando o estatuto de criatura e usurpando o lugar do Deus verdadeiro e \u00fanico. A auto-sufici\u00eancia rompe a harmonia e a comunh\u00e3o. Deus \u00e9 o Senhor absoluto e o seu projecto \u00e9 a vida do homem. Ao cair no ego\u00edsmo, o homem revela-se contra o plano de Deus, esbo\u00e7a o seu pr\u00f3prio projecto, pretende guardar s\u00f3 para si a liberdade e a vida, quando estas coisas o transcendem. E encontra-se perante a escravid\u00e3o e a morte. Em v\u00e3o se tenta justificar, lan\u00e7ando as culpas para cima dos outros. A fraternidade degenera em poder e dom\u00ednio; o amor degrada-se em posse e explora\u00e7\u00e3o. A perturba\u00e7\u00e3o instala-se entre os humanos e entre estes e a Natureza. Neste clima gerado pelo mal, que tende a multiplicar-se e a expandir-se, o caminho j\u00e1 n\u00e3o leva \u00e0 vida, mas \u00e0 morte (vv. 22-24). Tudo perdido? N\u00e3o. Face ao mal assim inscrito na natureza humana, Deus promete uma descend\u00eancia empenhada no projecto divino, que triunfar\u00e1 sobre todo o mal, quer seja Maria, Jesus Cristo ou o povo de Deus.

{N}4,{/}1: (1-16) Epis\u00f3dio exemplar que usa a antiga rivalidade entre pastores e agricultores, para mostrar como o mal atinge e deteriora at\u00e9 o encontro de irm\u00e3os. O projecto de Deus \u00e9 a fraternidade em que cada um \u00e9 protector do seu pr\u00f3ximo e se alegra com a presen\u00e7a do outro. O pecado, o ego\u00edsmo, introduz a rivalidade e a competi\u00e7\u00e3o. Em vez de acolher, o homem fere e mata o seu semelhante. O sinal de protec\u00e7\u00e3o divina (v. 15) afasta o desespero e o rumo fatal do pecado; prenuncia a gra\u00e7a futura.

{N}4,{/}17: (17-26) Sem rigor hist\u00f3rico, o texto descreve o aparecimento das diversas profiss\u00f5es: o homem da cidade (v. 17), os pastores (v. 20), os artistas (v. 21) e o homem artes\u00e3o (v. 22). Descendentes de Caim, a marca da auto-sufici\u00eancia e da viol\u00eancia acompanha-os, gerando uma sociedade que d\u00e1 guarida \u00e0 hostilidade e \u00e0 competi\u00e7\u00e3o. O teor do canto selvagem em honra de Lamec (v. 24) mostra o tom crescente das vingan\u00e7as tribais, que ser\u00e1 travado pela lei do tali\u00e3o (Ex 21,23-25). Por outra via, surge no fim o homem religioso (v. 26), que busca reunir novamente aquilo que o ego\u00edsmo divide e separa. Em Mt 18,21-22, a proposta de Jesus representa a ant\u00edtese da viol\u00eancia.

{N}5,{/}1: (1-32) Para os semin\u00f3madas antepassados de Israel, as genealogias desempenhavam papel de relevo e definiam situa\u00e7\u00f5es globais de vida e religi\u00e3o. Esta lista de gera\u00e7\u00f5es, sem ser hist\u00f3ria ou cronologia, preenche o intervalo entre a Cria\u00e7\u00e3o (vv. 1-2) e o dil\u00favio (v. 32). \u00c0 maneira de outros documentos orientais, atribui grande longevidade aos antigos patriarcas: antes do dil\u00favio, vive-se de 700 a 1000 anos; depois do dil\u00favio, de 200 a 600 anos (cf. Gn 11,10-26); a partir de Abra\u00e3o, de 100 a 200 (cf. Gn 23,1); mais tarde, de 70 a 80 anos (cf. Sl 90,10). \u00c9 a maneira sacerdotal escolhida para assinalar o progresso do mal: uma vida longa \u00e9 uma b\u00ean\u00e7\u00e3o de Deus.

{N}6,{/}1: (1-8) A ambi\u00e7\u00e3o humana atinge o seu m\u00e1ximo: o homem come\u00e7a a considerar-se um deus, idealizando uma super-humanidade \u00e0 margem do projecto original divino. E, para vincar o auge do desvio, o autor inspirado mostra-nos Deus triste e arrependido de ter criado o homem sobre a Terra. Decide mesmo exterminar o que fizera. Havia, por\u00e9m, um justo: No\u00e9.

{N}6,{/}9: (6,9-7,5) Conhecemos vers\u00f5es orientais de dil\u00favios com pontos de contacto com a narrativa b\u00edblica. Beberam certamente na mesma heran\u00e7a cultural: a recorda\u00e7\u00e3o de uma ou v\u00e1rias inunda\u00e7\u00f5es desastrosas que a tradi\u00e7\u00e3o elevou \u00e0 dimens\u00e3o universal. Aqui, \u00e9 epis\u00f3dio de alcance simb\u00f3lico: a maldade do mundo era tal que exigiu este castigo e esta purifica\u00e7\u00e3o exemplares. Est\u00e3o implicadas a justi\u00e7a e a miseric\u00f3rdia de Deus, a mal\u00edcia do homem e a salva\u00e7\u00e3o concedida ao justo (fc. Hb 11,7). A narrativa actual \u00e9 complexa, repetitiva e fornece mesmo dados divergentes, porque encadeia elementos de duas tradi\u00e7\u00f5es: a javista e a sacerdotal.

{N}7,{/}6: (6-24) Repeti\u00e7\u00f5es e desajustamentos de pormenor t\u00eam pouca import\u00e2ncia e devem-se \u00e0 mistura de duas tradi\u00e7\u00f5es de \u00e9pocas diferentes. Comparando Gn 1,1-10, 6,17 e 7,18-24, a inunda\u00e7\u00e3o parece um regresso ao caos primitivo em vista de uma recria\u00e7\u00e3o. Apagada na humanidade a imagem de Deus, todo o mundo criado \u00e9 afectado.

{N}8,{/}1: (8,1-9,7) Deus n\u00e3o esquece o justo. A \u00e1gua decresce, a Terra volta a ser habit\u00e1vel. No\u00e9 oferece um holocausto e Deus empenha a sua palavra para nunca mais destruir a Cria\u00e7\u00e3o. A perver-sidade ou ambiguidade humana n\u00e3o perturbar\u00e1 mais a perman\u00eancia regular das leis da Natureza que s\u00e3o um dom de Deus (vv. 21-22). E, mediante o grupo de justos salvos, a Cria\u00e7\u00e3o retoma o seu f\u00f4lego inicial (comparar 9,1-7 com 1,28-29), com alguns focos de luta e cuidados especiais relativamente \u00e0 vida do homem que \u00e9 imagem de  Deus.

{N}9,{/}8: (8-17){N} {/}O arco-\u00edris que aparece depois da chuva torna-se o sinal da alian\u00e7a de Deus com toda a Cria\u00e7\u00e3o, na qual Deus garante a vida a todos os seres. \u00c9 o {C}arco da velha{/}  (alian\u00e7a) que n\u00e3o ser\u00e1 abolida  na promessa-alian\u00e7a com Abra\u00e3o (Gn 17), nem na alian\u00e7a com Mois\u00e9s, explicitada na lei (Ex 19,5; 24,7-8).

{N}9,{/}18: (18-29) O pecado continua no mundo. B\u00ean\u00e7\u00e3o e maldi\u00e7\u00e3o (cf. Gn 27 e 49) s\u00e3o palavras eficazes que afectam o chefe de fila e se realizam nos descendentes. S\u00e3o tamb\u00e9m apelos prementes. O filho de No\u00e9, Sem, \u00e9 aben\u00e7oado porque dele se formar\u00e1 o povo de Israel. A humanidade faz aqui uma nova des-coberta: a vida agr\u00e1ria.

{N}10,{/}1: (1-32) Resumindo os conhecimentos que Israel poderia ter no tempo de Salom\u00e3o, sobre o mundo habitado, este mapa da fam\u00edlia humana afirma a unidade da esp\u00e9cie, distribu\u00edda em grupos a partir duma fonte comum: os tr\u00eas filhos de No\u00e9. Mostra ainda que o povo de Israel, que nascer\u00e1 de Abra\u00e3o, \u00e9 um povo eminentemente hist\u00f3rico, inserido no meio das na\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o um povo m\u00edtico, provindo do mundo dos deuses.

{N}11,{/}1: (1-9) Encarada como resultante da b\u00ean\u00e7\u00e3o de No\u00e9 (9,1 e 10,32), a dispers\u00e3o dos povos \u00e9 focada, aqui, a outra luz. S\u00e3o aspectos complementares da Hist\u00f3ria do mundo, que conjuga o poder de Deus e a maldade dos homens. Mas a Torre de Babel \u00e9, antes de mais, o epis\u00f3dio final duma s\u00e9rie de imagens exemplares da origem que pretendem ilustrar uma verifica\u00e7\u00e3o: o mal alastra no mundo. Tendo como pano de fundo o perfil imponente dos zigurates da Mesopot\u00e2mia, o autor descreve mais um acto de orgulho desmedido que pretende congregar os humanos e desafiar o pr\u00f3prio Deus (vv. 3-4). \u00c9 a eterna tenta\u00e7\u00e3o do poder pol\u00edtico-religioso que visa o dom\u00ednio universal e a auto-sufici\u00eancia. Deus desmancha-lhes a ambi\u00e7\u00e3o (cf. 3,22), sem esmagar ningu\u00e9m. O autor n\u00e3o menospreza a riqueza das diversas l\u00ednguas; utiliza apenas a triste experi\u00eancia da dificuldade ou do mal em comunicar. A reuni\u00e3o dos povos e l\u00ednguas tem momento alto no milagre do Pentecostes (Act 2) e aguarda a consuma\u00e7\u00e3o final da Hist\u00f3ria (Ap 7,9-10; 21 e 22).

{N}11,{/}10: (10-32) Dando continuidade a Gn 5, esta genealogia cobre o espa\u00e7o entre o dil\u00favio e Abra\u00e3o, referindo apenas os ascendentes directos do patriarca e apresentando-o como herdeiro das b\u00ean\u00e7\u00e3os e promessas de Deus, feitas ao ritmo da Cria\u00e7\u00e3o.

{N}12,{/}1: (1-9) Encerrado o ciclo das origens, entramos na gesta patriarcal, relato familiar e religioso, marcado pela verosimilhan\u00e7a hist\u00f3rica. O primeiro passo \u00e9 a voca\u00e7\u00e3o de Abra\u00e3o, cuja vida est\u00e1 directamente ligada \u00e0 Hist\u00f3ria de toda a humanidade: com ela come\u00e7a a surgir o embri\u00e3o de um povo que ter\u00e1 a miss\u00e3o de trazer a b\u00ean\u00e7\u00e3o de Deus a todas as na\u00e7\u00f5es da Terra. O povo ser\u00e1 portador do projecto de Deus: redescobrir e valorizar a imagem e semelhan\u00e7a divinas originais, desfiguradas pelo pecado, e preparar a vinda do Messias. Deus promete a Abra\u00e3o uma terra (n\u00e3o era, por certo, o primeiro anseio dum n\u00f3mada!) e uma grande descend\u00eancia, sendo a sua mulher est\u00e9ril (cf. 16,1). O caminho come\u00e7a pela f\u00e9: Abra\u00e3o acolhe o chamamento divino, aceita sem restri\u00e7\u00f5es o risco, abandona o seu meio ambiente e percorre com rapidez a futura Terra Prometida, comungando a condi\u00e7\u00e3o dos mortais e atento \u00e0s vicissitudes dos dias.

{N}12,{/}10: (10-20) O epis\u00f3dio tocou profundamente os israelitas, o que explica as vers\u00f5es paralelas de 20 e 26 (Rebeca). No seu equil\u00edbrio, o passo exalta os dotes de beleza da antepassada e a habilidade do patriarca que, na linha do costume de certos povos da regi\u00e3o, atribui \u00e0 esposa o estatuto de irm\u00e3, para a enaltecer e libertar. Tamb\u00e9m pode ler-se como alegoria antecipada da escravid\u00e3o no Egipto e do \u00eaxodo.

{N}13,{/}1: (1-18) Semin\u00f3madas, Abra\u00e3o e os seus deslocam-se segundo as leis da transum\u00e2ncia, em depend\u00eancia do clima, pastagens e necessidades dos rebanhos. Em situa\u00e7\u00e3o de conflito, Lot escolhe o caminho da facilidade, que acabar\u00e1 por lhe ser fatal (cf. 19). Ao inv\u00e9s, Abra\u00e3o, generoso e magn\u00e2nimo, confia e abre-se a uma Hist\u00f3ria nova, fundada unicamente na promessa e no projecto de Deus.

{N}14,{/}1: (1-16) O epis\u00f3dio ultrapassa o \u00e2mbito familiar da gesta patriarcal; celebra a valentia do guerreiro Abra\u00e3o e o seu exemplar desinteresse. A manuten\u00e7\u00e3o da estrada comercial para o Mar Vermelho torna plaus\u00edvel a expedi\u00e7\u00e3o \u00e0 Palestina dos quatro reis orientais, cujos nomes n\u00e3o foram ainda confirmados por outros documentos. Abra\u00e3o percorre, em todas as direc\u00e7\u00f5es, a terra que lhe est\u00e1 destinada (13,7); o dom de Deus n\u00e3o dispensa o empenhamento humano.

{N}14,{/}17: (17,24) \u00c9 igualmente importante e significativo o contacto do patriarca com Jerusal\u00e9m, que preanuncia a vastid\u00e3o do reino e o papel que essa capital havia de desempenhar, a partir de David. Mel-quisedec (=o meu rei \u00e9 justo), rei de Sal\u00e9m (=Jerusal\u00e9m) e sacerdote de Deus Alt\u00edssimo, apresenta-se para acolher e aben\u00e7oar Abra\u00e3o. No p\u00e3o e vinho viu-se o s\u00edmbolo da Eucaristia, e em Melquisedec a figura do Messias (Sl 110,4; Hb 7). 
O di\u00e1logo entre Abra\u00e3o e o rei de Sodoma mostra como o patriarca n\u00e3o est\u00e1 interessado em acumular riquezas, embora aceite a parte que toca aos seus companheiros. Justi\u00e7a n\u00e3o \u00e9 dar a todos a mesma medida, mas a cada um segundo as suas necessidades.

{N}15,{/}1: (1-21) A f\u00e9 de Abra\u00e3o est\u00e1 posta \u00e0 prova; as promessas tardam em realizar-se. Deus desafia novamente Abra\u00e3o com a promessa. Abra\u00e3o pede um sinal e, apoiado na palavra divina, acreditou (teve f\u00e9) em Jav\u00e9; isso valeu-lhe como justi\u00e7a (v. 6). Acto de confian\u00e7a nas promessas do Senhor, a f\u00e9 (do termo hebraico {C}\u00e1men{/}) exprime verdade, fidelidade e firmeza. A justi\u00e7a, al\u00e9m de virtude moral, \u00e9 o acordo harmonioso e perfeito com a palavra divina que gera vida e prosperidade. Paulo viu neste passo o car\u00e1cter gratuito do dom de Deus e da justifica\u00e7\u00e3o (Rm 4,3-25). Deus refor\u00e7a a sua palavra, aceitando participar no rito da alian\u00e7a, segundo o qual os contraentes do acordo, antes do banquete, passavam ante os animais divididos, chamando sobre si a sorte das v\u00edtimas, caso violassem o pacto celebrado. Notemos que s\u00f3 Jav\u00e9 (labareda, tocha de fogo) passa entre as v\u00edtimas, a dizer do seu empenho exclusivo em realizar o prometido. Ainda \u00e9 mais promessa do que alian\u00e7a entre dois. O incidente dos vv. 11-15, em que figuram aves de rapina, preanuncia o cativeiro do povo no Egipto e a sua liberta\u00e7\u00e3o.

{N}16,{/}1: (1-16) No Antigo Oriente, o direito da fam\u00edlia permitia que a esposa est\u00e9ril pudesse apresentar ao marido uma escrava, em vista da gera\u00e7\u00e3o de fi-lhos que seriam reconhecidos como leg\u00edtimos. A escolhida, por\u00e9m, n\u00e3o devia passar \u00e0 frente da esposa. Abra\u00e3o aceita esse artif\u00edcio legal e consegue um fi-lho da escrava Agar: Ismael. Mesmo objecto da b\u00ean\u00e7\u00e3o de Deus, a promessa de numerosa posteridade feita a Abra\u00e3o haveria de passar por outro descendente.

{N}17,{/}1: (1-27) \u00c9 a vers\u00e3o sacerdotal da alian\u00e7a que, al\u00e9m das promessas do cap\u00edtulo 15 (javista), prescreve a circuncis\u00e3o. Rito de inicia\u00e7\u00e3o em muitos povos primitivos, em Israel a circuncis\u00e3o \u00e9 sinal de perten\u00e7a ao povo com o qual Deus fez alian\u00e7a, e \u00e9 praticado aos oito dias de nascimento. Na casa, todos s\u00e3o circuncidados, livres e escravos; o povo de Deus nasce aberto a todos. A mudan\u00e7a de nome de Abr\u00e3o para Abra\u00e3o (v. 5) sugere nova etapa, outra miss\u00e3o, na realiza\u00e7\u00e3o do projecto divino.

{N}18,{/}1: (1-15) Bem \u00e0 maneira javista, Deus, em pessoa ou acompanhado de dois anjos (o texto presta-se \u00e0s duas leituras) aparece a Abra\u00e3o, em Mambr\u00e9, \u00e9 aco-lhido pela conhecida hospitalidade dos n\u00f3madas e, com humor e naturalidade, anuncia ao casal o nascimento de Isaac, nome cujo significado provoca ou resulta do riso: \u00abQue Deus sorria\u00bb ou \u00abseja favor\u00e1-vel\u00bb (cf. 17,17). A Deus nada \u00e9 imposs\u00edvel.

{N}18,{/}16: (16-32) Justi\u00e7a e direito s\u00e3o os pilares que sustentam o projecto de Deus. Como isso n\u00e3o se verifica em Sodoma, a cidade ter\u00e1 de ser destru\u00edda. Aqui se insere a famosa prece de intercess\u00e3o feita por Abra\u00e3o em favor da cidade injusta: Quantos justos \u00e9 preciso encontrar para que uma cidade n\u00e3o seja arrasada? At\u00e9 onde Deus est\u00e1 disposto a usar de miseric\u00f3rdia? No antigo Israel, prevalecia o princ\u00edpio da solidariedade; a responsabilidade pessoal foi descoberta tarde (cf. Dt 24,16; Jr 31,29-30). Em Is 53, \u00e9 o sofrimento de um Servidor que salva o povo. E o Novo Testamento mostra que Deus quer salvar, n\u00e3o s\u00f3 uma cidade, mas toda a humanidade, devido a um \u00fanico justo: Jesus Cristo.

{N}19,{/}1: (1-29) A lenda refere a destrui\u00e7\u00e3o de duas cidades pr\u00f3ximas do Mar Morto. Os habitantes de Sodoma adoptam com os h\u00f3spedes um comportamento que nada tem a ver com o esmero hospitalar de Abra\u00e3o. O termo \u00absodomia\u00bb vem desta narrativa (v. 8). A descri\u00e7\u00e3o do cataclismo (vv. 23-28) tira proveito da regi\u00e3o atormentada e sulfurosa, com curiosas formas que parecem est\u00e1tuas. Sodoma e Gomorra tornar-se-\u00e3o o s\u00edmbolo da corrup\u00e7\u00e3o e da injusti\u00e7a (cf. Is 1,9-10; Jr 49,18; Mt 11,23). Lot \u00e9 salvo porque respeitou a lei da hospitalidade, uma das mais sagradas no mundo oriental.

{N}19,{/}30: (30-38) Este ap\u00eandice explica a origem dos moabitas (Moab=sa\u00eddo do pai) e dos amonitas (Ben-Ami=filho do meu povo), povos vizinhos inimigos de Israel, mencionados aqui como oriundos de cidades condenadas, entregues a costumes rejeitados pelo povo eleito (Lv 18,6-18). O gesto das filhas de Lot \u00e9 motivado pelo desejo profundo de perpetuar a vida.

{N}20,{/}1: (1-18) O epis\u00f3dio \u00e9 uma repeti\u00e7\u00e3o de 12,10-20 (cf. nota). Em contraste com o Fara\u00f3 (12,17), Abi-melec capta a mensagem divina que lhe chega por meio do sonho. E o patriarca recebe o t\u00edtulo de profeta (v. 7).

{N}21,{/}1: (1-7) Naquela idade dos pais, o nascimento de Isaac, filho da promessa, \u00e9 um desafio \u00e0 natureza e \u00e0 compreens\u00e3o humana. Mas a Deus nada \u00e9 imposs\u00ed-vel (cf. Gn 18,14). A maravilha sublinha o feliz destino da crian\u00e7a, associada ao j\u00fabilo.

{N}21,{/}8: (8-21) Vers\u00e3o paralela do cap\u00edtulo 16. Com Deus, nunca a b\u00ean\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m acarreta o abandono de outrem. Enquanto a m\u00e3e Agar se coloca \u00e0 dist\u00e2ncia, Deus ouve o grito do filho e apressa-Se a salv\u00e1-lo, explicitando-lhe a miss\u00e3o.

{N}21,{/}22: (22-34) O encontro dialogado entre Abimelec e Abra\u00e3o p\u00f5e a claro as inten\u00e7\u00f5es dum e doutro, e desabrocha na alian\u00e7a que d\u00e1 ao patriarca acesso a um po\u00e7o. O nome Bersabeia aludiria ao facto: \u00abpo\u00e7o do juramento\u00bb ou \u00abpo\u00e7o das sete (ovelhas)\u00bb. E a Hist\u00f3ria justifica antecipadamente a posse desse territ\u00f3rio pelos israelitas. No tempo dos reis, a express\u00e3o \u00abde Dan a Bersabeia\u00bb designa o conjunto da Palestina.

{N}22,{/}1: (1-19) O sacrif\u00edcio de Isaac condena implicitamente o sacrif\u00edcio de seres humanos, nomeadamente crian\u00e7as, pr\u00e1tica frequente nas redondezas, mas proibida em Israel (Lv 18,21). Os primog\u00e9nitos s\u00e3o perten\u00e7a de Jav\u00e9, mas ser\u00e3o resgatados (Ex 13,11-16). A narrativa p\u00f5e em evid\u00ean-cia a f\u00e9 de Abra\u00e3o, que atinge aqui o seu cume com implica\u00e7\u00f5es afectivas. Deus retirara a Abra\u00e3o as suas seguran\u00e7as, para lhe fazer uma promessa e um dom (12,1-9). A velhice, a esterilidade e outros obs-t\u00e1culos parecem tornar imposs\u00edvel a sua realiza\u00e7\u00e3o. Quando a promessa toca o come\u00e7o do seu cumprimento com a exist\u00eancia de Isaac, Deus p\u00f5e de novo \u00e0 prova a sua f\u00e9, desafiando-o \u00e0 obedi\u00eancia, isto \u00e9, a estar alerta, desinstalado, para empreender uma ou-tra etapa. Deste modo, Abra\u00e3o \u00e9 o modelo do justo que obedece na e pela f\u00e9 (Eclo 44,20; Sb 10,5; Hb 11,17).

{N}22,{/}20: (20-24) Diferente da vers\u00e3o de 10,32, esta lista geneal\u00f3gica coloca algumas pedras que v\u00e3o entrar na hist\u00f3ria de Isaac e Jacob e dos seus casamentos (cf. Gn 24; 28-29). Era costume dos antigos realizar os casamentos entre jovens de cl\u00e3s aparentados (cf. 24,3-4).

{N}23,{/}1: (1-20) O texto compraz-se em mostrar que a promessa da Terra come\u00e7a a tornar-se realidade. Ao pagar bom pre\u00e7o pelo terreno de Macpela, Abra\u00e3o adquire um t\u00edtulo de propriedade e direito de cidadania em Cana\u00e3. S\u00e3o os primeiros palmos de terra que lhe pertencem, cuja posse \u00e9 refor\u00e7ada pelo car\u00e1cter intoc\u00e1vel dum cemit\u00e9rio. Ali\u00e1s, essa instala\u00e7\u00e3o funer\u00e1ria durou at\u00e9 hoje.

{N}24,{/}1: (1-67) Deus continua a zelar pela realiza\u00e7\u00e3o da sua promessa. Um passo importante nesse sen-tido \u00e9 o casamento de Isaac com Rebeca, anel  marcante na cadeia dos descendentes. Sem banir os sobressaltos, tudo se conjuga e acaba por correr bem: as preocupa\u00e7\u00f5es do idoso Abra\u00e3o, a delicada fidelidade do seu servo mais velho, a pronta resposta de Rebeca e os pr\u00e9stimos do seu irm\u00e3o mais velho, Lab\u00e3o.

{N}25,{/}1: (1-6) Par\u00e1grafo adicionado \u00e0 hist\u00f3ria de Abra\u00e3o para mostrar que o patriarca, al\u00e9m de benefici\u00e1rio da promessa, \u00e9 tamb\u00e9m ponto de partida para a forma\u00e7\u00e3o de outros povos, nomeadamente Madi\u00e3, que ter\u00e1 rela\u00e7\u00f5es estreitas com Israel, nos seus come\u00e7os (cf. Ex 2,15).

{N}25,{/}7: (7,11) A not\u00edcia da morte de Abra\u00e3o encerra a gesta deste patriarca com novo toque de vida: morrer idoso \u00e9 sinal de vida plena e de b\u00ean\u00e7\u00e3o divina eficaz. Notar a atmosfera de sossego perante a morte, e a sepultura no cemit\u00e9rio da fam\u00edlia.

{N}25,{/}12: (12-18) Antes de iniciar a hist\u00f3ria dos filhos da promessa (Isaac e Jacob), o autor fala de Ismael, filho de Agar, igualmente pai dum novo povo numeroso (17,20): os ismaelitas ou grupos do norte  da Ar\u00e1bia, em n\u00famero de doze, como as tribos israelitas (35,22-26).

{N}25,{/}19: (19-28) A luta dos g\u00e9meos no ventre materno pressagia a futura hostilidade entre os dois povos irm\u00e3os: os edomitas, descendentes de Esa\u00fa, e os israelitas, descendentes de Jacob. A hist\u00f3ria anota que David submeteu Edom (2Sm 8,13-14), que se libertar\u00e1 definitivamente sob Jor\u00e3o, de Jud\u00e1, a meio do s\u00e9culo IX a.C. (2Rs 8,20-22).

{N}25,{/}29: (29-34) O direito de primogenitura assegurava ao filho mais velho da casa a autoridade patriarcal sobre o conjunto familiar, em especial ap\u00f3s a morte do pai, e tamb\u00e9m a parte maior na heran\u00e7a material e religiosa. O relato p\u00f5e em destaque a ligeireza de Esa\u00fa, disposto a perder a heran\u00e7a que lhe tocava e, com ela, a promessa divina, a troco dum simples prato de lentilhas (cf. Hb 12,16-17), situa\u00e7\u00e3o que se repete no decurso dos tempos, com personalidades e matizes sempre renovados.

{N}26,{/}1: (1-11) A narrativa \u00e9 seguramente mais uma vers\u00e3o do epis\u00f3dio relatado em 12,10-20 e 20,1-18, desta vez, a prop\u00f3sito de Rebeca. Caracteriza-se pelo maior respeito pelo estrangeiro e mostra um sentido moral mais apurado.

{N}26,{/}12: (12-35) O G\u00e9nesis atribui aos patriarcas, pastores de rebanhos, a abertura de numerosos po\u00e7os, pontos de \u00e1gua necess\u00e1rios \u00e0s desloca\u00e7\u00f5es do gado e  \u00e0 incipiente ocupa\u00e7\u00e3o agr\u00edcola (vv. 12-14). Foi junto ao \u00abpo\u00e7o de Jacob\u00bb, em Siqu\u00e9m, que Jesus revelou \u00e0 samaritana a verdadeira \u00e1gua viva (Jo 4,1). As disputas pelos po\u00e7os foram tamb\u00e9m lutas pela ocupa\u00e7\u00e3o da terra. A promessa feita a Abra\u00e3o passa para Isaac e progride, mesmo \u00e0 custa de con-flitos.

{N}27,{/}1: (1-40) J\u00e1 antes Jacob se tinha aproveitado da fome do irm\u00e3o para lhe arrebatar o direito de primogenitura; agora, para se assegurar a correspondente b\u00ean\u00e7\u00e3o patriarcal, serve-se da esperteza da m\u00e3e e da cegueira do pai. O epis\u00f3dio sublinha a import\u00e2ncia das mulheres nos caminhos de Deus, numa sociedade t\u00e3o marcadamente masculina como a patriarcal; e mostra que a livre escolha divina n\u00e3o est\u00e1 confinada \u00e0s normas do direito e do bom-senso humanos. A b\u00ean\u00e7\u00e3o do pai velhinho era, como noutros documentos do Antigo Oriente, eficaz e irrevog\u00e1vel. Aqui, o seu teor cobre a dupla dimens\u00e3o agr\u00edcola e pol\u00edtica, tal como a b\u00ean\u00e7\u00e3o de Jud\u00e1 (49,8-12).

{N}27,{/}41: (27,41-28,9) Jacob e Rebeca enganaram Esa\u00fa e Isaac. \u00c9 normal que assumam as consequ\u00eancias: Jacob tem de fugir para a terra distante de Har\u00e3,  e Rebeca fica privada da presen\u00e7a do seu filho querido. Na complexidade das tradi\u00e7\u00f5es, a viagem de Jacob ora \u00e9 fuga ditada pela c\u00f3lera do irm\u00e3o, ora \u00e9 dilig\u00eancia para se procurar esposa con-digna, evitando ligar-se a uma mulher estrangeira e comprometendo a pureza do sangue e da f\u00e9.

{N}28,{/}10: (10-22) Viajando inquieto e interrogado, Jacob recebe em sonho a confirma\u00e7\u00e3o que lhe d\u00e1 alento. A escada estabelece liga\u00e7\u00e3o entre o c\u00e9u e a terra, respeitando a transcend\u00eancia divina. O Senhor renova-lhe as promessas feitas a Abra\u00e3o (12 e 13; 15 e 22) e a Isaac (26), e garante-lhe protec\u00e7\u00e3o. Acordado, Jacob toma consci\u00eancia do contacto com o divino e decide erguer um memorial do acontecimento: uma estela de pedra. Assim se cria um lugar sagrado. O anterior centro de culto cananeu torna-se agora \u00abcasa de Deus\u00bb (tal \u00e9 o sentido do nome Bet-El) e passa a albergar um santu\u00e1rio de prest\u00edgio na hist\u00f3ria de Israel at\u00e9 \u00e0 reforma deuteron\u00f3mica. Deus est\u00e1 com as criaturas e acompanha-as no seu caminhar.

{N}29,{/}1: (1-30) Chegado a Har\u00e3, Jacob vai experimentar reveses n\u00e3o previs\u00edveis na facilidade do primeiro encontro com Raquel. Aceita a condi\u00e7\u00e3o de servidor de Lab\u00e3o cuja esperteza lhe causa algumas tropelias. Notar que, \u00e0 semelhan\u00e7a do escravo hebreu, Jacob, ao fim de sete anos, podia sair em liberdade, mas n\u00e3o levar consigo a mulher que o senhor lhe dera (cf. Ex 21,4-6; Dt 15,12-18). Havia ent\u00e3o o costume de manter a noiva velada at\u00e9 \u00e0 noite de n\u00fapcias (24,64-65). S\u00f3 mais tarde foi proibido casar com duas irm\u00e3s (Lv 18,18).

{N}29,{/}31: (29,31-30,24) Jacob teve doze filhos (Dina ser\u00e1 substitu\u00edda por Benjamim - cf. 35,18): s\u00e3o os antepassados das doze tribos que formar\u00e3o o povo de Israel. O nome de cada filho est\u00e1 ligado \u00e0 emula\u00e7\u00e3o entre as m\u00e3es, jogo em que o pr\u00f3prio Deus entra, e a etimologias populares, obscuras e pitorescas.

{N}30,{/}25: (25-43) Lab\u00e3o tinha todo o interesse em manter o genro ao seu servi\u00e7o, mesmo pagando um sal\u00e1rio. Jacob recusa e faz uma proposta aparentemente mais modesta que, no entanto, o tornar\u00e1 propriet\u00e1rio de animais de cor e qualidade especiais. Conv\u00e9m notar que, no Oriente, os carneiros no geral s\u00e3o brancos e as cabras pretas. \u00c0 tentativa de engano dum lado, responde o expediente do outro, que se mostra eficaz.

{N}31,{/}1: (1-21) Lab\u00e3o abusara. Jacob vira alterar dez vezes o seu sal\u00e1rio (vv. 7 e 41); as filhas sen-tiam-se deserdadas e lesadas (vv. 14-15). Era costume que parte do montante pago pelo noivo ao sogro, na altura do casamento, revertesse em favor da nova esposa. O epis\u00f3dio mostra as boas raz\u00f5es de Jacob e a protec\u00e7\u00e3o divina assegurada \u00e0 fam\u00edlia.

{N}31,{/}22: (31,22-32,3) Lab\u00e3o n\u00e3o se conforma com a sa\u00edda de Jacob; vai no seu encal\u00e7o e tenta recrimin\u00e1-lo a prop\u00f3sito do desaparecimento dos \u00eddolos da casa. A esperteza de Raquel desarma os intuitos do pai. Ali\u00e1s, Deus n\u00e3o tem d\u00favidas acerca de quem merece apoio (vv. 24,29). A conclus\u00e3o duma alian\u00e7a entre ambos, \u00e0 maneira dos tratados conhecidos no antigo Oriente, salvaguarda a protec\u00e7\u00e3o das esposas e o respeito pela fronteira estabelecida entre os dois territ\u00f3rios e seus donos.

{N}32,{/}4: (4-22) Jacob n\u00e3o esqueceu as circunst\u00e2ncias da partida nem a ira do irm\u00e3o (27 e 28). Em v\u00e9speras do reencontro, toma iniciativas apaziguantes em rela\u00e7\u00e3o a ele, e interroga-se no seu \u00edntimo.

{N}32,{/}23: (23-33) A luta de Jacob com esse algu\u00e9m (v. 25), que \u00e9 um anjo (Os 12,5) ou o pr\u00f3prio Deus (v. 31), pressagia certamente a cadeia de lutas que marca o destino de Jacob e os seus descendentes. O patriarca recebe um nome novo, Israel, cujo significado popular \u00abEle foi forte contra Deus\u00bb o equipa para o desempenho da sua voca\u00e7\u00e3o. Este misterioso confronto pode representar ainda o debate do crente ou o encontro de cada ser humano com o seu Deus. A luz deixa marcas de humildade e, ao mesmo tempo, desvenda a nova etapa da caminhada.

{N}33,{/}1: (1-20) N\u00e3o eram precisas tantas precau\u00e7\u00f5es nem protocolo t\u00e3o cuidado por parte de Jacob (v. 3). Esa\u00fa recebe-o com pronta hospitalidade e generosidade. Segue-se, no entanto, uma diplom\u00e1tica negocia\u00e7\u00e3o em que Jacob marca as suas dist\u00e2ncias em rela\u00e7\u00e3o ao irm\u00e3o, passa por Sucot e chega a Siqu\u00e9m.

{N}34,{/}1: (1-31) A narrativa re\u00fane v\u00e1rias tradi\u00e7\u00f5es e reflecte a complexidade da implanta\u00e7\u00e3o dos grupos patriarcais na terra de Cana\u00e3, bem como o tenso relacionamento entre cl\u00e3s de pastores e habitantes das cidades. H\u00e1 aqui o realismo da viol\u00eancia, vingan\u00e7a e duplicidade.

{N}35,{/}1: (1-15) A desloca\u00e7\u00e3o de Jacob \u00e9 uma peregrina\u00e7\u00e3o. Come\u00e7a por uma purifica\u00e7\u00e3o e pela destrui\u00e7\u00e3o dos \u00eddolos, e desagua numa teofania, isto \u00e9, manifesta\u00e7\u00e3o de Deus, que lhe repete o n\u00facleo essencial da promessa. O Deus de Betel \u00e9 o mesmo Deus dos pais e da esperan\u00e7a. Fica, assim, em destaque um dos lugares do culto israelita: o santu\u00e1rio de Betel, que se tornou o centro religioso das tribos do reino do Norte, quando da separa\u00e7\u00e3o do reino do Sul, ap\u00f3s a morte de Salom\u00e3o (cf. 1Rs 12,26-33).

{N}35,{/}16: (16-29) Este resumo encerra a hist\u00f3ria de Isaac, evocando a sua morte e sepultura em Hebron. Conta tamb\u00e9m o nascimento de Benjamim que vem completar a lista dos doze filhos de Jacob, antepassados das doze tribos de Israel.

{N}36,{/}1: (1-43) O cap\u00edtulo agrupa dados dispersos sobre genealogias e locais. D\u00e1 grande import\u00e2ncia \u00e0 descend\u00eancia de Esa\u00fa, o irm\u00e3o mais velho de Jacob. Edom, que instituiu o poder centrado num rei antes de Israel (v. 31), \u00e9 povo irm\u00e3o, devendo  por isso haver entre ambos uma rela\u00e7\u00e3o de fraterni-dade.

{N}37,{/}1: (1-11) A hist\u00f3ria come\u00e7a com uma situa\u00e7\u00e3o familiar dram\u00e1tica: Jos\u00e9, o preferido do pai, \u00e9 odiado pelos irm\u00e3os, que n\u00e3o suportam a ideia de o verem em posi\u00e7\u00e3o de supremacia. Os sonhos, que desempenham aqui papel importante (cf. 40), s\u00e3o ind\u00edcios premonit\u00f3rios anunciando o futuro, e n\u00e3o  comunica\u00e7\u00f5es divinas, como em 20,3; 28,12; 31,11.24.
  37-50: A hist\u00f3ria de Jos\u00e9 ocupa esta \u00faltima parte do livro (exceptuando os cap\u00edtulos 38 e 49) e assume matizes peculiares: n\u00e3o surgem revela\u00e7\u00f5es novas, Deus n\u00e3o interv\u00e9m de modo vis\u00edvel, mas continua a \u00abescrever direito por linhas tortas\u00bb (cf. 45,5-8;50,20). Contrariando os planos humanos, Jos\u00e9 n\u00e3o perece; e at\u00e9 o crime dos irm\u00e3os se transforma em instrumento de salva\u00e7\u00e3o. A presen\u00e7a do filho de Jacob no Egipto livra a fam\u00edlia da fome e prepara o nascimento dum povo eleito e numeroso.

{N}37,{/}12: (12-36) Como no caso de Caim e Abel, a inveja e o \u00f3dio fazem com que os irm\u00e3os planeiem a morte de Jos\u00e9. Numa das vers\u00f5es, em vez da morte, o mais velho, R\u00faben, consegue que o lancem numa cisterna, pensando depois retir\u00e1-lo; comerciantes madianitas passam e levam a v\u00edtima para o Egipto. Na outra, \u00e9 Jud\u00e1 quem interv\u00e9m e, procurando evitar a morte, prop\u00f5e vender Jos\u00e9 a uma caravana de ismaelitas que se dirige ao Egipto. A identifica\u00e7\u00e3o da t\u00fanica do filho manchada com sangue de cabrito \u00e9, para o pai, o come\u00e7o dum longo luto.

{N}38,{/}1: (1-30) O cap\u00edtulo relata como Jud\u00e1 teve dois fi-lhos de Tamar, e p\u00f5e em evid\u00eancia Far\u00e9s (v. 29), antepassado do rei David (cf. Rt 4,12.18-22). Embora estrangeira como Rute, Tamar foi incorporada no povo de Israel e figura na genealogia de Jesus (cf. Mt 1,3).
O texto mostra como funcionava a lei do levirato (do termo latino {C}levir{/} que significa cunhado ou pa-rente pr\u00f3ximo): quando o marido morria sem deixar filhos, o seu irm\u00e3o era obrigado por lei a unir-se \u00e0 vi\u00fava, e a crian\u00e7a que nascesse era considerada filha do falecido. Essa lei visava salvaguardar o direito \u00e0 descend\u00eancia e conservar a heran\u00e7a no \u00e2mbito da fam\u00edlia (fc. Dt 25,5-10). On\u00e3 \u00e9 condenado por n\u00e3o respeitar essa lei.

{N}39,{/}1: (1-23) Passo a passo, Jos\u00e9 vai descendo at\u00e9 ao limite do despojamento: de pessoa livre e amada \u00e9 feito escravo e, de escravo honesto, passa a prisioneiro, porque n\u00e3o se aproveitou da sedu\u00e7\u00e3o. Misteriosamente, por\u00e9m, o autor assinala quatro vezes que \u00abJav\u00e9 estava com Jos\u00e9\u00bb. N\u00e3o era evidente para o sofredor mas, mesmo sem saber, qualquer pessoa, em qualquer situa\u00e7\u00e3o, pode ser instrumento de Deus.

{N}40,{/}1: (1-23) Aqui, os sonhos s\u00e3o alegorias que anunciam o futuro. Na interpreta\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9, sortes totalmente opostas esperam os dois oficiais, compa-nheiros de pris\u00e3o. Ao atribuir-lhe a capacidade de ler os sonhos, o autor sugere que Jos\u00e9 sabe discernir a ac\u00e7\u00e3o de Deus presente na Hist\u00f3ria.

{N}41,{/}1: (1-36) O famoso sonho do Fara\u00f3 - sete vacas gordas e sete magras; sete espigas cheias e sete ressequidas - tem colorido local: o rio Nilo e as suas inunda\u00e7\u00f5es s\u00e3o a riqueza do pa\u00eds; a deusa H\u00e1tor era representada sob a forma de vaca, a sair das profundezas do Nilo para espalhar a fertilidade. A interpreta\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 marca o come\u00e7o da sua ascens\u00e3o. Ela supera sacerdotes e s\u00e1bios locais, cuja miss\u00e3o era dar satisfa\u00e7\u00e3o \u00e0s interroga\u00e7\u00f5es do soberano, e mostra tino administrativo capaz de gerir a crise que se apro-xima.

{N}41,{/}37: (37-57) O \u00abesp\u00edrito de Deus\u00bb, que confere aos reis a for\u00e7a para salvar o povo (cf. 1Sm 10,6; 11,6; 16,13), actua aqui em Jos\u00e9, elevado a vice-rei do Egipto para gerir as varia\u00e7\u00f5es das colheitas futuras. De notar que houve de facto per\u00edodos em que \u00abasi\u00e1ticos\u00bb ocuparam altos cargos no Egipto. Os dois filhos, Manass\u00e9s e Efraim, formar\u00e3o duas tribos em Israel; juntas, constituem a \u00abCasa de Jos\u00e9\u00bb.

{N}42,{/}1: (1-38) H\u00e1 documentos que atestam a \u00abdescida\u00bb ao Egipto de grupos semitas, impelidos pela fome; a administra\u00e7\u00e3o local acolhia-os, benevolente e controladora. Com a carestia em Cana\u00e3, a fam\u00edlia de Jacob viu-se obrigada a fazer o mesmo. Os primeiros sonhos de Jos\u00e9 concretizam-se: os irm\u00e3os prostram-se diante dele (cf. 37,5-11). O vice-rei trata-os com severidade e submete-os a uma s\u00e9-rie de provas, a ver se s\u00e3o capazes de agir fraternamente. Tal como ele, Benjamim era filho de Raquel, a esposa amada de Jacob. Como o tratariam agora os manos?

{N}43,{/}1: (1-34) A efic\u00e1cia da segunda viagem dependia da apresenta\u00e7\u00e3o de Benjamim ao alto funcion\u00e1rio do Egipto. Embora contra a vontade do velho pai, Jud\u00e1 responsabiliza-se pelo regresso do irm\u00e3o mais novo. O teste da fraternidade come\u00e7a a mostrar bons resultados. O bom acolhimento do vice-rei (Jos\u00e9) causa espanto aos irm\u00e3os e prepara o momento culminante do encontro.

{N}44,{/}1: (1-34) Interrompida a viagem de regresso de-vido a mais um estratagema de Jos\u00e9, suscept\u00edvel de inculpar o mais novo, os implicados rendem-se ao mist\u00e9rio (v. 16), sem confessar um roubo que n\u00e3o fizeram, sem reviver na ang\u00fastia culpas antigas... A estupefac\u00e7\u00e3o \u00e9 de dimens\u00e3o religiosa: diante duma manifesta\u00e7\u00e3o divina, s\u00f3 lhes resta a humildade de n\u00e3o saber o que se passa. Jud\u00e1, que interviera antes numa solu\u00e7\u00e3o de compromisso (cf. 37,26-27), est\u00e1 agora decidido a ficar como ref\u00e9m para que seu irm\u00e3o Benjamim, preferido da fam\u00edlia, possa voltar a casa, evitando assim reeditar o sofrimento do pai.

{N}45,{/}1: (1-28) At\u00e9 agora, o tratamento entre Jos\u00e9 e os irm\u00e3os era o de senhor para com os servos. Tudo se altera quando Jos\u00e9 se d\u00e1 a conhecer: \u00abEu sou Jos\u00e9, vosso irm\u00e3o!\u00bb A como\u00e7\u00e3o fraterna atinge o auge. E as palavras dos vv. 3-8 mostram o ponto de vista da f\u00e9 sobre os acontecimentos: Deus age atrav\u00e9s dos humanos e das situa\u00e7\u00f5es, para levar por diante o seu projecto. Mesmo sem percebermos, mesmo na escurid\u00e3o, Deus est\u00e1 connosco durante todo o tempo, construindo liberdade e vida.

{N}46,{/}1: (46,1-47,12) Algumas repeti\u00e7\u00f5es e variantes de pormenor, devidas \u00e0s diversas tradi\u00e7\u00f5es, n\u00e3o escondem que esta emigra\u00e7\u00e3o para o Egipto come\u00e7a, de longe, a preparar o \u00eaxodo. Em Bersabeia, Deus anuncia a Jacob: \u00abEu descerei contigo ao Egipto e far-te-ei regressar de l\u00e1\u00bb (v. 4). A regi\u00e3o de Gessen fica a Nordeste do Egipto, regi\u00e3o da qual haveria de sair mais tarde o grupo b\u00e1sico do povo da Alian\u00e7a. Em 47,1-12, h\u00e1 duas vers\u00f5es acerca da chegada da fam\u00edlia de Jacob.

{N}47,{/}13: (13-26) O direito dos israelitas sobre as suas terras contrastava com o regime latifundi\u00e1rio total, praticado no Egipto desde o Antigo Imp\u00e9rio, segundo o qual o Fara\u00f3 era o propriet\u00e1rio de todos os terrenos. Com este pano de fundo, o autor mostra mais uma habilidade de Jos\u00e9, sem avan\u00e7ar qualquer ju\u00edzo moral sobre o processo. Conheciam-se abusos da administra\u00e7\u00e3o, alguns denunciados pelos profetas (1Rs 21; Is 5,8-10; Mq 2,1-5). Talvez o relato pretendesse sancionar algumas medidas tomadas pela corte de Salom\u00e3o.

{N}47,{/}27: (47,27-48,22) Combinando tradi\u00e7\u00f5es diferentes, o texto procura ligar as \u00faltimas vontades de Jacob ao facto de Manass\u00e9s e Efraim, filhos de Jos\u00e9, serem considerados antepassados de duas tribos de Israel. Anota raz\u00f5es para a prosperidade de ambas e para o predom\u00ednio de Efraim.

{N}49,{/}1: (1-33) Tal como as b\u00ean\u00e7\u00e3os de Isaac fixaram os destinos dos filhos (27,27-29.39-40), estas b\u00ean\u00e7\u00e3os de Jacob s\u00e3o previs\u00f5es sobre o futuro das tribos de Israel. Os or\u00e1culos fazem alus\u00e3o a acontecimentos dos tempos patriarcais, mas reflectem uma \u00e9poca posterior, com o povo j\u00e1 organizado em tribos e implantado na terra de Cana\u00e3: as dificuldades que cada uma teve de enfrentar, a proemin\u00eancia de Jud\u00e1 donde saiu a realeza, a honra da casa de Jos\u00e9 (Efraim e Manass\u00e9s). A redac\u00e7\u00e3o parece posterior ao c\u00e2ntico de D\u00e9bora (Jz 5) e anterior \u00e0s b\u00ean\u00e7\u00e3os de Mois\u00e9s (Dt 33).

{N}50,{/}1: (1-26) Com a morte de Jacob, a narrativa retoma o ambiente familiar da hist\u00f3ria de Jos\u00e9, com menos dramatismo. Aproxima-se o termo da vida de Jos\u00e9. Reaparece o tema teol\u00f3gico de fundo (cf. nota 45,1-28): Deus age dentro dos acontecimentos; a seu tempo, os momentos enigm\u00e1ticos desabrochar\u00e3o em claridade. Tudo contribuiu para a forma\u00e7\u00e3o dum povo numeroso (v. 20), que vai conhecer a escravid\u00e3o. Por\u00e9m, n\u00e3o so\u00e7obrar\u00e1 e estar\u00e1 atento ao apelo de Deus para se empenhar, segundo a promessa (v. 24; cf. 22,16; 26,3; 28,15), nos caminhos da vida e liberdade.

