{N}1,{/}1 Basta comparar este come\u00e7o com o do Evangelho de Lucas, para ver que se trata das duas partes de uma mesma obra. Te\u00f3filo significa: \u00abO que ama a Deus\u00bb. Poderia ser apenas um nome fict\u00edcio: nesse caso, Lucas dirigia o seu livro a qualquer pessoa que ama a Deus.

{N}1,{/}3 Deve traduzir-se por: Dava as suas instru\u00e7\u00f5es, gra\u00e7as ao Esp\u00edrito Santo, e n\u00e3o: \u00abque escolhera, movido pelo Esp\u00edrito Santo\u00bb. Estas instru\u00e7\u00f5es s\u00e3o as que Cristo ressuscitado d\u00e1 durante os seus encontros, que passam a ser manifesta\u00e7\u00f5es espirituais.

{N}1,{/}7 {C}\u00c9 agora que vais restaurar o Reino de Israel? {/}Aqui \u00e9 reafirmada a esperan\u00e7a j\u00e1 manifestada pelos disc\u00edpulos de Ema\u00fas. Esta quest\u00e3o, tipicamente judaica, posta no come\u00e7o de um livro do qual as miss\u00f5es de Paulo abarcar\u00e3o a maior parte, ajuda a compreender que mudan\u00e7a de perspectiva seria necess\u00e1ria para se chegar a transmitir o Evangelho aos gregos.

{N}1,{/}9 Este texto dos Actos \u00e9 o \u00fanico que fala de Jesus elevado ao C\u00e9u numa manifesta\u00e7\u00e3o vis\u00edvel (o texto de Lc 24,51 \u00e9 muito duvidoso, e os outros evangelhos n\u00e3o o mencionam). Dever\u00edamos pensar que Lucas materializou essa ascens\u00e3o ao C\u00e9u que, at\u00e9 \u00e0 data, tinha apenas um sentido figurado? Era normal que lhes fosse concedida uma manifesta\u00e7\u00e3o sens\u00edvel, adaptada \u00e0 sua imag\u00e9tica religiosa, para que a exalta\u00e7\u00e3o de Cristo ficasse gravada no seu esp\u00edrito. Foi isso o que Deus fez com outros, em m\u00faltiplas ocasi\u00f5es.
Deve ficar claro que todos os actos e gestos de Jesus ressuscitado, que os ap\u00f3stolos testemunharam, foram modos que Ele usou para Se lhes manifestar. A sua ressurrei\u00e7\u00e3o tinha-Lhe dado acesso a outra exist\u00eancia, que n\u00e3o tem representa\u00e7\u00e3o no nosso mundo. No entanto, n\u00e3o bastava uma \u00fanica palavra para exprimir o que tinha sido a Ressurrei\u00e7\u00e3o. A Escritura utilizava a esse respeito duas palavras gregas diferentes: levantar-se e despertar, que vulgarmente traduzimos por ressuscitar. Contudo, al\u00e9m desse {C}despertar {/}ou {C}levantar-se, {/}a Escritura emprega igualmente o termo {C}exaltar {/}ou glorificar: (Jo 12,23; Act 13,3). \u00c9 ent\u00e3o que devemos reler Ef 1,20-21 e 4,9-10. A ressurrei\u00e7\u00e3o e a glorifica\u00e7\u00e3o de Jesus significam que Ele tomou nas suas m\u00e3os a Hist\u00f3ria e o cosmos. Ele endireitar\u00e1 todas as traject\u00f3rias, para que desemboquem nesse Homem Novo e nesses Novos C\u00e9us e Nova Terra que se encontram no fim da Hist\u00f3ria.
Assim, ainda que a imagem de Jesus elevado ao C\u00e9u se choque com a representa\u00e7\u00e3o que hoje fazemos do cosmos, devemos conservar, com outras palavras, o seu sentido c\u00f3smico. De igual modo, tamb\u00e9m n\u00e3o devemos renegar todos esses termos que definem o mundo espiritual a partir de um lugar inferior e outro superior, porque certamente exprimem uma ordem aparente das coisas.

{N}1,{/}14 Na nota a Cl 1,15, falamos da import\u00e2ncia desses primeiros dias para a reflex\u00e3o comum da f\u00e9.

{N}1,{/}18 Os vv. 18-19 n\u00e3o s\u00e3o um inciso de Pedro, visto que toda a comunidade estava a par do que se tinha passado, mas de Lucas. Este pormenor aned\u00f3tico contradiz, na realidade, a vers\u00e3o de Mt 27,3-10.

{N}1,{/}25 Esse cargo era tanto {C}minist\u00e9rio {/}(no sentido de ser respons\u00e1vel por um servi\u00e7o), como {C}apostolado. {/}A palavra que traduzimos por apostolado tem a mesma raiz que \u00abdi\u00e1cono\u00bb, mas aqui trata-se do minist\u00e9rio de um ap\u00f3stolo, testemunha oficial da Ressurrei\u00e7\u00e3o, enviada por Cristo.

{N}2,{/}19 Pedro empenha-se em citar esse final do texto. Contudo, isso n\u00e3o prova que o interprete como o fim do mundo, mas como uma crise apocal\u00edptica; com efeito, a Igreja primitiva viu o seu cumprimento na destrui\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m e do Templo no ano 70. N\u00e3o se pode negar, por\u00e9m, que Pedro expressava a convic\u00e7\u00e3o de um pr\u00f3ximo regresso glorioso de Cristo.

{N}2,{/}22 Nesta proclama\u00e7\u00e3o inicial, a primeira coisa que Pedro quer esclarecer n\u00e3o \u00e9 a doutrina de Jesus. Assim como Jesus partia dos factos e, ao falar em Nazar\u00e9, dava um sentido aos seus milagres (Lc 4,20), assim tamb\u00e9m Pedro apresenta aqui o sentido da morte muito recente de Jesus. Este assunto, t\u00e3o palpitante, constitu\u00eda um verdadeiro esc\u00e2ndalo, porque, qualquer que fosse o n\u00famero dos que tinham pedido a morte de Jesus, eram muito mais numerosos entre o povo os que n\u00e3o compreendiam como era poss\u00edvel que se tivesse crucificado um homem que se destacava pela sua estatura religiosa e pelas suas curas. \u00abComo p\u00f4de Deus permiti-lo?\u00bb Pedro refere-se a esse grande esc\u00e2ndalo, e d\u00e1-lhe um primeiro sentido: n\u00e3o \u00e0 morte de Jesus, a cujos autores perdoa, mas \u00e0 ressurrei\u00e7\u00e3o que se lhe seguiu: \u00e9 Jesus que d\u00e1 o Esp\u00edrito aos que se arrependem (38). Devem arrepender-se, em primeiro lugar, por se terem feito surdos quando Jesus tentava reunir o povo de Deus. A promessa de Deus acabou por se cumprir, e s\u00f3 nesse sentido se pode falar de uma reden\u00e7\u00e3o e de um redentor.
Quanto a n\u00f3s, que lemos estes textos, mais n\u00e3o podemos fazer do que assombrarmo-nos com a passagem do Esp\u00edrito sobre o grupo que escuta Pedro e, depois, sobre aqueles que viriam a juntar-se-lhe nos dias seguintes: era-lhes oferecido o Esp\u00edrito Santo, oferta que lhes interessava, e em que acreditavam.
Lucas nada diz sobre a forma como puderam ser acolhidas essas tr\u00eas mil pessoas (41) que se uniram ao primeiro n\u00facleo. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que muitas delas, que tinham chegado em peregrina\u00e7\u00e3o, voltaram a suas casas cheias de f\u00e9, mas sem se integrarem numa comunidade como a de Jerusal\u00e9m. N\u00e3o \u00e9 inadmiss\u00edvel que, depois de nos ter mostrado a amplitude desse movimento de convers\u00e3o, Lucas nos fale no vers\u00edculo seguinte dos menos numerosos que, na pr\u00f3pria Jerusal\u00e9m, se reuniam na Igreja. Nesse caso, dever-se-ia compreender e traduzir da seguinte forma: Acudiam assiduamente.

{N}2,{/}46 No v. 47 diz o seguinte: \u00abo Senhor fazia com que os salvos se integrassem na Igreja\u00bb. Veja-se nota a 4,12.

{N}3,{/}16 O texto diz o seguinte: \u00abcomo se o tiv\u00e9ssemos feito andar com o nosso pr\u00f3prio poder ou piedade?\u00bb.

{N}3,{/}17 Esta nova prega\u00e7\u00e3o de Pedro acrescenta elementos novos ao que ele tinha esbo\u00e7ado na precedente (2,17-36) sobre o tema da salva\u00e7\u00e3o. Desta vez, o {C}nome {/}de Jesus \u00e9 portador de vida e de cura. Por\u00e9m, \u00e9 sobretudo a f\u00e9 que se apoia nele (ver nota a 4,12) acelera a vinda de tempos melhores. Pedro aborda assim o mist\u00e9rio da reden\u00e7\u00e3o; acredita firmemente nele, mas tem dificuldade em exprimi-lo.
Ele afirma que Jesus, ao perdoar ao seu povo, d\u00e1 aos que acreditam n'Ele uma b\u00ean\u00e7\u00e3o que os leva a arrepender-se para que os seus pecados sejam apagados. Era precisamente isso que anunciava a profecia de Zc 12,10 e 13,1. Contudo, Pedro ainda n\u00e3o fala de um resgate dos pecados pelo sangue de Jesus.

{N}4,{/}12 {N}N\u00c3O H\u00c1 OUTRO NOME{/}
{C}N\u00e3o existe salva\u00e7\u00e3o em nenhum outro. {/}Poder\u00edamos interrogar-nos que entende Pedro por salva\u00e7\u00e3o. Deus tinha-Se manifestado como \u00fanico Salvador do seu povo e como \u00fanico Nome pelo qual os homens deviam ser salvos. Mas agora, como proclama Pedro, toda a obra de Deus, em Israel, passar\u00e1 por esse Messias j\u00e1 instalado \u00e0 sua direita (Sl 110). A salva\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se encontra em mais ningu\u00e9m \u00e9, em primeiro lugar, a \u00abliberta\u00e7\u00e3o de Israel\u00bb (Lc 2,25), que muitos dos auditores de Pedro esperavam. E Pedro n\u00e3o hesita em prometer-lhes tempos melhores (3,20).
Contudo, os profetas nunca separaram a salva\u00e7\u00e3o de Israel de uma renova\u00e7\u00e3o interior dos crentes. Os ap\u00f3stolos acentuam imediatamente essa salva\u00e7\u00e3o trazida aos que cr\u00eaem; n\u00e3o se fala de crist\u00e3os, mas de \u00absalvos\u00bb (2,47). N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que tinham consci\u00eancia de ser salvos e que o manifestavam na sua vida quotidiana. Contudo, tal situa\u00e7\u00e3o poderia durar? No entusiasmo do primeiro momento, quem acredita sente-se renovado e tem a impress\u00e3o de que os seus problemas est\u00e3o resolvidos. Ou ent\u00e3o, mais simplesmente, como dizem algumas pessoas: \u00abOntem isso paralisava-me de terror; agora j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 para mim um drama\u00bb. A presen\u00e7a de uma pessoa amada que passa a ser o centro da nossa exist\u00eancia basta para nos dar asas: Jesus era amado. O mesmo se diga do dom do Esp\u00edrito.
Os ap\u00f3stolos nunca teriam pensado em renegar o passado de Israel, a revela\u00e7\u00e3o feita aos profetas, os recursos e a f\u00e9 da comunidade judaica, que tinha produzido ap\u00f3stolos e m\u00e1rtires, sem considerar a multid\u00e3o de justos humildes e an\u00f3nimos. Por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 o mesmo acreditar em Deus a partir das interven\u00e7\u00f5es da sua Provid\u00eancia, ou acreditar na alian\u00e7a de Deus com Israel, escrita tanto na Hist\u00f3ria como na Escritura; ou ent\u00e3o, receber Jesus como o Filho \u00danico, Deus encarnado, que veio a n\u00f3s para partilhar a nossa condi\u00e7\u00e3o. Este acontecimento \u00fanico \u00e9 mais poderoso do que qualquer outra revela\u00e7\u00e3o para atrair o cora\u00e7\u00e3o humano para a confian\u00e7a em Deus Pai, e para a humildade e o amor verdadeiro, a exemplo de Jesus.
Pois bem, com Jesus, a f\u00e9 tinha adquirido uma nova dimens\u00e3o. Por isso, as cartas de Paulo n\u00e3o falam apenas da f\u00e9 em Cristo (Act 21,21; Gl 2,16...), mas da {C}f\u00e9 de Cristo{/}, ou seja, da f\u00e9 pr\u00f3pria dos crist\u00e3os, que se apoia em Cristo, que \u00e9 segundo Cristo (Act 3,16; Rm 3,22; Fl 3,9...) A prova de que a f\u00e9 de Cristo transformou o panorama psicol\u00f3gico espiritual do crente temo-la no dom do Esp\u00edrito, que acompanhava o baptismo. Atrav\u00e9s deste, n\u00e3o se dava apenas um carisma, um favor sens\u00edvel, destinado a recompensar o crente, mas abria-se um mundo novo diante de si e no seu interior.
Esta salva\u00e7\u00e3o pessoal, que em breve ocupar\u00e1 o primeiro lugar na Igreja, \u00e9 uma renova\u00e7\u00e3o profunda da alma crente. Em primeiro lugar, h\u00e1 o perd\u00e3o dos pecados. Com efeito, Jesus p\u00f4s a descoberto o pecado, como nunca ningu\u00e9m tinha feito at\u00e9 Ele; basta ler o Serm\u00e3o da Montanha. Para alguns dos ouvintes de Pedro, o pecado tamb\u00e9m consiste em ter aprovado a condena\u00e7\u00e3o de Jesus, e para todos os outros o n\u00e3o ter escutado a sua chamada repetida. Mas agora Deus oferece uma reconcilia\u00e7\u00e3o muito mais profunda do que as do passado, essencialmente porque manifestou o seu imenso amor e o seu poder de perd\u00e3o, atrav\u00e9s da cruz de Cristo. Mesmo que os crentes ainda n\u00e3o soubessem exprimir bem a sua f\u00e9 nesse Filho de Deus, estavam conscientes de que tinham ganhado tudo: para retomar a linguagem dos profetas, eles eram o \u00abresto de Israel\u00bb e os \u00abresgatados - ou salvos - de Si\u00e3o\u00bb (Is 4,3).
Ora, quando Pedro diz que quem acredita se salva, n\u00e3o se trata sobretudo de escapar a uma condena\u00e7\u00e3o ou a um Apocalipse iminente (Act 2,21). A salva\u00e7\u00e3o \u00e9 uma plenitude. Os salvos s\u00e3o, ao mesmo tempo, benefici\u00e1rios e cooperadores do mist\u00e9rio de salva\u00e7\u00e3o que Deus efectua no cora\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria humana. Al\u00e9m disso, quando olham \u00e0 sua volta, n\u00e3o podem duvidar que entraram em corpo e alma num estado, antes, numa verdade pr\u00f3pria dos que acreditaram e entraram na Igreja.
Quando Pedro diz, n\u00e3o s\u00f3 para Israel, mas para todos os povos: {C}Debaixo do C\u00e9u n\u00e3o existe outro Nome dado aos homens, {/}n\u00e3o est\u00e1 a limitar a obra da salva\u00e7\u00e3o. N\u00e3o nega o trabalho de Deus nessa grande parte da humanidade que n\u00e3o chegar\u00e1 a conhecer Cristo; antes pelo contr\u00e1rio, fala para os que o escutam e para esse povo que Deus j\u00e1 elegeu para ser portador dos seus mist\u00e9rios. Tamb\u00e9m n\u00e3o diz que os que n\u00e3o cr\u00eaem ser\u00e3o condenados, mas que perdem essa salva\u00e7\u00e3o, que era o grande dom de Deus.

{N}6,{/}5 {C}Cheio de f\u00e9 e do Esp\u00edrito Santo.{/} J\u00e1 t\u00ednhamos escrito no v. 3: repletos do Esp\u00edrito e de sabedoria, para respeitar os costumes da nossa linguagem. Mas o texto diz em dois lugares: cheio de \u00abf\u00e9 e de esp\u00edrito\u00bb, repletos de \u00abesp\u00edrito e de sabedoria\u00bb. A nossa linguagem religiosa desvia-nos um pouco: sabendo que o Esp\u00edrito \u00e9 Pessoa divina, queremos conserv\u00e1-l'O intacto, e que n\u00e3o se tome apenas um pouco ou muito d'Ele. Dizemos que \u00e9 \u00abPessoa\u00bb divina, porque carecemos de uma express\u00e3o melhor, mas tamb\u00e9m \u00e9 muito verdade que o Esp\u00edrito \u00e9 a energia divina, e est\u00e1 correcto dizer: cheio de vigor.
Nada sabemos acerca desses {C}sete{/}, a n\u00e3o ser de Est\u00eav\u00e3o e de Filipe. Como o Apocalipse fala dos nicola\u00edtas em Ap 2,6, alguns pensaram com uma precipita\u00e7\u00e3o excessiva que devia tratar-se dos imitadores de um tal Nicolau desconhecido. Na Igreja latina tamb\u00e9m lhe foi atribu\u00eddo o casamento dos sacerdotes.

{N}7,{/}30 Est\u00eav\u00e3o cita aqui Ex 3,2. Como todos os do seu tempo, Est\u00eav\u00e3o ignorava o sentido que tinha na antiguidade a express\u00e3o \u00abo anjo do Senhor\u00bb (ver coment\u00e1rio a esse texto), e pensa num anjo. Estabelece a liga\u00e7\u00e3o com o anjo de que se fala em Ex 23,20.

{N}7,{/}42 Est\u00eav\u00e3o cita aqui Am\u00f3s 5,25-26. O texto hebreu estava corrompido e a B\u00edblia grega, que tanto os ap\u00f3stolos como o conjunto dos judeus do mundo grego utilizavam, tinha-o seguido. O profeta n\u00e3o censura os israelitas pela idolatria de seus pais no deserto, mas pela sua pr\u00f3pria. Por\u00e9m, no fundo, Est\u00eav\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 enganado: a B\u00edblia menciona essa idolatria em v\u00e1rios lugares (Nm 25).

{N}8,{/}9 Este Sim\u00e3o n\u00e3o era um desconhecido da hist\u00f3ria. Teve disc\u00edpulos na Samaria e as seitas gn\u00f3sticas do s\u00e9culo seguinte contavam-no entre os seus inspiradores.

{N}8,{/}14 {N}BAPTISMO E IMPOSI\u00c7\u00c3O DAS M\u00c3OS{/}
Este par\u00e1grafo faz distin\u00e7\u00e3o entre o baptismo e a imposi\u00e7\u00e3o das m\u00e3os, que confere o Esp\u00edrito (Act 19,6). Ambas as coisas se distinguem nitidamente em Hb 6,2. Os evangelhos, pelo contr\u00e1rio, falavam do baptismo pelo Esp\u00edrito Santo, que n\u00e3o era sen\u00e3o o baptismo de Cristo, e opunham-no ao baptismo de \u00e1gua, que era o de Jo\u00e3o Baptista.
H\u00e1 que recordar aqui as palavras de Pedro em Ac 10,47: {C}estas pessoas que receberam o Esp\u00edrito Santo da mesma forma que n\u00f3s. {/}Se nos ativermos igualmente ao pormenor das explica\u00e7\u00f5es de Pedro em 11,16, devemos concluir que desde os primeiros dias os ap\u00f3stolos quiseram transmitir, atrav\u00e9s da imposi\u00e7\u00e3o das m\u00e3os (ver Nm 27,18), o dom que tinham recebido. Talvez Jesus lhes tenha dito qualquer coisa nos dias que se seguiram \u00e0 Ressurrei\u00e7\u00e3o e durante os quais lhes deu as suas instru\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s do Esp\u00edrito Santo: Act 1,2. Contudo, n\u00e3o falam do baptismo \u00abno Esp\u00edrito\u00bb, tal como Jesus tinha dito. Parece, portanto, que, desde as suas origens, a inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3 ter\u00e1 inclu\u00eddo ambos os ritos e s\u00f3 nos podemos interrogar se estavam os dois unidos ou se havia um intervalo entre eles. Por outro lado, \u00e9 certo que a imposi\u00e7\u00e3o das m\u00e3os passou a ser a nossa Confirma\u00e7\u00e3o, sem qualquer ruptura de sentido ou de pr\u00e1tica.
As controv\u00e9rsias modernas sobre um baptismo do Esp\u00edrito, que seria independente do sacramento da Confirma\u00e7\u00e3o, devem-se \u00e0 conjuntura actual. Como o Baptismo e a Confirma\u00e7\u00e3o se administram com a maior frequ\u00eancia, sem que tenha havido o processo normal de convers\u00e3o e de descoberta de Cristo, o Senhor, que lhes confere o seu sentido pleno, as manifesta\u00e7\u00f5es vis\u00edveis ou carism\u00e1ticas do Esp\u00edrito s\u00e3o mais raras ou mais discretas. Por isso, a certos grupos parece importante retomar esse processo, com a esperan\u00e7a muitas vezes recompensada de obter tais gra\u00e7as. Contudo, pretender que o Esp\u00edrito nos \u00e9 dado atrav\u00e9s da confirma\u00e7\u00e3o, e que \u00e9 necess\u00e1rio acrescentar outros ritos, seria sem d\u00favida menosprezar a forma comum e tradicional da vida crist\u00e3.

{N}10,{/}9 Pedro v\u00ea {C}o c\u00e9u aberto{/}: esta era a express\u00e3o tradicional para dizer que algu\u00e9m tinha tido uma vis\u00e3o, tal como em Mc 1,10 e Act 7,56. Ele tinha fome, e a vis\u00e3o mostrou-lhe uma miragem de ca\u00e7a.

{N}10,{/}37 Este novo discurso de Pedro retoma o esquema do discurso de Pentecostes. Parte do esc\u00e2ndalo que constitui o supl\u00edcio de Jesus, e mostra como Deus transformou o mal em bem.
Note-se que, ao dirigir-se a um n\u00e3o judeu, Pedro estabelece uma certa dist\u00e2ncia entre {C}todo o povo {/}(41) e {C}as testemunhas que Deus j\u00e1 havia escolhido. {/}Pretende demonstrar, certamente, que a ressurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 um objecto de f\u00e9, mas, al\u00e9m disso, \u00e9 uma forma de demonstrar que a Igreja conserva as suas dist\u00e2ncias frente ao povo judeu: ela j\u00e1 \u00e9 um povo eleito, em que o romano Corn\u00e9lio ter\u00e1 o seu lugar.
Outro elemento novo: o perd\u00e3o dos pecados \u00e9 recebido gra\u00e7as ao Nome de Jesus.

{N}14,{/}9 Paulo viu que aquele homem {C}tinha f\u00e9 para ser curado. {/}Repetem-se as palavras de Jesus: \u00abA tua f\u00e9 te salvou\u00bb. Al\u00e9m disso, a palavra {C}salvar {/}presta-se a todas as formas de salva\u00e7\u00e3o, desde a cura at\u00e9 \u00e0 f\u00e9 que justifica. Na realidade, o princ\u00edpio b\u00e1sico da f\u00e9 \u00e9 o mesmo em ambos os casos, e n\u00e3o \u00e9 pr\u00f3prio do cristianismo, pelo contr\u00e1rio, pode ser encontrado em todas as latitudes. Quem sabe se o paral\u00edtico teria entendido tr\u00eas palavras da bonita prega\u00e7\u00e3o de Paulo, num Grego que o povo n\u00e3o falava (v.11)?

{N}15,{/}28 {N}O DECRETO DE JERUSAL\u00c9M{/}
Dissemos no coment\u00e1rio a 15,22 que possivelmente Lucas juntou aqui numa s\u00f3 narra\u00e7\u00e3o o encontro de Jerusal\u00e9m e o decreto assumido posteriormente por Tiago para a sua diocese com maioria de judeus. Devemos notar que v\u00e1rios manuscritos pertencentes ao grupo chamado ocidental cont\u00eam um texto diferente nos vers\u00edculos 20 e 29. Neles as proibi\u00e7\u00f5es s\u00e3o parcial e totalmente suprimidas, e em troca pede-se aos crist\u00e3os n\u00e3o-judeus que respeitem a grande lei da caridade j\u00e1 sugerida no Lev\u00edtico (19,18 e 34): n\u00e3o fa\u00e7ais aos outros o que n\u00e3o quereis que vos fa\u00e7am.
Quando se examina este cap\u00edtulo juntamente com o de Paulo em Gl 2., v\u00e1rios pormenores fazem pensar que o encontro se desenrolou na altura da festa da Dedica\u00e7\u00e3o do Templo. Desta liturgia prov\u00e9m o texto de Am\u00f3s com a men\u00e7\u00e3o da tenda de David, que \u00e9 o Templo. E os ap\u00f3stolos comparados a colunas do Templo (Gl 2,9), e a alus\u00e3o ao jugo que \u00abos nossos pais n\u00e3o foram capazes de suportar\u00bb. Seguindo o exemplo de modera\u00e7\u00e3o dado pelos mesmos judeus a respeito dos pros\u00e9litos que a eles se juntavam, a Igreja ia mais longe ainda e garantia-lhes a liberdade a respeito das leis sobre o puro e o impuro.
Parece, portanto, que o texto actual foi retocado mais tarde para o colocar em conson\u00e2ncia com o decreto mencionado em Act 21,25, o qual mantinha essas regras para as regi\u00f5es pr\u00f3ximas da Palestina.

{N}16,{/}3 Segundo a lei judaica, o filho de uma m\u00e3e judia e de um pai \u00abimpuro\u00bb \u00e9 judeu. Por isso, muitos dos crist\u00e3os de origem judaica, n\u00e3o teriam perdoado a Tim\u00f3teo o facto de n\u00e3o se circuncidar.

{N}16,{/}13 Quando n\u00e3o havia sinagoga, os judeus eram convidados a reunir-se noutro lugar, como, por exemplo, nas margens de um rio.

{N}20,{/}28 Numerosos manuscritos antigos t\u00eam outra leitura: \u00aba Igreja de Deus, que Ele adquiriu com o seu pr\u00f3prio sangue\u00bb. \u00c9 dif\u00edcil pensar que Paulo tenha falado do pr\u00f3prio sangue de Deus, nome que \u00e9 sempre reservado para o Pai. Mas, por outro lado, diz sempre: a Igreja de Deus. \u00c9 muito poss\u00edvel que a frase de Paulo tenha seguido mais o seu pensamento do que a correc\u00e7\u00e3o do estilo: \u00aba Igreja que Deus adquiriu - e ela foi adquirida pelo sangue do Senhor\u00bb. Parece, pois, muito dif\u00edcil, argumentar, com base neste texto, de modo a provar a divindade de Cristo.

{N}20,{/}30 \u00c9 o primeiro lugar do Novo Testamento em que encontramos a preocupa\u00e7\u00e3o com a heresia. Esta s\u00f3 p\u00f4de desenvolver-se depois da desapari\u00e7\u00e3o dos ap\u00f3stolos, e constituir\u00e1 o tema da maioria das advert\u00eancias nas Cartas a Tim\u00f3teo e a Tito, bem como nas Ep\u00edstolas Cat\u00f3licas.

{N}20,{/}32 Encontra-se a mesma express\u00e3o que em Lc 4,22 e Act 14,3: a palavra ou {C}a mensagem da sua gra\u00e7a. {/}Ver tamb\u00e9m Act 20,24: a Boa Nova da gra\u00e7a de Deus. Aqui a Palavra de Deus \u00e9 poderosa para edificar as pessoas: este \u00e9 todo o sentido da leitura b\u00edblica, considerada sacramento.

{N}26,{/}14 {C}\u00c9 dif\u00edcil recalcitrares contra o aguilh\u00e3o{/}: ou seja, \u00e9 in\u00fatil resistir mais, s\u00f3 consegues \u00e9 magoar-te a ti pr\u00f3prio. O encontro com Jesus ressuscitado produz-se no termo de uma longa luta. Era imposs\u00edvel que Paulo n\u00e3o fosse seduzido pela pessoa de Jesus. A sua viol\u00eancia na repress\u00e3o era um sinal disso mesmo. Muitos pequenos actos da sua actividade como perseguidor, bem como a sua pr\u00f3pria viol\u00eancia em casos tais como a morte de Est\u00eav\u00e3o, tinham-no deixado intranquilo e dilacerado por dentro.

{N}26,{/}15 {C}A autoridade de Satan\u00e1s. {/}Aparecem aqui os mesmos termos que em Cl 1,12-13. No evangelho, Jesus amea\u00e7ava o poder de Satan\u00e1s sempre que expulsava os dem\u00f3nios. Aqui, a obra redentora de Cristo liberta-nos de um mundo alienado para nos introduzir no seu Reino. \u00c9 imposs\u00edvel retirar da nossa prega\u00e7\u00e3o essa aliena\u00e7\u00e3o e esse poder de Satan\u00e1s, sem reduzir consideravelmente a mensagem crist\u00e3.

{N}27,{/}9 A festa do{C} jejum{/}: \u00e9 o m\u00eas de Setembro: Nm 29,7.

