{N}1,{/}1 Seria necess\u00e1rio alargar muito estas notas, se quis\u00e9ssemos exprimir tudo o que Lucas condensa aqui, em poucas palavras.
Os acontecimentos {C}que se passaram {/}entre n\u00f3s. Lucas utiliza, talvez intencionalmente, um verbo mais rico de sentido, que pode encerrar dois significados diferentes: \u00abque s\u00e3o plenamente dignos de f\u00e9\u00bb, e: \u00abque assinalam um cumprimento\u00bb. Cumprimento: pode entender-se que tais acontecimentos satisfazem a esperan\u00e7a do povo de Deus; o sentido ser\u00e1 antes o seguinte: tais acontecimentos alcan\u00e7aram o seu termo e bastam-se a si mesmos, ou seja, constituem a Boa Nova definitiva.

{N}1,{/}2 Lucas desautoriza logo \u00e0 partida aqueles a quem o seu testemunho poderia indispor, e que afirmam, sem prova alguma, que ele escreveu muito depois dos acontecimentos, sem ter a seu lado testemunhas directas: segundo esses, Lucas ter-se-ia contentado com boatos e fic\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas, para nos falar de acontecimentos t\u00e3o carregados de sentido como a anuncia\u00e7\u00e3o e a ressurrei\u00e7\u00e3o. As {C}testemunhas {/}(este termo deve ser entendido no sentido restrito de testemunha ocular) e {C}ministros da Palavra{/} s\u00e3o, para Lucas, os ap\u00f3stolos, e n\u00e3o qualquer um dos crentes.

{N}1,{/}4 {C}Ap\u00f3s fazer um estudo cuidadoso de tudo o que aconteceu desde o princ\u00edpio. {/}Lucas acompanhou Paulo na sua viagem a Jerusal\u00e9m (Act 21) e provavelmente ter\u00e1 estado v\u00e1rias vezes entre as comunidades crist\u00e3s mais antigas, as de Jerusal\u00e9m e Cesareia. A\u00ed encontrou-se com os ap\u00f3stolos e disc\u00edpulos da primeira hora, incluindo, possivelmente, Maria.
{C}Os ensinamentos que recebeste. {/}O texto diz precisamente: \u00abaquilo em que foste catequizado\u00bb. Este verbo deriva da palavra {C}eco{/}: refere-se aos ensinamentos que o disc\u00edpulo decora e pode devolver como eco das palavras do mestre. Assim, a palavra catequese pertencia ao vocabul\u00e1rio da Igreja primitiva. Dizendo isto, Lucas confirma-nos que o evangelho foi escrito a partir das necessidades da catequese.

{N}1,{/}8 Zacarias pertencia ao cl\u00e3, ou ao grupo, de Abias. Quanto \u00e0s classes dos sacerdotes e ao seu servi\u00e7o no Templo, ver 1Cr 24,10 e Ex 30,7. O texto diz-nos que Isabel era filha de Aar\u00e3o, ou seja, que tamb\u00e9m ela pertencia a uma fam\u00edlia de sacerdotes. Se Isabel era parente de Maria, como afirma o evangelho, h\u00e1 uma probabilidade de que Maria tamb\u00e9m fosse de fam\u00edlia sacerdotal, quer dizer, da tribo de Levi, o que justifica a miss\u00e3o confiada a Jos\u00e9, da tribo de David (Mt 2,20).
{C}Tocou-lhe em sorte entrar no santu\u00e1rio. {/}Oferecer o incenso era uma honra excepcional. Apenas o Sumo Sacerdote entrava uma vez por ano no lugar mais retirado, chamado Santo dos Santos. Na sala anterior, chamada Santo, entrava-se apenas para oferecer o incenso, e, cada semana, para renovar os p\u00e3es da oferenda. A\u00ed se encontrava o candelabro de sete bra\u00e7os, a mesa dos p\u00e3es e o altar do incenso (Hb 9,1-8).

{N}1,{/}12 {C}O temor apoderou-se dele{/}: o texto original retoma as palavras de Gn 15,12.

{N}1,{/}17 O texto diz: \u00abCaminhar\u00e1 \u00e0 frente deles..., preparando para o Senhor um povo bem disposto\u00bb, como o arauto que precede o seu senhor e lhe abre o caminho. Mas podemos interpret\u00e1-lo de outra forma: caminhar\u00e1 (ou seja, actuar\u00e1), na presen\u00e7a do Senhor (ou seja: cumprindo santamente a sua vontade).

{N}1,{/}18 {C}Zacarias perguntou: \u00abComo vou saber se isso \u00e9 verdade?\u00bb {/}Muitos autores fazem notar que, nos relatos de voca\u00e7\u00e3o ou de miss\u00e3o, a pessoa chamada apresenta sempre uma objec\u00e7\u00e3o que sublinha as dificuldades relativas ao cumprimento das promessas divinas: Abra\u00e3o e Sara s\u00e3o velhos (Gn 17,17), Mois\u00e9s n\u00e3o sabe falar (Ex 4,10), Gede\u00e3o n\u00e3o tem fama (Jz 6,15)... Alguns concluem que estas objec\u00e7\u00f5es constituem um artif\u00edcio liter\u00e1rio sem outra finalidade que n\u00e3o seja fazer ressaltar o poder de Deus, que realizar\u00e1 o imposs\u00edvel. \u00c9 bem certo que se nota em todos estes relatos uma mesma forma tradicional de apresentar a chamada de Deus e de desenvolver o di\u00e1logo. Mas isso n\u00e3o \u00e9 raz\u00e3o para falarmos aqui de pura fic\u00e7\u00e3o: a d\u00favida de Zacarias \u00e9 a reac\u00e7\u00e3o normal de um homem de carne e osso que, em circunst\u00e2ncias precisas, tem de fazer um acto de f\u00e9. Ningu\u00e9m se compromete seriamente com Deus sem sopesar os riscos e as dificuldades da sua decis\u00e3o. As objec\u00e7\u00f5es que encontramos nas chamadas de Jos\u00e9, de Zacarias e de Maria n\u00e3o pretendem tanto sublinhar as dificuldades que se op\u00f5em \u00e0s exig\u00eancias divinas (e nisto todas se assemelham), como revelar-nos a atitude profunda desta ou daquela pessoa chamada; nisto n\u00e3o se assemelham os casos de Maria e de Zacarias. Maria pergunta para saber que atitude deveria tomar: manter-se virgem, ou n\u00e3o? Zacarias, pelo contr\u00e1rio, duvida que o milagre seja poss\u00edvel.
{C}Eu sou Gabriel. {/}Gabriel, um dos sete anjos de categoria mais elevada, segundo as cren\u00e7as judaicas. O texto acrescenta: \u00abaquele que est\u00e1 diante de Deus\u00bb, ou seja, um dos sete que podem permanecer na sua presen\u00e7a. Gabriel, o anunciador dos \u00faltimos tempos, em Dn 8,16 e 9,21.

{N}1,{/}27 {C}Maria. {/}Na B\u00edblia este nome s\u00f3 aparece com Maria, ou Miriam, irm\u00e3 de Mois\u00e9s (Ex 15,20; Nm 12; Mq 5,4). Maria e Jos\u00e9 vivem em Nazar\u00e9, aldeia da Galileia, de que a Hist\u00f3ria n\u00e3o reza at\u00e9 Jesus.
Oficialmente, Maria ainda n\u00e3o \u00e9 {C}esposa. {/}No entanto, \u00e9 muito mais do que noiva, visto que pode fazer vida conjugal com aquele que a desposou. Permanece contudo sob a tutela de seu pai, vivendo debaixo do seu tecto.

{N}1,{/}31 O documento que Lucas traduz nesta p\u00e1gina conforma-se com o estilo dos livros da Hist\u00f3ria sagrada. N\u00e3o hesita em retomar as mesmas palavras de Gn 16,11-12, referentes ao nascimento de Ismael.

{N}1,{/}34 O texto diz: \u00abComo pode ser isso, visto que eu n\u00e3o conhe\u00e7o var\u00e3o?\u00bb Esta pergunta de Maria pode ser interpretada de v\u00e1rias maneiras.
 - \u00e9 comunicado a Maria que Deus quer realizar esta obra imediatamente, e, nesse preciso momento, Maria est\u00e1 s\u00f3;
 - Maria diz que at\u00e9 ao momento n\u00e3o teve rela\u00e7\u00f5es;
 - Maria diz que nunca teve, nem pensa vir a ter, rela\u00e7\u00f5es com homem algum, concretamente com Jos\u00e9, seu esposo.
A segunda interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil de defender: se Maria, quase casada, pensasse ter, dentro em breve, rela\u00e7\u00f5es com Jos\u00e9, o anjo deveria exprimir-se de outra forma para afirmar que ela deve manter-se virgem at\u00e9 que tenha concebido este filho, que n\u00e3o nascer\u00e1 da mesma forma que Isaac ou Gede\u00e3o, para dar apenas alguns exemplos (Gn 18,10; Jz 13,3).

{N}1,{/}35 {C}Poder do Alt\u00edssimo..., Esp\u00edrito Santo..., Filho de Deus. {/}Lucas nomeia intencionalmente as tr\u00eas Pessoas divinas ao relatar a vinda a este mundo do Filho, dom do Pai, que, por sua vez, nos comunicar\u00e1 o Esp\u00edrito.

{N}1,{/}39 Seria dif\u00edcil encontrar na B\u00edblia algum precedente do que ent\u00e3o sucedeu. Maria, que recebeu mais, \u00e9 quem visita Isabel. A sua viagem respondia, aparentemente, a uma intui\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica: Maria n\u00e3o ia ajudar a prima; pelo contr\u00e1rio, tinha uma miss\u00e3o a cumprir. Apenas se poderia encontrar alguma semelhan\u00e7a remota com o relato de 2Sm 6, referente \u00e0 traslada\u00e7\u00e3o da Arca, em que tamb\u00e9m se l\u00ea que a Arca {C}permaneceu tr\u00eas meses, {/}e que David {C}saltava{/} diante dela (6,11 e 16).

{N}1,{/}46 {C}Maria disse ent\u00e3o. {/}Alguns manuscritos e autores antigos dizem: Isabel disse ent\u00e3o. V\u00e1rios autores v\u00eaem no C\u00e2ntico de Maria, no Magnificat (para utilizar o termo latino t\u00e3o conhecido), um c\u00e2ntico da Igreja primitiva, que Lucas adaptou ao caso de Maria, e que tamb\u00e9m se poderia adaptar a Isabel.
\u00c9 poss\u00edvel duvidar que Maria o tenha composto de forma t\u00e3o espont\u00e2nea a partir de cita\u00e7\u00f5es b\u00edblicas e que, depois de transcorridos cerca de quarenta anos, o tenha transmitido a Lucas. O mais prov\u00e1vel \u00e9 que Lucas tenha recolhido este c\u00e2ntico e o tenha colocado neste lugar como express\u00e3o do que sentira e dissera nesse momento. Mas \u00e9 dif\u00edcil pensar que Lucas, habituado a pesar todos os termos que utilizava, tenha referido a outra, sen\u00e3o a Maria, as seguintes palavras: {C}todas as gera\u00e7\u00f5es me h\u00e3o-de chamar ditosa{/}, embora f\u00f3rmulas semelhantes tenham sido pronunciadas com grande \u00eanfase por personagens antigas (1Sm 2,1-10).

{N}1,{/}68 Aplica-se ao c\u00e2ntico de Zacarias o que foi dito em rela\u00e7\u00e3o ao C\u00e2ntico de Maria. Se suprim\u00edssemos os vers\u00edculos 76 e 77, encontrar-nos-\u00edamos, possivelmente, com uma composi\u00e7\u00e3o da Igreja primitiva da Palestina. E tem de ser uma composi\u00e7\u00e3o muito antiga, pois esta Igreja ainda se sente identificada com o povo de Israel. Real\u00e7a-se de novo a dimens\u00e3o hist\u00f3rica da salva\u00e7\u00e3o de Jesus, Salvador de Israel.

{N}2,{/}1 O texto diz: {C}O imperador Augusto publicou um decreto.{/} Augusto significa divino. O imperador Oct\u00e1vio tinha-se feito proclamar Deus, recebendo esta alcunha afrontosa de Augusto no ano 27 a.C.. O Imp\u00e9rio Romano tinha submetido todo o M\u00e9dio Oriente, e o seu governador, na S\u00edria, tinha autoridade sobre a Palestina, onde reinava Herodes.

{N}2,{/}4 O texto original diz: {C}era da casa e da fam\u00edlia {/}de David. \u00c9 um modo de falar hebraico, cujo segundo termo requer o primeiro, pois refere-se apenas aos descendentes, ao passo que a {C}casa {/}abarca tamb\u00e9m os servos, familiares e ministros de David.

{N}2,{/}6 Muitas pessoas sentem-se frustradas quando s\u00e3o privadas de ver Maria e Jos\u00e9 procurando em v\u00e3o uma estalagem, e acabando por se refugiarem num est\u00e1bulo, depois de lhes ter sido negada a entrada no albergue comum. A palavra grega {C}kataluma{/}, que muitas vezes se traduz por {C}albergue, {/}encontra-se noutros dois lugares do Novo Testamento: Mc 14,14 e Lc 22,11: \u00e9 a sala do andar superior onde Jesus celebra a \u00daltima Ceia. Se procurarmos no Antigo Testamento grego, a palavra designa, por vezes, um ref\u00fagio para os n\u00f3madas do deserto (sem d\u00favida o sentido mais antigo), mas tamb\u00e9m a sala de um banquete sacrificial, divis\u00f5es de uma casa particular ou qualquer tipo de estalagem. N\u00e3o h\u00e1 raz\u00f5es para negar uma das mais antigas tradi\u00e7\u00f5es, que situa o nascimento de Jesus numa gruta situada no centro da antiga aldeia de Bel\u00e9m; a\u00ed viveu, durante v\u00e1rios anos S\u00e3o Jer\u00f3nimo, enquanto traduzia a B\u00edblia para Latim. O sentido da hospitalidade, nesse tempo e nessas circunst\u00e2ncias, torna quase imposs\u00edvel acreditar que Jos\u00e9 e Maria n\u00e3o tivessem previsto nada, nem tivessem sido acolhidos. Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 f\u00e1cil imaginar a dona da casa a dizer a Maria: \u00abN\u00e3o podes dar \u00e0 luz no meio de todos esses homens; l\u00e1 atr\u00e1s est\u00e1 a quadra com os animais, onde voc\u00eas ficar\u00e3o melhor\u00bb.

{N}2,{/}12 Isto vos servir\u00e1 de sinal. \u00c9 dado aos pastores um sinal, n\u00e3o s\u00f3 para reconhecerem Jesus, mas para entenderem quem \u00e9 essa crian\u00e7a. \u00c9 o mesmo sinal indicado em Is 7,14; a Virgem d\u00e1 \u00e0 luz um menino, o qual \u00e9 criado no meio de uma grande pobreza. Os sinais que lhes s\u00e3o atribu\u00eddos apontam para aquele que fez surgir a nossa salva\u00e7\u00e3o da sua pr\u00f3pria humildade e pobreza.
{C}Um salvador que \u00e9 o Messias-Senhor. {/}As duas palavras justapostas precisam que este Messias, na realidade, n\u00e3o se pode distinguir do pr\u00f3prio Senhor-Deus. Conforme o sinal de Is 7,14, Maria \u00e9 nomeada em primeiro lugar em 2,16.

{N}2,{/}14 {C}Uma multid\u00e3o de anjos. {/}Esta manifesta\u00e7\u00e3o sobrenatural assemelha-se muito mais a outras que se seguir\u00e3o na Hist\u00f3ria da Igreja, do que \u00e0s que aparecem no Antigo Testamento. Ver, no entanto, Gn 28 e Is 6,2. Deus quer proclamar as maravilhas que est\u00e1 a fazer e as suas obras nunca se mant\u00eam ocultas aos olhos de todos. Os anjos revelam-nas hoje aos pobres, como outrora Bala\u00e3o o fizera contra sua pr\u00f3pria vontade (Nm 24), e como amanh\u00e3 as crian\u00e7as, no Templo (Mt 21,16) e os profetas do Novo Testamento (Ef 3,5).
O texto diz: \u00abPaz aos homens amados por Deus\u00bb. Isto presta-se a duas interpreta\u00e7\u00f5es. Paz aos homens, {C}porque Deus Se compraz neles: {/}Deus agora aproximou-se da humanidade, ou ent\u00e3o, Paz \u00e0queles homens {C}em quem Deus Se compraz{/}, ou seja, que Deus elegeu (Dn 2,23; Lc 3,22). Bem-aventurados aqueles que foram eleitos para receber o dom de Deus na pessoa de Jesus, e em especial para estes pastores chamados \u00e0 casa de Bel\u00e9m.

{N}2,{/}19 {C}Maria, por\u00e9m. {/}Prova suplementar de que Maria foi quem, directa ou indirectamente, informou o evangelista.

{N}2,{/}22 No coment\u00e1rio a 2,7 falamos desse {C}primog\u00e9nito. {/}Veja-se a este respeito a nota relativa a Ex 12,12, que recorda o valor permanente dessa lei, ou, pelo menos, do seu esp\u00edrito, para o povo de Deus. Para qualquer outro nascimento, a M\u00e3e devia purificar-se; contudo, no caso do primog\u00e9nito, a crian\u00e7a era apresentada e resgatada.

{N}2,{/}34 {C}Ser\u00e1 causa de queda e eleva\u00e7\u00e3o de muitos em Israel{/}: como conv\u00e9m ao que ser\u00e1, em Israel (e depois talvez na Igreja) um Deus escondido (Is 8,14-17).
{C}Ser\u00e1 um sinal de contradi\u00e7\u00e3o{/}, como foram os grandes profetas que O anunciaram (Jr 1,17-19; Is 50,5-7).
{C}Assim ser\u00e3o reveladas os pensamentos{/}: Jo\u00e3o nota este efeito do minist\u00e9rio de Jesus (3,19-9,41) {C}de muitos {/}(como em Mc 14,24): \u00e9 uma alus\u00e3o a Is 53,11-12, que op\u00f5e o \u00fanico Servo de Jav\u00e9 a uma multid\u00e3o daqueles a quem salva. \u00c9 muito poss\u00edvel que Lucas, ao escrever estas palavras, e ao falar da espada que trespassar\u00e1 a alma de Maria, tenha em vista a crucifix\u00e3o de Jesus e o texto de Zc 12,10: Olhar\u00e3o para aquele a quem trespassaram.

{N}2,{/}39 {C}Voltaram para Nazar\u00e9... na Galileia. {/}Estas palavras de Lucas excluem o relatado por Mateus e favorecem a opini\u00e3o geral segundo a qual Mt 2 nos apresenta a futura miss\u00e3o de Jesus, mediante imagens populares, nada hist\u00f3ricas, mas conformes ao que se contava sobre os protagonistas da Hist\u00f3ria sagrada, quer Abra\u00e3o, quer Mois\u00e9s.

{N}2,{/}49 O texto poderia traduzir-se por: nas coisas de meu Pai, mas \u00e9 um modo de falar hebraico que significa: onde est\u00e1 meu Pai.

{N}3,{/}2 O texto diz: {C}An\u00e1s e Caif\u00e1s eram sumos sacerdotes. {/}Anota\u00e7\u00e3o importante, porque se reconhecia um car\u00e1cter sagrado na pessoa do Sumo Sacerdote, respons\u00e1vel do povo eleito, por direito. Havia apenas um sumo sacerdote, e o cargo era vital\u00edcio, mas naqueles anos dependia do poder romano e de An\u00e1s, ex-sumo sacerdote, sogro de Caif\u00e1s, gozava de muita autoridade (Jo 18,13).

{N}3,{/}4 Sabe-se que os evangelistas adaptaram este texto que copiaram da B\u00edblia grega (os 70). O profeta dizia: Uma voz grita: No deserto preparai o caminho ao Senhor... Eles, por\u00e9m, escreveram: Uma voz grita no deserto: Preparai...
\u00c9 f\u00e1cil de ver que, para Lucas, o Senhor, que para o Profeta era Jav\u00e9, \u00e9 Cristo, como j\u00e1 indic\u00e1mos. De igual modo, em 3,6, {C}ver\u00e1 a salva\u00e7\u00e3o {/}passa a ser: ver o Salvador.

{N}3,{/}7 - 9 \u00e9 id\u00eantico a Mt 3,7-10. Mas Mateus precisa bem que a invectiva \u00e9 dirigida a um grupo de fariseus e saduceus que tinham vindo apenas informar-se (Jo 1,19), ao passo que Lucas a destina ao povo que vem para ser baptizado.
{C}Quem vos ensinou a fugir da ira que vai chegar? {/}O texto diz o seguinte: Quem vos disse que poder\u00edeis escapar da {C}c\u00f3lera {/}que est\u00e1 para chegar? A C\u00f3lera \u00e9 uma dessas palavras que permitem falar de Deus sem O nomear nem blasfemar do seu Nome, ao atribuir-Lhe directamente sentimentos humanos. A C\u00f3lera \u00e9 uma amea\u00e7a suspensa sobre as cabe\u00e7as dos culpados. \u00c9 uma senten\u00e7a que j\u00e1 foi pronunciada e que vai ser executada dentro em breve (Is 26,10; Sb 18,23). Alguns falam de {C}c\u00f3lera {/}para designar uma grande prova (Pr 11,4; Eclo 7,16), pois est\u00e3o convencidos de que a desgra\u00e7a n\u00e3o afligiria o povo se este n\u00e3o tivesse sido infiel (1Mac 2,49).
A amea\u00e7a de fogo n\u00e3o \u00e9 um elemento secund\u00e1rio na prega\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o; de facto, fiel aos ensinamentos dos profetas, ele v\u00ea a vinda do Senhor e do seu Messias como a hora de um ju\u00edzo. Veria Jo\u00e3o este ju\u00edzo como o fim do mundo? Certamente n\u00e3o mais do que os profetas. Estes reconheciam nas trag\u00e9dias presentes uma primeira realiza\u00e7\u00e3o do Ju\u00edzo que pesava sobre toda a Hist\u00f3ria. Mas o caso de Jo\u00e3o \u00e9 especial, porque ele apresentava-se como aquele que precedia o Messias (al\u00e9m do testemunho dos evangelistas, deve ler-se Act 18,25 e 19,4).
Os que iam ter com Jo\u00e3o convertiam-se porque sabiam que o mal seria severamente castigado. Jesus n\u00e3o elimina essa perspectiva (Mt 18,8; Lc 13,5), mas deixa outras em aberto. Nem todas as pessoas t\u00eam as mesmas motiva\u00e7\u00f5es; Jesus responde a cada um segundo a imagem de Deus que cada um tenha. Fala de {C}fogo {/}e de {C}geena {/}aos que entendem a linguagem dos profetas.
{C}Com o Esp\u00edrito Santo e com fogo{/}: devemos entender que ser\u00e1 com um ou com o outro.

{N}3,{/}10 Jo\u00e3o partilha com os ess\u00e9nios do deserto a convic\u00e7\u00e3o de que a vinda do Ju\u00edzo de Deus est\u00e1 iminente, e que o Reino de Deus vai trazer consigo o castigo para os pecadores, mas distingue-se profundamente deles ao oferecer a salva\u00e7\u00e3o a todos. Os ess\u00e9nios consideravam que apenas aqueles que ingressavam nas suas comunidades se salvariam. Jo\u00e3o, pelo contr\u00e1rio, mostra um caminho de salva\u00e7\u00e3o aos publicanos e aos {C}soldados {/}(judeus que actuavam como auxiliares das tropas romanas).

{N}3,{/}16 {C}Algu\u00e9m com mais poder do que eu, {/}ou mais forte do que eu. O poderoso, o forte, o valente, o vencedor \u00e9 Deus, e com Ele o seu Messias (Is 11,2; 49,25; 53,12). Ver Mt 12,29.

{N}3,{/}23 As genealogias segundo Mateus e Lucas s\u00e3o muito diferentes. Sabe-se que a genealogia pode eleger entre a paternidade sangu\u00ednea ou a paternidade adoptiva, e que se podem saltar escal\u00f5es, mas gostar\u00edamos de saber mais. Alguns imaginaram que uma delas seria a genealogia de Maria, o que parece imposs\u00edvel. Onde ter\u00e1 Lucas obtido esta que lemos no seu evangelho? N\u00e3o temos resposta.

{N}4,{/}5 Na literatura judaica do tempo de Jesus encontramos alguma coisa sobre este tema. Numa vis\u00e3o, Deus mostra a Satan\u00e1s o Messias glorioso que, do alto de um monte, domina o universo; Satan\u00e1s cai por terra, vendo-se obrigado a submeter-se. Outros textos referem-se ao Messias que desce do C\u00e9u em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 multid\u00e3o dos fi\u00e9is congregada no Templo. Ao contr\u00e1rio destas cren\u00e7as populares, o Evangelho afirma que o Salvador nos salva pela sua obedi\u00eancia ao Pai.

{N}4,{/}16 {C}Levantou-Se para fazer a leitura. {/}O presidente da assembleia podia convidar qualquer pessoa digna de cr\u00e9dito a fazer a leitura e o coment\u00e1rio correspondente (Act 13,15). {C}Encontrou a passagem {/}(n\u00e3o a escolheu), quer se tratasse do texto atribu\u00eddo a esse s\u00e1bado pela liturgia judaica, quer Jesus o tivesse encontrado por acaso.

{N}4,{/}18 O \u00faltimo vers\u00edculo diz com muita precis\u00e3o: {C}libertar os oprimidos. {/}Esta \u00faltima palavra tem um significado bastante alargado. Em Isa\u00edas 58,6 trata-se antes daqueles que est\u00e3o esmagados pelas suas d\u00edvidas, mas o termo indica tamb\u00e9m todas as formas de opress\u00e3o dos d\u00e9beis em qualquer sistema.

{N}4,{/}21 O texto diz: \u00abHoje cumpriu-se esta passagem da Escritura\u00bb. Isto deve entender-se da forma seguinte: esta profecia acaba de se cumprir, tal como v\u00f3s j\u00e1 o estais a ouvir. Jesus parte de um facto, a prega\u00e7\u00e3o e os milagres que acaba de realizar, n\u00e3o em Nazar\u00e9, mas na sua nova resid\u00eancia de Cafarnaum. S\u00e3o esses os sinais precursores de {C}uma gra\u00e7a{/}, um ano jubilar outorgado pelo pr\u00f3prio Deus. A frase que se segue confirma este sentido, pois Lucas diz: todos se maravilhavam com {C}as palavras cheias de encanto {/}que sa\u00edam dos seus l\u00e1bios. A mesma express\u00e3o aparece em Ac 14,3 e 20,32: a\u00ed entendemos que se trata de uma {C}proclama\u00e7\u00e3o da gra\u00e7a {/}que Deus a partir de agora concede aos homens.
Na realidade, n\u00e3o deixamos de estranhar a reviravolta produzida na assembleia na \u00faltima parte do vers\u00edculo 22. Dissemos, no coment\u00e1rio, que talvez Lucas tenha querido juntar numa mesma cena duas reac\u00e7\u00f5es diversas dos seus conterr\u00e2neos de Nazar\u00e9 - uma favor\u00e1vel, outra hostil. Contudo, nada disto \u00e9 certo.
Traduzimos por: {C}todos aprovavam Jesus, {/}um verbo que significa: {C}todos davam testemunho acerca d'Ele{/}, mas que, com uma forma gramatical um pouco diferente, significaria: {C}todos protestavam contra Ele. {/}Se tal fosse o sentido, os ouvintes ter-se-iam escandalizado imediatamente com o coment\u00e1rio proposto por Jesus, n\u00e3o s\u00f3 por Ele Se aproveitar do texto para valorizar de forma excessiva a sua prega\u00e7\u00e3o e as curas operadas em Cafarnaum, mas tamb\u00e9m por preferir ignorar o \u00faltimo vers\u00edculo da leitura, que falava de uma vingan\u00e7a de Deus contra os opressores do seu povo - o mais importante para eles. Jesus, por\u00e9m elimina esta vingan\u00e7a contra o estrangeiro, e vai diz\u00ea-lo de forma ainda mais clara com os exemplos que recorda nos vers\u00edculos 25-27.

{N}4,{/}24 {C}Nenhum profeta \u00e9 bem recebido na sua p\u00e1tria. {/}Certamente que Jesus j\u00e1 meditava sobre esta verdade h\u00e1 algum tempo: tinha ido para Cafarnaum, por saber que um artes\u00e3o dificilmente convenceria os seus conterr\u00e2neos de que Deus O tinha ungido.

{N}5,{/}19 {C}Atrav\u00e9s das telhas. {/}Este pormenor mostra-nos como o evangelista, ao reproduzir a tradi\u00e7\u00e3o oral referente aos actos e ditos de Jesus, faz as m\u00ednimas adapta\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias, de modo a respeitar a honestidade da narra\u00e7\u00e3o e a veracidade dos gestos. Marcos descrevia-nos uma casa da Palestina, coberta de canas e argila, na qual se abria um buraco (4,2). Lucas fala para gregos, que s\u00f3 conhecem as telhas.

{N}5,{/}36 {C}Para remendar roupa velha. {/}Segundo alguns, este remendar significaria reformar a interpreta\u00e7\u00e3o da Lei, feita pelos fariseus e doutores da Lei. \u00c9 muito mais prov\u00e1vel que remendar signifique completar e explicitar a Lei, ou seja, a religi\u00e3o do Antigo Testamento, tal como esta se apresenta no termo de uma longa tradi\u00e7\u00e3o em que se misturaram, confundindo-se, o divino e o humano, o essencial e o acess\u00f3rio. Jesus, abandonando os moldes das pr\u00e1ticas judaicas, faz-nos passar a uma nova etapa, esta definitiva, anunciada j\u00e1 no Antigo Testamento (ver Mt 5,17 e Hb 10,9). Quando dizemos que Jesus leva a Lei \u00e0 sua perfei\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se trata apenas de dar mais um passo no caminho de interioriza\u00e7\u00e3o da f\u00e9, ou de uma moral mais perfeita: Jesus reorienta todas as perspectivas da f\u00e9 a partir de um acontecimento novo e inesperado, que \u00e9 a morte e a ressurrei\u00e7\u00e3o do Messias.
S\u00e3o necess\u00e1rios homens novos e novas formas de pensar para guardar o vinho novo, que simboliza uma nova cria\u00e7\u00e3o (Jo 2) e o Esp\u00edrito Santo (Act 2,13; Ef 5,18). Lucas explicita o risco que corre o Evangelho se a Igreja aceitar acomodar-se ao gosto desses \u00abjudaizantes\u00bb ou \u00abjudeo-crist\u00e3os\u00bb, que n\u00e3o se atrevem a mudar completamente a vis\u00e3o religiosa da comunidade judia e a \u00abjusti\u00e7a\u00bb, ou forma de perfei\u00e7\u00e3o, procurada antes de Jesus.

{N}6,{/}14 {N}A LISTA DOS DOZE{/}
Veja-se a nota a Marcos 3,14. Sabemos que a lista dos Doze n\u00e3o \u00e9 a mesma nos tr\u00eas evangelhos sin\u00f3pticos, aos quais se deveria juntar Act 1,13. N\u00e3o sabemos se devemos traduzir Judas de Tiago, por filho ou irm\u00e3o de Tiago. V\u00ea-se, no entanto, que este substitui Tadeu (chamado Lebb\u00e9, nalguns manuscritos antigos), citado por Mateus e Marcos. Ser\u00e1 Tadeu o mesmo que Judas de Tiago? Ou ter\u00e1 sido um dos Doze que se retirou e em breve foi esquecido, sendo ent\u00e3o substitu\u00eddo por Judas de Tiago, aquele que depois do Pentecostes recebeu o t\u00edtulo de ap\u00f3stolo ao lado do seu irm\u00e3o, sendo tamb\u00e9m ele um dos irm\u00e3os do Senhor? Lucas fala-nos da substitui\u00e7\u00e3o de Judas Iscariotes (Act 1,15), mas n\u00e3o era obrigado a falar-nos de outras substitui\u00e7\u00f5es, que eram poss\u00edveis, visto ter havido um tempo em que se dava o t\u00edtulo de ap\u00f3stolos a alguns que passavam por fundadores de Igrejas. Fora isso, n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o alguma para identificar Bartolomeu com Natanael: o facto de Jo\u00e3o 1,45-50 nos mostrar este \u00faltimo entre os primeiros disc\u00edpulos, n\u00e3o \u00e9 prova de que ele tenha pertencido ao n\u00famero dos ap\u00f3stolos.
Sim\u00e3o, o zelota, \u00e9 chamado o cananeu em Mt 10,4. Este voc\u00e1bulo, em hebraico, significa o mesmo que zelota em grego: fan\u00e1tico. Referia-se a terroristas que assaltavam os romanos e seus colaboradores.

{N}6,{/}43 {C}N\u00e3o existe \u00e1rvore boa{/}. Lucas refere estas senten\u00e7as \u00e0 consci\u00eancia limpa. \u00c9 necess\u00e1rio purificar a nossa mente e o nosso esp\u00edrito para que depois as nossas palavras e actos produzam frutos de justi\u00e7a e de bondade.

{N}6,{/}46 Em todo o seu discurso, Lucas apresenta-nos senten\u00e7as curtas de Jesus que Mateus recompilou e copiou, tal como ele, no seu Serm\u00e3o da Montanha. Note-se que algumas delas j\u00e1 tinham sido um pouco modificadas. Aqui, por exemplo, apenas os convertidos podiam invocar Jesus desta maneira: \u00abSenhor, Senhor!\u00bb

{N}7,{/}2 Compare-se com Jo 4,46, que parece narrar a mesma cura. Isto permite apreciar o tipo de precis\u00e3o que podemos esperar dos relatos dos milagres. Entre outras coisas, vemos que Jo\u00e3o fala de um funcion\u00e1rio do rei. Contudo, alguns anos mais tarde, os romanos eliminaram o rei, e os sin\u00f3pticos, esquecendo ou ignorando a antiga situa\u00e7\u00e3o, falam-nos de um centuri\u00e3o romano. Tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel que se tenham fundido duas curas realizadas nos mesmos lugares e com alguns aspectos semelhantes.

{N}7,{/}13 Naim, pequena aldeia muito pr\u00f3xima de Sunam, onde Eliseu ressuscitou um morto (2Rs 4,8). Jesus entregou-o \u00e0 m\u00e3e: como fez Elias (1Rs 17,23). Noutros lugares, Jesus voltar\u00e1 a ser comparado com Elias, sobretudo em 9,27-62. Al\u00e9m disso, as pessoas falam de um grande profeta, porque na B\u00edblia apenas Elias e Eliseu s\u00e3o referidos como tendo ressuscitado mortos.
{C}Deus visitou o seu povo{/}: lembrou-Se dele e interveio, como em Gn 50,24; Rt 1,7 e Lc 1,68.

{N}7,{/}21 A resposta de Jesus \u00e9 tirada de Is 61,1, o mesmo texto que Jesus comenta na sinagoga de Nazar\u00e9: Lc 4,18.
{C}A Boa Not\u00edcia \u00e9 anunciada aos pobres.{/} Adapta-se \u00e0 prega\u00e7\u00e3o de Jesus aquilo que o profeta dizia de si mesmo ao ser enviado para anunciar aos desterrados da Babil\u00f3nia o perd\u00e3o de Deus e o regresso \u00e0 sua terra. Jesus real\u00e7a sobretudo o reviver dos pobres. Ainda hoje, \u00e9 este sinal que mede a autenticidade da nossa evangeliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o a multiplica\u00e7\u00e3o das nossas ajudas, nem a publica\u00e7\u00e3o de documentos sobre o nosso amor pelos pobres.
Jesus vem para salvar a todos. Mas \u00e9 elegendo os pobres (Lc 1,47), dedicando-Se a eles (Lc 15,1), que d\u00e1 ao mundo o sinal que o salva.

{N}7,{/}30 Era dif\u00edcil pensar que as pessoas decentes baixassem ao deserto para a\u00ed se misturarem com a turba dos ignorantes e, depois, se despirem no Jord\u00e3o. Por\u00e9m, n\u00e3o seria esse o caminho para renascer?

{N}7,{/}33 {C}Est\u00e1 com um dem\u00f3nio.{/} Tenhamos presente que a l\u00edngua grega, e o evangelho, falam com frequ\u00eancia de dem\u00f3nios, referindo-se a desordens psicol\u00f3gicas ou a excentricidades. A ningu\u00e9m ocorreria pensar que Jo\u00e3o fosse um instrumento do diabo.

{N}7,{/}35 Compare-se o v. 35 com Mateus 11,19. Mateus diz que a sabedoria foi justificada pelas suas obras, ou seja: os resultados demonstraram que ela tinha actuado bem. Lucas diz que a sabedoria foi justificada pelos seus filhos, ou seja, os seus filhos souberam ver que ela tinha actuado bem.

{N}7,{/}37 Esta mulher que pode tomar a liberdade de entrar em casa de Sim\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma pessoa qualquer: pertence ao mesmo meio, tem dinheiro, e n\u00e3o \u00e9 uma prostituta, apesar de a sua vida n\u00e3o ter sido um modelo. Lucas n\u00e3o lhe d\u00e1 nome, mas fez bastante para que se reconhecesse nela Maria de Bet\u00e2nia, a parente de Marta e de L\u00e1zaro (Jo 12,3).

{N}8,{/}3 Jesus n\u00e3o teve dificuldades em encontrar a linguagem que o povo simples entendia, pois pertencia-lhe; contudo, tamb\u00e9m entre os membros de meios mais instalados e instru\u00eddos fez muitos amigos. As mulheres, essas esquecidas da sociedade religiosa, entendiam-n'O muitas vezes melhor pelo \u00fanico facto de n\u00e3o observarem toda a vida e as outras pessoas atrav\u00e9s das lentes e das etiquetas dos partidos e dos dogmas. Jesus teve uma rela\u00e7\u00e3o profunda com v\u00e1rias delas: \u00e9 poss\u00edvel que Maria n\u00e3o fosse para ele menos importante que Pedro e Jo\u00e3o. Como tinha o tempo muito contado, n\u00e3o Se viu obrigado a defender-Se desses amigos e benfeitores que, certamente, o teriam monopolizado com o tempo, tentando dar \u00e0 sua evangeliza\u00e7\u00e3o as bases firmes e os apoios sociais em que confia a sabedoria humana.

{N}8,{/}12 Lucas manifesta aqui o seu centro de interesse: o dem\u00f3nio n\u00e3o quer que os homens acreditem e se salvem. Esquecendo tanto o Semeador como o facto da sementeira, fixa-se no facto de que n\u00e3o existe salva\u00e7\u00e3o sem f\u00e9, requerendo esta a escuta da Palavra. A semente come\u00e7a logo por ser identificada com a Palavra de Deus; do mesmo modo, ao terminar a par\u00e1bola, ser\u00e3o louvados os que escutam a Palavra e a tornam realidade.

{N}8,{/}16{C} Prestai aten\u00e7\u00e3o ao modo como escutais. {/}Em Lucas, estas pequenas par\u00e1bolas v\u00eam confirmar a par\u00e1bola do Semeador, e dizem-nos que a melhor disposi\u00e7\u00e3o para seguir adiante \u00e9 dar valor \u00e0quilo que j\u00e1 se recebeu. Quem recebeu estes ensinamentos como um segredo precioso, deve faz\u00ea-los de tal modo seus, que possa transmiti-los aos outros, tornando-se luz para o mundo; merecer\u00e1 ent\u00e3o receber uma compreens\u00e3o mais profunda das coisas de Deus.

{N}8,{/}43 {N}A TUA F\u00c9 TE CUROU{/}
Numerosos manuscritos antigos t\u00eam, para este vers\u00edculo, um texto mais longo e mais pr\u00f3ximo de Mc 5,25. Esse pormenor \u00e9 pouco importante comparado com a palavra de Jesus: {C}A tua f\u00e9 te curou. {/}Encontramo-la em Mateus e Marcos, no mesmo relato, e al\u00e9m disso quatro vezes em Lucas (7,50; 17,19; 18,42 e Ac 14,9). De que f\u00e9 se trata? Por muito mal informados que estivessem os doentes, sabiam no entanto o suficiente para ver em Jesus um profeta (Mc 6,15), aproximando-se d'Ele com uma certeza comum: Deus visitou o seu povo (Lc 7,16).
\u00c9 esta a f\u00e9 que se encontra no povo simples e sem teologia. E Jesus \u00e9 o primeiro a dar-lhe valor. Se nos remetermos aos relatos de milagres do Antigo Testamento, que podem ser comparados com os do evangelho - embora, de facto, s\u00f3 se encontrem nos cap\u00edtulos consagrados a Elias e Eliseu (1Rs 17; 2Rs 1-7) - a f\u00e9 n\u00e3o est\u00e1 ausente, mas n\u00e3o \u00e9 o mais importante (Nm 21,9). Os relatos p\u00f5em em destaque o carisma do profeta, e o profeta, que tem a f\u00e9 e o carisma, pede a Deus o milagre. O evangelho, pelo seu lado, e muito especialmente o de Marcos, d\u00e1 testemunho do poder de Jesus, Aquele que, ao contr\u00e1rio do profeta, n\u00e3o pede a Deus, d\u00e1 uma ordem. Lucas, pelo seu lado, compraz-se em recordar as palavras de Jesus que celebram o poder da f\u00e9.
Muita gente menospreza esse poder da f\u00e9, pensando imediatamente: \u00e9 a mesma f\u00e9 que atrai a clientela dos charlat\u00e3es. N\u00e3o v\u00eaem nisso mais do que auto-sugest\u00e3o, a mesma que em determinados casos d\u00e1 a chibatada de que se necessitava, mas que n\u00e3o tem valor, quer no plano m\u00e9dico, quer, ainda menos, no religioso.
A palavra de Jesus convida-nos, antes, a invejar essa f\u00e9 sem instru\u00e7\u00e3o que reconhece com frequ\u00eancia os profetas, mas que n\u00e3o faz grande uso da Igreja instalada; ela \u00e9 uma das nossas grandes riquezas. No mundo que nos rodeia, no in\u00edcio de tudo o que \u00e9 grande, esteve a f\u00e9, se n\u00e3o sob a forma de \u00abDeus visitou o seu povo\u00bb, pelo menos na sua vers\u00e3o laicizada: a sorte nos ajudar\u00e1. Todos os homens, de todas as religi\u00f5es, entendem essa linguagem.
O Antigo Testamento, embora mostre essa f\u00e9 em ac\u00e7\u00e3o (veja-se Hb 11), pouco fala dela. Os escritos do Novo Testamento, pelo contr\u00e1rio, fazem a todo o momento o elogio da f\u00e9, tratando-se por\u00e9m, com maior frequ\u00eancia, da f\u00e9 em Cristo, Senhor. Esses livros falam-nos de crentes que vivem de forma consciente a sua vida nova de baptizados, e o mais importante da f\u00e9, segundo Cristo (veja-se nota em Act 4,12), \u00e9 que ela permite o acesso aos bens sobrenaturais. Estamos, portanto, \u00e0 beira do terreno em que se debatem os pobres. Mas aqui o Evangelho recorda-nos essa grande maioria dos nossos irm\u00e3os, para quem n\u00e3o est\u00e1 assegurado o p\u00e3o do dia seguinte, e para quem m\u00e9dicos e servi\u00e7os de sa\u00fade constituem um luxo fora do seu alcance. A sua f\u00e9, mal ou pouco instru\u00edda, muito condicionada pelas necessidades do momento (2Rs 4,39; Jo 2,3), n\u00e3o \u00e9 menos valiosa aos olhos de Deus. Um optimismo irracional leva-os, por vezes, a pensar que Deus os tirar\u00e1 de apuros, e Deus reconhece-Se nessa ideia que os pobres fazem d'Ele.

{N}9,{/}7 {C}Jo\u00e3o tinha ressuscitado. {/}O povo pensava que, nos \u00faltimos tempos, Elias voltaria (Ml 3,23; Eclo 48,10) e com ele o profetas mortos e os m\u00e1rtires. Tinham Jo\u00e3o por m\u00e1rtir, e pensavam que ele regressaria para castigo de Herodes. A sua morte somava-se a muitas mais de patriotas executados, ou crucificados, dando-lhes a certeza de que se aproximava o Ju\u00edzo. Uns associavam Jesus e Jo\u00e3o: Jesus fazia os milagres que Jo\u00e3o n\u00e3o tinha operado.

{N}9,{/}10 Esta men\u00e7\u00e3o de {C}Betsaida {/}parece contradizer Jo\u00e3o 6,1. Contudo, o texto n\u00e3o \u00e9 seguro, e Betsaida n\u00e3o \u00e9 mencionada em muitos manuscritos.

{N}9,{/}51 {C}O tempo de Jesus ser levado para o c\u00e9u. {/}O texto diz: o tempo de ser levado para o alto, recordando Elias (2Rs 2,1). {C}Tomou a firme decis\u00e3o{/}. O texto diz: tornou o rosto duro. A palavra {C}rosto {/}ser\u00e1 de novo aplicada segundo formas de dizer pr\u00f3prias do hebraico: tinha enviado adiante do seu rosto... (52), porque o seu rosto estava orientado para Jerusal\u00e9m (53)..., enviou-os frente ao seu rosto (10,1). Este estilo indica-nos que a viagem para Jerusal\u00e9m se inscreve no contexto da grande tradi\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria sagrada: assim como os peregrinos subiam a Jerusal\u00e9m para encontrar o {C}rosto, {/}ou seja, a presen\u00e7a divina, do mesmo modo Jesus caminha imperturb\u00e1vel para o lugar da sua Paix\u00e3o, que ser\u00e1 tamb\u00e9m o da sua glorifica\u00e7\u00e3o.
Jesus toma o caminho mais directo, que atravessa a Samaria, arrostando com os problemas previs\u00edveis em pa\u00eds hostil. A pergunta de Tiago e Jo\u00e3o (os filhos do trov\u00e3o: Mc 3,17): ver 2Rs 1,10.

{N}9,{/}56 {C}Jesus repreendeu-os. {/}V\u00e1rios manuscritos acrescentam: N\u00e3o sabeis a que esp\u00edrito pertenceis; o Filho do Homem n\u00e3o veio para perder, mas para salvar (ver 19,10).

{N}10,{/}1 Estas instru\u00e7\u00f5es de Jesus aos {C}setenta {/}ou {C}setenta e dois disc\u00edpulos {/}s\u00e3o praticamente as mesmas dadas aos ap\u00f3stolos em 9,1. Parece que Lucas, tal como Marcos, dispunha de dois textos bastante parecidos. Mateus reuniu-os num s\u00f3. Lucas teria colocado um em 9,1 e o outro aqui.

{N}10,{/}17 Devemos fixar-nos na forma t\u00e3o hebraica da resposta de Jesus, ao retomar as palavras dos seus disc\u00edpulos. Eles dizem: o teu {C}nome{/}, e Jesus responde: Os vossos {C}nomes. {/}Os disc\u00edpulos {C}alegram-se, {/}e Jesus diz: {C}N\u00e3o vos alegreis. {/}Satan\u00e1s cai {C}do c\u00e9u, {/}e o que est\u00e1 escrito {C}no c\u00e9u {/}s\u00e3o os nomes dos disc\u00edpulos. Note-se tamb\u00e9m que os disc\u00edpulos falam {C}dos dem\u00f3nios {/}que se lhes submetiam, e Jesus replica:{C} os esp\u00edritos{/}; al\u00e9m disso, para Ele, o advers\u00e1rio n\u00e3o s\u00e3o os esp\u00edritos, mas Satan\u00e1s.

{N}10,{/}27 Mateus e Marcos apresentam esta pergunta do doutor da Lei sobre o primeiro mandamento. S\u00f3 Lucas a faz preceder doutra pergunta sobre quem \u00e9 o pr\u00f3ximo. N\u00e3o \u00e9 inveros\u00edmil que este mestre tenha dado a resposta (ao contr\u00e1rio de Mateus e Marcos), mas s\u00f3 Jesus poderia pensar em coloc\u00e1-los num mesmo plano.
{C}Faz isto e viver\u00e1s{/}: f\u00f3rmula que acompanha os mandamentos em v\u00e1rios lugares do Deuteron\u00f3mio (8,1)

{N}10,{/}29 {N}O PR\u00d3XIMO{/}
Os mais antigos coment\u00e1rios rab\u00ednicos da B\u00edblia - contempor\u00e2neos dos evangelhos - mostram que os mestres estavam divididos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pergunta de quem \u00e9 o pr\u00f3ximo. A pergunta feita a Jesus tinha, portanto, uma grande actualidade. Al\u00e9m disso, as interpreta\u00e7\u00f5es da palavra {C}pr\u00f3ximo{/} estendiam-se da fam\u00edlia mais pr\u00f3xima aos familiares, a todo o irm\u00e3o judeu, inclusivamente aos pros\u00e9litos que ainda n\u00e3o eram plenamente judeus. Mas ningu\u00e9m tinha atravessado essa barreira, tanto nacional como religiosa.
A resposta de Jesus \u00e9, pois completamente nova. Tal como foi demonstrado pelo fil\u00f3sofo Henri Bergson, passar do membro pr\u00f3ximo do mesmo grupo social a um pr\u00f3ximo que pode ser qualquer outra pessoa, n\u00e3o \u00e9 apenas uma amplia\u00e7\u00e3o: \u00e9 aceder a outro mundo. O amor ao pr\u00f3ximo, que se tentava praticar entre judeus e gregos, na Igreja primitiva, apesar das desconfian\u00e7as m\u00fatuas (e isso era uma das principais preocupa\u00e7\u00f5es de Paulo: 2Cor cap. 8-9), era uma riqueza nova dada ao mundo. S\u00e3o Jo\u00e3o, pelo seu lado, via-o como um mandamento completamente novo (Jo 13,34; 1Jo 2,8). Se actualmente a resposta de Jesus j\u00e1 n\u00e3o nos parece t\u00e3o extraordin\u00e1ria, \u00e9 s\u00f3 porque essa par\u00e1bola j\u00e1 transformou as consci\u00eancias. No entanto, esse amor ao pr\u00f3ximo continua a aparecer como uma novidade no mundo actual; embora se d\u00eaem numerosos exemplos de ajuda ao pr\u00f3ximo afastado quando se trata de casos individuais e de salvar os marginalizados, \u00e9 facto mais surpreendente quando o amor permite o reencontro de grupos sociais entre os quais existem barreiras.

{N}10,{/}33 Note-se em 2Cr 28,8-15 certo relato um pouco estranho, em que os antepassados dos samaritanos agem de forma semelhante. V\u00e1rios pormenores do texto parecem ter inspirado a par\u00e1bola de Jesus, mas ali a li\u00e7\u00e3o \u00e9 diferente: a humanidade dos samaritanos \u00e9 apresentada como uma coisa muito normal: limitavam-se apenas a reconhecer o car\u00e1cter sagrado inerente a todo o membro do povo de Jud\u00e1. Aqui, pelo contr\u00e1rio, Jesus espezinha o orgulho dos seus, mostrando-nos como devemos superar qualquer barreira e preconceito de ra\u00e7a.

{N}10,{/}41 {C}Maria escolheu a melhor parte. {/}A palavra de Jesus torna-se mais significativa se considerarmos mais de perto a situa\u00e7\u00e3o destas duas irm\u00e3s. Maria, segundo se diz, \u00e9 {C}irm\u00e3 de Marta{/}: irm\u00e3, nesse sentido restrito, ou mais provavelmente prima ou parente? A que {C}recebe em sua casa {/}\u00e9 Marta, mas, n\u00e3o tinha Maria chegado com o grupo que acompanhava Jesus? Jo\u00e3o diz-nos que essa irm\u00e3 de Marta \u00e9 a mesma Maria que derramou o perfume sobre os p\u00e9s do Senhor (Jo 11,2 3 12,3) e que volta a aparecer pouco depois, em Jo 20,11. Contudo, se Jo\u00e3o, sempre t\u00e3o preciso nas anota\u00e7\u00f5es concretas, n\u00e3o misturou os pap\u00e9is, essa Maria, \u00e0 qual aparece Jesus ressuscitado, n\u00e3o pode ser outra sen\u00e3o Maria de Magdala.
Assim, \u00e9 muito poss\u00edvel que essa Maria, {C}irm\u00e3 de Marta, {/}tivesse chegado com o grupo que seguia Jesus (Lc 8,2). Segundo o costume, Maria deveria ter-se reunido \u00e0s mulheres que executavam o trabalho dom\u00e9stico, enquanto os homens falavam de coisas de homens; mas fica com os homens. Quando Marta se queixa, Jesus faz o elogio daquela que tinha desprezado que os outros poderiam dizer, tornando-se itinerante, com Ele, para o servi\u00e7o do Reino, tendo agora toda a facilidade em receber a Palavra.

{N}10,{/}42 Uma s\u00f3 coisa \u00e9 necess\u00e1ria. Muitos manuscritos apresentam um texto diferente: \u00abPoucas coisas s\u00e3o necess\u00e1rias\u00bb. Outros dizem: \u00abPoucas coisas s\u00e3o necess\u00e1rias, na realidade, uma s\u00f3\u00bb. Poderia parecer que {C}poucas coisas{/} eram um texto revisto em ambientes mon\u00e1sticos, que justificavam, por meio destas palavras, as suas pr\u00e1ticas asc\u00e9ticas. Outros, posteriormente, quiseram conciliar as duas vers\u00f5es.

{N}11,{/}5 A compara\u00e7\u00e3o de Jesus descreve-nos a situa\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias simples do seu tempo. A casa da Palestina tinha apenas uma \u00fanica divis\u00e3o e, quando todos j\u00e1 se tinham deitado sobre tapetes ou esteiras e palha, em que dormiam juntos, cobertos com as mesmas mantas, era imposs\u00edvel levantar-se e procurar fosse o que fosse no escuro, sem desarrumar tudo.

{N}11,{/}9 Note-se que Jesus n\u00e3o fala apenas de pedir a Deus, mas tamb\u00e9m de procurar e, inclusivamente, de pedir a outros que t\u00eam e que sabem o que n\u00f3s n\u00e3o sabemos, mesmo quando nos pare\u00e7a humilhante apresentar-nos como pobres e ignorantes.
Digno de destaque \u00e9 tamb\u00e9m o exemplo dado por Jesus: aquele homem n\u00e3o pedia para si, mas para poder ajudar um amigo de passagem.

{N}11,{/}12 Uma parte dos manuscritos antigos dizem, neste lugar: ...{C}quanto mais, l\u00e1 do c\u00e9u, o Pai n\u00e3o saber\u00e1...{/}

{N}11,{/}14 Aqui Lucas n\u00e3o se fixa tanto na oposi\u00e7\u00e3o dos fariseus, ao contr\u00e1rio de Mateus, como no aspecto positivo dos ensinamentos de Jesus: Este liberta os seus do dem\u00f3nio e pede-lhes que recolham com Ele.

{N}11,{/}27 Esta bem-aventuran\u00e7a conclui as instru\u00e7\u00f5es dadas aos disc\u00edpulos sobre a ora\u00e7\u00e3o e a vigil\u00e2ncia frente ao dem\u00f3nio. Parece-se muito com outra que punha termo \u00e0 prega\u00e7\u00e3o em par\u00e1bolas (8,21).

{N}11,{/}29 {C}A rainha do Sul levantar-se-\u00e1. {/}Nos vers\u00edculos 31 e 32, o evangelho emprega o verbo levantar-se, que tem aqui um duplo sentido. A rainha do sul ser\u00e1 a testemunha que se levanta para acusar. Contudo, esse verbo levantar-se tamb\u00e9m \u00e9, junto com o verbo despertar, um dos dois que o Novo Testamento emprega para dizer \u00abressuscitar\u00bb.

{N}11,{/}33 Lucas junta estas duas compara\u00e7\u00f5es, referindo-as \u00e0 consci\u00eancia. A divis\u00e3o que se produz em torno de Jesus deve-se, fundamentalmente, a que muitos homens se recusam \u00e0 luz, embora Deus a tenha colocado dentro de si pr\u00f3prios, na sua consci\u00eancia (2,31-34; Jo 9).

{N}11,{/}41 A nossa tradi\u00e7\u00e3o acrescenta, no in\u00edcio, um {C}segundo v\u00f3s{/}, que n\u00e3o vem no texto, mas que ajuda a ver como Jesus fala com ironia. O texto diz: Dai de esmola o que possu\u00eds, e tudo ser\u00e1 puro para v\u00f3s. Muitos entendem-no como se Jesus dissesse aos fariseus: Pensai primeiro em dar esmolas. Mas isso era, precisamente, o que os fariseus faziam melhor que ningu\u00e9m (Mt 6,2), e o que lhes deixava a consci\u00eancia tranquila. A palavra grega que foi traduzida por {C}o que possu\u00eds {/}tamb\u00e9m pode ser traduzida por {C}aquilo que est\u00e1 no vosso interior{/}, por isso alguns traduzem: Dai esmolas que provenham do interior (do cora\u00e7\u00e3o), e tudo ser\u00e1 puro para v\u00f3s.
Tamb\u00e9m tem havido longas discuss\u00f5es sobre a palavra grega que significa {C}do que possu\u00eds{/}, tentando concluir se deve ser traduzida por: {C}dos vossos bens {/}ou {C}do que vos sobra{/}, porque ent\u00e3o seria mais f\u00e1cil dizer aos ricos at\u00e9 que ponto estavam obrigados a dar, e se isso era um dever de justi\u00e7a ou de caridade. Contudo, \u00e9 evidente que tais discuss\u00f5es nada t\u00eam a ver, nem com o texto, nem com a forma pela qual o evangelho se refere ao dinheiro.

{N}11,{/}44 Para compreender este vers\u00edculo, recordemos que as pessoas se tornavam impuras quando tocavam num cad\u00e1ver. A tradi\u00e7\u00e3o queria que acontecesse o mesmo quando se pisava uma pedra plana, aparentemente inofensiva, mas que cobria um t\u00famulo. Jesus est\u00e1 a pensar no peregrino que, tendo-se preparado e purificado, se apercebe, demasiado tarde, que p\u00f4s o p\u00e9 onde n\u00e3o devia: \u00abE eu que n\u00e3o reparei, e agora me contaminei!\u00bb

{N}11,{/}45 O doutro da Lei sente-se atingido pelas censuras de Jesus: muitos deles pertenciam ao grupo dos fariseus (Mc 2,16). V\u00f3s impondes sobre os homens cargas insuport\u00e1veis. \u00c9 o mesmo vocabul\u00e1rio utilizado normalmente: a carga designava as obriga\u00e7\u00f5es da Lei. Depois de terem multiplicado os preceitos negativos, imposs\u00edveis de cumprir para a gente vulgar, que se dedica ao trabalho do campo, sem ter comodidades nem criados, os intelectuais n\u00e3o se preocupam com a realidade pastoral: como salvar toda esta gente?  Quem quer que tenha um cargo pastoral sentir-se-\u00e1 atingido pelas censuras de Jesus, por muito pouca aten\u00e7\u00e3o que preste ao que sucede hoje \u00e0 nossa volta: que aus\u00eancia tremenda de uma Palavra de Deus anunciada \u00e0s massas! E que cegueira, muitas vezes, nos doutores da Nova Lei!

{N}11,{/}48 Mais uma ironia de Jesus. Ele n\u00e3o repete o que j\u00e1 tinha dito o v. 47, pois diz {C}construir {/}sem nenhum complemento, aplicando-o em sentido figurado: como j\u00e1 eliminaram os profetas, agora tendes campo livre e dominais as institui\u00e7\u00f5es.

{N}11,{/}50 {C}Ser-lhe-\u00e3o pedidas contas do sangue de todos os profetas. {/}A gera\u00e7\u00e3o de Jesus estava muito sensibilizada para a vingan\u00e7a que Deus exigiria pelo sangue dos seus m\u00e1rtires; contudo, via estes como v\u00edtimas de inimigos de Israel, tanto dos pag\u00e3os como dos \u00abpecadores\u00bb. Jesus afirma que a presente gera\u00e7\u00e3o - incluindo os seus guias religiosos - \u00e9 a primeira culpada, que ter\u00e1 de pagar. {C}Desde o sangue de{/} {C}Abel{/}, primeiro morto da B\u00edblia, at\u00e9 {C}Zacarias {/}(2Cr 14,20). Estes n\u00e3o foi o \u00faltimo, do ponto de vista cronol\u00f3gico, mas o seu assassinato lia-se no fim dos livros das Cr\u00f3nicas, que encerravam a B\u00edblia hebraica.
{C}Desde a cria\u00e7\u00e3o do mundo. {/}\u00c9 muito not\u00e1vel esta profecia de Jesus, que faz recair sobre os seus contempor\u00e2neos todo o sangue derramado desde a cria\u00e7\u00e3o (ou antes, a funda\u00e7\u00e3o) do mundo. Seria um erro pensar que estes tinham sido mais culpados do que qualquer outra colectividade de qualquer outra \u00e9poca. Devemos antes entender que, na morte de Jesus, se fez presente, de alguma forma, a viol\u00eancia de toda a humanidade.
Em tr\u00eas lugares Jesus pretende dominar toda a extens\u00e3o da Hist\u00f3ria, referindo-se ao princ\u00edpio: em Mt 19,4, para afirmar a indissolubilidade do matrim\u00f3nio; em Mt 13,35, o evangelista afirma, em nome de Jesus, que nos vai revelar os segredos escondidos acerca do nosso destino. Aqui entrega-nos uma das chaves do nosso destino, ao reivindicar o primeiro lugar entre todas as v\u00edtimas. O tr\u00e1gico fim de muitos dos seus contempor\u00e2neos (tamb\u00e9m eles pertenciam ao povo que Deus fez seu instrumento para salva\u00e7\u00e3o do mundo) ilustrou a import\u00e2ncia \u00fanica desta hora hist\u00f3rica.

{N}11,{/}52 {C}Apoderastes-vos da chave da ci\u00eancia. {/}No sentido de terem imposto a sua pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o, as suas pr\u00f3prias escolas, os seus m\u00e9todos de discuss\u00e3o e os seus pr\u00f3prios temas de investiga\u00e7\u00e3o. Estes, no entanto, n\u00e3o s\u00e3o os que permitiriam aprofundar o essencial da revela\u00e7\u00e3o b\u00edblica e, sendo eles os que ensinavam o povo, este tamb\u00e9m n\u00e3o poderia chegar ao conhecimento que edifica (1Cr 8,1).

{N}12,{/}16 Jesus retoma o exemplo que aparece em Eclo 11,19. Contudo, enquanto aquele demonstrava que ningu\u00e9m est\u00e1 seguro do seu provir embora este esteja assegurado, Jesus faz ressaltar a avareza: o rico s\u00f3 pensa em aumentar a sua fortuna.

{N}12,{/}21 Este vers\u00edculo falta nalguns manuscritos antigos. No entanto, vem como resposta \u00e0 pergunta do v. 13. No idioma hebraico, diz-se: Esta \u00e9 a parte do que amontoa... o que se contrap\u00f5e \u00e0 pergunta: Diz-lhe que me d\u00ea a minha parte da heran\u00e7a.

{N}12,{/}22 Em Lucas, estas palavras e este convite para a santa despreocupa\u00e7\u00e3o s\u00e3o propostos aos que Deus elegeu para serem os benefici\u00e1rios do seu Reino, como indica a \u00faltima frase, pr\u00f3pria deste evangelho.

{N}12,{/}25 {C}Quem de v\u00f3s pode acrescentar...{/} O texto pode traduzir-se por: prolongar a sua vida em um c\u00f4vado, ou acrescentar meio metro \u00e0 sua estatura. A primeira express\u00e3o parece-nos um pouco estranha, a segunda significaria um feito impressionante. \u00c9 poss\u00edvel que Jesus esteja a falar com ironia como fez noutros lugares: por muito fabuloso que pare\u00e7a, crescer meio metro seria ainda muito pouca coisa frente a Deus.

{N}12,{/}32 {C}N\u00e3o temas, pequenino rebanho. {/}Palavras de consola\u00e7\u00e3o, segundo a tradi\u00e7\u00e3o b\u00edblica que anima o povo dos pobres, o Resto de Israel, prometendo-lhes o regresso \u00e0 sua terra e a chegada de Deus com as m\u00e3os carregadas dos bens do seu Reino: Mq 7,14; Sf 3,11-18; Is 41, 8-14; 54,3-8. O pequeno rebanho \u00e9 o grupo dos disc\u00edpulos, j\u00e1 formado \u00e0 volta de Cristo, como n\u00facleo do novo povo de Deus.
{C}O Pai tem prazer{/}: \u00e9 o mesmo verbo comprazer-se que, em Mt 3,17, exprime a elei\u00e7\u00e3o de Jesus como Messias. Rebanho ou povo, objecto de uma elei\u00e7\u00e3o gratuita de Deus: o dom da f\u00e9 em Cristo.
{C}Dar-vos o Reino. {/}Significar\u00e1 isto que Deus lhe dar\u00e1 o reino, ou que j\u00e1 lho deu? \u00c9 muito poss\u00edvel que j\u00e1 lhes tenha dado o Reino, n\u00e3o s\u00f3 no sentido de os ter feito entrar nele, mas de lhes ter confiado a responsabilidade do seu Reino: cada uma destas palavras tem o seu equivalente nas promessas feitas a Pedro: Mt 16,13-19.
{C}Vendei os bens. {/}Estas palavras de Jesus n\u00e3o bastariam para explicar a partilha dos bens, tentada pela primeira comunidade crist\u00e3 de Jerusal\u00e9m (Act 4). Jesus n\u00e3o fala de p\u00f4r em comum, mas de distribuir. A Igreja seguia, antes, as tentativas feitas anteriormente pelas comunidades ess\u00e9nias.

{N}12,{/}33 N\u00e3o esque\u00e7amos que fazer uma bolsa {C}nos c\u00e9us,{/} tal como diz o texto, que conservou a f\u00f3rmula hebraica, significa t\u00ea-la {C}junto a Deus.{/}

{N}12,{/}35 O texto diz: {C}Permanecei com os rins cingidos. {/}Isso significa ter as pregas da t\u00fanica levantadas e amarradas \u00e0 cintura, o que permitia trabalhar com facilidade: o trabalhador est\u00e1 pronto. Do mesmo modo, o dono da casa vestir\u00e1 roupa de trabalho para servir os seus servos.

{N}12,{/}37 {C}Ele mesmo se cingir\u00e1. {/}Isto, que se refere ao pr\u00f3prio Jesus (ver tamb\u00e9m Jo 13,4) concorda com outros textos da B\u00edblia, que tentam convencer-nos da incr\u00edvel simplicidade, cordialidade e esp\u00edrito de servi\u00e7o de Deus, quando quer manifestar-Se aos seus servos (Gn 18,22; Sf 3,17).
{C}\u00c0 meia-noite ou de madrugada. {/} Uma espera que se prolonga. Este texto n\u00e3o d\u00e1 lugar a que se diga que Jesus pensava regressar em breve, para inaugurar o seu Reino. Al\u00e9m disso, n\u00e3o temos raz\u00f5es para pensar que o pr\u00f3prio Jesus acreditava nisso ou o expressava nestes par\u00e1grafos, antes de os evangelistas terem adaptado as suas palavras (ver Mc 9,1).

{N}12,{/}45 Estes par\u00e1grafos dirigem-se aos que ter\u00e3o a seu cargo a obra de Jesus. No entanto, Lucas retoma aqui advert\u00eancias anteriores, que exigem a qualquer disc\u00edpulo de Jesus fidelidade no seu trabalho. Quer estejamos, quer n\u00e3o, conscientes de que Deus realiza a sua obra, e de que o seu Reino cresce connosco ou sem n\u00f3s, o crist\u00e3o dever ter sempre o sentido da sua responsabilidade.
A f\u00e9, na l\u00edngua grega, est\u00e1 intimamente ligada \u00e0 credibilidade. O disc\u00edpulo julgou que Deus \u00e9 cr\u00edvel; Deus, por sua vez, julga que o disc\u00edpulo \u00e9 cr\u00edvel, e confia-lhe um cargo ao mesmo tempo que o Esp\u00edrito lhe confere uma capacidade (carisma) pessoal (Rm 12,5-8; 1Cor 12,4-11). Seja qual for o \u00e2ngulo do qual se olhe o evangelho, encontrar-se-\u00e1 sempre nele essa reciprocidade entre Deus e n\u00f3s, entre o Pai e as suas filhas e filhos.

{N}12,{/}56 Lucas apresenta aqui as mesmas palavras do Senhor que Mateus retoma no seu evangelho (16,4). Contudo, neste caso perdeu a oposi\u00e7\u00e3o hebraica entre {C}c\u00e9u e terra{/} que se verificava neste \u00faltimo.
{C}Como \u00e9 que n\u00e3o sabeis interpretar o tempo presente? {/}\u00c9 dif\u00edcil interpretar bem a Hist\u00f3ria. No entanto, pode apresentar-se um conjunto de factos que permite discernir uma hora decisiva dentro da Hist\u00f3ria Sagrada. O minist\u00e9rio de Jesus marca uma dessas etapas. Os acontecimentos referentes \u00e0 ru\u00edna de Jerusal\u00e9m marcar\u00e3o outra etapa (Lc 21,28).
{C}Todos morrereis do mesmo modo. {/}Amea\u00e7a, para cada um dos que n\u00e3os e convertem: perecer\u00e3o, no sentido em que Jesus disse: quem quiser salvar a sua vida, vai perd\u00ea-la (9,24). Amea\u00e7a para a colectividade de Israel, que caminha para a sua destrui\u00e7\u00e3o material, e que tamb\u00e9m vai perder o Messias, que era a sua luz.

{N}13,{/}11 Note-se a doen\u00e7a atribu\u00edda a uma influ\u00eancia demon\u00edaca; sabe-se que Lucas, em especial, n\u00e3o distingue com nitidez possu\u00eddos e doentes. Jesus n\u00e3o rejeita a ideia de que o esp\u00edrito do mal se aproveita dos nossos males f\u00edsicos.

{N}13,{/}19 Estas duas curtas par\u00e1bolas que Mateus juntou com outras relativas ao reino de Deus (Mt 13) enquadram-se melhor aqui. De facto, Jesus n\u00e3o contava par\u00e1bolas em momentos indiscriminados, mas quando se apresentavam factos que deviam ser comentados mediante as mesmas. No caso presente, Lucas conclui a primeira da sua viagem de Jesus da Galileia para Jerusal\u00e9m (9,51-13,21): a miss\u00e3o, em especial, demonstrava que o reino de Deus se ia desenvolvendo.
Note-se aqui a adapta\u00e7\u00e3o de alguns pormenores do texto original para melhor compreens\u00e3o dos leitores. Para os habitantes da Palestina (Mt 13,31), a mostarda \u00e9 uma planta maligna que se semeia no campo; para Lucas, que \u00e9 grego, \u00e9 uma erva medicinal, que se tem perto de si, no jardim.

{N}13,{/}22 Lucas recorda de novo a subida de Jesus a Jerusal\u00e9m, como que dando in\u00edcio a outra sec\u00e7\u00e3o de outra parte do seu evangelho (ver 9,51). Seguem-se v\u00e1rias senten\u00e7as de Jesus, que esclarecem e pressagiam a incredulidade de Israel a seu respeito.

{N}13,{/}25 As mesmas palavras de Jesus l\u00eaem-se em Mt 7,22: a\u00ed Jesus dialoga com maus crist\u00e3os. Aqui trata-se dos compatriotas de Jesus: Este nega os privil\u00e9gios dos seus irm\u00e3os segundo a carne (8,19) e os direitos da ra\u00e7a de Abra\u00e3o.

{N}13,{/}31 Aviso bem intencionado, ou sugest\u00e3o interesseira? Jesus responde com uma palavra de desprezo para com Herodes: este n\u00e3o \u00e9 um le\u00e3o, mas apenas uma raposa. Jesus n\u00e3o se afasta por medo da morte, mas porque a sua morte o espera em Jerusal\u00e9m.

{N}13,{/}34 {C}Quantas vezes quis reunir os teus filhos! {/}Reunir os filhos de Israel, devia ser esta a obra dos tempos do Messias (Is 49,6; Ez 36-37). N\u00e3o s\u00f3 p\u00f4r fim \u00e0 divis\u00e3o entre Jud\u00e1 e Israel, pecado original da na\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m reunir os numerosos judeus que tinham emigrado para outros pa\u00edses (Jo 7,35).

{N}14,{/}7 Os dois par\u00e1grafos que se seguem ajudam-nos a ver que Jesus retomava, em muitas ocasi\u00f5es, os ensinamentos dos seus predecessores. Em 14,7-9, retoma Pr 25,6; Lucas, por\u00e9m, coloca aqui um acento novo, ao destacar a palavra que tanto significa convidado como chamado: Jesus dirige-se aos que s\u00e3o chamados \u00e0 f\u00e9 e \u00e0 Igreja. O mesmo se passa na par\u00e1bola seguinte, at\u00e9 ao v. 15. Quanto ao v. 11, resume v\u00e1rios textos dos profetas (Is 2,11-18; Ez 2,31). Jesus insere-Se numa cultura secular, como tinham feito os profetas antes de Si; mas, inclusivamente nos lugares em que n\u00e3o introduz inova\u00e7\u00f5es, as suas li\u00e7\u00f5es de sabedoria residem numa vis\u00e3o nova da exist\u00eancia: Deus faz-Se presente hoje.

{N}14,{/}15 Feliz o que tomar parte no banquete! Jesus responde que, embora o banquete se venha a realizar mais tarde, \u00e9 hoje que se fazem os convites.
{C}Enviou o seu servo{/}, segundo o costume oriental; esse servo \u00e9 Jesus.

{N}14,{/}21 {C}Traz para c\u00e1 os pobres, os cegos...  {/}Estes, que s\u00e3o recolhidos na pr\u00f3pria cidade, por falta de gente \u00abdecente\u00bb, s\u00e3o os pobres de Israel. Depois procurar-se-\u00e1 pelos caminhos, obrigando-se a entrar os convertidos de outras na\u00e7\u00f5es.

{N}14,{/}25 {C}Grande multid\u00e3o acompanhava Jesus. {/}Jesus fala, n\u00e3o para o grupo reduzido dos disc\u00edpulos, mas para todos aqueles que come\u00e7ar\u00e3o a segui-l'O. \u00c9 neste lugar que Lucas relata uma das senten\u00e7as de Jesus que mais escandalizou os seus disc\u00edpulos: \u00abSe algu\u00e9m vem a Mim, e n\u00e3o d\u00e1 mais prefer\u00eancia a Mim do que ao pai...\u00bb  Sabe-se que o texto original diz: \u00abvem a Mim e n\u00e3o {C}odeia {/}seu pai...\u00bb Este odiar \u00e9 um decalque de um verbo hebraico que significa {C}odiar {/}em muitos casos, mas que tamb\u00e9m se usa a respeito de uma elei\u00e7\u00e3o, para falar daquilo que n\u00e3o foi escolhido. O que n\u00e3o teve a prioridade foi desprezado, ou menos amado e, de alguma forma, odiado naquele momento. Mateus estava consciente de que tal palavra podia ser mal interpretada pelos n\u00e3o-judeus, pelo que fez um rodeio da frase em Mt 10,37. Contudo, vemos que Jesus est\u00e1 consciente, a cada instante, desse Tudo que \u00e9 Deus, se o compararmos com o {C}nada{/} que s\u00e3o os sentimentos, as paix\u00f5es e as necessidades do tempo presente. Todo o amor \u00e9 portador de eternidade, mas nenhum amor \u00e9 aut\u00eantico, se prefere aquilo de que se goza no tempo, ao que \u00e9 \u00danico e eterno.

{N}14,{/}28 {C}Construir uma torre{/}: Designa assim a casinha de pedra que permite montar guarda \u00e0 vinha (Mc 12,1). Vigiar e cuidar da sua pr\u00f3pria exist\u00eancia, a fim de a tornar mais respons\u00e1vel. Participar na guerra sem remiss\u00e3o, que terminar\u00e1 com o triunfo do reino de Deus.

{N}14,{/}34 Lucas refere esta senten\u00e7a a quem se atrevesse a seguir Cristo sem ter renunciado a tudo: este passaria a ser sal que n\u00e3o salga.

{N}15,{/}1 {C}Os cobradores de impostos. {/}Todos eram considerados pecadores, sem distinguir entre os altos funcion\u00e1rios administrativos, que enchiam o bolso colaborando com o opressor romano, e os pequenos funcion\u00e1rios, que aceitavam sem grandes escr\u00fapulos um trabalho discut\u00edvel. 

{N}15,{/}4 {C}Deixa as outras noventa e nove no campo. {/}No campo, quer dizer, nos terrenos que n\u00e3o servem para a cultura e que os rebanhos percorrem. Esta oposi\u00e7\u00e3o entre noventa e nove e uma projecta-nos para outro mundo, que \u00e9 o da miseric\u00f3rdia. Deus n\u00e3o actua aqui como noutros textos b\u00edblicos, \u00e0 maneira de um rei justo, preocupado em restabelecer a justi\u00e7a a favor dos pobres, mas como o Pai que ama o pecador. N\u00e3o se fixa nas estat\u00edsticas e nos balan\u00e7os positivos do seu governo no mundo: esquece tudo, para gozar de uma rela\u00e7\u00e3o inaudita com uma \u00fanica pessoa, salva da sua pr\u00f3pria maldade.

{N}15,{/}11{N} A MISERIC\u00d3RDIA{/}
O presente cap\u00edtulo, em que Lucas junta tr\u00eas par\u00e1bolas sobre a miseric\u00f3rdia divina, mereceu-lhe que o seu evangelho fosse chamado o Evangelho da miseric\u00f3rdia. De facto, a B\u00edblia inteira proclama a miseric\u00f3rdia e o perd\u00e3o incans\u00e1vel de Deus. A verdade \u00e9 que, no entanto, a revela\u00e7\u00e3o do amor de Deus na pessoa de Jesus revolucionou o conceito que d'Ele se tinha.
Nos profetas, Deus mostrava a sua miseric\u00f3rdia quando reunia os dispersos do seu povo e os trazia de novo para a Terra Prometida. Tratava-se, em primeiro lugar, de uma miseric\u00f3rdia para com Israel, num tempo em que n\u00e3o se considerava ainda a pessoa humana, e o povo estava antes dos indiv\u00edduos (Eclo 37,25). Deus perdoava a falta e a rebeli\u00e3o, mas sempre o fazia depois de castigar, pois queria mostrar que a justi\u00e7a \u00e9 soberana na ordem divina. A piedade dos fi\u00e9is fundamentava-se, como em toda a religi\u00e3o vivida, nos favores que cada pessoa recebera de Deus e que s\u00f3 Ele conhece, especialmente quando esses favores trazem o selo da sua interven\u00e7\u00e3o e manifestam que ouviu a nossa ora\u00e7\u00e3o. Numerosos salmos s\u00e3o testemunhas desta experi\u00eancia.
{C}Pois bem, no Evangelho, Deus fez-Se homem na pessoa de Jesus, pelo que a sua miseric\u00f3rdia nos conduz de modo novo. Primeiro temos o facto de que Deus n\u00e3o Se fica nas alturas ou no inc\u00f3gnito do seu mist\u00e9rio; Ele quis encontrar-nos na nossa pr\u00f3pria morada. Ao entrar na casa de Zaqueu, Jesus manifesta que para cada homem vir\u00e1 um dia em que a comunh\u00e3o com Deus ser\u00e1 t\u00e3o verdadeira como o pode ser com o amigo mais \u00edntimo. \u00c9 por isso que as palavras de perd\u00e3o ou de est\u00edmulo nos tocam no mais profundo de n\u00f3s mesmos.{/}
As tr\u00eas par\u00e1bolas que aqui se l\u00eaem desenvolvem os aspectos da palavra de Jesus em casa de Zaqueu: o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido. Aqui \u00abprocurar\u00bb \u00e9 t\u00e3o importante como salvar, pois indica um desejo pessoal de Deus (como se ao Infinito pudesse faltar alguma coisa!) \u00c9 normal que uma mulher varra a casa se perdeu uma moeda. No caso do pastor que deixa as noventa  e nove ovelhas no campo, pelo contr\u00e1rio, h\u00e1 algo de irracional. E quando o pai celebrar a festa{C}, {/}porque reencontrou o filho irrespons\u00e1vel e manda matar o novilho que negara ao filho obediente, h\u00e1 motivos de sobra para n\u00e3o aprovarmos o que ele fez.
{C}Algu\u00e9m poderia dizer que a par\u00e1bola quer surpreender, com a finalidade de produzir mais efeito. Outrem poderia ver nesta palavra de Deus a revela\u00e7\u00e3o de uma \u00abestupidez\u00bb divina que Paulo recorda em 1Cor 1,25 (nesse vers\u00edculo traduz-se quase sempre por \u00abloucuras\u00bb, porque h\u00e1 loucuras que qualquer de n\u00f3s faz, ao passo que \u00abestupidez\u00bb parece pouco decente falando de Deus...). Os caminhos de Deus s\u00e3o misteriosos, mas o amor com que Ele nos ama e que tamb\u00e9m deseja encontrar em n\u00f3s na eternidade n\u00e3o est\u00e1 assim t\u00e3o longe do nosso conceito de religi\u00e3o. N\u00e3o seria totalmente errado dizer que Deus procura os pecadores.{/}

{N}16,{/}8 O senhor {C}elogiou. {/}\u00c9 a tradu\u00e7\u00e3o normal do verbo que se l\u00ea no texto e que tamb\u00e9m significa {C}louvar.{/}
{C}Os que pertencem a este este mundo. {/}\u00c9 o que significa o modo de falar hebraico que aqui lemos. S\u00e3o os que vivem segundo os costumes deste mundo.
{C}O dinheiro injusto{/}. O texto original diz: o sujo {C}Mamon. {/}Era o nome de um deus arameu muito entendido em neg\u00f3cios, que s\u00f3 era nomeado quando se queria dizer mal do dinheiro. Isto n\u00e3o se opunha a que lhe tivessem apre\u00e7o. No vers\u00edculo 13 lemos simplesmente: {C}o mamon.{/}

{N}16,{/}14{C} O que \u00e9 importante para os homens. {/}A B\u00edblia recordava que Deus sabe dar a volta \u00e0s desigualdades humanas e humilhar os orgulhosos (1Sm 2,3; Ez 17,24; Job 34,18-28). Isa\u00edas tinha afirmado que o orgulho humano insulta a Deus (Is 2,16-17). Jesus repete-o de forma simultaneamente mais simples e mais universal.

{N}16,{/}16 {C}Chegou at\u00e9 Jo\u00e3o. {/}Mateus parece dizer que a proclama\u00e7\u00e3o do evangelho come\u00e7a com Jo\u00e3o (11,12). Lucas prefere dizer que Jo\u00e3o encerra o Antigo Testamento.

{N}16,{/}18 {C}Todo o homem que se divorcia. {/}Esta frase de Jesus era uma das que pareciam mais exigentes: ia contra a Lei, deixando todos desconcertados. Por isso se l\u00ea aqui essa mesma frase. Contudo, Jesus n\u00e3o pretendia impor uma nova obriga\u00e7\u00e3o, mas apenas recordar a lei do in\u00edcio, que continua vigente, quaisquer que sejam as adapta\u00e7\u00f5es previstas pelas sociedades humanas.

{N}16,{/}19 Esta par\u00e1bola n\u00e3o tem introdu\u00e7\u00e3o. L\u00e1zaro: \u00e9 a \u00fanica personagem das par\u00e1bolas de Jesus que tem nome. O seu nome, que significa \u00abDeus ajuda\u00bb, poderia constituir um ensinamento sobre o sentido da vida dos pobres. No entanto, alguns autores muito antigos parecem ignorar o nome de L\u00e1zaro. Poderia ser que a peti\u00e7\u00e3o do rico, de que o pobre ressuscite dentre os mortos, tenha induzido v\u00e1rios a pensar que teria sido este o L\u00e1zaro a quem Jesus ressuscitou, introduzindo por isso aqui o seu nome.
O texto diz: {C}vestia-se de p\u00farpura e de linho fino{/}: a cor mais preciosa e o linho mais fino.
{C}At\u00e9 os c\u00e3es{/}: animais desprez\u00edveis: \u00e9 um sinal da humilha\u00e7\u00e3o do pobre.
{C}Junto de Abra\u00e3o. {/}O texto diz: {C}no rega\u00e7o {/}de Abra\u00e3o. Era uma figura tradicional para indicar a situa\u00e7\u00e3o dos justos na espera da ressurrei\u00e7\u00e3o.
{C}No inferno.{/} Este termo designa aqui o lugar dos mortos. A par\u00e1bola descreve o al\u00e9m tal como o concebiam os contempor\u00e2neos de Jesus: enquanto esperavam a ressurrei\u00e7\u00e3o dos justos, os defuntos viviam num pa\u00eds misterioso que se estendia debaixo da terra. A\u00ed fronteiras inviol\u00e1veis separavam v\u00e1rios dom\u00ednios correspondentes \u00e0s v\u00e1rias categorias de almas. Um deles, chamado para\u00edso, estava reservado aos justos. Estes ressuscitariam com um corpo de luz, ao passo que os maus, com um corpo asqueroso.

{N}17,{/}10 O texto emprega para esses servos o termo {C}in\u00fateis{/}; n\u00e3o \u00e9 que sejam in\u00fateis, visto que Deus conta com o seu trabalho, mas n\u00e3o pertencem ao n\u00famero desses t\u00e9cnicos ou especialistas a quem \u00e9 dif\u00edcil substituir. S\u00e3o apenas m\u00e3o-de-obra, que h\u00e1 sempre de sobra; como n\u00e3o haviam de estar contentes por o senhor lhes ter dado trabalho!

{N}17,{/}11 {C}Caminhando para Jerusal\u00e9m. {/}Esta indica\u00e7\u00e3o, tal como em 9,51 e 14,25, abre uma nova sec\u00e7\u00e3o. {C}Entre a Galileia {/}e a Samaria: esta anota\u00e7\u00e3o, muito imprecisa, justifica a presen\u00e7a de um samaritano no grupo dos leprosos. Os leprosos, exclu\u00eddos das aglomera\u00e7\u00f5es, viviam muitas vezes em grupo.

{N}17,{/}21 {C}O Reino est\u00e1 no meio de v\u00f3s. {/}Poder-se-ia entender que o Reino \u00e9 uma realidade interior \u00e0 pessoa, mas este sentido \u00e9 muito pouco prov\u00e1vel. O mais \u00f3bvio e concordante com a l\u00edngua \u00e9 juntar esta palavras de Jesus com muitas outras em que Ele nos afirma que o Reino j\u00e1 est\u00e1 presente, est\u00e1 \u00e0 porta e ao nosso alcance.

{N}17,{/}25 Em contraste com a per\u00edcope anterior, esta fala-nos da vinda gloriosa do Filho do Homem, para dar cumprimento ao seu reino.
{C}Nos dias do Filho do Homem. {/}Jesus usa preferencialmente este t\u00edtulo para Se designar a Si pr\u00f3prio quando se trata da sua vinda gloriosa: o Filho do Homem \u00e9 Jesus, depois de ter entrado na Gl\u00f3ria divina. N\u00f3s dir\u00edamos Cristo. Lucas conserva a express\u00e3o b\u00edblica: {C}o dia {/}(30) ou {C}os dias. {/}Nesse dia do Filho do Homem, realizar-se-\u00e1 a esperan\u00e7a do {C}dia de Jav\u00e9, {/}de que falavam os profetas, quer como de um dia de castigo (Am 5,18; Sf 1,15; Jl 1,15; Ez 22,24), quer como de um dia de salva\u00e7\u00e3o (Is 11,10; 13,6), e que passou a designar o dia do Ju\u00edzo (Ml 3,19; Is 26). Jo\u00e3o falar\u00e1 do \u00faltimo dia (6,39).

{N}17,{/}33 O que lemos neste vers\u00edculo encontra-se de uma forma bastante parecida noutros quatro lugares (Mt 16,25; Mc 8,35; Mc 13,15; Lc 9,24). Lucas, no entanto, usa aqui dois verbos pr\u00f3prios do seu estilo. {C}Conservar {/}ou{C} ganhar{/} a sua vida (Act 20,28; 1Tm 3,13), em vez de: salvar a sua vida

{N}18,{/}1 {N}O ROSTO HUMANO DE DEUS{/}
As par\u00e1bolas em que Jesus empresta a Deus um rosto t\u00e3o humano, provocar\u00e3o certamente algum mal-estar \u00e0s pessoas que t\u00eam uma forma\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica. Num primeiro tempo, comove-nos essa humanidade de Deus; mas depois reconsidera, e ent\u00e3o a par\u00e1bola passa a ser para ele apenas uma compara\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o nos devemos fiar demasiado. Porventura n\u00e3o \u00e9 Deus Um e \u00danico, o Absoluto e a primeira Subst\u00e2ncia, eterno, imut\u00e1vel e imperturb\u00e1vel? \u00c9 a\u00ed, no entanto, que a f\u00e9 v\u00ea com maior clareza do que a raz\u00e3o. O Deus dos fil\u00f3sofos, mesmo quando se Lhe concedem generosamente os dotes de toda a pessoa digna desse nome, n\u00e3o deixa de ser habitualmente concebido \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a dos princ\u00edpios e dos professores.
Jesus, pelo contr\u00e1rio, convida-nos a ver em Si tudo o que admiramos nas pessoas realmente inteligentes, aquelas que gostam de utilizar o humor e a fantasia; nos amantes, que pouco respeitam a modera\u00e7\u00e3o; nos pais, preocupados com os seus filhos. \u00c9 certo que tais par\u00e1bolas deram origem a figura\u00e7\u00f5es de Deus e pr\u00e1ticas religiosas que muitas vezes esqueceram o mist\u00e9rio do Infinito. Mas n\u00e3o devemos desconfiar menos das certezas da nossa prega\u00e7\u00e3o e dos discursos relativos \u00c0quele que a nossa teologia ignora muito mais do que conhece. Tornar-nos-emos mais indulgentes em rela\u00e7\u00e3o aos excessos da piedade popular, se recordarmos que a miss\u00e3o pr\u00f3pria da revela\u00e7\u00e3o crist\u00e3 consiste em iniciar uma comunh\u00e3o simples e confiante entre Deus e os seus filhos e filhas. A nossa B\u00edblia deixou a outros a prostra\u00e7\u00e3o e s\u00f3 fala dela ao mencionar a cidade celeste: Ap 4,10; 5,14; 7,11...

{N}18,{/}22 Este homem teve o azar de chamar Jesus por um dos qualificativos que s\u00e3o pr\u00f3prios de Deus, e Jesus d\u00e1-lhe a resposta que ele merecia por lhe pedir o imposs\u00edvel, que s\u00f3 Deus sabe fazer: pede-lhe que sacrifique tudo, de uma vez por todas, e sem conhecer o caminho por onde ser\u00e1 conduzido.

{N}19,{/}8 {C}Vou devolver quatro vezes mais. {/}Era o que exigia a Lei: Ex 21,37. A quem tiver roubado injustamente: \u00e9 a palavra cl\u00e1ssica {C}sicofante{/}, que conviria traduzir por: se fiz chantagem. Era assim que Zaqueu podia enriquecer, sobretudo se trabalhava por conta dos romanos.

{N}19,{/}11 Lucas situa esta par\u00e1bola em Jeric\u00f3, cidade em que se via o pal\u00e1cio de Arquelau, filho de Herodes, que tinha ido a Roma para conseguir a confirma\u00e7\u00e3o do testamento de seu pai, que lhe conferia o poder. Os seus opositores enviaram em v\u00e3o a delega\u00e7\u00e3o de que se fala em 14, e ele mandou-os executar ao regressar. Aproveitando destes dados hist\u00f3ricos, Lucas n\u00e3o nos fala apenas das contas que os disc\u00edpulos prestar\u00e3o a Cristo quando Ele voltar, mas tamb\u00e9m do ju\u00edzo de morte pendente sobre Israel, que n\u00e3o quis reconhec\u00ea-l'O como seu Messias. Em seguida falar\u00e1 v\u00e1rias vezes da destrui\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m.

{N}19,{/}39 {C}Alguns fariseus disseram... {/}Atitude hostil, ou convite \u00e0 prud\u00eancia, como em 13,31? Incomoda-os que o povo receba Jesus com estas aclama\u00e7\u00f5es reservadas ao Messias, n\u00e3o O tendo eles reconhecido como tal. Contudo, a resposta de Jesus tem a mesma orienta\u00e7\u00e3o que em Mt 21,16.
De facto, se esta entrada em Jerusal\u00e9m teve lugar durante a festa dos Tabern\u00e1culos, v\u00e1rios meses antes da Paix\u00e3o (ver coment\u00e1rio a Mt 21,1), os confrontos no Templo, que se podem ler na sequ\u00eancia deste epis\u00f3dio, teriam motivado a decis\u00e3o das autoridades de prender Jesus e o seu afastamento: Jo 10,40 e 11,53.

{N}20,{/}9 {C}Arrendou-a a uns agricultores. {/}Se nos reportarmos ao texto t\u00e3o conhecido de Isa\u00edas, que Jesus acaba de citar e que Marcos desenvolve em 12,1, nisto reside a novidade: em Isa\u00edas 5, as amea\u00e7as recaem sobre a vinha, aqui recaem sobre os trabalhadores. Israel n\u00e3o \u00e9 o Reino, mas trabalha nessa vinha - como suceder\u00e1 com a pr\u00f3pria Igreja.
{C}Partiu para o estrangeiro{/}, ou seja, para longe, porque as rendas s\u00f3 se cobravam de cinco em cinco anos.
{C}Destruir\u00e1 esses agricultores. {/}Na par\u00e1bola, os agricultores querem apoderar-se da heran\u00e7a, desejo muito compreens\u00edvel numa \u00e9poca de opress\u00e3o social como a que conheceram os jueus daquele tempo. Mas, na realidade, quem representam estes rebeldes? Os chefes sentem-se atingidos em 20,19, mas \u00e9 muito prov\u00e1vel que a par\u00e1bola n\u00e3o se limite a eles: a vinha \u00e9 o Reino de Deus, e nenhum povo pode apoderar-se dela. Isto tanto se refere \u00e0 presente comunidades da Igreja, como a Israel, no tempo de Jesus.

{N}20,{/}13 {C}Vou mandar o meu filho querido. {/}Este \u00e9 um dos lugares em que Jesus afirma mais claramente a sua identidade, e \u00e9 essa a raz\u00e3o pela qual muitos int\u00e9rpretes pretendem que a par\u00e1bola n\u00e3o deva quase nada a Jesus, e quase tudo \u00e0 Igreja, que a teria recriado, mais do que transmitido. Segundo eles, Jesus teria falado em par\u00e1bolas, quer dizer, com relatos que apenas devem ser tomados no seu sentido global, sem procurar o sentido figurado de cada pormenor, como acontece com as alegorias. Al\u00e9m disso, segundo tais int\u00e9rpretes, aqui notam-se muitos tra\u00e7os alusivos ou aleg\u00f3ricos, de tal modo que o seu autor n\u00e3o poderia ser Jesus.
Pode-se objectar a tais teorias o facto muito comum de que os autores do tempo de Jesus, tanto no mundo judeu como no grego, misturavam com frequ\u00eancia a par\u00e1bola e a alegoria, e ningu\u00e9m provou ainda que apenas Jesus n\u00e3o tivesse o direito de o fazer. N\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o nenhuma para atribuir sistematicamente \u00e0 Igreja tudo o que \u00e9 alusivo ao Filho de Deus, e sobretudo esta men\u00e7\u00e3o ao Filho enviado depois de todos os servos, que s\u00e3o os profetas.

{N}20,{/}20 Seguem-se controv\u00e9rsias entre Jesus e v\u00e1rios opositores, das quais Ele sai vencedor: {C}ningu\u00e9m mais tinha coragem de perguntar coisa nenhuma a Jesus {/}(46). Mateus apresenta uma discuss\u00e3o com os fariseus e depois outra com os saduceus: estes dois grupos, para ele, representam todos os inimigos de Jesus, que o evangelista costuma citar em conjunto (3,7; 16,1; 22,34). Lucas, pelo contr\u00e1rio, depois de descrever a hostilidade dos fariseus durante o minist\u00e9rio de Jesus na Galileia, livra-os de toda a responsabilidade pela sua condena\u00e7\u00e3o \u00e0 morte, e n\u00e3o os nomeia entre os seus advers\u00e1rios.
{C}A moeda {/}(24) era o den\u00e1rio, um den\u00e1rio por pessoa.
{C}Dai a C\u00e9sar o que \u00e9 de C\u00e9sar{/} significa, n\u00e3o o que pertence a C\u00e9sar, mas o que \u00e9 da sua jurisdi\u00e7\u00e3o.

{N}21,{/}24 Para muitos estudiosos, os par\u00e1grafos 20-24, onde Lucas nos transmite as profecias de Jesus sobre a ru\u00edna de Jerusal\u00e9m cont\u00eam tantas precis\u00f5es que devem ter sido redigidos depois dos acontecimentos. \u00c9 o \u00fanico argumento s\u00e9rio que brandem para situar este evangelho numa data tardia: alguns apressam-se a situ\u00e1-lo nos anos 80-85. Contudo, nenhum obst\u00e1culo se levanta contra o facto de que Jesus tenha profetizado a destrui\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m, tal como o demonstra a recorda\u00e7\u00e3o que dela conservava a primeira gera\u00e7\u00e3o crist\u00e3. N\u00e3o se pode negar {C}a priori {/}que o texto tenha sofrido alguns retoques depois do cerco e da tomada de Jerusal\u00e9m no ano 70, mas, quem sabe? Ser\u00e1 verdade que Lucas apresentou dados excessivamente precisos, como poderia fazer quem tivesse visto a profecia realizada? Para quem tenha tido nas m\u00e3os algumas profecias dos tempos modernos, pr\u00f3ximas de n\u00f3s e com data segura, e que saiba como elas se cumpriram, esta profecia deixa de ser t\u00e3o precisa e t\u00e3o surpreendente. Basta que Lucas tenha tido alguma ideia da forma como actuavam os ex\u00e9rcitos romanos nos pa\u00edses conquistados, para que transmitisse as palavras de Jesus nos termos em que o fez.

{N}21,{/}37 {C}Sa\u00eda e passava a noite no monte das Oliveiras. {/}Lucas diz aqui o mesmo que Marcos 11,11. Durante os dias da peregrina\u00e7\u00e3o, Jesus hospedava-se, como outros numerosos peregrinos, nos arredores da cidade. Dirigia-se a Bet\u00e2nia, passando pelo monte das Oliveiras. Mas n\u00e3o devemos confundir esta hospedagem em Bet\u00e2nia com o costume que Ele tinha de passar parte da noite num lugar mais isolado, em que pudesse rezar. Para isto, dirigia-se ao horto de Gets\u00e9mani (22,39; Mt 26,36), numa das encostas do monte das Oliveiras.

{N}22,{/}1 {C}A P\u00e1scoa e os \u00c1zimos{/} eram no in\u00edcio duas festas diferentes, mas uma tradi\u00e7\u00e3o secular tinha-as associado (Dt 16,1-8). O cordeiro era sacrificado na tarde do 14 de Nisan, e a semana dos \u00c1zimos come\u00e7ava com o dia 14, ou seja, ao p\u00f4r do sol do dia 13, segundo o costume hebraico de contar os dias. Ent\u00e3o, em todas as casas, eliminavam-se todos os restos de p\u00e3o fermentado (1Cor 5,8).
{C}Satan\u00e1s entrou em Judas {/}(3): lemos o mesmo em Jo 13,2.

{N}22,{/}10 {C}Um homem vir\u00e1 ao vosso encontro{/}. Jesus era procurado pela pol\u00edcia. Jo\u00e3o di-lo sem rodeios: 7,45; 11,8; 12,53. Era despropositado que Ele entrasse na cidade para celebrar a P\u00e1scoa. \u00c9 muito prov\u00e1vel que aquele que o recebe seja um amigo talvez pertencente ao partido dos ess\u00e9nios, que nesse ano celebravam a P\u00e1scoa tr\u00eas dias antes da data oficial (veja-se a nota sobre a Data da P\u00e1scoa em Jo 18,18).
Ter\u00e1 Jesus celebrado a P\u00e1scoa judaica com os seus disc\u00edpulos? Trata-se de um ponto discut\u00edvel. Se nos ativermos ao texto de Lucas 22,21 (e ao seu paralelo em Mateus e Marcos), poderia parecer que Jesus celebrou a P\u00e1scoa judaica e que essa refei\u00e7\u00e3o, essa Ceia, fosse a \u00faltima, durante a qual Ele celebrou a Eucaristia. Normalmente a P\u00e1scoa era celebrada na divis\u00e3o mais ampla, a do piso inferior, mas nesta casa amiga Jesus isolar-se-\u00e1, com os Doze, no quarto de cima. N\u00e3o h\u00e1 nada de surpreendente no facto de Jesus ter respondido aqui como fez em muitas outras ocasi\u00f5es, conferindo \u00e0s palavras um sentido diferente: interrogam-n'O sobre a P\u00e1scoa, e Ele prepara a verdadeira P\u00e1scoa, que \u00e9 a Eucaristia. Quando lemos sobretudo o evangelho de Jo\u00e3o, d\u00e1 a impress\u00e3o que tudo se realiza segundo o esp\u00edrito da Nova Alian\u00e7a, que suprime a antiga P\u00e1scoa, porque \u00e9 o seu cumprimento, ou a sua nova realiza\u00e7\u00e3o, num plano mais elevado.

{N}22,{/}19 Certo n\u00famero de manuscritos antigos cortam o vers\u00edculo 19 depois de {C}isto \u00e9 o meu Corpo, {/}e omitem todo o vers\u00edculo 20. Devemos pensar que outros corrigiram o texto de Lucas e lhe acrescentaram o que lhe faltava, para concordar assim com os outros evangelistas? O mais prov\u00e1vel \u00e9 que tenham sido os primeiros a corrigir Lucas e a suprimir o v. 20 e o final do 19, porque os vers\u00edculos 17-18 falam de um c\u00e1lice de vinho distribu\u00eddo pelos comensais, vendo nele uma repeti\u00e7\u00e3o. Essa men\u00e7\u00e3o de um c\u00e1lice distribu\u00eddo antes do p\u00e3o, seguido de um segundo c\u00e1lice, consagrado, n\u00e3o tinha nada de surpreendente, visto que o rito da P\u00e1scoa estipulava v\u00e1rios. Outros manuscritos manifestam de igual modo a mesma confus\u00e3o: foi suprimido o v. 20 (no fim do 19), e colocaram o v. 19 antes dos vv. 17-18, a fim de restabelecer a ordem tradicional: p\u00e3o e vinho.
No entanto, n\u00e3o se pode p\u00f4r de parte a hip\u00f3tese da aus\u00eancia do segundo c\u00e1lice no texto de Lucas. Neste caso, poderia acontecer que o primeiro c\u00e1lice fosse a do relato tradicional. Ent\u00e3o Lucas teria repartido entre a consagra\u00e7\u00e3o do p\u00e3o e a do c\u00e1lice as palavras de Jesus, que acompanharam toda a sua actua\u00e7\u00e3o, ultrapassando grandemente a f\u00f3rmula concisa da consagra\u00e7\u00e3o lit\u00fargica. Com o primeiro (e \u00fanico) c\u00e1lice, Jesus faria a proclama\u00e7\u00e3o da sua pr\u00f3pria P\u00e1scoa, ou seja, da sua passagem pela morte e ressurrei\u00e7\u00e3o; com a frac\u00e7\u00e3o do p\u00e3o, Jesus procederia \u00e0 institui\u00e7\u00e3o da Eucaristia.

{N}22,{/}31 Note-se a oposi\u00e7\u00e3o entre: {C}vos {/}joeirar e: Eu rezei {C}por ti. {/}Jesus estabelece de novo a primazia de Pedro, e isto no plano mais espiritual, que consiste em fortalecer a f\u00e9 da Igreja.

{N}22,{/}38 Talvez devamos recordar que, durante s\u00e9culos, os partid\u00e1rios do poder pol\u00edtico do Papa e da sua autoridade sobre os reis aproveitaram esta frase, afirmando que as duas espadas significavam o poder espiritual e o poder pol\u00edtico, e que ambas seriam detidas pelo sucessor de Pedro.

{N}22,{/}41 O texto diz, mais precisamente: {C}arrancou {/}de junto deles. Esta express\u00e3o re\u00fane duas afirma\u00e7\u00f5es: Jesus despede-Se de forma brusca; al\u00e9m disso, vence o desejo natural de procurar apoio e consola\u00e7\u00e3o humana, refugiando-se apenas na ora\u00e7\u00e3o
Os vv. 43 e 44 faltam em muitos manuscritos muito antigos. \u00c9 poss\u00edvel que tenham sido suprimidos por revelarem a fraqueza humana de Jesus de uma forma desconcertante para quantos afirmavam a sua divindade. De qualquer forma, permanece misteriosa esta apari\u00e7\u00e3o de um anjo a reconfortar o Filho de Deus: qual dos ap\u00f3stolos p\u00f4de descrev\u00ea-la? \u00c9 muito poss\u00edvel que Lucas tenha querido exprimir uma realidade interior por meio destas palavras que aludiam \u00e0 hist\u00f3ria de Elias (1Rs 19,4).

{N}22,{/}49 Os ex-zelotas dentre os ap\u00f3stolos (ver Mt 10,4) n\u00e3o tinham perdido a sua capacidade de defesa.

{N}22,{/}52 Lucas menciona aqui os sumos sacerdotes e os Anci\u00e3os: Mt 26,47 nomeava-os no come\u00e7o deste epis\u00f3dio como aqueles que tinham enviado as tropas. \u00c9 evidente que, ao deslocar essa men\u00e7\u00e3o, Lucas perdeu uma preposi\u00e7\u00e3o ({C}enviados pelos {/}sumos sacerdotes), fazendo com que as autoridades superiores cheguem de noite ao Gets\u00e9mani, autoridades essas que certamente n\u00e3o se davam ao trabalho de desempenhar este tipo de tarefas.

{N}23,{/}11 Vestiram-n'O com uma capa {C}brilhante{/}, como a um louco, ou {C}esplendorosa, {/} grandiosidade de um rei que pretende superar Pilatos com arte burlesca. Este gesto ser\u00e1 apenas, como alguns pensam, o equivalente, em Lucas, do que se l\u00ea em Mt 27,28? N\u00e3o ter\u00e3o aproveitado todos, tanto grandes como pequenos, a oportunidade para manifestar os sentimentos vis em que se pareciam, e que os incitavam a humilhar Jesus? Al\u00e9m disso, quando falta a imagina\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 costume que v\u00e1rios caiam no mesmo?

{N}23,{/}34 Este vers\u00edculo falta em muitos manuscritos antigos: \u00e9 poss\u00edvel que tenha sido copiado de Act 7,60.

{N}24,{/}13 Este relato de Lucas junta v\u00e1rias tradi\u00e7\u00f5es e comp\u00f5e-nas de forma muito estudada. \u00c9 uma das p\u00e1ginas do Evangelho em que melhor aparece uma estrutura sim\u00e9trica a partir de um centro que \u00e9 o v. 23: {C}afirmaram que Jesus est\u00e1 vivo. {/}O come\u00e7o e a conclus\u00e3o apresentam os mesmos elementos por ordem inversa:
13 saem de Jerusal\u00e9m
14 conversam sobre o que se passou
15 Jesus aproxima-Se
16 os seus olhos n\u00e3o O reconhecem
17 Jesus abre o di\u00e1logo
E depois:
29 convidam Jesus
31 os seus olhos reconhecem-n'O
Jesus desaparece
32 conversam sobre o que se passou
33 regressam a Jerusal\u00e9m.
Do mesmo modo se op\u00f5em 19-23 e 27-24:
profecia - profeta
a cruz  - padecesse
esper\u00e1vamos - custa-lhes acreditar
sepulcro - sepulcro.
{C}Levantaram-se e voltaram para Jerusal\u00e9m {/}(33). Tal como as mulheres regressaram do sepulcro para junto dos ap\u00f3stolos, e os ap\u00f3stolos regressar\u00e3o do monte das Oliveiras a Jerusal\u00e9m: este \u00e9 o centro de onde irradiar\u00e1 a Igreja depois de ter recebido o Esp\u00edrito.
{C}Apareceu a Sim\u00e3o {/}(34).  Esta apari\u00e7\u00e3o a Sim\u00e3o, antes de aos outros ap\u00f3stolos, \u00e9 testificada em 1Cor 15,5

{N}24,{/}45 {N}ESTAVA PROFETIZADO NAS ESCRITURAS{/}
Lucas mostra-nos Jesus ressuscitado a dar aos ap\u00f3stolos e \u00e0 Igreja as bases de uma interpreta\u00e7\u00e3o crist\u00e3 das Escrituras (24,27 e 46-47).
{C}Os sofrimentos do Messias e a sua ressurrei\u00e7\u00e3o. {/}Seria dif\u00edcil encontrar um \u00fanico texto que o diga explicitamente, mas toda a Hist\u00f3ria b\u00edblica \u00e9 feita de mortes e de ressurrei\u00e7\u00f5es. Muitos salmos s\u00e3o a ac\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as de um fiel que se encontrava \u00e0 beira do t\u00famulo e ao qual Deus devolveu a vida. O famoso poema do Servo, que lemos em Is 53, fala, sem d\u00favida alguma, na inten\u00e7\u00e3o do autor, da minoria fiel que assegurar\u00e1 o futuro de Israel. Mas, de facto, Deus quis que falasse dessa minoria fiel sob a figura de um Servo. Deus permitiu que falasse de morte injusta e de ressurrei\u00e7\u00e3o, de perd\u00e3o dos pecados e de uma posteridade de justos, para expressar o destino desse povo fiel. Basta isso para que apliquemos o texto \u00c0quele que resumia na sua pessoa a descend\u00eancia de Abra\u00e3o e o destino do povo eleito.
Uma palavra de Jesus, em Jo 10,35, recorda-nos que n\u00e3o se pode alterar a Escritura. Poder-se-ia dizer que, em tal ou tal lugar, as palavras ultrapassaram o pensamento do autor, aparecendo a\u00ed por acaso... Mas \u00e9 um facto que est\u00e3o presentes e, embora devamos dar prioridade ao essencial da mensagem, a palavra que surpreende, ou a imagem ins\u00f3lita, devem ser recebidas como uma chamada \u00e0 reflex\u00e3o. Numa discuss\u00e3o, o oponente poderia dizer que a resposta de Jesus em Jo 10,35 n\u00e3o era indiscut\u00edvel, aplicando a Si pr\u00f3prio o texto; de igual modo, seria muito dif\u00edcil provar por A mais B que a Escritura anunciava a morte e a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus se, \u00e0 partida, ela n\u00e3o tivesse reconhecido Cristo como o Messias. Uma discuss\u00e3o puramente racionalista do texto s\u00f3 muito raramente conduzir\u00e1 \u00e0 f\u00e9; no epis\u00f3dio das Tenta\u00e7\u00f5es, em Mt 4 e Lc 4, o dem\u00f3nio faz um uso excelente dos textos que cita.
A interpreta\u00e7\u00e3o crist\u00e3 da Escritura n\u00e3o se limita a uma investiga\u00e7\u00e3o racional que reponha os textos no seu contexto, para n\u00e3o dizer mais do que o autor sagrado quis dizer. Quando Jesus disse: {C}Estava profetizado na Escritura{/}, n\u00e3o pretende, em primeiro lugar, provar que estava escrito. Melhor seria dizer que a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus confere \u00e0 Escritura uma dimens\u00e3o que esta antes n\u00e3o tinha. J\u00e1 havia uma interpreta\u00e7\u00e3o judaica que se ia tecendo \u00e0 medida que a experi\u00eancia do povo de Deus se alargava, mas agora os novos factos obrigavam a fazer uma nova leitura dos textos. D\u00e1-o a entender Mt 13,52, ao falar de um doutor da Lei que, depois de ter vivido a experi\u00eancia do Reino de Deus, descobre tesouros novos no texto antigo.
A {C}Letra {/}\u00e9 um instrumento com que o Esp\u00edrito joga livremente, e a experi\u00eancia de todos os dias ensina-nos que a sabedoria do livro sagrado penetra nos cora\u00e7\u00f5es sem passar sempre pelos caminhos da l\u00f3gica. \u00c9 muito frequente que uma imagem sugira uma linha de pensamento, estabelecendo a liga\u00e7\u00e3o com outras imagens que o livro nos oferece, com outras passagens em que se encontram as mesmas palavras, e se unem os fios de modo a estabelecer uma interpreta\u00e7\u00e3o, ou a descobrir o jogo de Deus nas situa\u00e7\u00f5es em que vivemos.
O crente, ou o profeta, que rel\u00ea a Escritura, n\u00e3o atrai\u00e7oa os textos, mas d\u00e1-lhes uma vida nova e, no fim, ter\u00e1 criado uma obra po\u00e9tica, no sentido primitivo do termo: o poeta \u00e9 aquele que {C}cria. {/}A poesia n\u00e3o se sujeita em primeiro lugar \u00e0s normas did\u00e1cticas, e o mesmo se pode dizer, a um n\u00edvel mais elevado, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Escritura. Deus \u00e9 tanto poeta como mestre (para n\u00e3o dizer que \u00e9 muito mais poeta), e o Esp\u00edrito Santo insinua a verdade para al\u00e9m da letra. Agrade-nos ou n\u00e3o, esse tipo de interpreta\u00e7\u00e3o po\u00e9tica ou prof\u00e9tica \u00e9 geralmente mais poderoso do que a exegese racional para iluminar o esp\u00edrito. \u00c9 bem certo que se devem prevenir as lucubra\u00e7\u00f5es deturpadas e perversas, e a segunda carta de Pedro levanta-se com for\u00e7a contra as interpreta\u00e7\u00f5es pessoais (veja-se a nota a 2Pd 1,20 sobre a Inspira\u00e7\u00e3o da B\u00edblia). \u00c9 por isso que a Escritura \u00e9 lida na Igreja; isso n\u00e3o quer dizer que s\u00f3 devamos repetir o que disseram os antigos ou o que diz a hierarquia, mas que temos os olhos e os ouvidos abertos para nos assegurarmos de que nos mantemos na grande corrente da tradi\u00e7\u00e3o e de que n\u00e3o andamos perdidos.
Assim se deu a profecia na Igreja primitiva, e a Escritura deixou-nos dois modelos insuper\u00e1veis da mesma na carta aos Hebreus e no Apocalipse. Houve um livro, sobretudo, que facilitou o florescer dessa profecia: o Livro dos Salmos. Julgava-se que fosse todo ele obra de David, e que, al\u00e9m disso, o Messias era filho de David. Estes dois dados reunidos estimularam o desenvolvimento de muitas investiga\u00e7\u00f5es sobre este ou aquele vers\u00edculo dos salmos. Os letrados e os monges meditavam sobre as intui\u00e7\u00f5es e sobre a ora\u00e7\u00e3o de David e, a partir da\u00ed, tentavam compreender melhor o mist\u00e9rio de Cristo.
Nas duas passagens de Lucas que cit\u00e1mos, Jesus at\u00e9m-Se ao que constituir\u00e1 a base da prega\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica, e a essas primeiras li\u00e7\u00f5es se refere Lucas, quando nos diz que Jesus instruiu os seus ap\u00f3stolos atrav\u00e9s do Esp\u00edrito Santo, depois da Ressurrei\u00e7\u00e3o (Ac 1,2).

{N}24,{/}47 {C}Ser\u00e3o anunciados a convers\u00e3o {/}e o perd\u00e3o dos pecados (Act 2,38; 3,19; 5,31). Pode ser interpretado da seguinte forma: pregar-se-\u00e1 a convers\u00e3o e o perd\u00e3o a fim de Lhe pertencer, ou ainda: pregar-se-\u00e1 a convers\u00e3o com a sua autoridade.
{C}A for\u00e7a do alto. {/}Esta express\u00e3o deriva de outra: a for\u00e7a do Alt\u00edssimo (Lc 1,35), designando o Esp\u00edrito, dom do Pai.

