{N}1,{/}2 O texto diz: \u00abRevela\u00e7\u00e3o (ou declara\u00e7\u00e3o) de Jesus Cristo\u00bb. Esta express\u00e3o designa aqui as mensagens dadas pelos profetas da Igreja (19,10). Jo\u00e3o considera, pois, este \u00abapocalipse\u00bb, como fruto do esp\u00edrito de profecia que lhe foi concedido. Por isso, mesmo sabendo que o apocalipse \u00e9 um g\u00e9nero liter\u00e1rio que obedece a determinadas regras e que recorre a imagens convencionais, sabemos tamb\u00e9m que a inspira\u00e7\u00e3o \u00e9 prof\u00e9tica. Ultrapassa em muito uma simples composi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, e a diferen\u00e7a \u00e9 ressaltada quando o comparamos a outros apocalipses da mesma \u00e9poca - inclusivamente com as parte apocal\u00edpticas de Daniel 10-12. A Igreja n\u00e3o se enganou ao falar, muito cedo, do Apocalipse de Jo\u00e3o, o Profeta, sem aprofundar muito se se trataria do mesmo Jo\u00e3o ap\u00f3stolo.

{N}1,{/}6 A Igreja \u00e9 o \u00abresto de Israel\u00bb: a ela se aplicam, pois, prioritariamente, esses qualificativos que Deus atribu\u00eda ao seu povo particular, ao fazer a alian\u00e7a com ele (Ex 19,6).

{N}1,{/}8 {C}O Deus todo-poderoso. {/}Na B\u00edblia grega, utilizada pela Igreja primitiva, essa express\u00e3o aparecia sempre como tradu\u00e7\u00e3o de Sabaot: o Deus Sabaot \u00e9 o Deus dos Ex\u00e9rcitos, n\u00e3o tanto dos ex\u00e9rcitos de Israel, como dos ex\u00e9rcitos do c\u00e9u e da terra (Sl 148,2), ou seja, de todas as criaturas que enchem o universo.

{N}1,{/}9 Aqui o {C}testemunho de Jesus {/}parece ser a mensagem de Jesus. Jo\u00e3o n\u00e3o gosta de citar Deus sem colocar Jesus em paralelo, exactamente como faz Paulo, utilizando as palavras Deus e Senhor.

{N}5,{/}8 Os anjos apresentam as ora\u00e7\u00f5es dos santos. Jo\u00e3o limita-se a retomar a tradi\u00e7\u00e3o do Antigo Testamento: Tb 11,12. \u00c9 prov\u00e1vel que Jesus estivesse a pensar nisso quando, em Mt 18,10, falava dos anjos dos \u00abpequeninos\u00bb.

{N}5,{/}9 Os antigos manuscritos t\u00eam textos discordantes. Muitos dizem: \u00abAdquiriste-nos para Deus dentre toda a tribo e na\u00e7\u00e3o...\u00bb Todo o texto d\u00e1 a entender que os que figuram nesta cena s\u00e3o as personagens do Antigo Testamento, e aclamam o Cordeiro quando este ocupa o seu lugar no C\u00e9u, imediatamente ap\u00f3s a sua Ressurrei\u00e7\u00e3o. Glorificam-n'O, porque somou aos eleitos de Israel, j\u00e1 adquiridos por Deus atrav\u00e9s da Alian\u00e7a do Sinai, esses povos numerosos que viriam a entrar na Igreja e se tornariam, com eles, reis e sacerdotes (Ex 19,6).

{N}6,{/}1 Uma vez mais se v\u00ea que o n\u00famero 7 se decomp\u00f5e em 4 e 3; 4 \u00e9 o n\u00famero da Terra, e 3 o do C\u00e9u (tal como nas peti\u00e7\u00f5es do Pai Nosso). Quatro cavalos para os factores terrestres da Hist\u00f3ria, e tr\u00eas elementos celestes: as almas dos m\u00e1rtires, os astros do c\u00e9u e, em 8,1, a decis\u00e3o do Ju\u00edzo.

{N}7,{/}4 N\u00e3o h\u00e1 explica\u00e7\u00e3o para esta lista das doze tribos, que inclui uma duplica\u00e7\u00e3o (Manass\u00e9s fazia parte da casa de Jos\u00e9) e que esquece D\u00e3. A lista varia consoante os lugares da B\u00edblia em que a encontramos: ver nota a Gn 48,1.

{N}8,{/}1 Devemos reconhecer que estes cap\u00edtulos, 8 e 9, apresentam um problema grave para quem tenta encontrar uma ordem cronol\u00f3gica neste livro. Deixemos de lado as Mensagens \u00e0s Igrejas, dos cap\u00edtulos 2 e 3. \u00c9 evidente que os cap\u00edtulos 4-7 se desenvolvem no mundo do Antigo Testamento, e que o Cordeiro encerra a chave desta Hist\u00f3ria; ela termina, ou melhor, abre-se, com uma multid\u00e3o de eleitos de todas as na\u00e7\u00f5es que v\u00eam da grande persegui\u00e7\u00e3o.
Por outro lado, tamb\u00e9m \u00e9 evidente que o cap\u00edtulo 10 inaugura a hist\u00f3ria da Igreja, a partir da vinda do Filho a este mundo. Em seguida o livro centrar-se-\u00e1 no testemunho dos crist\u00e3os no Imp\u00e9rio, at\u00e9 \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o deste (19,10). De 19,11 a 20,10, temos uma evoca\u00e7\u00e3o dos tempos que est\u00e3o para vir. Depois, em 20,11, vem o Ju\u00edzo final, seguido da Jerusal\u00e9m celeste: cap. 21-22.
Que significam ent\u00e3o estes cap\u00edtulos 8 e 9 que apresentam uma s\u00e9rie de provas, que n\u00e3o s\u00e3o as \u00faltimas (9,20), mas antes o pre\u00e2mbulo do ju\u00edzo: invas\u00e3o dos poderes infernais, desencadeamento dos flagelos da viol\u00eancia e da guerra, e tudo isso sem que os pecadores se convertam? Ao que parece, este quadro, mesmo que se tomem em conta as suas cores apocal\u00edpticas, exprime mais qualquer coisa do que a trag\u00e9dia judia dos anos 66-70, de que Jo\u00e3o tinha sido testemunha, e sobretudo o par\u00e1grafo 9,20 dirige-se apenas \u00e0s na\u00e7\u00f5es pag\u00e3s. O mais prov\u00e1vel \u00e9 que tenhamos nestes cap\u00edtulos 8-9 o fim de um primeiro quadro, que come\u00e7a no cap\u00edtulo 4. Neste, Jo\u00e3o n\u00e3o vai al\u00e9m da entrada dos eleitos e baptizados de todas as na\u00e7\u00f5es na Hist\u00f3ria do povo de Deus. Depois deixa em branco um porvir que ignora, um intervalo de anos, ou de s\u00e9culos, simbolizado pelo sil\u00eancio de uma meia hora (8,1), e nestes dois cap\u00edtulos passa directamente para as grandes provas que antecedem o ju\u00edzo.
Em seguida, no cap\u00edtulo 10, come\u00e7a um novo quadro do seu Apocalipse, com a vinda do Verbo de Deus ao mundo. Sem se preocupar mais com as ra\u00edzes judaicas da Igreja, Jo\u00e3o volta-se para o futuro e mostra-a em confronta\u00e7\u00e3o com o mundo dos pag\u00e3os, at\u00e9 \u00e0s grandes provas que precedem o Ju\u00edzo. Estas s\u00e3o descritas em 19,11 e 20,1, com imagens diferentes das da primeira parte. \u00c9 ent\u00e3o que se juntam as duas grandes vis\u00f5es, desembocando na Jerusal\u00e9m celeste.

{N}8,{/}3 Fixemo-nos nessa prepara\u00e7\u00e3o do Ju\u00edzo que toma a forma de uma liturgia: incenso e trombetas sagradas.

{N}9,{/}21 Uma classifica\u00e7\u00e3o das grandes formas do mal: primeiro, a idolatria, com o culto de objectos sa\u00eddos da m\u00e3o do homem; depois o crime, a magia, a imoralidade sexual e o roubo. No fim do livro, em 22,15, voltar\u00e3o a ser encontrados sob uma forma bastante semelhante, mas o roubo ser substitu\u00eddo pela mentira, que Jo\u00e3o denuncia muito especialmente na sua primeira carta e no Apocalipse.

{N}12,{/}1 {N}A MULHER E O DRAG\u00c3O{/}
Esta vis\u00e3o da mulher retoma o sol, a lua e as estrelas do sono de Jos\u00e9 em Gn 37,9, mas o papel do sol e da lua levam-nos imediatamente a pensar na mulher do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos 6,10. No G\u00e9nesis, tratava-se de Jos\u00e9 no meio dos seus irm\u00e3os, no C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos, era Israel no meio das na\u00e7\u00f5es (ver linhas precedentes de Ct 6,8-9). Aqui aparece a mulher como centro da cria\u00e7\u00e3o. O cap\u00edtulo apresenta-se como continua\u00e7\u00e3o de Gn 3,15, mas sem ignorar o Emanuel e sua M\u00e3e em Is 7,14 (e Mq 5,2).
Este cap\u00edtulo \u00e9 um daqueles que d\u00e3o a entender a mistura de pe\u00e7as diferentes, da\u00ed que se tenham imaginado muitas solu\u00e7\u00f5es para o reorganizar e para tentar encontrar os elementos originais; a multiplicidade desses ensaios demonstra que nenhum acabou por se impor. Este cap\u00edtulo, tal como o primeiro cap\u00edtulo dos Ef\u00e9sios, divide-se em dois tempos: primeiro, o que se passa no plano eterno de Deus, depois, a sua realiza\u00e7\u00e3o na Terra; isto est\u00e1 muito de acordo com a vis\u00e3o da hist\u00f3ria pr\u00f3pria dos apocalipses.
{N}1-2{/}: a mulher e a Encarna\u00e7\u00e3o no centro do plano de Deus sobre o universo.
{N}3-4a{/}: a apresenta\u00e7\u00e3o do drag\u00e3o, anjo poderoso. Diz-se que ele provocar\u00e1 a rebeli\u00e3o na esfera celeste, mas n\u00e3o que esta tenha lugar nesse momento.
{N}4b-6{/} o drag\u00e3o decidiu devorar o filho da mulher, e Deus interv\u00e9m: o filho ser\u00e1 senhor das na\u00e7\u00f5es, mesmo que a mulher tenha de viver no deserto (como a M\u00e3e do Emanuel).
{N}7-9{/} divis\u00e3o do mundo dos esp\u00edritos e expuls\u00e3o dos malvados.
{N}10-12{/} o coro (no sentido da trag\u00e9dia antiga) louva as decis\u00f5es de Deus.
{N}13-18{/} passa-se \u00e0s consequ\u00eancias desta crise no tempo e na Hist\u00f3ria. Quem \u00e9 apresentada a ju\u00edzo \u00e9 a Igreja, no dia seguinte \u00e0 Ressurrei\u00e7\u00e3o. Mas \u00e9 dif\u00edcil interpretar o rio que o drag\u00e3o vomita por detr\u00e1s da mulher. Em 17-18, volta \u00e0s persegui\u00e7\u00f5es contra os crist\u00e3os do Imp\u00e9rio, aos quais Jo\u00e3o se dirige.
Se quis\u00e9ssemos agora precisar o sentido da vis\u00e3o, ter\u00edamos de re-situ\u00e1-la no livro. Ver, a esse respeito, a nota a 8,1. A vis\u00e3o das duas testemunhas, no cap. 11, \u00e9 a evangeliza\u00e7\u00e3o e a chamada \u00e0 convers\u00e3o ao longo de toda a Hist\u00f3ria. Agora a vis\u00e3o da Mulher e do drag\u00e3o apresenta os protagonistas da luta que ocupar\u00e1 os cap\u00edtulos seguintes. A Mulher \u00e9 a humanidade desposada com Deus. N\u00e3o digamos que \u00e9 a Igreja, porque ela estava presente antes de Cristo, e \u00e9 ela que o d\u00e1 \u00e0 luz, mas em cada \u00e9poca identifica-se com o povo salvo. Antes de Cristo, ela era a esposa do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos, aguardando ansiosa a visita do seu Rei. Depois passa a constituir uma \u00fanica coisa com os seus filhos que, agora, s\u00e3o os seguidores do Evangelho, testemunhas e profetas de Jesus; de facto, na cultura hebraica, os filhos de..., quer sejam de Ad\u00e3o, quer de Belial ou dos profetas, designam uma colectividade que constitui uma \u00fanica coisa com o pai lend\u00e1rio a que est\u00e3o vinculados.
Aqui Jo\u00e3o conservou a sua linguagem, mas aparece um elemento novo: a M\u00e3e de Jesus \u00e9 uma pessoa concreta, e de repente a Mulher sai do mundo dos s\u00edmbolos para se encarnar em Maria.
Se Jo\u00e3o reconhece em Maria a Mulher, tanto em Can\u00e1 como no Calv\u00e1rio, tamb\u00e9m \u00e9 muito leg\u00edtimo conservar aqui essa identifica\u00e7\u00e3o. Por outro lado, seria um erro pensar que o sinal impressionante seja uma forma de designar, de um modo exclusivo, esta pessoa ou aquela comunidade que Jo\u00e3o teria em mente: a profecia d\u00e1 um sinal que abarca a totalidade do tempo e depois Jo\u00e3o aplica-a, ou n\u00f3s aplicamo-la, com mais ou menos acerto, aos acontecimentos e \u00e0s pessoas situadas na linha indicada. A figura da Mulher no centro do Apocalipse \u00e9 extremamente importante, porque, embora a B\u00edblia esteja quase completamente dominada pelo modo de pensar dos homens, e marcada por experi\u00eancias vividas apenas por homens, um dos tra\u00e7os dominantes da revela\u00e7\u00e3o crist\u00e3, e o que confere a sua identidade \u00e0 f\u00e9, \u00e9 conceber toda a rela\u00e7\u00e3o dos homens com Deus como a prepara\u00e7\u00e3o de um matrim\u00f3nio grandioso. O C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos e o sinal da Mulher exprimem o que se encontra no cora\u00e7\u00e3o de toda a revela\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica. De igual modo \u00e9 verdade que, quando a Igreja defende a predestina\u00e7\u00e3o de Maria, a sua virgindade perp\u00e9tua e a sua presen\u00e7a em toda a obra da salva\u00e7\u00e3o, ela reafirma um dos tra\u00e7os essenciais do Deus da B\u00edblia: n\u00e3o reconhecer os privil\u00e9gios de Maria significa n\u00e3o voltar a encontrar-se unicamente com Deus; significa adulterar o rosto que Deus quis dar a Si pr\u00f3prio.
Contudo, tamb\u00e9m \u00e9 um facto que no nosso s\u00e9culo a piedade mariana invadiu muitos dom\u00ednios dos quais at\u00e9 ent\u00e3o estava ausente. Nos s\u00e9culos passados, a pr\u00f3pria f\u00e9 e a pr\u00f3pria vis\u00e3o de Deus e de Cristo-Esposo apoiavam-se em convic\u00e7\u00f5es e numa piedade diferentes. Uma pl\u00eaiade de apaixonados voltou a encontrar nela a Esposa do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos, vendo totalmente nela, antes de mais, a figura da Igreja: sabiam que eles pr\u00f3prios constitu\u00edam uma parte importante do mist\u00e9rio e da predestina\u00e7\u00e3o de Deus. A identifica\u00e7\u00e3o de Maria com a mulher n\u00e3o deveria ser agora mais uma maneira de subestimar a nossa pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o e o amor \u00fanico com o qual o Pai nos conheceu. Jesus convidou os seus ap\u00f3stolos a acreditar que se encontravam no centro do plano de Deus, mais do que a invejar os maiores santos do passado, e a viver por meio de interpostas pessoas.

{N}12,{/}18 Os textos antigos dividem-se. Alguns dizem: \u00abDeteve-se\u00bb, e juntam-no ao vers\u00edculo 17. Outros dizem: \u00abDetive-me\u00bb, e ligam-no \u00e0 vis\u00e3o seguinte.

{N}14,{/}14 Este Filho do Homem pretende, certamente, recordar-nos o Cristo Juiz, mas Jo\u00e3o rejeita tudo o que pudesse ser interpretado como um Ju\u00edzo ao estilo de Miguel \u00c2ngelo: Jesus n\u00e3o aparecer\u00e1, sendo substitu\u00eddo por um anjo.

{N}16,{/}1 Os sete c\u00e1lices s\u00e3o como uma nova vers\u00e3o das sete trombetas dos cap\u00edtulos 8 e 9. Encontra-se aqui de novo a \u00e1gua convertida em sangue, a interven\u00e7\u00e3o no Eufrates, a invas\u00e3o dos esp\u00edritos diab\u00f3licos... Mais uma vez, os castigos divinos s\u00e3o apresentados sob a forma de uma grande liturgia. Mas aqui tudo se concentrar\u00e1 na grande Cidade.

{N}20,{/}7 {N}PROFECIAS{/}
Observamos aqui uma brusca mudan\u00e7a de velocidade da vis\u00e3o prof\u00e9tica. Jo\u00e3o falou largamente da idolatria romana e das persegui\u00e7\u00f5es do poder totalit\u00e1rio; depois, com o cap\u00edtulo 20, entramos nos tempos que se seguem e Jo\u00e3o parece ver neles apenas a felicidade da paz recuperada. A besta totalit\u00e1ria e o falso Cristo - institui\u00e7\u00f5es, mais do que pessoas - foram enviados para o fogo eterno, e os agentes de Satan\u00e1s foram pura e simplesmente eliminados (19,21). S\u00f3 depois desses mil anos de paz, resumidos em algumas linhas, o dem\u00f3nio come\u00e7a novamente a trabalhar; em dois par\u00e1grafos, a grande revolta (Paulo falar\u00e1 da apostasia em 2Ts 2,3) \u00e9 dominada, e a Hist\u00f3ria termina com o dem\u00f3nio a ser novamente enviado para o inferno.
Encontramos aqui o que j\u00e1 se notava nos profetas do Antigo Testamento: a profecia v\u00ea nos acontecimentos do momento uma presen\u00e7a antecipada do Ju\u00edzo, passa por cima de tudo o que eles t\u00eam de positivo e s\u00f3 quer mostrar o que neles clama por uma interven\u00e7\u00e3o de Deus. Em seguida, todo o tempo que transcorrer\u00e1 entre o fim do sistema actual, condenado, e o fim da hist\u00f3ria, \u00e9 apenas um grande engano: o profeta n\u00e3o fora chamado a descrever previamente o desenrolar da Hist\u00f3ria.
Existe uma continuidade entre a profecia do Antigo Testamento e a profecia crist\u00e3. Mesmo quando a revela\u00e7\u00e3o chega ao seu termo, e de forma definitiva, com o Apocalipse, o carisma prof\u00e9tico n\u00e3o se extingue. Muitas pessoas voltam-se actualmente para as mensagens celestes, tanto mais numerosas quanto mais se alargou o mundo, e quanto mais as revolu\u00e7\u00f5es em curso tenham deitado por terra as nossas certezas. Seja qual for a parte de credibilidade e de ilus\u00e3o das mensagens celestes que florescem um pouco por toda a parte, seria muito injusto menosprezar todas essas advert\u00eancias; prov\u00eam, com frequ\u00eancia, de profetas cujo carisma \u00e9 dif\u00edcil de negar. A maior parte do tempo, limitam-se a repetir, de forma intensiva, com imagens que impressionam a nossa imagina\u00e7\u00e3o que nos convencem, as chamadas do Evangelho \u00e0 convers\u00e3o e \u00e0 imin\u00eancia do ju\u00edzo de Deus sobre os sistemas idol\u00e1tricos que nos aprisionam. Mesmo que a sua mensagem n\u00e3o inclua mais nada do que aquilo que encontramos na Escritura lida com f\u00e9, essas profecias n\u00e3o s\u00e3o in\u00fateis, porque tocam aqueles a quem a Igreja ou as circunst\u00e2ncias n\u00e3o permitiram entrar na B\u00edblia.
N\u00e3o se trata, pois, de ignorar a profecia crist\u00e3 do nosso tempo desde o escabelo da nossa ci\u00eancia teol\u00f3gica, muitas vezes de car\u00e1cter t\u00e3o racionalista; o Esp\u00edrito e os esp\u00edritos s\u00e3o t\u00e3o necess\u00e1rios como os prelados na vida da Igreja, inclusivamente quando tocam o monop\u00f3lio da autoridade. Contudo, \u00e9 necess\u00e1rio aplicar-lhes, isso sim, os crit\u00e9rios da B\u00edblia. Dever\u00edamos escutar as advert\u00eancias, prestar aten\u00e7\u00e3o aos sinais pr\u00f3ximas que se nos apresentam; por outro lado, por\u00e9m, tudo aquilo que, nessas mensagens, pretendesse mostrar-nos de outra forma o que est\u00e1 para vir, deve ser atribu\u00eddo \u00e0 ilus\u00e3o e \u00e0s limita\u00e7\u00f5es humanas do profeta, e n\u00e3o ao Esp\u00edrito de Deus.

{N}22,{/}3 {N}A SALVA\u00c7\u00c3O DOS N\u00c3O-CRIST\u00c3OS{/}
O Novo Testamento, palavra definitiva, n\u00e3o nos deveria dizer como se salvar\u00e3o os que n\u00e3o conheceram o \u00danico Salvador? Mas n\u00e3o o faz, e o Apocalipse, que encerra o livro, fala-nos apenas de uma luta sem quartel das pot\u00eancias do mal, instaladas em todas as esferas da sociedade, contra a Igreja nascente. Em momento algum menciona os in\u00fameros n\u00e3o-crist\u00e3os que n\u00e3o foram as testemunhas da Palavra, nem os instrumentos do mal.
O mesmo ocorre nas cartas de Paulo: os n\u00e3o-crist\u00e3o s\u00e3o {C}os de fora{/}; s\u00e3o um {C}mundo {/}em que o esp\u00edrito mau actua livremente. Inclusivamente o texto de 1Tm 2,4 ({C}Deus quer que todos os homens se salvem...{/}) ignora a quest\u00e3o que nos preocupa, referindo-se apenas \u00e0 vontade divina de fazer chegar a todos os homens a mensagem da salva\u00e7\u00e3o.
Ignorar at\u00e9 este ponto os que constituem a imensa maioria poderia fazer do cristianismo uma mensagem sect\u00e1ria: j\u00e1 dissemos uma palavra sobre essa frase \u00abfora da Igreja n\u00e3o h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o\u00bb, a prop\u00f3sito de Mc 16,16. No entanto, n\u00e3o devemos surpreender-nos: os livros do Novo Testamento dirigiam-se a pequenas comunidades cujo universo se limitava ao mundo greco-romano, e cujos problemas n\u00e3o ultrapassam a sua cidade. A\u00ed se desenrolava o combate para esses crist\u00e3os tantas vezes mal vistos ou perseguidos: dever-se-ia dizer-lhes que, da sua fidelidade, dependia a salva\u00e7\u00e3o do mundo.
Nada, por\u00e9m, justifica, no Evangelho, uma discrimina\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos que n\u00e3o receberam a revela\u00e7\u00e3o b\u00edblica: vejamos como actua Jesus com os n\u00e3o-judeus em Mc 7,24-8,10. Do mesmo modo, a par\u00e1bola do Ju\u00edzo final (Mt 25,31) n\u00e3o estabelece qualquer distin\u00e7\u00e3o entre crentes e n\u00e3o crentes. Isso \u00e9 suficiente para nos levar a repensar o problema da salva\u00e7\u00e3o dos que n\u00e3o receberam a f\u00e9. A quest\u00e3o, quanto ao resto, n\u00e3o consiste agora em saber se Deus tem um Esp\u00edrito bastante aberto para Se interessar pelos \u00abde fora\u00bb, mas em compreender de que modo Ele disp\u00f4s a Hist\u00f3ria humana de maneira que todos sejam salvos pelo \u00fanico Salvador, mas que apenas uma minoria deva conhecer o Filho feito homem. Porqu\u00ea voca\u00e7\u00f5es t\u00e3o opostas: conhecer ou n\u00e3o a grande manifesta\u00e7\u00e3o divina? Se acreditamos que Deus actua com uma generosidade sem limites e sem distin\u00e7\u00e3o de pessoas, como podemos ver nisso uma obra digna d'Ele?
Muitos crist\u00e3os, hoje, gostariam de pensar que s\u00f3 a linguagem e a cultura nos separam daqueles que n\u00e3o partilham a nossa f\u00e9, que a diversidade religiosa nasce das nossas limita\u00e7\u00f5es e que a verdade deve ser encontrada para al\u00e9m dos diferentes credos. Quer estejam abertos \u00e0s espiritualidades orientais, quer imersos na nossa cultura liberal, existe a grande tenta\u00e7\u00e3o de negar as diferen\u00e7as e de remeter tudo para o terreno das religi\u00f5es comparadas. A revela\u00e7\u00e3o crist\u00e3 op\u00f5e-se a esse tipo de concess\u00f5es: mesmo que aceitemos que haja outras revela\u00e7\u00f5es de Deus e que outras religi\u00f5es se apoiem em profetas que n\u00e3o s\u00e3o os nossos, mas que devemos respeitar, o Filho \u00e9 \u00fanico, assim como Deus \u00e9 um. No entanto, sem renegar a unicidade da salva\u00e7\u00e3o crist\u00e3, podemos ampliar a nossa vis\u00e3o tradicional: bastaria p\u00f4r em evid\u00eancia, n\u00e3o uma confronta\u00e7\u00e3o, mas um desafio, das sabedorias n\u00e3o-crist\u00e3s com a sabedoria do povo de Deus. Durante s\u00e9culos a cristandade tentou tranquilizar-se rebaixando essas outras sabedorias e religi\u00f5es: s\u00e3o apenas balbuciamentos humanos, comparados com a plena luz que Deus nos d\u00e1. Mas, porque n\u00e3o havemos de reconhecer a exist\u00eancia de dois caminhos, igualmente queridos por Deus, embora o Esp\u00edrito do mal tenha semeado neles todo o tipo de confus\u00e3o e de miragens?
N\u00e3o podemos duvidar da nossa voca\u00e7\u00e3o privilegiada, mas tamb\u00e9m n\u00e3o podemos concluir que Deus mede os dons que concede aos outros e que os salva por benevol\u00eancia exagerada. Deus salva uns manifestando-Se, e outros deixando que procurem (Act 17,27); o que aqui nos parece uma contradi\u00e7\u00e3o, \u00e9, de facto, uma exig\u00eancia absoluta da santidade de Deus. Porque Deus n\u00e3o Se pode revelar sem ficar simultaneamente oculto, n\u00e3o pode prometer nem comprometer qualquer parte de Si, sem mergulhar imediatamente no mist\u00e9rio ou, se preferirmos, sem nos submergir na nossa condi\u00e7\u00e3o de criatura.
Falar do Deus Santo \u00e9 confessar que temos uma consci\u00eancia aguda, n\u00e3o tanto do que Ele \u00e9, mas da sua ac\u00e7\u00e3o, sempre imprevis\u00edvel. Os acontecimentos que vivemos, com a sua boa dose de trag\u00e9dias e de esc\u00e2ndalos, apresentam-se-nos ent\u00e3o como um jogo divino: vemos que se desenvolvem sobre um fundo de realidade onde n\u00e3o h\u00e1 mais nada al\u00e9m do mist\u00e9rio da liberdade divina. {C}O nosso Deus \u00e9 um fogo devorador{/}, e n\u00f3s ficamos impotentes frente \u00e0s iniciativas e \u00e0 exuber\u00e2ncia das suas riquezas inalcan\u00e7\u00e1veis, tantas vezes terr\u00edveis, que s\u00e3o capazes de nos esmagar com a nossa sabedoria.
O Deus Santo quis a coisa mais inconceb\u00edvel para a raz\u00e3o humana: fazer que seres criados se voltem para Ele na sua eternidade. Assumiu, assim, riscos impressionantes: que podem e que devem conhecer eles de Deus? Que experi\u00eancias deve efectuar no decorrer da sua exist\u00eancia, t\u00e3o limitada no tempo? Que devem adivinhar do Ser superior do qual prov\u00eam, para que a sua vida presente seja um prel\u00fadio da eternidade? Que traumatismos s\u00e3o necess\u00e1rios para os preparar para essa metamorfose?
O ap\u00f3stolo Tiago defende que em Deus n\u00e3o h\u00e1 trevas e que n'Ele tudo \u00e9 luz. Contudo, essa luz n\u00e3o \u00e9 nossa e cega-nos. Qual \u00e9 o crente que, ao sair da ora\u00e7\u00e3o, est\u00e1 livre de ser perturbado, de repente, por uma desgra\u00e7a imprevista? Como p\u00f4de Deus permitir isso...? Vamos ainda mais longe: nunca houve um amigo de Deus, a quem Ele Se tenha revelado para al\u00e9m das normas comuns, que n\u00e3o tenha tido de passar por per\u00edodos de prova interior, por vezes terr\u00edvel, onde parecia que tudo o que j\u00e1 tinha experimentado n\u00e3o passara de um sonho. Com efeito, Deus n\u00e3o pode revelar-Se, sem que as nossas palavras, e depois as nossas experi\u00eancias, atrai\u00e7oem a sua verdade.
Esse mist\u00e9rio de uma luz que se d\u00e1 e que se nega encontra-se no mais profundo da obra da salva\u00e7\u00e3o. As tens\u00f5es que no pr\u00f3prio Deus se entrela\u00e7am e terminam na unidade, s\u00e3o a raz\u00e3o \u00faltima das contradi\u00e7\u00f5es inscritas no plano de salva\u00e7\u00e3o com os seus diversos caminhos: a maioria dos homens empreender\u00e1 a busca de Deus por conta pr\u00f3pria, mesmo que Deus reserve para Si uma discreta interven\u00e7\u00e3o; contudo, outros s\u00e3o eleitos para serem o seu povo e receberem o seu pr\u00f3prio testemunho. Viver\u00e3o outras experi\u00eancias e ser\u00e3o testemunhas de uma sabedoria divina ignorada pelos que n\u00e3o foram chamados. \u00c9 assim que o Deus santo salva a Hist\u00f3ria humana, utilizando tanto a sua m\u00e3o esquerda como a direita, tanto o seu rosto luminoso como o seu rosto obscuro.
Deus predisp\u00f4s que a maioria dos homens n\u00e3o conhecessem o seu Salvador durante a sua vida terrena, porque isso \u00e9 bom e necess\u00e1rio. Contudo, n\u00e3o podemos dizer que por isso sejam menos amados: Deus ama cada um e cada uma com um amor total, que ser\u00e1 capaz de os transfigurar em todas as suas dimens\u00f5es, quando chegar a hora. Ent\u00e3o, quando chegar essa hora, ningu\u00e9m se queixar\u00e1 de ter feito o seu caminho sem o peso e as riquezas da revela\u00e7\u00e3o, porque as fraquezas que foram nosso quinh\u00e3o na Terra aparecer\u00e3o como os instrumentos do amor particular que Deus tem por n\u00f3s desde a sua eternidade. E dentre esses inumer\u00e1veis filhos e filhas de Deus que na Terra n\u00e3o s\u00e3o seu povo, Ele sabe eleger bons amigos para Si.
Mas Deus quis manifestar-Se a um povo que fez seu, porque isso tamb\u00e9m \u00e9 bom e necess\u00e1rio. A primeira chamada feita a Abra\u00e3o, a chamada a acreditar em Cristo, depois, fizeram nascer um povo, n\u00e3o superior aos restantes, mas diferente deles. Esse povo \u00e9 realmente privilegiado porque Deus Se lhe deu a Si mesmo. N\u00e3o s\u00f3 O conhecemos, como tamb\u00e9m nos exercitamos desde j\u00e1 no que ser\u00e1 a vida de todos na eternidade, a rela\u00e7\u00e3o de amor m\u00fatuo, na ternura e na fidelidade. E esse povo desempenha uma fun\u00e7\u00e3o essencial na Hist\u00f3ria humana, embora tenha escrito muitas p\u00e1ginas pouco brilhantes. Entre aqueles que experimentaram as riquezas do amor de Cristo, quem hesitar\u00e1 em dizer que recebeu a melhor parte? Dever\u00edamos, portanto, dizer, que esse privil\u00e9gio imerecido nos confere superioridade sobre os que n\u00e3o foram chamados? S\u00e3o Paulo respondeu a esta interroga\u00e7\u00e3o na sua carta aos Romanos, cap\u00edtulo 3.
\u00c9 o momento de olhar mais de perto a contrapartida do dom de Deus. Se a revela\u00e7\u00e3o da B\u00edblia nos desse plena seguran\u00e7a e fizesse de n\u00f3s exemplos de virtude, poder\u00edamos falar de desigualdade. Mas foi o Deus santo que nos aproximou d'Ele, e n\u00f3s vamos ser incendiados pelo fogo da sua santidade. Quem poder\u00e1 suportar o peso do primeiro mandamento: \u00abAmar\u00e1s ao Senhor, teu Deus, com todo o teu cora\u00e7\u00e3o, com toda a tua alma, com todas as tuas for\u00e7as?\u00bb E quem actuar\u00e1 melhor do que esses ap\u00f3stolos aos quais Jesus censurava constantemente a sua falta de f\u00e9? A Hist\u00f3ria b\u00edblica \u00e9 composta por uma longa lista de rebeldias e incompreens\u00f5es que t\u00eam continuidade na hist\u00f3ria da Igreja. Jesus deu a entender que os salvos, no sentido que Ele confere ao termo, s\u00e3o muito poucos. O povo eleito \u00e9, mais do que qualquer outro, um povo de pecadores, e nisto se restabelece o equil\u00edbrio (Ml 1,11-12).
Embora pecador, o crente gostaria de partilhar com todos as riquezas da sua f\u00e9 (2Cor 5,14). Contudo, h\u00e1 um limite que n\u00e3o podemos ultrapassar: Deus n\u00e3o nos consultou sobre o destino que queria oferecer a cada um, e muitas vezes sofreremos ao ver que Deus mant\u00e9m aqueles que amamos em caminhos dos quais Cristo est\u00e1 ausente (Rm 9,3).
Nunca deixaremos de fazer a s\u00edntese do caminho crist\u00e3o e dos outros caminhos, embora, por outro lado, haja alguns que pensam que j\u00e1 a fizeram, porque, na base da revela\u00e7\u00e3o, se encontram as palavras {C}elei\u00e7\u00e3o {/}e {C}gra\u00e7a. {/}N\u00e3o falar da elei\u00e7\u00e3o seria renegar toda a Hist\u00f3ria b\u00edblica. E essa elei\u00e7\u00e3o \u00e9 confirmada pela palavra {C}gra\u00e7a{/}, que unicamente a f\u00e9 crist\u00e3 coloca no centro das nossas rela\u00e7\u00f5es com Deus. Por\u00e9m, com que objectivo querer\u00edamos edificar uma s\u00edntese, a todo o custo, ou realizar a unidade, antes da chegada do dia de Deus? O que conta n\u00e3o \u00e9 o que se tenha podido edificar aqui na Terra. Dever\u00edamos antes interrogar-nos se os dois caminhos, tanto o caminho em que Deus Se revela, como aqueloutro em que vamos caminhando \u00e0s apalpadelas, n\u00e3o ser\u00e3o igualmente necess\u00e1rios para que, por fim, as riquezas do amor de Deus possam ser plenamente reconhecidas: ver Rm 15,8.

