{N}1,{/}1{C} No princ\u00edpio, quando Deus criou os c\u00e9us e a terra. {/}Custou-nos deixar a tradu\u00e7\u00e3o tradicional: \u00abNo princ\u00edpio, Deus criou o c\u00e9u e a terra\u00bb, pois foi assim que leram dezenas de gera\u00e7\u00f5es. Mais ainda, as primeiras palavras do Evangelho de Jo\u00e3o, \u00abNo princ\u00edpio\u00bb querem exactamente relembrar o G\u00e9nesis. Mas a tradu\u00e7\u00e3o exacta do texto hebraico \u00e9: \u00abQuando Deus come\u00e7ou a cria\u00e7\u00e3o dos c\u00e9us e da terra...\u00bb. Procuramos insinuar este sentido, sem abandonar a express\u00e3o {C}No princ\u00edpio. {/}N\u00e3o valeria a pena insistir neste pormenor, se n\u00e3o fosse para confirmar a orienta\u00e7\u00e3o de todo o cap\u00edtulo. O autor n\u00e3o quis afirmar que Deus fez tudo desde o come\u00e7o ou, por outras palavras, que \u00abDeus fez o universo do nada\u00bb, como o recorda 2Mc 7,28. A sua inten\u00e7\u00e3o era outra. Assim, deixou para segundo plano a quest\u00e3o de saber se o universo existia sem come\u00e7o (os judeus desconfiavam da filosofia) e concentrou-se nesta afirma\u00e7\u00e3o: n\u00e3o havia e n\u00e3o podia haver nenhuma ordem ou harmonia se n\u00e3o fosse por obra de Deus, Ele que deu ao seu povo o sentido profundo da cria\u00e7\u00e3o. 
Quanto ao sentido do verbo \u00abcriar\u00bb, digamos que em hebraico \u00e9 pr\u00f3prio de Deus, mas n\u00e3o significa \u00abfazer a partir do nada\u00bb. O sentido \u00e9, conforme os lugares, \u00abfazer\u00bb ou \u00abformar\u00bb. 

{N}1,{/}3 {N}DEUS FALA{/}
Dissemos no coment\u00e1rio que este primeiro cap\u00edtulo era assim como que o pref\u00e1cio do primeiro n\u00facleo da B\u00edblia, quando Esdras reuniu os livros de Mois\u00e9s e dos profetas (Ne 8; 2Mc 2,13). 
Se compararmos este primeiro cap\u00edtulo com outras narrativas dos povos antigos - poder\u00edamos falar das suas {C}cosmogonias{/} (escritos referentes \u00e0 forma\u00e7\u00e3o do universo) ou dos seus {C}mitos{/} (hist\u00f3rias que exprimem de forma figurada cren\u00e7as que se referem \u00e0 ordem do mundo) - aparecer\u00e3o alguns pontos em que este cap\u00edtulo diz o que as outras narrativas n\u00e3o dizem. Um dos pontos mais importantes \u00e9 a \u00eanfase posta nestas palavras: {C}Deus disse: {/}
As Escrituras s\u00e3o a nossa regra, mas antes de qualquer escritura, foi dita uma palavra. A express\u00e3o {C}Deus disse {/}reaparecer\u00e1 um sem-n\u00famero de vezes atrav\u00e9s da B\u00edblia, mas, conforme os lugares, pretender-se-\u00e1 real\u00e7ar que Deus toma a iniciativa de Se exprimir, ou que Deus d\u00e1 um ensinamento ou uma ordem. Nestes primeiros {C}Deus disse, {/}devemos entender as duas coisas.
{N}DEUS \u00c9 UM DEUS QUE FALA{/}
Apresentar a B\u00edblia apenas como um ensinamento de Deus seria redutor para a f\u00e9. H\u00e1 ensinamentos, mas o facto de Deus falar \u00e9 ainda mais importante. Que revela\u00e7\u00e3o mais decisiva sobre Aquele ou sobre Aquilo que deve ser a pr\u00f3pria eternidade! Logo de in\u00edcio desfazem-se as d\u00favidas de quem pergunta: Por acaso tem consci\u00eancia? Conhece-nos? Pode comunicar-se com a sua cria\u00e7\u00e3o? Querer\u00e1 alguma coisa de n\u00f3s? Muito poucos fil\u00f3sofos  se atreveram a dar uma resposta positiva a estas perguntas...
Mas j\u00e1 nestes textos antigos se define a f\u00e9 judaica e crist\u00e3: Deus sai de Si e dirige-Se a n\u00f3s esperando uma resposta. Por detr\u00e1s do universo, da sua imensidade, dos seus mist\u00e9rios, das suas sombras e das suas luzes, existe Algu\u00e9m que desencadeou uma aventura de consequ\u00eancias incalcul\u00e1veis. E o mais arriscado desta aventura foi que Ele come\u00e7ou um di\u00e1logo com as suas criaturas. Quando n\u00f3s falamos, n\u00e3o \u00e9 apenas para dar ordens, ou para pedir. Quando falo, estou a bater \u00e0 porta do outro para que ele veja que eu existo, para o p\u00f4r \u00e0 prova e ver se ele tamb\u00e9m existe de verdade. E quando tiver sido escutado, eu tamb\u00e9m saberei que existo e conto para alguma coisa.
Em primeiro lugar, a revela\u00e7\u00e3o crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9 uma lei do C\u00e9u que ter\u00edamos de seguir sob pena de um fracasso ou de um castigo: Deus \u00e9 \u00abo Outro\u00bb que desperta em n\u00f3s a nossa pr\u00f3pria consci\u00eancia e nos tira da nossa solid\u00e3o. \u00c9 este o ponto a partir do qual poderemos entender as in\u00fameras p\u00e1ginas que testemunham um chamamento de Deus aos seus profetas: Mois\u00e9s, Elias, Isa\u00edas, Jeremias e muitos outros, como sabemos. Qualquer chamamento de Deus produz naquele que a recebe uma nova consci\u00eancia de si pr\u00f3prio e d\u00e1-lhe capacidade para cumprir a miss\u00e3o recebida. Da\u00ed que toda a hist\u00f3ria b\u00edblica seja de certo modo a obra dos profetas.
Deus \u00e9 um Deus que fala. Para o fazer, n\u00e3o esperou por ter criaturas capazes de O ouvirem, mas falou primeiro para falar de Si pr\u00f3prio. A Palavra est\u00e1 em Deus desde o in\u00edcio. Ela \u00e9 a sua Sabedoria e Ele n\u00e3o a conhece sen\u00e3o dando-lhe vida face a Si pr\u00f3prio para depois voltar a traz\u00ea-la a Si mesmo para que partilhe a sua plenitude. Este mist\u00e9rio do Deus-que-Se-diz-a-Si-pr\u00f3prio ou do Pai com o seu Filho, est\u00e1 na origem da cria\u00e7\u00e3o, e por isso o nosso mundo \u00e9 um mundo em que Deus fala. 

{N}1,{/}29 {C}Entrego-vos toda a esp\u00e9cie de plantas com sementes{/}. Deus distribui a cada um o alimento que lhe corresponde. A diferen\u00e7a entre o homem e os animais est\u00e1 no uso dos cereais que o homem cultiva. H\u00e1 nisto como que uma refer\u00eancia \u00e0 grande revolu\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica e cultural originada pela fixa\u00e7\u00e3o dos grupos humanos nas terras que come\u00e7aram a cultivar e nas quais criavam gado, come\u00e7ando assim a era neol\u00edtica.
Porque n\u00e3o se fala da carne? Podemos estranhar se verificarmos que em nenhuma parte da B\u00edblia se elogia o regime vegetariano. Apenas se elogia os que preferem ficar pelas \u00abervas e legumes\u00bb para n\u00e3o se mancharem com as carnes de animais proibidos pela lei (2Mc 5,27; Dn 1,12).  Pode ser que o autor exclua toda a viol\u00eancia do plano de Deus, mesmo a de matar animais. O mais certo \u00e9 que o autor considere que somente Deus, senhor da alma e at\u00e9 do sangue dos animais  (Lv 17,4),  pode autorizar o homem a matar, seja para o culto divino ou para a sua pr\u00f3pria alimenta\u00e7\u00e3o. Esta autoriza\u00e7\u00e3o acontecer\u00e1 depois do Dil\u00favio, quando Deus promulgou a sua alian\u00e7a com todos os povos da terra. Por outro lado, o autor n\u00e3o podia tocar neste tema sem distinguir entre animais puros e impuros, o que ultrapassava o esquema deste cap\u00edtulo.

{N}1,{/}31{N} O REFLEXO DE DEUS{/}
{C}Deus viu que tudo era muito bom.{/} N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que {C}bom {/}significa aqui em primeiro lugar: bem feito, coerente, hierarquizado, apto para receber a humanidade e suportar a vida humana. Os hebreus n\u00e3o eram muito sens\u00edveis \u00e0 beleza da cria\u00e7\u00e3o, ou se o eram, n\u00e3o nos falaram disso. Para al\u00e9m do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos, do livro de Job e de alguns salmos, o que iremos encontrar na B\u00edblia que manifeste uma emo\u00e7\u00e3o perante a beleza das criaturas \u00e9 muito pouco. E passaram-se s\u00e9culos antes que o mundo crist\u00e3o desse import\u00e2ncia \u00e0 beleza como uma revela\u00e7\u00e3o de Deus.
Nos \u00faltimos s\u00e9culos uma cultura cientista levou aos comentadores do G\u00e9nesis 1 a considerar sobretudo o universo como uma m\u00e1quina imensa. Maravilharam-se de tantas leis da natureza, t\u00e3o ordenadas, que manifestavam uma tal sabedoria do seu autor, e falaram d'Ele como do fazedor, ou do arquitecto, ou do engenheiro supremo. Talvez os artistas se aproximem mais ao que Deus \u00e9 pelo caminho da beleza: Deus artista, bailarino, amante e pai. A cria\u00e7\u00e3o como um reflexo de Deus: o ser infinitamente rico, depois de Se exprimir em Si pr\u00f3prio - e Ele \u00e9 o Verbo, o Filho de Deus -, reflecte-Se numa multid\u00e3o de seres que s\u00e3o esp\u00edritos como Ele \u00e9 esp\u00edrito, e livres e criadores de beleza, um pouco como Ele \u00e9 liberdade e a cada momento cria coisas e situa\u00e7\u00f5es e pessoas novas, formosas e imprevis\u00edveis. E, de reflexo em reflexo, dos esp\u00edritos \u00e0 mat\u00e9ria, a beleza  e criatividade se fazem estrelas, seres vivos e cora\u00e7\u00f5es humanos. 
Enquanto olhamos para a cria\u00e7\u00e3o como uma participa\u00e7\u00e3o e um reflexo do que \u00e9 em Deus, n\u00e3o nos \u00e9 dif\u00edcil acreditar, como no-lo insinua a B\u00edblia, numa cria\u00e7\u00e3o de um mundo espiritual  do qual depende o universo vis\u00edvel. As rela\u00e7\u00f5es que unem estes dois universos s\u00e3o de tal ordem, na realidade, que n\u00e3o se deveriam separar numa cria\u00e7\u00e3o vis\u00edvel e numa dos esp\u00edritos: o universo \u00e9 uno. Embora os Israelitas vissem preferentemente os esp\u00edritos como mensageiros e portadores dos decretos de Deus (Is 37, 36; Dn 9, 21; Zc 1-2; Hb 1,7), temos o direito de v\u00ea-los como os distribuidores da intelig\u00eancia e da beleza em todas as \u00e1reas do mundo dos seis dias. O facto de G\u00e9nesis 1 real\u00e7ar tanto o Deus Criador n\u00e3o nos impede de lhes atribuir um papel essencial na cria\u00e7\u00e3o. Dispuseram os agentes materiais que plasmaram o nosso planeta; tornaram-se os artistas e os inspiradores da t\u00e3o misteriosa evolu\u00e7\u00e3o dos seres vivos. Esta vis\u00e3o dos esp\u00edritos era a dos Padres da Igreja de forma\u00e7\u00e3o plat\u00f3nica; no s\u00e9culo passado o cardeal John Newman defendia esta perspectiva. 

{N}3,{/}1 {N}INTERPRETA\u00c7\u00c3O DA ESCRITURA{/}
{N}FUNDAMENTALISMO{/}
A interpreta\u00e7\u00e3o que damos aos cap\u00edtulos 1-3 do G\u00e9nesis \u00e9 muito diferente da que se podia dar no s\u00e9culo passado, quando todos consideravam essas p\u00e1ginas uma descri\u00e7\u00e3o de como Deus criou o mundo e, especialmente, o homem. A interpreta\u00e7\u00e3o do pecado de Ad\u00e3o ser\u00e1 tamb\u00e9m diferente. Isto convida-nos a dizer aqui algumas palavras sobre estas interpreta\u00e7\u00f5es divergentes da Escritura e sobre a Inspira\u00e7\u00e3o dos Livros Sagrados. 
A diverg\u00eancia deve-se \u00e0s v\u00e1rias respostas que podem ser dadas \u00e0 pergunta seguinte: Sendo as Escrituras simultaneamente Palavra de Deus que vale para todos os tempos, e palavra humana condicionada pelo temperamento do seu autor, pela sua cultura e pelas necessidades do seu tempo, como distinguir a parte destas duas componentes para alcan\u00e7ar a mensagem que nos diz respeito?
As interpreta\u00e7\u00f5es fundamentalistas d\u00e3o-nos uma primeira resposta. Todos conhecemos a palavra {C}fundamentalismo, {/}apesar de talvez n\u00e3o termos uma ideia concreta  do seu significado. Em poucas palavras, \u00e9 um modo de ler as Escrituras que se prende ao texto como se entende \u00e0 primeira vista, sem se preocupar com o significado que estas p\u00e1ginas talvez tivessem para quem as escreveu e com o que o autor sagrado subentendia nestas palavras, de acordo com a cultura do seu tempo. O fundamentalista real\u00e7a sobretudo que cada texto \u00e9 inspirado por Deus e n\u00e3o leva em conta os dois aspectos da dita palavra: 
- primeiro, a palavra n\u00e3o passa a sua mensagem se n\u00e3o quisermos saber antes como \u00e9 que o pr\u00f3prio autor a entendia,
- segundo, uma p\u00e1gina, ou um determinado livro, perde parte do seu valor como palavra de Deus se o afastarmos das Escrituras. Porque cada livro tem os seus limites e os seus acentos pr\u00f3prios e devemos ter em conta o conjunto das Escrituras para n\u00e3o falsear as perspectivas.
Quem n\u00e3o situa os textos no tempo deles perde uma dimens\u00e3o importante das Escrituras que \u00e9 a pedagogia de Deus. Pois desde o in\u00edcio e desde o tempo dos Patriarcas at\u00e9 \u00e0 vinda de Jesus e ao tempo dos Ap\u00f3stolos, toda a Hist\u00f3ria Sagrada foi um longo processo em que os esfor\u00e7os humanos, a influ\u00eancia dos profetas e as conjunturas internacionais se uniram \u00e0 cont\u00ednua press\u00e3o do Esp\u00edrito de Deus para fazer crescer e amadurecer em Israel a revela\u00e7\u00e3o destinada ao mundo. Aquele que desconhece esta pedagogia ou maneira de actuar de Deus na vida do seu povo falar\u00e1, por certo, da Hist\u00f3ria Sagrada, mas esta limitar-se-\u00e1 para ele a uma s\u00e9rie de guerras e prova\u00e7\u00f5es do povo de Israel em que este povo constantemente demonstrou ser pouco fiel e, pelo contr\u00e1rio, Deus manifestou a sua justi\u00e7a e a sua miseric\u00f3rdia. Muito lhe escapar\u00e1, tanto mais que, ao n\u00e3o levar em conta o tempo em que se escreveu cada um dos livros, n\u00e3o perceber\u00e1 que a maneira pr\u00f3pria de cada um para focalizar esta hist\u00f3ria depende do n\u00edvel de amadurecimento religioso da comunidade religiosa no tempo em que o livro foi escrito. 
O erro de interpreta\u00e7\u00e3o do fundamentalista \u00e9 ainda maior no caso dos primeiros cap\u00edtulos do G\u00e9nesis. Prefere ignorar tudo o que a hist\u00f3ria do \u00c9den deve aos relatos mitol\u00f3gicos do M\u00e9dio Oriente, escritos e amplamente difundidos s\u00e9culos antes do relato b\u00edblico aparecer. Depois interpreta estas p\u00e1ginas da B\u00edblia como se tivessem sido ditadas ao autor sagrado, como se o pr\u00f3prio Deus lhe tivesse mostrado os seus pr\u00f3prios apontamentos acerca do que fez no in\u00edcio: Sim, tomou a argila (mesmo n\u00e3o tendo m\u00e3os), e soprou (apesar de n\u00e3o ter boca), e disse ao primeiro homem (em que l\u00edngua, se nessa altura n\u00e3o existiam?), e chamou-lhe Ad\u00e3o (um nome que ir\u00e1 ter um significado s\u00f3 muitos s\u00e9culos mais tarde, quando se tiver formado o idioma hebraico), e veio uma serpente que falava, e a mulher n\u00e3o ficou surpreendida que uma serpente lhe falasse...
Na realidade, n\u00e3o podemos condenar de maneira t\u00e3o absoluta o fundamentalismo, pois quer os judeus quer o pr\u00f3prio Jesus e os ap\u00f3stolos interpretavam at\u00e9 um certo ponto as Escrituras como o fazem hoje os fundamentalistas. Isto deve-se a que eles n\u00e3o tinham nem a vis\u00e3o cient\u00edfica da Hist\u00f3ria que agora temos, nem a cultura que dela deriva. Para dar exemplos: escapava-lhes  que os livros chamados \u00abde Mois\u00e9s\u00bb tinham sido escritos v\u00e1rios s\u00e9culos depois dele, e at\u00e9 posteriormente aos livros dos profetas. Estavam mesmo convencidos que o conjunto dos Salmos tinha David como autor. Os efeitos desta ignor\u00e2ncia, eram, no entanto, limitados pelo facto de que estavam mergulhados na cultura hebraica que tinha produzido todos esses livros. Mais ainda a tradi\u00e7\u00e3o da sinagoga encarregava-se de limitar os excessos que podiam resultar de uma interpreta\u00e7\u00e3o deste ou daquele livro fora do conjunto das Escrituras. Para dar outro exemplo, se nos referirmos aos cap\u00edtulos do Jardim do \u00c9den, o nome de Ad\u00e3o significava simultaneamente para eles o pai da ra\u00e7a e a pr\u00f3pria ra\u00e7a - do mesmo modo que cada povo n\u00f3mada chamava pelo seu nome o antepassado m\u00edtico da comunidade. E abstinham-se de concluir do pecado de Ad\u00e3o que a sua falta tivesse tido mais import\u00e2ncia que qualquer outra rebeli\u00e3o da colectividade. Em contrapartida, ao longo dos s\u00e9culos que se seguiram, ao mesmo tempo que a cristandade se afastava das suas ra\u00edzes culturais hebraicas, os te\u00f3logos que entendiam \u00e0 letra toda a hist\u00f3ria de Ad\u00e3o chegaram a pensar que se tratava de um \u00fanico pecado do primeiro homem, aquilo que era castigado pela morte e pelo inferno para toda a humanidade. A Igreja ainda hoje est\u00e1 a pagar um erro t\u00e3o monstruoso. 
Embora o fundamentalismo limitado de Jesus e dos ap\u00f3stolos (que me perdoem esta express\u00e3o) n\u00e3o lhes permitisse verificar nos textos b\u00edblicos uma pedagogia de Deus da qual n\u00e3o duvidavam, o preju\u00edzo n\u00e3o era muito porque viviam em tempos em que as mudan\u00e7as pol\u00edticas de maior transcend\u00eancia n\u00e3o alteravam a cultura religiosa e os valores da vida do dia a dia. Entretanto, a f\u00e9 era transmitida pela comunidade e pela fam\u00edlia, uma f\u00e9 que pedia antes de mais a observ\u00e2ncia de condutas comprovadas e indiscut\u00edveis.  As op\u00e7\u00f5es eram simples: seguir a Lei ou ser um rebelde. E a Lei ordenava quer as rela\u00e7\u00f5es dos crentes com os judeus quer as normas de conduta nas diversas \u00e1reas da exist\u00eancia. Tinha uma import\u00e2ncia menor para os crentes que viram a Hist\u00f3ria como uma pedagogia de Deus e que tamb\u00e9m leram os acontecimentos vividos como determinados por Deus que nos vai guiando e instruindo (no entanto, ver Mt 16,2). 
As revolu\u00e7\u00f5es culturais do nosso s\u00e9culo e mais especialmente, da segunda metade deste, voltaram a p\u00f4r-nos num caminho de procura. Quer tenhamos que apreciar o que \u00e9 transit\u00f3rio na doutrina da Igreja e o que n\u00e3o pode mudar, quer queiramos entender a evolu\u00e7\u00e3o r\u00e1pida das comunidades eclesiais, precisamos de aprofundar as mudan\u00e7as testemunhadas pelas Escrituras, no campo da f\u00e9 vivida. E \u00e9 a\u00ed que uma vis\u00e3o fundamentalista nos pode paralisar, pois esta procura transformar os testemunhos t\u00e3o diferentes e at\u00e9 opostos que comp\u00f5em as Escrituras numa religi\u00e3o codificada pelo pr\u00f3prio Deus. Nessa altura a Palavra de Deus depressa d\u00e1 lugar a um catecismo, que certamente se apoia na Escritura, mas nem por isso \u00e9 sacramento da Palavra ou \u00e9 capaz de dar vida.

{N}3,{/}22 Dissemos no coment\u00e1rio que esta frase e a indigna\u00e7\u00e3o de Deus perante o conhecimento que Ad\u00e3o acabava de adquirir provinham directamente dos mitos babil\u00f3nicos, cujas imagens o autor tinha utilizado. Portanto, dever-se-\u00e1 simplesmente concluir que essas express\u00f5es defeituosas devem ser atribu\u00eddas \u00e0s limita\u00e7\u00f5es do autor sagrado, limita\u00e7\u00f5es que at\u00e9 o pr\u00f3prio Deus respeita, tal como respeita a nossa liberdade? Talvez.
Contudo, vem-nos \u00e0 mente a palavra t\u00e3o firme de Jesus que lemos em Jo 10,35: \u00abNingu\u00e9m pode anular a Escritura\u00bb.  Talvez essa express\u00e3o ing\u00e9nua de um letrado do tempo de Salom\u00e3o esteja ali para nos convidar a aprofundar no mist\u00e9rio da nossa liberdade. Dissemos no coment\u00e1rio que o conhecimento que \u00e9 proibido \u00e0 Ad\u00e3o \u00e9 a arte de viver que os crentes est\u00e3o tentados a ir procurar onde se desconhece a lei de Deus. O conhecimento e a felicidade que ali se encontram s\u00e3o apenas uma miragem. O homem n\u00e3o consegue ali sen\u00e3o o conhecimento da sua nudez e portanto a morte.  Tudo isto se depreende do texto sagrado. No entanto, existe outra maneira de o ler. Esse mandamento que devemos respeitar p\u00f5e apenas em jogo a autoridade de Deus e a obedi\u00eancia de Ad\u00e3o. N\u00e3o se pode dizer que esteja ali contida toda a riqueza da nossa liberdade e do nosso destino, pois Deus, tal como Jesus no-lo descrever\u00e1 na par\u00e1bola do filho pr\u00f3digo, v\u00ea e espera de n\u00f3s muito mais que a obedi\u00eancia. 
Ter\u00edamos uma ideia muito pobre de Deus se O v\u00edssemos submergido no moralismo, pois a natureza humana \u00e9 infinitamente mais rica, e o olhar de Deus, bem como a sua paix\u00e3o amorosa, v\u00eaem o que as no\u00e7\u00f5es do bem e do mal n\u00e3o podem abranger.  Tudo o que se disse relativamente \u00e0 obedi\u00eancia \u00e0 lei persiste, porque a lei \u00e9 o caminho de qualquer acesso a liberdade. Mas Deus est\u00e1 presente no fundo da nossa liberdade, jogando com a nossa necessidade de saber, de descobrir, de demonstrar a nossa autonomia, de experimentar o amor e de romper os regulamentos. Nesta segunda interpreta\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o desmerece a primeira, Deus permitiu ao homem que experimentasse a sua liberdade, sabendo que poria em pr\u00e1tica um jogo perigoso, e chamou a aten\u00e7\u00e3o para isso: quanto mais se sabe mais se sofre (Ecl 1,18). O homem quis, pois, atingir o conhecimento e chegar ao n\u00edvel dos imortais. Deus desaprova-o, porque \u00e9 a sua obriga\u00e7\u00e3o como juiz da lei, embora se alegre porque Ad\u00e3o O tenha querido desafiar. "Sereis como deuses", dizia a serpente, e de algum modo era verdade. Deus queria encontrar o homem numa luta de duas liberdades (Gn 32,29); mas na realidade, num mundo governado pelo esp\u00edrito do mal (de acordo com o Evangelho de S. Jo\u00e3o) essa sede de liberdade pagar-se-\u00e1 com a morte. Da\u00ed uma express\u00e3o tanto ir\u00f3nica como amarga porque Deus sabe o que lhe custar\u00e1: \u00e9 a "feliz" culpa, como diz a liturgia, e s\u00e3o os esc\u00e2ndalos "necess\u00e1rios" como diz o Evangelho.
Do mesmo modo que na par\u00e1bola do filho pr\u00f3digo, Deus v\u00ea mais longe que a conta das boas ou m\u00e1s ac\u00e7\u00f5es que fazemos. De contr\u00e1rio seria um Deus demasiado s\u00e9rio e fastidioso, e n\u00e3o se entenderia como p\u00f4de imaginar essa fantasia t\u00e3o desconcertante, t\u00e3o dolorosa e aparentemente t\u00e3o in\u00fatil como \u00e9 o mundo presente, fora da sua pr\u00f3pria eternidade que \u00e9 Tudo.

{N}3,{/}24 Os {C}querubins {/}eram na Mesopot\u00e2mia os guardi\u00e3es das resid\u00eancias dos deuses. J\u00e1 todos viram reprodu\u00e7\u00f5es de alguns desses guardi\u00e3es divinos que se alinhavam \u00e0 entrada dos templos ass\u00edrios: um corpo que mistura tra\u00e7os de le\u00e3o e de touro, uma cara humana com barba e mitra, duas asas (ver a vis\u00e3o de Ez 1 que se inspira nestes animais sagrados). Quanto {C}ao remoinho que dispara raios{/} inspira-se nos postes colocados \u00e0 entrada das cidades babil\u00f3nicas, que apenas disparavam maldi\u00e7\u00f5es contra os poss\u00edveis assaltantes. 

{N}4,{/}9 {N}SOU EU O GUARDA DO MEU IRM\u00c3O?{/}
Por acaso Caim n\u00e3o teria desculpas? A lenda que a B\u00edblia tomou e transformou considerava-o o mais forte e o fundador de um povo. Nenhum desejo de justi\u00e7a pode impedir as leis da natureza e impedir que triunfe o mais forte. Sempre houve sociedades tranquilas e ra\u00e7as agressivas, por outras palavras, vegetarianos e depredadores. As invas\u00f5es b\u00e1rbaras de que nos fala a Hist\u00f3ria foram executadas por ra\u00e7as conquistadoras que actualmente dominam o mundo. E deve acentuar-se que depois da cristianiza\u00e7\u00e3o desses "b\u00e1rbaros" o Evangelho se espalhou gra\u00e7as \u00e0queles que, pelo facto de serem crist\u00e3os, n\u00e3o perderam a sua sede de conquista em todos os dom\u00ednios da exist\u00eancia, do desporto e da ci\u00eancia. O liberalismo que impuseram contribuiu para acelerar a unifica\u00e7\u00e3o do mundo, o que encaixa muito bem no plano de Deus, mas isso fez-se em geral destruindo irremediavelmente as culturas e os espa\u00e7os de humanidade que os outros tinham constru\u00eddo pacientemente.
Comprovou-se a debilidade da benefic\u00eancia organizada e o mau uso que se pode fazer de qualquer protec\u00e7\u00e3o. Mas a desigualdade cada vez maior entre uma minoria de ricos e uma multid\u00e3o incomensur\u00e1vel de pobres, volta a p\u00f4r a descoberto a quest\u00e3o dos meios leg\u00edtimos e das liberdades destrutivas. Tamb\u00e9m os profetas tiveram que se enfrentar com situa\u00e7\u00f5es parecidas quando o reino de Israel viu como uma minoria de ricos a\u00e7ambarcava, \u00e0s vezes legalmente, as terras (Is 10,1-4; Mq 2,1-10). Sem d\u00favida, actualmente \u00e9 mais dif\u00edcil dizer quem s\u00e3o os bons e quem s\u00e3o os maus, mais ainda se os aproveitadores s\u00e3o frequentemente aqueles a quem a sua consci\u00eancia crist\u00e3 lhes apresenta, tal como a Caim, a pergunta: "Que fizeste de teu irm\u00e3o?"  Mas num mundo que se est\u00e1 a globalizar, ningu\u00e9m conseguiu ainda formular solu\u00e7\u00f5es. O evangelho proclamado, vivido de frente para o mundo, ou em segredo, far\u00e1 por certo que surjam profetas e revolu\u00e7\u00f5es morais.

{N}4,{/}15 {N}MINHA \u00c9 A JUSTI\u00c7A{/}
Desde as primeiras p\u00e1ginas da B\u00edblia que se encontra uma den\u00fancia da engrenagem da viol\u00eancia. Em qualquer \u00e9poca, quem se quer vingar dos Cains n\u00e3o se d\u00e1 conta de que a viol\u00eancia \u00e9 insepar\u00e1vel da natureza humana e que, numa propor\u00e7\u00e3o dif\u00edcil de medir, mistura-se com o seu desejo de justi\u00e7a. O que hoje \u00e9 v\u00edtima amanh\u00e3 ser\u00e1 o violento (Is 14,1-2; Sl 137,9). A B\u00edblia recordar\u00e1 mil vezes que Deus \u00e9 o Deus justo e que sempre faz justi\u00e7a, mas n\u00e3o o faz como n\u00f3s. "Vinga-Se" dizem os nossos textos mas seria melhor traduzir: "desforra-Se" (Is 61,2), pois a palavra vingan\u00e7a normalmente indica que ao vingar-se as pessoas satisfazem a sua sede de dominar e de ter raz\u00e3o. Deus n\u00e3o sente nenhum desejo de Se impor e de ter raz\u00e3o: Como se poderiam inquietar a nossa maldade ou o nosso orgulho ou as nossas blasf\u00e9mias (Mc 3,28)? Ele est\u00e1 fora de concurso.  
A Justi\u00e7a de Deus \u00e9 a sua principal qualidade (falando em termos humanos): \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o de uma ordem que n\u00e3o pode falhar, pois exprime no mundo e no tempo a ordem interna que est\u00e1 em Deus.  Dizer que a sua justi\u00e7a passa antes de qualquer outra considera\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 negar a sua miseric\u00f3rdia infinita, mas recordar que o seu perd\u00e3o n\u00e3o ser\u00e1 nunca uma amnistia (Ex 32,33-35) ou uma debilidade do cora\u00e7\u00e3o. Em v\u00e1rios lugares as Escrituras dizem-nos que Deus perdoa e que ao mesmo tempo Se far\u00e1 pagar (Ex 20,5). Perdoa: n\u00e3o fica n'Ele nenhum rancor e tudo ser\u00e1 para bem daquele que pecou; mas h\u00e1 que pagar um pre\u00e7o para reabilitar o culpado e para restabelecer no mundo um tesouro de caridade  e de dom de si pr\u00f3prio que pode ser acrescentado, mas nunca ver-se afectado.   
Neste texto Deus condena a vingan\u00e7a e, mais precisamente, as vingan\u00e7as familiares ou tribais que n\u00e3o sabem da sua justi\u00e7a nem dos caminhos que conduzem \u00e0 sua realiza\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o basta dizer isto: todo o nosso esfor\u00e7o para nos vingarmos ou, por outras palavras, para tomar nas nossas m\u00e3os o reajuste de contas, apenas impede que Deus  intervenha a nosso favor. A \u00fanica maneira de apressar a interven\u00e7\u00e3o de Deus \u00e9 desligarmo-nos da nossa pr\u00f3pria causa (1Sm 24,12). Isto n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o possamos ou que n\u00e3o devamos recorrer aos meios legais. Mas o dever de lutar contra a injusti\u00e7a n\u00e3o \u00e9 mais urgente que o de ouvir a pequena advert\u00eancia do Evangelho: "Se algu\u00e9m vos bater numa face, oferecei-lhe tamb\u00e9m a outra; se algu\u00e9m vos leva a capa, deixai que leve tamb\u00e9m a t\u00fanica... (Lc 6,29)" Nisto esbarramos outra vez com o mist\u00e9rio de Deus. Apertados entre estas duas obriga\u00e7\u00f5es, escolheremos de acordo com os tempos e as circunst\u00e2ncias, e cada qual segundo o seu carisma, um caminho que expresse o que captamos da vontade de Deus nesse momento. Deixar a Deus a iniciativa de nos defender \u00e9 sempre como lan\u00e7ar-Lhe um desafio, e esses s\u00e3o os desafios de que Ele gosta.
A hist\u00f3ria de Caim adquire aqui um primeiro sinal no caminho que conduz ao Discurso no Monte, o qual nos conduz ao verdadeiro conhecimento de Deus e da sua justi\u00e7a

{N}4,{/}26 {N}ORIGENS{/}
{C}En\u00f3s foi o primeiro que invocou o nome de Jav\u00e9.{/} Este \u00e9 um dado muito interessante. Sabe-se que foram v\u00e1rios os autores do G\u00e9nesis. Para os sacerdotes que escreveram as partes mais tardias, e tamb\u00e9m para os que antes deles tinham posto por escrito as tradi\u00e7\u00f5es antigas, o nome de Jav\u00e9 foi entregue por Deus a Mois\u00e9s. Este era o nome mais \u00edntimo de Deus, que Ele ensinou ao seu povo para que O invocasse: este nome era o tesouro pr\u00f3prio de Israel (Ex 3,15).  Os sacerdotes do s\u00e9culo V repetiam que este nome n\u00e3o tinha sido revelado anteriormente aos patriarcas (Ex 6,3). Conservaram, no entanto, tradi\u00e7\u00f5es antigas que recordam uma d\u00edvida de Mois\u00e9s \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es religiosas do povo madianita,  que \u00e9 expressa sob a forma das suas rela\u00e7\u00f5es com Jetro, sacerdote de Madi\u00e3 (Ex 2 e 18). E de facto, foram encontrados vest\u00edgios de um culto a um Deus chamado Jav\u00e9 nalgumas regi\u00f5es do Sinai antes de Mois\u00e9s, o que n\u00e3o diminui em nada a revela\u00e7\u00e3o a este. Na verdade, pouco importa que o nome tenha existido antes nalgum lugar, pois s\u00f3 com Mois\u00e9s passa a ser o Deus dos deuses e O que escolheu Israel. 
O primeiro autor do G\u00e9nesis n\u00e3o ignorava a antiguidade do culto a Jav\u00e9 e em toda a sua hist\u00f3ria dos patriarcas, p\u00f5e na boca deles o nome de Jav\u00e9. Mas \u00e9 neste lugar do G\u00e9nesis que se situa explicitamente o come\u00e7o do culto a Jav\u00e9; e o primeiro a invoc\u00e1-Lo \u00e9 nada menos que um neto de Ad\u00e3o. O que possivelmente ele quer dizer com isto \u00e9 que Deus esteve presente na hist\u00f3ria da humanidade desde os come\u00e7os desta. O mesmo se exprimir\u00e1 de novo no pacto de Jav\u00e9 com No\u00e9 no cap\u00edtulo 8,20-22. 

{N}5,{/}1 {N}GENEALOGIAS{/}
Ainda n\u00e3o tinha chegado o tempo da arqueologia, bem como do rastreio dos ecos do \u00abbig-bang\u00bb, e j\u00e1 se sentia a necessidade de construir uma vis\u00e3o de conjunto da Humanidade espalhada pelas diversas Na\u00e7\u00f5es. Os contos que se transmitiam entre os n\u00f3madas (como tinha sido os hebreus), tal como os poemas escritos nos Pa\u00edses mais avan\u00e7ados (Egipto e Babil\u00f3nia), queriam responder a uma quest\u00e3o mais profunda: na organiza\u00e7\u00e3o actual dos povos, qual \u00e9 a parte das decis\u00f5es humanas e onde est\u00e3o os sinais da vontade divina.
Uma primeira leitura revela duas direc\u00e7\u00f5es muito diferentes nas genealogias de 4, 17-26 e 5,1-30. O mesmo contraste notar-se-\u00e1 entre a descend\u00eancia de No\u00e9, conforme est\u00e1 escrito em 9,18-27; 10,8-32 e 11,28-29 por um lado, e as genealogias de 9,28; 10, 1-7;11,10-25.
As do primeiro g\u00e9nero devem-se ao autor antigo e prolongam as hist\u00f3rias mais desenvolvidas de Caim e de Abel, de No\u00e9 e da torre de Babel sem deixar de formar com elas um verdadeiro tecido.  Estas genealogias devem ser entendidas, n\u00e3o como uma lista de antepassados no sentido estrito, mas como uma sequ\u00eancia de antecedentes que levam at\u00e9 ao estado actual da humanidade. Os nomes que se recordam s\u00e3o os de povos e cidades com os quais Israel tem algum relacionamento ou dos quais ouviu falar. Esta sequ\u00eancia n\u00e3o distingue entre factos religiosos e culturais, pois o autor v\u00ea uma conduta de Deus em toda a vida do mundo e procura mostrar nesta uma continuidade e um sentido. De certo modo, faz o que n\u00f3s pr\u00f3prios pretendemos fazer na presente edi\u00e7\u00e3o da B\u00edblia com a nossa introdu\u00e7\u00e3o: {C}Antes da B\u00edblia.{/}
As outras genealogias s\u00e3o obra dos sacerdotes. Nestas n\u00e3o encontramos as preocupa\u00e7\u00f5es culturais das anteriores. Limitam-se a relembrar nomes, e para cada um a dura\u00e7\u00e3o da sua vida e da sua descend\u00eancia. S\u00e3o cadeias em que os an\u00e9is devem continuar sem  interrup\u00e7\u00e3o desde o primeiro pai at\u00e9 aos tempos actuais. Nota-se ainda a preocupa\u00e7\u00e3o por mostrar uma diminui\u00e7\u00e3o progressiva da dura\u00e7\u00e3o da vida humana. 

{N}6,{/}9 Os par\u00e1grafos que escrevemos em letra cursiva foram acrescentados pelos sacerdotes \u00e0 narrativa primitiva na \u00e9poca do ex\u00edlio para a Babil\u00f3nia. Aqui j\u00e1 n\u00e3o se fala de Jav\u00e9, o nome sagrado revelado a Israel, mas de Deus. J\u00e1 n\u00e3o se atribuem a Deus reac\u00e7\u00f5es demasiado humanas (compare com 6,6). Verificar-se-\u00e1 que a corrup\u00e7\u00e3o da terra \u00e9 antes de mais a viol\u00eancia. O olhar de Deus v\u00ea para al\u00e9m do universo limitado dos primeiros redactores do tempo de Salom\u00e3o. Desta vez n\u00e3o se d\u00e1 maior import\u00e2ncia \u00e0 diferen\u00e7a entre seres puros e impuros: Deus quer salvar o resto do mundo tal como o criou.

{N}9,{/}24 Este par\u00e1grafo dedicado a Cam n\u00e3o fala tanto deste como de Cana\u00e3, que representa aqui  os povos da terra conquistada por Israel. Na verdade os outros filhos de Cam: Cuch, Mesraim, das tribos do sul da Ar\u00e1bia (10,6-7) n\u00e3o s\u00e3o difamados pela B\u00edblia, mesmo sendo inimigos que Israel deve vencer e castigar. Ao contr\u00e1rio, no caso de Cana\u00e3, os israelitas religiosos n\u00e3o viam na sua cultura e nos seus cultos mais que a licenciosidade sexual, elimina\u00e7\u00e3o de rec\u00e9m-nascidos e prostitui\u00e7\u00e3o sagrada (Dt 12,30; 18,9).  Estes povos deviam ser vomitados pela terra que ocupavam (Lv 18,28), e de facto desapareceram.

{N}11,{/}1 {C}Vamos descer e confundir a l\u00edngua deles.{/} Poucos lugares da B\u00edblia mostram t\u00e3o claramente como este as duas faces do livro sagrado, simultaneamente obra humana e Palavra de Deus. N\u00e3o custa ao autor transpor para Jav\u00e9 as mesmas motiva\u00e7\u00f5es que os mitos antigos punham na boca dos deuses: estes assustavam-se quando percebiam o atrevimento dos homens cuja desordem agora ia subir at\u00e9 \u00e0s alturas e perturbar a paz das suas moradas celestiais: \u00abAt\u00e9 aqui e nada mais, amanh\u00e3 ser\u00e1 tarde!" No \u00edntimo do seu ser fortemente marcado pelas tradi\u00e7\u00f5es n\u00f3madas ainda vivas em Israel, repugnava ao autor qualquer novidade que restringisse a liberdade do pai de fam\u00edlia ou do cl\u00e3. Deste modo, n\u00e3o lhe agradavam nada as pol\u00edticas centralizadoras de que era exemplo nestes \u00faltimos anos o governo de Salom\u00e3o. 
Palavra humana, portanto, na sua express\u00e3o, mas tamb\u00e9m palavra de Deus na moralidade: Deus n\u00e3o entra nos planos de unifica\u00e7\u00e3o quando s\u00e3o provenientes do esp\u00edrito de domina\u00e7\u00e3o. H\u00e1 nisto uma advert\u00eancia para os que hoje mesmo se preocupam em edificar a civiliza\u00e7\u00e3o e a economia planet\u00e1ria. \u00c9 ainda uma advert\u00eancia para a Igreja, sempre demasiado inclinada a substituir a colegialidade pela organiza\u00e7\u00e3o em pir\u00e2mide. 

{N}11,{/}10 Nos par\u00e1grafos seguintes encontra-se uma genealogia antiga e curta. (v. 26-29). Est\u00e1 aqui inserida dentro de outra, mais recente, de origem sacerdotal: esta segunda cumpria a mesma finalidade que a que ocupa o cap\u00edtulo 5 e que por um lado procura preencher uns tr\u00eas mil anos entre a suposta origem da humanidade e o tempo dos patriarcas. Reduz tamb\u00e9m a dura\u00e7\u00e3o da vida dos antepassados conforme se passa dos her\u00f3is ou  gigantes de tempos idos para personagens mais pr\u00f3ximas de n\u00f3s como s\u00e3o os patriarcas. 

{N}11,{/}32 {N}AS TR\u00caS PALAVRAS DE DEUS CRIADOR{/}
No primeiro cap\u00edtulo do G\u00e9nesis Deus disse, e \u00e9 a cria\u00e7\u00e3o.
No cap\u00edtulo 9, de novo Deus disse, e \u00e9 para dar a sua b\u00ean\u00e7\u00e3o a toda a humanidade.
No cap\u00edtulo 12, Deus disse pela terceira vez, e \u00e9 o in\u00edcio do povo de Deus. S\u00e3o tr\u00eas passagens da B\u00edblia de extens\u00e3o desigual, j\u00e1 que a revela\u00e7\u00e3o feita ao povo de Deus vai ocupar grande parte desta. O que vamos ler nela interessa de facto a toda a humanidade, mas ser\u00e1 o que Deus disse e fez com o seu povo em particular.
Se nos compenetrarmos do esp\u00edrito da B\u00edblia, descobriremos que estes tr\u00eas aspectos da obra divina configuram um todo e harmonizam-se entre si de mil maneiras. Mas, cuidado! Se n\u00e3o captamos bem o sentido dessas tr\u00eas palavras, chegar\u00e1 o momento em que n\u00e3o poderemos continuar a aceitar o testemunho da B\u00edblia e Jesus esfumar-se-\u00e1 para n\u00f3s. Porque essas tr\u00eas palavras chocam com alguns preconceitos que marcam profundamente o nosso tempo. 
Deus disse e a sua palavra criou o universo com as suas leis f\u00edsicas. A B\u00edblia lembrar-nos-\u00e1 que estas leis s\u00e3o est\u00e1veis para sempre. Mas dir-nos-\u00e1 tamb\u00e9m que o universo est\u00e1 sempre \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de Deus e que obedece \u00e0 sua Palavra. Dizer que Deus p\u00f4s o piloto autom\u00e1tico para dirigir o mundo \u00e9 em parte verdade, j\u00e1 que Ele n\u00e3o faz mudan\u00e7as de direc\u00e7\u00e3o com o leme a cada instante. Mas estar\u00edamos a sair da revela\u00e7\u00e3o b\u00edblica se diss\u00e9ssemos que Deus determinou tudo desde o princ\u00edpio e que, por isso, n\u00e3o pode fazer intervir sempre que queira for\u00e7as superiores que interferem com as leis f\u00edsicas ou as colocam entre par\u00eantesis (isto do nosso ponto de vista). Diz-se que Deus descansou das suas obras ao s\u00e9timo dia (Gn 2,4), mas o contr\u00e1rio tem tamb\u00e9m a sua verdade: \u00abo Pai trabalha continuamente\u00bb (Jo 5,17). Deus n\u00e3o p\u00e1ra de Se exprimir a Si pr\u00f3prio atrav\u00e9s das suas obras, e a cria\u00e7\u00e3o continua a viver e a existir n'Ele. As leis da natureza s\u00e3o a sombra de uma justi\u00e7a superior que est\u00e1 em Deus, mas na natureza h\u00e1 muito mais que leis f\u00edsicas, basta falar da sua riqueza e esplendor. A sua constante criatividade, que \u00e9 uma das suas mais misteriosas capacidades, \u00e9 um reflexo da livre criatividade de Deus, que nunca est\u00e1  presa. 
Isto \u00e9 mais que suficiente para fazer saltar toda a gente que toma por verdade absoluta determinados postulados da raz\u00e3o, como por exemplo, que as leis s\u00e3o inflex\u00edveis e que nada existe fora do que pode ser medido. Sem estes postulados n\u00e3o existiria investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, mas isso n\u00e3o significa que exprimam toda a realidade do mundo, nem sequer o essencial. E no entanto, \u00e9 exactamente esse preconceito que impede muitos crist\u00e3os de admitir qualquer esp\u00e9cie de interven\u00e7\u00e3o de Deus na ordem normal do mundo. \u00c0 partida, negar-se-\u00e3o a admitir no Evangelho a multiplica\u00e7\u00e3o dos p\u00e3es, a virgindade de Maria, a Transfigura\u00e7\u00e3o... ou far\u00e3o os textos dizer o contr\u00e1rio do que dizem. Rejeitar\u00e3o todos os testemunhos actuais dos que experimentaram interven\u00e7\u00f5es  semelhantes e soberanas de Deus. A seguir negar\u00e3o toda e qualquer interven\u00e7\u00e3o directa de Deus no nosso mundo interior, e  logicamente  negar\u00e3o que a ora\u00e7\u00e3o tenha algum sentido. Este racionalismo ir\u00e1 inspirar muitos livros e discuss\u00f5es, mas ao fim e ao cabo \u00e9 est\u00e9ril. Nunca far\u00e1 que brote a f\u00e9 e nunca dar\u00e1 alegria. 
O "disse Deus " da hist\u00f3ria de No\u00e9 tem tamb\u00e9m um profundo sentido. Deus actua no tempo depois do dil\u00favio fazendo um pacto com todos os povos e com todas as religi\u00f5es, j\u00e1 que todos s\u00e3o filhos de No\u00e9. Se Deus os aben\u00e7oa, isso significa que lhes oferece um caminho de salva\u00e7\u00e3o: encontr\u00e1-Lo-\u00e3o atrav\u00e9s das mil culturas e religi\u00f5es (Act 17,27). Quando a Palavra ou Sabedoria de Deus se torna presente na sua procura da sabedoria, nas palavras dos seus livros sagrados, esta (a Palavra de Deus), nada mais faz que continuar a sua obra criadora, pois por ela Deus disp\u00f4s os tempos da cria\u00e7\u00e3o (Hb 1,2). Pois bem, toda a caminhada da hist\u00f3ria prolongar\u00e1 o plano de Deus Criador, e as religi\u00f5es estar\u00e3o ligadas por seu lado a uma descoberta de Deus ou "do divino" na natureza.  
Que mais precisamos? N\u00e3o tem ali a humanidade tudo o que precisa para terminar a cria\u00e7\u00e3o? Isso seria esquecer que os "filhos de No\u00e9" s\u00e3o sempre "filhos de Ad\u00e3o". Bem depressa dos sonhos se cai numa realidade que n\u00e3o \u00e9 muito bela. Mas n\u00e3o insistamos nos fracassos e nos limites das sabedorias humanas, porque o importante est\u00e1 noutro lugar. Para Deus a cria\u00e7\u00e3o \u00e9 o meio que Ele tem para Se exprimir. Ora bem, embora Ele tenha entregado as riquezas do universo a uma humanidade muito mais razo\u00e1vel do que n\u00f3s somos, nada faria transparecer o que h\u00e1 de mais extraordin\u00e1rio n'Ele: o dinamismo de um amor cujas iniciativas s\u00f3 Ele compreende. Se nada mais houvesse que o homem face ao Criador, Deus apareceria apenas como grande e generoso. Ele nada mais pode dizer sem quebrar o c\u00edrculo de uma cria\u00e7\u00e3o aparentemente perfeita. Por isso, Deus vai chamar pessoas e grupos para que empreendam com Ele um caminho muito singular e frequentemente contr\u00e1rio ao que a experi\u00eancia humana ensina. E o ponto de partida ou a primeira fractura foi o chamamento de Abra\u00e3o.
Este terceiro \u00abdisse Deus\u00bb marca o in\u00edcio de um povo de Deus, diferente de todos os outros e esta oposi\u00e7\u00e3o, ou melhor esta dualidade entre os que s\u00e3o eleitos para ser povo de Deus e os que n\u00e3o o s\u00e3o, causa um certo mal-estar na consci\u00eancia de muitos crist\u00e3os de hoje. Porqu\u00ea dois pesos e duas medidas? Estamos convencidos de que a revela\u00e7\u00e3o b\u00edblica \u00e9 mais que uma religi\u00e3o entre todas as outras? E talvez at\u00e9 nos sintamos tentados a renegar as nossas riquezas: \u00abPorque hei-de eu ter a verdade mais do que os outros?\u00bb
\u00c9 portanto o momento de aceitar ou n\u00e3o o Deus da B\u00edblia, que \u00e9 \u00abfavor e fidelidade\u00bb, Ele chama quem quer, e d\u00e1 a uma pessoa o que n\u00e3o d\u00e1 \u00e0 outra. D\u00e1 mais para que se produza mais e para que toda a gente se aproveite disso. Mas d\u00e1 o que Ele quer. Deus chamou-nos para ser seu povo? Isto n\u00e3o nos concede nenhum direito especial. \u00c9 uma riqueza pertencer ao povo de Deus, mais ainda \u00e9 o nosso servi\u00e7o ao mundo. \u00c9 Deus quem nos faz surgir do nada, todos \u00fanicos e necess\u00e1rios. E ao mesmo tempo que nos faz o que somos, p\u00f5e-nos num caminho que forma uma s\u00f3 coisa com as nossas necessidades, as nossas esperan\u00e7as e a nossa sede de felicidade.
O leitor crist\u00e3o tem pois que aceitar o car\u00e1cter \u00fanico da sua voca\u00e7\u00e3o. Querer esquec\u00ea-la para ser mais semelhante aos outros n\u00e3o faria aqui qualquer sentido, j\u00e1 que os outros n\u00e3o nos invejam o nosso lugar. N\u00e3o seria uma manifesta\u00e7\u00e3o de humildade ou de esp\u00edrito mais aberto mas de medo: medo de ser diferente, ou talvez, este outro terror que \u00e9 uma falta de f\u00e9: n\u00e3o ser\u00e3o puras ilus\u00f5es as grandes promessas de Deus?

{N}15,{/}6 Esta frase haveria de ser amplamente comentada no Novo Testamento. Uma tradu\u00e7\u00e3o muito precisa do texto hebraico poderia ser: \u00abe Jav\u00e9 considerou-o como qualquer coisa de justi\u00e7a\u00bb ou \u00abe Jav\u00e9 p\u00f4-lo na sua conta como um acto  pr\u00f3prio de um justo\u00bb. Por outras palavras, Jav\u00e9 est\u00e1 a avaliar Abra\u00e3o e, ao ver esta f\u00e9, convence-se: \u00abNa verdade actuou como devia ser, segundo Eu, um justo\u00bb.
Na carta aos Romanos cap\u00edtulo 4, Paulo retomar\u00e1 este texto. Querendo mostrar como Deus {C}torna justa{/} (ou seja, restaura) a pessoa humana, por meio do dom do seu Filho e, depois, pela f\u00e9 no perd\u00e3o de Deus, Paulo destaca a f\u00e9 de Abra\u00e3o na promessa de Deus, que lhe valeu ser{C} um justo{/}. \u00c9 evidente que no seu texto a palavra {C}justi\u00e7a {/}adquire um sentido mais preciso e um conte\u00fado mais rico. Ir\u00e1 desenvolver este sentido nos cap. 5-6 da carta. 

{N}16,{/}13 O texto do presente vers\u00edculo est\u00e1 em parte corrompido, e a tradu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 segura. Duas coisas sem d\u00favida s\u00e3o certas: este pormenor assemelha-se a outras etimologias que se encontram em diversos lugares dos Livros Sagrados e pretende explicar o nome do po\u00e7o de Lahal Rohi, um nome que pode compreender-se como \u00abAo vivente que me v\u00ea\u00bb. Por isso Agar afirma que viu Aquele que a tinha visto.
N\u00e3o \u00e9 pois mais que um pormenor na hist\u00f3ria dos Patriarcas, mas aqui aparece pela primeira vez o que ser\u00e1 um dado importante da revela\u00e7\u00e3o b\u00edblica: ela n\u00e3o conhece outro Deus fora d'Aquele que v\u00ea. Isto pode parecer muito evidente a muitos crist\u00e3os e talvez muitos se lembram do uso que no passado se fazia do olhar de Deus para inspirar \u00e0s crian\u00e7as o temor do ju\u00edzo de Deus, mesmo quando ningu\u00e9m as via: Olha que Deus v\u00ea-te!
A B\u00edblia certamente n\u00e3o se det\u00e9m neste temor \u00abservil\u00bb de Deus (seria o temor pr\u00f3prio do escravo que n\u00e3o tem consci\u00eancia nem respeito pelo seu dono). A B\u00edblia maravilha-se muito mais desse conhecimento divino (Sl 139), da aten\u00e7\u00e3o que Deus presta aos mais desamparados (Sl 33,18;102,20). Paulo dar\u00e1 um significado mais profundo a este \u00abser conhecido por Deus\u00bb (1Cor 8,2).

{N}31,{/}45 Toda esta hist\u00f3ria que termina com um pacto entre Jacob e {C}Lab\u00e3o o arameu{/} (31,24) \u00e9 por certo uma maneira de recordar conflitos antigos entre os israelitas e grupos arameus que viviam mais ao norte. N\u00e3o esque\u00e7amos que o territ\u00f3rio de Galaad, do outro lado do Jord\u00e3o, foi durante todo o tempo dos reis um territ\u00f3rio reivindicado quer pelos israelitas quer pelos arameus.
{C}Nos coment\u00e1rios (ou notas da B\u00edblia, em 32,27) tiram-se os par\u00e1grafos da coluna direita da p\u00e1gina 58 e colocam-se aqui:{/}

{N}34,{/}1 Esta hist\u00f3ria conserva por certo a lembran\u00e7a de um conflito sangrento entre grupos das tribos de Levi e de Sime\u00e3o na \u00e9poca da conquista. Dina \u00e9 possivelmente o nome de um territ\u00f3rio ou de um cl\u00e3 que foi a raz\u00e3o do conflito. A narrativa b\u00edblica procura explicar a vingan\u00e7a de Sime\u00e3o e Levi, as viola\u00e7\u00f5es e os raptos que se cometeram, mas n\u00e3o os aprova. Jacob desaprova-os aqui por raz\u00f5es de oportunismo  (v. 30). No cap. 49,5-7 l\u00ea-se uma condena\u00e7\u00e3o expl\u00edcita do facto, condena\u00e7\u00e3o tanto mais importante quanto, ao contr\u00e1rio de Sime\u00e3o que desapareceu passados poucos anos, a tribo de Levi gozava de um privil\u00e9gio \u00fanico. A viol\u00eancia denunciada nas primeiras p\u00e1ginas do livro a prop\u00f3sito de Caim, passar\u00e1 muito desapercebida ao longo dos conflitos entre Israel e os seus vizinhos. O povo de Deus devia sobreviver e sobreviver de modo diferente dos outros: nestas condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o tinha outra perspectiva sen\u00e3o ser o mais forte ou o mais esperto. S\u00f3 a revolu\u00e7\u00e3o do Evangelho e do Filho de Deus voluntariamente humilhado podiam abrir as mentes \u00e0 concilia\u00e7\u00e3o e ao perd\u00e3o.

{N}49,{/}3 {N}A SORTE DIFERENTE  DAS TRIBOS{/}
A tribo de R\u00faben, do outro lado do Jord\u00e3o, n\u00e3o prosperou. N\u00e3o tomou parte na conquista de Cana\u00e3: ver o canto de D\u00e9bora (Jz 5,15); dela n\u00e3o saiu nenhum dos que a B\u00edblia recorda. A malfeitoria atribu\u00edda ao antepassado lembra seguramente uma actua\u00e7\u00e3o dessa tribo que pareceu \u00e0s outras uma trai\u00e7\u00e3o.
Sobre Sime\u00e3o e sobre Levi, ver o que se diz em Gn 34,1. Sime\u00e3o, no sul de Jud\u00e1, contava apenas com algumas aldeias e povoados e foi absorvida pela sua vizinha. R\u00faben, Sime\u00e3o, Levi e Jud\u00e1 eram os quatro filhos de Lia, a esposa mais velha de Jacob (ver o coment\u00e1rio de Gn 35,23). Ao que parece estas quatro tribos estavam desde h\u00e1 longos anos em Cades quando chegaram ali os companheiros de Mois\u00e9s e lhes participaram a revela\u00e7\u00e3o do Horeb. Estes iriam dar origem \u00e0s tribos de Efraim, Manass\u00e9s e Benjamim, descendentes de Raquel.
Embora Sime\u00e3o tenha desaparecido, Levi dispersou-se tamb\u00e9m entre as tribos, permaneceu como uma casta privilegiada pelo facto de serem os \u00fanicos sacerdotes reconhecidos pela Lei. Mois\u00e9s pertencia a esta tribo (Ex 2,1) e possivelmente foi esta a raz\u00e3o pela qual o apoiaram sem reserva no caso do bezerro de ouro (Ex 32,26), recebendo uma b\u00ean\u00e7\u00e3o que era, na verdade, a sua consagra\u00e7\u00e3o como sacerdotes em (Ex 32,29 o texto diz exactamente \u00abAs suas m\u00e3os encheram-se para Jav\u00e9\u00bb usando o termo pr\u00f3prio da consagra\u00e7\u00e3o sacerdotal). Nas b\u00ean\u00e7\u00e3os de Mois\u00e9s, posteriores a estas, j\u00e1 n\u00e3o se menciona Sime\u00e3o, enquanto que o castigo de Levi foi esquecido e apenas se real\u00e7a o seu privil\u00e9gio (Dt 33,8). As duas hist\u00f3rias contadas em Jz 18 e 19 s\u00e3o testemunho do tempo em que ainda n\u00e3o existia o Templo de Jerusal\u00e9m com o seu clero de sacerdotes-levitas regido pelas leis de David (1Cr 23-28). Os levitas eram ent\u00e3o pessoas pobres que n\u00e3o dispunham de um territ\u00f3rio comum, e iam de um lado para o outro conforme encontravam alguma ocasi\u00e3o de servir num santu\u00e1rio que lhes desse de comer.
Jud\u00e1 formou-se muito possivelmente pela jun\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios cl\u00e3s situados no sul da Palestina, entre os quais se destacavam os cenezeus; isto explicaria a import\u00e2ncia reconhecida a Caleb, o cenezeu, nas narrativas da conquista (Nm 13,6; 32,12). De acordo com as b\u00ean\u00e7\u00e3os de Mois\u00e9s posteriores a estas (Dt 33,7), Jud\u00e1 ficou muito tempo separado nas colinas do sul da Palestina, at\u00e9 ao tempo do rei David.
A prefer\u00eancia reconhecida a Jud\u00e1 nos vers\u00edculos 9-12 deve-se talvez ao facto de  que esse par\u00e1grafo foi redigido e inserido quando a dinastia de David j\u00e1 tinha passado a ser o \u00fanico centro de Israel. Mas nem por isso se alterou o par\u00e1grafo referente \u00e0s tribos do norte, a que chamavam "casa de Jos\u00e9". Quem escreveu a hist\u00f3ria de Jos\u00e9, pai de Efraim e de Manass\u00e9s, n\u00e3o ignorava que estas eram, juntamente com Benjamim e mais que as outras, o grupo de Mois\u00e9s. Elas foram durante v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es as herdeiras da sua mensagem at\u00e9 que, por uma decis\u00e3o do Deus que ningu\u00e9m pode tornar seu, quase desapareceram. Ao n\u00e3o aceitar a unifica\u00e7\u00e3o com David, criando-se o reino de Jerobo\u00e3o em Siqu\u00e9m,  foi cometido um pecado de cegueira sobre o plano de Deus. E dois s\u00e9culos mais tarde, aconteceu o desaparecimento desse reino, sem que houvesse um grupo capaz de guardar a heran\u00e7a de Israel e depois faz\u00ea-la reviver, como aconteceu com Jud\u00e1. Mas a b\u00ean\u00e7\u00e3o que a elas se refere vem do tempo em que continuavam a ser o cora\u00e7\u00e3o do povo de Deus. 
Issacar tem direito a um jogo de palavras com o termo \u00abassalariado\u00bb que se pronuncia do mesmo modo. Uma tribo que deve ter-se juntado \u00e0s outras sem entusiasmo; eram daqueles que n\u00e3o desejavam sen\u00e3o viver em paz ao lado dos cananeus, pondo-se ao seu servi\u00e7o.
Dissemos sobre o Gn 35,23 que, embora todas as tribos se reconhecessem irm\u00e3s, nem todas  tinham o mesmo passado, nem a mesma dignidade. N\u00e3o se pode duvidar que as filhas das \u00abservas\u00bb Bala e Zelfa se juntassem mais tarde \u00e0s outras sem ter partilhado com elas as tradi\u00e7\u00f5es sobre Mois\u00e9s e a estadia em Cades.

