{N}O OFEL{/}

Ofel \u00e9 o nome com que habitualmente se designa a antiga cidade de David. 
Em rigor, a palavra Ofel quer dizer \u00abtumor\u00bb. De facto, o lugar 
caracteriza-se pela eleva\u00e7\u00e3o do terreno que fica logo a sul do Monte do 
Templo. Quando a cidade se estendeu pela colina ocidental, levou consigo 
o seu antigo nome, Si\u00e3o, permanecendo o nome Ofel para a velha cidade de 
David estabelecida sobre a colina que desce da muralha sul da esplanada 
do Templo at\u00e9 \u00e0 piscina de {N}Silo\u00e9{/}, e que fica entre o {N}C\u00e9dron,{/} a leste, 
e o{N} Tiropeon{/} a oeste.
Este tri\u00e2ngulo com quatro ou cinco hectares conserva as marcas de um 
passado que se vai esclarecendo \u00e0 medida que progridem as escava\u00e7\u00f5es 
arqueol\u00f3gicas. Aos poucos pode ler-se nas pedras a hist\u00f3ria da cidade com 
os seus muros, as suas antigas casas, e ainda mais os engenhosos 
trabalhos realizados no decorrer dos s\u00e9culos para roubar aos inimigos a 
\u00e1gua t\u00e3o preciosa da fonte de Gion.
Assim se compreende o papel que a Cidade Santa desempenhou na hist\u00f3ria 
dos homens e dos crentes.
{K}- A CIDADE DE DAVID{/}

Os arque\u00f3logos come\u00e7aram a interessar-se pela hist\u00f3ria de Jerusal\u00e9m a 
partir dos finais do s\u00e9c. XIX. Os grandes trabalhos iniciados no declive 
oriental do Ofel, a partir de 1962, e as novas escava\u00e7\u00f5es trouxeram uma 
valios\u00edssima informa\u00e7\u00e3o sobre a cidade de David.
{K}AS ORIGENS{/}

O Ofel j\u00e1 era ocupado a partir do IV mil\u00e9nio. Um novo povoamento, 
provavelmente de agricultores, aparece na parte oriental da colina nos 
princ\u00edpios do III mil\u00e9nio. O local, abandonado por mais de um mil\u00e9nio, 
foi de novo reconstru\u00eddo: ser\u00e1 esta a cidade dos {N}Jebuseus,{/} uma cidade-
reino como as que havia frequentemente na Palestina, e que a B\u00edblia 
enumera a prop\u00f3sito da conquista, de entre as sete na\u00e7\u00f5es cananeias que 
deviam ser sacrificadas [Dt_7,1]. Deste per\u00edodo n\u00e3o se conhece nada, 
salvo as cartas de um rei de Jerusal\u00e9m, Abde-Heba, escritas em ac\u00e1dico e 
descobertas nos arquivos do fara\u00f3 El Amarna, as quais nos proporcionam 
uma certa informa\u00e7\u00e3o acerca das rela\u00e7\u00f5es entre o Egipto e esta cidade no 
s\u00e9c. XIV a.C. Datam desta \u00e9poca os enormes alicerces que deviam sustentar 
a fortaleza da cidade jebuseia.
{K}O TEMPO DOS REIS{/}

No sop\u00e9 da vertente ocidental da colina, um muro israelita de 4,50 de 
largura retoma o tra\u00e7ado do antigo muro jebuseu; este protegia a cidade, 
cujas casas se dispunham de forma escalonada at\u00e9 ao cimo do monte. Muitas 
destas casas foram descobertas, como uma de pedra talhada, composta de 
quatro divis\u00f5es e chamada \u00abcasa de Ariel\u00bb, devido ao nome do seu 
propriet\u00e1rio gravado num peda\u00e7o de cer\u00e2mica; o seu nome \u00e9 citado por 
Jeremias [Jr_36,9] - [Jr_36,12]. V\u00e1rias pe\u00e7as de cer\u00e2mica dos s\u00e9culos 
VIII e VII a.C., objectos de metal e madeira, estatuetas da deusa da 
fertilidade e alguns bras\u00f5es d\u00e3o-nos uma ideia da cultura da \u00e9poca.
Todas estas coisas constituem hoje os vest\u00edgios da total destrui\u00e7\u00e3o de 
Jerusal\u00e9m da parte dos Babil\u00f3nios. No dia sete do quinto m\u00eas do ano 
dezanove do reinado de Nabucodonosor, um dos seus oficiais, Nabuzard\u00e3, 
chefe da guarda, entrou em Jerusal\u00e9m, {C}incendiou o Templo de Jav\u00e9, o 
pal\u00e1cio real e todas as casas de Jerusal\u00e9m e todas as resid\u00eancias,{/} e as 
tropas do ex\u00e9rcito caldeu demoliram as muralhas da cidade [2Rs_25,8] - 
[2Rs_25,10].
{K}NEEMIAS RECONSTR\u00d3I AS MURALHAS{/}

Quando Neemias regressou a Jerusal\u00e9m, no ano 445, para empreender a 
constru\u00e7\u00e3o da cidade, verificou com tristeza os estragos e o deplor\u00e1vel 
estado das muralhas: {C}Levava comigo apenas o jumento que eu montava. Sa\u00ed 
de noite pela porta do Vale, e fui at\u00e9 \u00e0 fonte do Drag\u00e3o e \u00e0 porta do 
Esterco. Comprovei que as muralhas de Jerusal\u00e9m estavam cheias de brechas 
e as portas consumidas pelo fogo. Segui para a porta da Fonte e para o 
reservat\u00f3rio de \u00e1gua do rei. Como n\u00e3o havia espa\u00e7o para o animal, 
continuei a p\u00e9 riacho acima, pela noite dentro. Observei as muralhas, 
entrei de novo pela porta do Vale, e voltei para casa. As autoridades n\u00e3o 
chegaram a saber por onde eu tinha andado ou o que \u00e9 que pensava fazer... 
Mais tarde disse-lhes: \u00abEstais a ver a mis\u00e9ria em que nos encontramos, 
Jerusal\u00e9m est\u00e1 em ru\u00ednas e as suas portas foram queimadas. Vamos 
reconstruir as muralhas de Jerusal\u00e9m\u00bb... Eles disseram: \u00abVamos come\u00e7ar o 
trabalho\u00bb. E arrega\u00e7aram as mangas para realizar esse bom projecto\u00bb{/} 
[Ne_2,13] - [Ne_2,18]. 
Uma muralha reconstru\u00edda v\u00e1rias vezes, e a partir da qual se dominam as 
ru\u00ednas das casas desse per\u00edodo pertence - na sua parte mais antiga - a 
essa reconstru\u00e7\u00e3o feita no regresso do cativeiro.
{K}RESTAURA\u00c7\u00c3O NA \u00c9POCA MACABEIA{/}

As lutas dos Macabeus contra os Sel\u00eaucidas para recuperar a independ\u00eancia 
da prov\u00edncia judaica e a liberdade religiosa infligiram terr\u00edveis golpes 
\u00e0s muralhas de Jerusal\u00e9m; isso fez com que fosse necess\u00e1rio p\u00f4r de novo 
m\u00e3os \u00e0 obra. J\u00f3natas fixou a sua resid\u00eancia em Jerusal\u00e9m e come\u00e7ou a 
reconstruir e a restaurar a cidade: {C}Aos que estavam executando a reforma 
das muralhas, em volta do monte Si\u00e3o, mandou que usassem pedras 
quadradas, para ficarem mais resistentes. Eles assim fizeram{/} 
[1Mc_10,11]. O primeiro livro dos Macabeus volta ao mesmo assunto no cap. 
12: J\u00f3natas voltou, e em seguida, convocou a assembleia dos anci\u00e3os do 
povo para resolver com eles a constru\u00e7\u00e3o de lugares fortificados na 
Judeia, da eleva\u00e7\u00e3o da muralha de Jerusal\u00e9m... Ent\u00e3o reuniram-se para 
reconstruir a cidade, pois {C}o muro junto do riacho no lado oriental caiu{/} 
[1Mc_12,35] - [1Mc_12,37].

{K}- A FONTE{/}

Por volta do II mil\u00e9nio, os jebuseus empreendem a constru\u00e7\u00e3o da sua 
capital, mas enfrentam desde o princ\u00edpio o problema da \u00e1gua. Estamos 
ainda na Idade do Bronze, e a cisterna revestida e calafetada ainda n\u00e3o 
tinha sido inventada. No local existem duas nascentes: {N}Ain Roguel{/} e 
{N}Gion.{/} Mas a primeira, situada na conflu\u00eancia da Geena e do C\u00e9dron, est\u00e1 
demasiado longe para ser protegida em caso de ass\u00e9dio.
{K}A FONTE DE GION{/}

As tr\u00eas cisternas que por turnos foram utilizadas para fornecer \u00e1gua \u00e0 
cidade partem todas da fonte de Gion, a qual brota ainda sob o \u00faltimo 
degrau da escadaria de acesso. A \u00e1gua nasce de forma intermitente, v\u00e1rias 
vezes ao dia. O pr\u00f3prio nome da nascente alude ao fen\u00f3meno, pois em 
hebraico \u00abGihoni\u00bb significa \u00abque brota ou mana\u00bb, se \u00e9 que se lhe associa 
a raiz Giha, a qual se encontra sete vezes no Antigo Testamento. Este 
fen\u00f3meno, que parecia misterioso para os antigos, \u00e9 provocado na 
realidade pelo enchimento e esvaziamento, a intervalos regulares, de um 
sif\u00e3o natural, ligado \u00e0 natureza do terreno. Situada debaixo da cidade de 
David, no flanco oriental do declive, a fonte derramava ent\u00e3o as suas 
\u00e1guas no vale do C\u00e9dron.
{K}A CONSAGRA\u00c7\u00c3O DE SALOM\u00c3O{/}

No primeiro Livro dos Reis, a mencionada fonte serve de refer\u00eancia \u00e0 
consagra\u00e7\u00e3o real de Salom\u00e3o. O rei David, velho e doente, espera a morte 
no seu modesto pal\u00e1cio, longe das intrigas causadas pela sua sucess\u00e3o.
Entretanto Joab, chefe do ex\u00e9rcito, com Abiatar, sumo sacerdote, e 
Adonias, irm\u00e3o mais velho de Salom\u00e3o, conspiravam para o destronar. 
Advertido da maquina\u00e7\u00e3o por Betsabeia, m\u00e3e de Salom\u00e3o, e pelo profeta 
Nat\u00e3, o velho rei consegue impor a sua autoridade num \u00faltimo esfor\u00e7o, e 
ordena ao profeta Nat\u00e3 e ao sacerdote Sadoc: {C}Tomai convosco os oficiais 
do rei. Fazei montar o meu filho Salom\u00e3o na minha pr\u00f3pria mula, e descei 
com ele at\u00e9 Gion. Ali o sacerdote Sadoc e o profeta Nat\u00e3 ungi-lo-\u00e3o rei 
de Israel... Reinar\u00e1 em meu lugar, pois \u00e9 a ele que eu nomeio chefe de 
Israel e de Jud\u00e1{/} [1Rs_1,33] - [1Rs_1,35].

{K}- OS CANAIS{/}

Os tr\u00eas sistemas hidr\u00e1ulicos alimentados pela nascente de Gion 
correspondem a tr\u00eas etapas distintas da hist\u00f3ria de Israel: o po\u00e7o de 
Warren, o canal de Silo\u00e9 e o t\u00fanel de Ezequias.
{K}O PO\u00c7O DE WARREN{/}

Um estudo geol\u00f3gico recente demonstrou, com o apoio do carbono 14, que 
este sistema hidr\u00e1ulico subterr\u00e2neo foi instalado na \u00e9poca jebuseia. No 
terreno calc\u00e1rio que constitui o subsolo da Cidade de David, as \u00e1guas 
originaram, por eros\u00e3o da rocha, os acidentes mais curiosos; e o g\u00e9nio 
humano aproveitou-se desses elementos oferecidos pela natureza (t\u00faneis, 
po\u00e7os), alargando-os, protegendo-os, tornando-os mais eficazes, para 
garantir a sua seguran\u00e7a.
O Po\u00e7o de Warren - que tomou o nome do arque\u00f3logo que descobriu em 1867 
esta primeira rede h\u00eddrica subterr\u00e2nea - permitia aceder \u00e0 nascente a 
partir do interior da cidade em caso de ass\u00e9dio, porquanto a nascente se 
encontrava fora das muralhas. Este sistema hidr\u00e1ulico compreende um t\u00fanel 
curto, irregular, praticamente horizontal, que leva a \u00e1gua desde a fonte 
de Gion at\u00e9 \u00e0 base de um po\u00e7o vertical de 14 m. de altura. Para aceder ao 
cimo desse po\u00e7o, os habitantes de Jerusal\u00e9m serviam-se de um t\u00fanel cuja 
entrada se encontrava no interior das muralhas. O primeiro trecho do 
declive era t\u00e3o empinado que foi preciso fazer degraus na pr\u00f3pria rocha; 
no trecho seguinte o declive era mais suave. Por este meio, os habitantes 
podiam recolher \u00e1gua da fonte com toda a seguran\u00e7a, utilizando o habitual 
sistema de poleias, cordas e odres. O conjunto, t\u00fanel e po\u00e7o, \u00e9 um 
exemplo excelente do que \u00e9 um {C}sinnor,{/} um sistema complexo para tirar 
\u00e1gua que \u00e9 poss\u00edvel encontrar, al\u00e9m de outros lugares, em Jasor, Meguido 
e Gazer.
{K}DAVID TOMA JERUSAL\u00c9M{/}

Quando David, j\u00e1 proclamado rei pelos Anci\u00e3os de Jud\u00e1 e reconhecido 
tamb\u00e9m pelas tribos de Israel, decide instaurar a sua capital sobre um 
terreno neutral - entre os dois blocos do Norte e do Sul - fixa-se na 
cidade jebuseia de Jerusal\u00e9m, e conquista-a.
O relato b\u00edblico conta-nos: {C}Naquele dia, David disse: \u00abTodo aquele que 
ferir os jebuseus e subir pelo canal...{/} [2Sm_5,8]. Joab ent\u00e3o penetra 
pela entrada da nascente de Gion servindo-se do t\u00fanel que conduzia ao 
sop\u00e9 da falha do po\u00e7o de Warren - a escalada n\u00e3o apresenta dificuldades 
gra\u00e7as \u00e0 irregularidade das paredes rochosas. Isto permite subir pelo 
t\u00fanel inclinado pelo qual se chega \u00e0 \u00e1gua, e sair pela abertura que 
desemboca no Ofel.
{K}O CANAL DE SILO\u00c9{/}

O canal de Silo\u00e9 \u00e9 um aqueduto estranhamente a descoberto, pois em toda a 
parte os canais s\u00e3o constitu\u00eddos por t\u00faneis subterr\u00e2neos. Talhado na 
rocha, tamb\u00e9m come\u00e7a na nascente de Gion, correndo para o sul ao longo do 
declive oriental da cidade inferior \u00e0 muralhas. Leva a \u00e1gua desde a 
nascente at\u00e9 \u00e0 parte mais encastelada do Tiropeon: a {N}piscina{/} antiga 
[Is_22,11] ou inferior{N}{/} [Is_22,9], um grande reservat\u00f3rio hoje 
transformado em pomar.
Este aqueduto irrigava os campos vizinhos do vale de C\u00e9dron, atrav\u00e9s de 
aberturas praticadas nas paredes. Algumas dessas aberturas s\u00e3o vis\u00edveis 
ainda hoje. Se  se identifica-se este canal com o \u00abSilo\u00e9\u00bb mencionado no 
cap. 8 do livro de Isa\u00edas, dataria do reinado de Acaz. 
Provavelmente foi aqui que Isa\u00edas disse, na presen\u00e7a de Acaz, a c\u00e9lebre 
profecia da jovem que d\u00e1 \u00e0 luz: {C}Ficai sabendo que Jav\u00e9 vos dar\u00e1 um 
sinal: A jovem concebeu e dar\u00e1 \u00e0 luz um filho, e cham\u00e1-lo-\u00e1 Emanuel{/} (que 
quer dizer Deus-connosco) [Is_7,14] - [Is_7,16].
Tamb\u00e9m aqui o profeta amea\u00e7a o rei incr\u00e9dulo: \u00abJ\u00e1 que este povo desprezou 
a \u00e1gua de Silo\u00e9 que corre mansa, e tremeu diante de Rason e do filho de 
Romelias, o Senhor vai fazer cair sobre eles as \u00e1guas torrenciais do rio 
Eufrates (o rei da Ass\u00edria com toda a sua for\u00e7a)\u00bb [Is_8,6] - [Is_8,7] 
Israel desprezou a protec\u00e7\u00e3o amorosa de Deus, para p\u00f4r a sua confian\u00e7a no 
rei Teglatfalasar III, que o rei Acaz chamou em seu aux\u00edlio. Pois bem, os 
ass\u00edrios ser\u00e3o como um rio devastador, uma torrente que aniquilar\u00e1 
certamente os inimigos de Jud\u00e1, mas que far\u00e3o pesar sobre o pequeno Reino 
do Sul o jugo do seu tem\u00edvel poder.
{K}O CANAL DE EZEQUIAS{/}

No s\u00e9c. VIII  a.C., Ezequias, rei de Jud\u00e1, empreende uma obra audaz e 
original, que n\u00e3o teve compara\u00e7\u00e3o nas na\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas do M\u00e9dio 
Oriente. Para assegurar a defesa de Jerusal\u00e9m e o aprovisionamento de 
\u00e1gua para os seus habitantes, j\u00e1 que Senaquerib e o seu ex\u00e9rcito 
amea\u00e7avam atacar a cidade, Ezequias constr\u00f3i este t\u00fanel, justamente 
c\u00e9lebre, pois permite a Jerusal\u00e9m resistir ao ass\u00e9dio de 701 a.C., at\u00e9 ao 
dia da sua liberta\u00e7\u00e3o milagrosa. Quando Ezequias viu que Senaquerib vinha 
com inten\u00e7\u00f5es de atacar Jerusal\u00e9m, reuniu com todos os chefes e homens de 
valor e chegaram a um acordo: fechar todas as fontes de \u00e1gua que havia 
fora da cidade... Pois diziam \u00abPorque \u00e9 que o rei da Ass\u00edria deveria 
encontrar tanta \u00e1gua ao chegar aqui?\u00bb [2Cr_32,2] -[2Cr_32,4]. Ent\u00e3o 
Ezequias fechou a sa\u00edda superior das \u00e1guas do Gion e desviou-as, por um 
subterr\u00e2neo, para a parte ocidental da Cidade de David [2Cr_32,30].
O t\u00fanel de Ezequias, que parte tamb\u00e9m da nascente de Gion, utiliza a 
parte do t\u00fanel j\u00e1 existente que conduz as \u00e1guas desde a nascente at\u00e9 \u00e0 
base do po\u00e7o de Warren. Depois segue debaixo de terra ao longo e por 
debaixo da Cidade de David at\u00e9 desembocar na piscina de Silo\u00e9, na 
extremidade do Tiropeon. Com esta obra (o novo t\u00fanel e a piscina de 
Silo\u00e9, na qual caem as \u00e1guas de Gion), Ezequias projectava abrir um lugar 
de distribui\u00e7\u00e3o de \u00e1gua que estava protegido ao sul de Ofel. \u00c9 poss\u00edvel 
que Ezequias tenha levantado a muralha para proteger o novo reservat\u00f3rio, 
mas embora este suposto muro conste em todos os bons tra\u00e7ados da velha 
Jerusal\u00e9m, n\u00e3o foi poss\u00edvel encontrar algum vest\u00edgio dele; o que n\u00e3o quer 
dizer que ele n\u00e3o tenha existido!
{K}UMA PROEZA T\u00c9CNICA{/}

A abertura do t\u00fanel foi uma verdadeira aventura: duas equipas de mineiros 
partiram de extremos opostos e encontraram-se mais ou menos ao meio, num 
ponto facilmente identific\u00e1vel. Mas essa conjun\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi isenta de 
riscos e dificuldades. Uma inscri\u00e7\u00e3o gravada na parede de pedra comemora 
esse dia hist\u00f3rico: {C}\u00abFoi assim que se realizou a escava\u00e7\u00e3o. Quando as 
picaretas golpearam umas contra as outras e quando n\u00e3o faltavam mais que 
tr\u00eas c\u00f4vados de terreno a derrubar, ouviu-se a voz de algu\u00e9m que gritava 
do outro lado, pois havia-se aberto uma brecha na rocha, da direita para 
a esquerda. No dia da perfura\u00e7\u00e3o, os mineiros furaram a rocha cada um 
buscando o ponto de encontro, picareta contra picareta. Ent\u00e3o as \u00e1guas 
flu\u00edram desde a fonte at\u00e9 \u00e0 piscina, cerca de mil e duzentos c\u00f4vados. A 
rocha elevava-se cem c\u00f4vados sobre a cabe\u00e7a dos mineiros\u00bb.{/}

Nos \u00faltimos trechos, antes de encontrar-se, ambas as equipas de mineiros 
devem ter-se guiado atrav\u00e9s de gritos para encontrarem os do outro lado. 
Isto explicaria as hesita\u00e7\u00f5es que precederam a reuni\u00e3o. Tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel 
que os mineiros tenham deparado com rochas mais duras e se tenham visto 
obrigados a mudar de direc\u00e7\u00e3o, o que explicaria a origem do percurso em S 
do t\u00fanel na sua parte central. O t\u00fanel de Ezequias desemboca na piscina 
de Silo\u00e9, a {N}piscina{/} (ou reservat\u00f3rio) superior [Is_36,2], um novo 
dep\u00f3sito que n\u00e3o se deve confundir com a piscina inferior.
{K}A PISCINA DE SILO\u00c9{/}

Para a festa das Tendas (ou Tabern\u00e1culos), celebrada no in\u00edcio do Outono 
antes da chegada das primeiras chuvas, os sacerdotes desciam todos os 
dias \u00e0 piscina de Silo\u00e9 para tirar \u00e1gua com um c\u00e2ntaro de ouro que depois 
derramavam como liba\u00e7\u00e3o sobre o altar do Templo. Nesta festa, os 
peregrinos exteriorizavam a sua alegria agitando os seus lulab (uma 
esp\u00e9cie de ramo composto por uma palmeira a que juntavam ramos de 
salgueiro e de murta, e um cedrat, uma esp\u00e9cie de limoeiro verde) 
enquanto cantavam o Grande Hallel (Salmos 113 a 118, segundo a numera\u00e7\u00e3o 
hebraica). Quatro candelabros de ouro, acesos no \u00e1trio das mulheres, 
iluminavam toda a cidade; era a vez da festa da \u00e1gua e da luz, que o 
salmo 118 recorda no vers\u00edculo 26: \u00abBendito o que vem em nome de Jav\u00e9\u00bb, 
uma refer\u00eancia messi\u00e2nica.
A cura do cego de nascen\u00e7a, no evangelho de S. Jo\u00e3o, inscreve-se neste 
contexto lit\u00fargico e messi\u00e2nico. Jo\u00e3o esclarece, nesta ocasi\u00e3o, que Silo\u00e9 
quer dizer \u00abenviado\u00bb [Jo_9,7]. O lugar aonde Jesus, depois de ter ungido 
com barro os olhos do cego, o enviou a lavar-se, \u00e9 literalmente a piscina 
do \u00abenviado\u00bb. E Jesus \u00e9 este enviado que proclama: {C}\u00abEu sou a luz do 
mundo. Quem Me segue n\u00e3o andar\u00e1 nas trevas, mas possuir\u00e1 a luz da vida{/} 
[Jo_8,12].
E \u00e9 no mesmo contexto da corrente de \u00e1gua que devemos ler a promessa da 
\u00e1gua viva. No \u00faltimo dia da festa, que \u00e9 o mais solene, Jesus ficou de p\u00e9 
e gritou: {C}\u00abSe algu\u00e9m tem sede, venha a Mim, e aquele que acredita em 
Mim, beba. \u00c9 como diz a Escritura: "Do seu seio jorrar\u00e3o rios de \u00e1gua 
viva"\u00bb{/} [Jo_7,37] - [Jo_7,39].
{K}A GEENA{/}

Situado a sul de Jerusal\u00e9m, entre o monte Si\u00e3o e o Monte do Mau Conselho, 
o vale da Geena desemboca no vale do C\u00e9dron, aos p\u00e9s da aldeia de Silo\u00e9. 
Na altura da reparti\u00e7\u00e3o da Terra entre as tribos, a Geena serviu de 
limite entre os territ\u00f3rios de Jud\u00e1 e Benjamim: a fronteira ... vai 
descendo o vale de Enom, ao lado dos Jebuseus para sul, indo at\u00e9 Ben-
Rogel  [Js_18,16]. Se segundo a tradi\u00e7\u00e3o, no Novo Testamento, este vale \u00e9 
chamado Geena, o seu nome na \u00e9poca israelita corresponde a Gue Ben-Hinom 
(Vale do filho de Hinom) e deve o seu nome, muito provavelmente, a uma 
pessoa ilustre jebuseia ou cananeia.
{K}O TOFET{/}

O que deu a este vale o seu triste nome - que far\u00e1 que no Novo Testamento 
o utilizem como s\u00edmbolo do lugar dos condenados - foi a pr\u00e1tica de 
sacrif\u00edcios de crian\u00e7as que os cananeus, e mais tarde os israelitas 
id\u00f3latras ofereceram ao deus Moloc neste lugar, como atestam numerosos 
textos do Antigo Testamento: (O rei Acaz){C} imitou o comportamento dos 
reis de Israel e chegou at\u00e9 a sacrificar o seu filho no fogo, conforme os 
costumes abomin\u00e1veis das na\u00e7\u00f5es que Jav\u00e9 tinha expulsado diante dos 
israelitas{/} [2Rs_16,3]. Com efeito, as escava\u00e7\u00f5es trouxeram \u00e0 luz 
esqueletos de crian\u00e7as carbonizadas.
No seu tempo, os profetas levantaram-se veementemente contra estas 
pr\u00e1ticas b\u00e1rbaras: {C}Escutai a palavra de Jav\u00e9, \u00f3 reis de Jud\u00e1 e 
habitantes de Jerusal\u00e9m. Assim fala Jav\u00e9 dos ex\u00e9rcitos, o Deus de Israel: 
\u00abVou mandar contra este lugar uma calamidade t\u00e3o grande, que far\u00e1 retinir 
os ouvidos de quem a ouvir. Porque eles Me abandonaram e profanaram este 
lugar, queimando incenso a outros deuses, que nem eles, nem os seus 
antepassados, nem os reis de Jud\u00e1 conheciam. Encheram este lugar com 
sangue de inocentes, e constru\u00edram lugares altos para Baal, para queimar 
os seus filhos no fogo em holocausto a Baal... Por isso - or\u00e1culo de Jav\u00e9 
- vir\u00e3o dias em que  este lugar j\u00e1 n\u00e3o se chamar\u00e1 Tofet ou vale de Ben-
Enom, mas vale da Matan\u00e7a\u00bb{/} [Jr_19,6].
{K}HACELDAMA{/}

Na Geena, o convento greco-ortodoxo de Santo Onofre consagra o lugar 
onde, desde o s\u00e9c. IV, a tradi\u00e7\u00e3o diz que estava o \u00abCampo de Sangue\u00bb.
Nos relatos evang\u00e9licos, \u00abHaceldama, o \u00abCampo de Sangue\u00bb, substitui o 
primitivo nome de \u00abCampo do Oleiro\u00bb, depois de Judas ter devolvido o 
dinheiro da trai\u00e7\u00e3o: {C}Recolhendo as moedas, os sumos sacerdotes disseram: 
\u00ab\u00c9 contra a Lei coloc\u00e1-las no tesouro do Templo, porque \u00e9 pre\u00e7o de 
sangue\u00bb. Ent\u00e3o discutiram em conselho, e deram-nas em troca pelo Campo do 
Oleiro, para l\u00e1 fazerem o cemit\u00e9rio dos estrangeiros. \u00c9 por isso que esse 
campo at\u00e9 hoje \u00e9 chamado \u00abCampo de Sangue\u00bb{/}
Assim se cumpriram as palavras do profeta Zacarias: {C}Ent\u00e3o eles pesaram o 
dinheiro do meu sal\u00e1rio: trinta siclos de prata. E Jav\u00e9 disse-me: \u00abEnvia 
ao fundidor este pre\u00e7o fabuloso com que fui avaliado por eles\u00bb{/} 
[Zc_11,12] - [Zc_11,13].
