{N}2.1: DEUS FALA {/}[Gn_1,3]
Dissemos no coment\u00e1rio que este primeiro cap\u00edtulo era assim como que o pref\u00e1cio do primeiro n\u00facleo da B\u00edblia, quando Esdras reuniu os livros de Mois\u00e9s e dos profetas ([Ne_8,1]; [2Mc_2,13]). 
Se compararmos este primeiro cap\u00edtulo com outras narrativas dos povos antigos - poder\u00edamos falar das suas {C}cosmogonias{/} (escritos referentes \u00e0 forma\u00e7\u00e3o do universo) ou dos seus {C}mitos{/} (hist\u00f3rias que exprimem de forma figurada cren\u00e7as que se referem \u00e0 ordem do mundo) - aparecer\u00e3o alguns pontos em que este cap\u00edtulo diz o que as outras narrativas n\u00e3o dizem. Um dos pontos mais importantes \u00e9 a \u00eanfase posta nestas palavras: {C}Deus disse: {/}
As Escrituras s\u00e3o a nossa regra, mas antes de qualquer escritura, foi dita uma palavra. A express\u00e3o {C}Deus disse {/}reaparecer\u00e1 um sem-n\u00famero de vezes atrav\u00e9s da B\u00edblia, mas, conforme os lugares, pretender-se-\u00e1 real\u00e7ar que Deus toma a iniciativa de Se exprimir, ou que Deus d\u00e1 um ensinamento ou uma ordem. Nestes primeiros {C}Deus disse, {/}devemos entender as duas coisas.
{N}DEUS \u00c9 UM DEUS QUE FALA{/}
Apresentar a B\u00edblia apenas como um ensinamento de Deus seria redutor para a f\u00e9. H\u00e1 ensinamentos, mas o facto de Deus falar \u00e9 ainda mais importante. Que revela\u00e7\u00e3o mais decisiva sobre Aquele ou sobre Aquilo que deve ser a pr\u00f3pria eternidade! Logo de in\u00edcio desfazem-se as d\u00favidas de quem pergunta: Por acaso tem consci\u00eancia? Conhece-nos? Pode comunicar-se com a sua cria\u00e7\u00e3o? Querer\u00e1 alguma coisa de n\u00f3s? Muito poucos fil\u00f3sofos  se atreveram a dar uma resposta positiva a estas perguntas...
Mas j\u00e1 nestes textos antigos se define a f\u00e9 judaica e crist\u00e3: Deus sai de Si e dirige-Se a n\u00f3s esperando uma resposta. Por detr\u00e1s do universo, da sua imensidade, dos seus mist\u00e9rios, das suas sombras e das suas luzes, existe Algu\u00e9m que desencadeou uma aventura de consequ\u00eancias incalcul\u00e1veis. E o mais arriscado desta aventura foi que Ele come\u00e7ou um di\u00e1logo com as suas criaturas. Quando n\u00f3s falamos, n\u00e3o \u00e9 apenas para dar ordens, ou para pedir. Quando falo, estou a bater \u00e0 porta do outro para que ele veja que eu existo, para o p\u00f4r \u00e0 prova e ver se ele tamb\u00e9m existe de verdade. E quando tiver sido escutado, eu tamb\u00e9m saberei que existo e conto para alguma coisa.
Em primeiro lugar, a revela\u00e7\u00e3o crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9 uma lei do C\u00e9u que ter\u00edamos de seguir sob pena de um fracasso ou de um castigo: Deus \u00e9 \u00abo Outro\u00bb que desperta em n\u00f3s a nossa pr\u00f3pria consci\u00eancia e nos tira da nossa solid\u00e3o. \u00c9 este o ponto a partir do qual poderemos entender as in\u00fameras p\u00e1ginas que testemunham um chamamento de Deus aos seus profetas: Mois\u00e9s, Elias, Isa\u00edas, Jeremias e muitos outros, como sabemos. Qualquer chamamento de Deus produz naquele que a recebe uma nova consci\u00eancia de si pr\u00f3prio e d\u00e1-lhe capacidade para cumprir a miss\u00e3o recebida. Da\u00ed que toda a hist\u00f3ria b\u00edblica seja de certo modo a obra dos profetas.
Deus \u00e9 um Deus que fala. Para o fazer, n\u00e3o esperou por ter criaturas capazes de O ouvirem, mas falou primeiro para falar de Si pr\u00f3prio. A Palavra est\u00e1 em Deus desde o in\u00edcio. Ela \u00e9 a sua Sabedoria e Ele n\u00e3o a conhece sen\u00e3o dando-lhe vida face a Si pr\u00f3prio para depois voltar a traz\u00ea-la a Si mesmo para que partilhe a sua plenitude. Este mist\u00e9rio do Deus-que-Se-diz-a-Si-pr\u00f3prio ou do Pai com o seu Filho, est\u00e1 na origem da cria\u00e7\u00e3o, e por isso o nosso mundo \u00e9 um mundo em que Deus fala. 

{N}2.2: SOU EU O GUARDA DO MEU IRM\u00c3O? {/}[Gn_4,9]
Por acaso Caim n\u00e3o teria desculpas? A lenda que a B\u00edblia tomou e transformou considerava-o o mais forte e o fundador de um povo. Nenhum desejo de justi\u00e7a pode impedir as leis da natureza e impedir que triunfe o mais forte. Sempre houve sociedades tranquilas e ra\u00e7as agressivas, por outras palavras, vegetarianos e depredadores. As invas\u00f5es b\u00e1rbaras de que nos fala a Hist\u00f3ria foram executadas por ra\u00e7as conquistadoras que actualmente dominam o mundo. E deve acentuar-se que depois da cristianiza\u00e7\u00e3o desses "b\u00e1rbaros" o Evangelho se espalhou gra\u00e7as \u00e0queles que, pelo facto de serem crist\u00e3os, n\u00e3o perderam a sua sede de conquista em todos os dom\u00ednios da exist\u00eancia, do desporto e da ci\u00eancia. O liberalismo que impuseram contribuiu para acelerar a unifica\u00e7\u00e3o do mundo, o que encaixa muito bem no plano de Deus, mas isso fez-se em geral destruindo irremediavelmente as culturas e os espa\u00e7os de humanidade que os outros tinham constru\u00eddo pacientemente.
Comprovou-se a debilidade da benefic\u00eancia organizada e o mau uso que se pode fazer de qualquer protec\u00e7\u00e3o. Mas a desigualdade cada vez maior entre uma minoria de ricos e uma multid\u00e3o incomensur\u00e1vel de pobres, volta a p\u00f4r a descoberto a quest\u00e3o dos meios leg\u00edtimos e das liberdades destrutivas. Tamb\u00e9m os profetas tiveram que se enfrentar com situa\u00e7\u00f5es parecidas quando o reino de Israel viu como uma minoria de ricos a\u00e7ambarcava, \u00e0s vezes legalmente, as terras ([Is_10,1] - [Is_10,4]; [Mq_2,1] - [Mq_2,10]). Sem d\u00favida, actualmente \u00e9 mais dif\u00edcil dizer quem s\u00e3o os bons e quem s\u00e3o os maus, mais ainda se os aproveitadores s\u00e3o frequentemente aqueles a quem a sua consci\u00eancia crist\u00e3 lhes apresenta, tal como a Caim, a pergunta: "Que fizeste de teu irm\u00e3o?"  Mas num mundo que se est\u00e1 a globalizar, ningu\u00e9m conseguiu ainda formular solu\u00e7\u00f5es. O evangelho proclamado, vivido de frente para o mundo, ou em segredo, far\u00e1 por certo que surjam profetas e revolu\u00e7\u00f5es morais.

{N}2.3: A SORTE DIFERENTE DAS TRIBOS {/}[Gn_49,3]
A tribo de R\u00faben, do outro lado do Jord\u00e3o, n\u00e3o prosperou. N\u00e3o tomou parte na conquista de Cana\u00e3: ver o canto de D\u00e9bora [Jz_5,15]; dela n\u00e3o saiu nenhum dos que a B\u00edblia recorda. A malfeitoria atribu\u00edda ao antepassado lembra seguramente uma actua\u00e7\u00e3o dessa tribo que pareceu \u00e0s outras uma trai\u00e7\u00e3o.
Sobre Sime\u00e3o e sobre Levi, ver o que se diz em [Gn_34,1]. Sime\u00e3o, no sul de Jud\u00e1, contava apenas com algumas aldeias e povoados e foi absorvida pela sua vizinha. R\u00faben, Sime\u00e3o, Levi e Jud\u00e1 eram os quatro filhos de Lia, a esposa mais velha de Jacob (ver o coment\u00e1rio de [Gn_35,23]). Ao que parece estas quatro tribos estavam desde h\u00e1 longos anos em Cades quando chegaram ali os companheiros de Mois\u00e9s e lhes participaram a revela\u00e7\u00e3o do Horeb. Estes iriam dar origem \u00e0s tribos de Efraim, Manass\u00e9s e Benjamim, descendentes de Raquel.
Embora Sime\u00e3o tenha desaparecido, Levi dispersou-se tamb\u00e9m entre as tribos, permaneceu como uma casta privilegiada pelo facto de serem os \u00fanicos sacerdotes reconhecidos pela Lei. Mois\u00e9s pertencia a esta tribo [Ex_2,1] e possivelmente foi esta a raz\u00e3o pela qual o apoiaram sem reserva no caso do bezerro de ouro [Ex_32,26], recebendo uma b\u00ean\u00e7\u00e3o que era, na verdade, a sua consagra\u00e7\u00e3o como sacerdotes (em [Ex_32,29] o texto diz exactamente \u00abAs suas m\u00e3os encheram-se para Jav\u00e9\u00bb usando o termo pr\u00f3prio da consagra\u00e7\u00e3o sacerdotal). Nas b\u00ean\u00e7\u00e3os de Mois\u00e9s, posteriores a estas, j\u00e1 n\u00e3o se menciona Sime\u00e3o, enquanto que o castigo de Levi foi esquecido e apenas se real\u00e7a o seu privil\u00e9gio [Dt_33,8]. As duas hist\u00f3rias contadas em [Jz_18,1] e [Jz_19,1] s\u00e3o testemunho do tempo em que ainda n\u00e3o existia o Templo de Jerusal\u00e9m com o seu clero de sacerdotes-levitas regido pelas leis de David [1Cor_23,1] - [1Cor_28,1]. Os levitas eram ent\u00e3o pessoas pobres que n\u00e3o dispunham de um territ\u00f3rio comum, e iam de um lado para o outro conforme encontravam alguma ocasi\u00e3o de servir num santu\u00e1rio que lhes desse de comer.
Jud\u00e1 formou-se muito possivelmente pela jun\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios cl\u00e3s situados no sul da Palestina, entre os quais se destacavam os cenezeus; isto explicaria a import\u00e2ncia reconhecida a Caleb, o cenezeu, nas narrativas da conquista [Nm_13,6]; [Nm_32,12]. De acordo com as b\u00ean\u00e7\u00e3os de Mois\u00e9s posteriores a estas [Dt_33,7], Jud\u00e1 ficou muito tempo separado nas colinas do sul da Palestina, at\u00e9 ao tempo do rei David.
A prefer\u00eancia reconhecida a Jud\u00e1 nos vers\u00edculos 9-12 deve-se talvez ao facto de  que esse par\u00e1grafo foi redigido e inserido quando a dinastia de David j\u00e1 tinha passado a ser o \u00fanico centro de Israel. Mas nem por isso se alterou o par\u00e1grafo referente \u00e0s tribos do norte, a que chamavam "casa de Jos\u00e9". Quem escreveu a hist\u00f3ria de Jos\u00e9, pai de Efraim e de Manass\u00e9s, n\u00e3o ignorava que estas eram, juntamente com Benjamim e mais que as outras, o grupo de Mois\u00e9s. Elas foram durante v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es as herdeiras da sua mensagem at\u00e9 que, por uma decis\u00e3o do Deus que ningu\u00e9m pode tornar seu, quase desapareceram. Ao n\u00e3o aceitar a unifica\u00e7\u00e3o com David, criando-se o reino de Jerobo\u00e3o em Siqu\u00e9m,  foi cometido um pecado de cegueira sobre o plano de Deus. E dois s\u00e9culos mais tarde, aconteceu o desaparecimento desse reino, sem que houvesse um grupo capaz de guardar a heran\u00e7a de Israel e depois faz\u00ea-la reviver, como aconteceu com Jud\u00e1. Mas a b\u00ean\u00e7\u00e3o que a elas se refere vem do tempo em que continuavam a ser o cora\u00e7\u00e3o do povo de Deus. 
Issacar tem direito a um jogo de palavras com o termo \u00abassalariado\u00bb que se pronuncia do mesmo modo. Uma tribo que deve ter-se juntado \u00e0s outras sem entusiasmo; eram daqueles que n\u00e3o desejavam sen\u00e3o viver em paz ao lado dos cananeus, pondo-se ao seu servi\u00e7o.
Dissemos sobre o [Gn_35,23] que, embora todas as tribos se reconhecessem irm\u00e3s, nem todas  tinham o mesmo passado, nem a mesma dignidade. N\u00e3o se pode duvidar que as filhas das \u00abservas\u00bb Bala e Zelfa se juntassem mais tarde \u00e0s outras sem ter partilhado com elas as tradi\u00e7\u00f5es sobre Mois\u00e9s e a estadia em Cades.

{N}2.4: AS SETE NA\u00c7\u00d5ES {/}[Ex_3,8]
Aqui, as na\u00e7\u00f5es que h\u00e3o-de ser despojadas da terra de Cana\u00e3 s\u00e3o seis. A mesma lista ir\u00e1 aparecer noutros lugares: [Ex_3,17]; [Ex_23,23]...; [Js_12,8]. Em [Dt_7,1] s\u00e3o acrescentados os gergeseus, o que permite falar de {C}sete Na\u00e7\u00f5es, {/}como em [Js_3,10]. A lista acha-se quase id\u00eantica em dez lugares, e mais curta noutros. Esta lista \u00e9 apenas uma enumera\u00e7\u00e3o tradicional e n\u00e3o serviria para um atlas geogr\u00e1fico. \u00c9 que, ao entrar em Cana\u00e3, os israelitas encontraram{C} {/}uma popula\u00e7\u00e3o mesclada de amorreus (os que eram da mesma ra\u00e7a de Abra\u00e3o) e de heteus. Estes \u00faltimos procediam do norte e tinham ocupado o Pa\u00eds durante muito tempo: formavam a classe alta. De facto, o povo cananeu apresentava-se como um mosaico de reinos muito pequenos, e a B\u00edblia chama-os \u00e0s vezes pelo nome das suas capitais: s\u00e3o chamados jebuseus em Jerusal\u00e9m [2Sm_5,6], heveus e gergeseus noutros lugares (cf. [Gn_10,17]).
Note-se com que tranquilidade se fala de tirar-lhes a terra que ocupam. Ao olhar o passado, os autores desses livros davam-se conta de que a conquista fora um elemento essencial para a funda\u00e7\u00e3o de um povo de Deus diferente dos demais e que nisto estava patente a vontade de Deus. Estes textos continuam a inspirar alguns protagonistas dos actuais conflitos do M\u00e9dio Oriente, como se justificassem novas conquistas. Nisto reconhecemos uma interpreta\u00e7\u00e3o fundamentalista do texto sagrado: o que foi vontade de Deus em tempos afastados \u00e9 considerado por alguns como norma para hoje, como se o povo de Deus, os seus direitos e deveres, a sua base territorial e as suas institui\u00e7\u00f5es tenham de ser como h\u00e1 trinta s\u00e9culos atr\u00e1s.

{N}2.5: AAR\u00c3O{/} [Ex_4,27]
Aar\u00e3o era irm\u00e3o de Mois\u00e9s num sentido muito amplo [Ex_4,14] - [Ex_4,17]; d\u00e1-o a entender o presente par\u00e1grafo que \u00e9 obra de autor mais antigo. Em [Ex_6,20] um autor mais tardio dir\u00e1 que Aar\u00e3o \u00e9 irm\u00e3o carnal de Mois\u00e9s.
Aar\u00e3o, o levita deve ter sido uma autoridade reconhecida por algum grupo do deserto, talvez os levitas. Aar\u00e3o e os seus puseram-se ao lado de Mois\u00e9s na sua obra reformadora. O Monte de Deus aqui mencionado deve ter sido um lugar sagrado diferente do monte Horeb; na melhor das hip\u00f3teses t\u00ea-lo-\u00e3o identificado mais tarde, como em [Ex_3,1] e [Ex_17,6]. Nestes dois lugares o texto parece ter sido retocado.
Para qu\u00ea entrar em semelhantes pormenores? Estas observa\u00e7\u00f5es ajudam-nos a ver que a revela\u00e7\u00e3o do \u00caxodo n\u00e3o foi estruturada por Deus com uma acumula\u00e7\u00e3o de milagres, mediante um profeta, Mois\u00e9s, que tudo dirige e realiza infalivelmente a obra de Deus. Pelo contr\u00e1rio, parece-se com a hist\u00f3ria mais comum aparentemente e menos grandiosa do que aquela em que os crist\u00e3os de hoje s\u00e3o actores. Deus interv\u00e9m nalguns momentos para abrir um caminho e confiar uma miss\u00e3o, mas tamb\u00e9m nos guia mediante os encontros, os amigos e os pr\u00f3prios obst\u00e1culos. Uma pessoa tem d\u00favidas, procura apoios, descobre irm\u00e3os, alguns dos quais falham ou atrai\u00e7oam: tomam-se decis\u00f5es que parecem boas, mas que n\u00e3o tardam em comprometer gravemente o futuro das nossas lutas.
\u00c9 muito dif\u00edcil dizer por que caminhos Deus conduziu o grande profeta e fundador de Israel; as imagens grandiosas que dele nos deixaram os livros sagrados ajudam-nos melhor a captar a import\u00e2ncia dessa revela\u00e7\u00e3o, dando-nos a conhecer a sua vida e as suas experi\u00eancias.

{N}2.6: JAV\u00c9 ENDURECE O CORA\u00c7\u00c3O {/}[Ex_10,20]
Esclarecemos no coment\u00e1rio a [Ex_10,1] o sentido que se deve dar \u00e0 express\u00e3o b\u00edblica \u00abendurecer o cora\u00e7\u00e3o\u00bb. Em muitas oportunidades, a B\u00edblia parece atribuir a Deus a responsabilidade das decis\u00f5es humanas, como em [Is_6,10] e [Jo_12,40]. N\u00e3o vamos dizer que o autor tinha um conceito errado da liberdade humana, mas que se expressava numa linguagem diversa da nossa [Tg_2,14]. Pois, se acreditamos na exist\u00eancia de Deus, a liberdade humana passa a ser um mist\u00e9rio. E imposs\u00edvel conciliar de modo satisfat\u00f3rio para a raz\u00e3o esta liberdade e a omnipot\u00eancia de Deus. Tomamos livremente as nossas decis\u00f5es, mas o resultado ser\u00e1 no final de contas o que se conforma com o plano de Deus [Pr_16,1]. E n\u00e3o s\u00f3: estamos t\u00e3o mergulhados em Deus [Act_17,28], que n\u00e3o podemos decidir nem agir sem que isto esteja de algum modo com Ele. Inclusive se ofendemos o pr\u00f3ximo, este v\u00ea a nossa maldade, mas deve ver nisso tamb\u00e9m a m\u00e3o de Deus [2Mc_5,17]; [2Mc_7,18]. Pois Ele cuida que tudo concorra para o bem daqueles que O amam [Rm_8,28].

{N}2.7: A MORTE DOS PRIMOG\u00c9NITOS {/}[Ex_12,12]
{C}Todos os primog\u00e9nitos do Egipto morrer\u00e3o.{/} J\u00e1 coment\u00e1mos esta express\u00e3o em [Ex_11,1]. Cf. tamb\u00e9m o coment\u00e1rio ao cap. 22. Aqui conv\u00e9m notar como os autores do \u00caxodo sublinham o gesto soberano de Deus. Esta matan\u00e7a queria tamb\u00e9m justificar a oferenda dos primog\u00e9nitos dos animais a Deus, e ainda o resgate dos primog\u00e9nitos de Israel conforme as leis do cap. 13.
Daqui resulta tamb\u00e9m a dignidade pr\u00f3pria do filho mais velho em Israel. A B\u00edblia convida a fam\u00edlia a dar a vida e a tornar-se fecunda, n\u00e3o para pr\u00f3pria satisfa\u00e7\u00e3o mas como uma miss\u00e3o que deve cumprir. O primog\u00e9nito e as prim\u00edcias s\u00e3o o que h\u00e1 de melhor, e s\u00e3o de Deus. Oferecer-Lho \u00e9 pagar a d\u00edvida que algu\u00e9m contraiu com Deus s\u00f3 pelo facto de ter sido escolhido de prefer\u00eancia aos demais povos.
Israel pertence a Deus e \u00e9 consagrado ao culto divino. A B\u00edblia ensina-lhe deste modo a senten\u00e7a que Gandhi colocou entre os sete mandamentos da moralidade social: \u00abN\u00e3o pode haver culto sem sacrif\u00edcios\u00bb. N\u00e3o haver\u00e1 culto que n\u00e3o contemple e n\u00e3o aceite uma certa forma de morte; a carta aos Hebreus recorda-o [Hb_9,22] quando v\u00ea no culto sangrento do Templo a express\u00e3o de uma lei profunda inscrita no plano de salva\u00e7\u00e3o, a qual havia de cumprir-se em Jesus.
A nova alian\u00e7a concedida aos baptizados j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 esta integra\u00e7\u00e3o num povo diferente dos demais, e t\u00e3o-pouco poderemos pagar um dom de Deus que nos foi comunicado pessoalmente na f\u00e9 e no amor. Esta alian\u00e7a inclui sem d\u00favida uma perspectiva de morte: Jo\u00e3o recordar\u00e1 que a salva\u00e7\u00e3o de Jesus n\u00e3o \u00e9 somente uma purifica\u00e7\u00e3o, cujo sinal \u00e9 a \u00e1gua, mas tamb\u00e9m um sacrif\u00edcio, cujo sinal \u00e9 o sangue [1Jo_5,6].

{N}2.8: O DEUS SALVADOR {/}[Ex_14,30]
Certamente haver\u00e1 poucas pessoas que honrem alguma divindade sem esperar dela pouca ou muita ajuda nas suas dificuldades. \u00abLivrai-me deste problema; salvai-me do inimigo que me persegue... curai-me desta doen\u00e7a...\u00bb. Estas peti\u00e7\u00f5es abundam nos salmos. E isto \u00e9 salva\u00e7\u00e3o, pelo menos no imediato. Mas a salva\u00e7\u00e3o que as grandes religi\u00f5es oferecem tem um sentido mais amplo, quer se trate da salva\u00e7\u00e3o budista, mu\u00e7ulmana, ou crist\u00e3; desta vez entende-se que um mal profundo afecta a condi\u00e7\u00e3o humana, ou ent\u00e3o existe a aspira\u00e7\u00e3o por uma vida mais feliz depois da morte, e pensamos alcan\u00e7\u00e1-la obedecendo a determinados preceitos ou fazendo algumas mudan\u00e7as na nossa vida.
Neste sentido, \u00e9 muito verdade que a B\u00edblia nos oferece a salva\u00e7\u00e3o, mas a sua mensagem aparece s\u00f3 nos in\u00edcios. Porque n\u00e3o h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o que se possa oferecer a todos se n\u00e3o tiverem percorrido certos caminhos. Tanto a crian\u00e7a como o jovem ou o adulto precisam de muito tempo e experi\u00eancia para que possam distinguir entre o que \u00e9 bem e o que \u00e9 mal para eles, entre o que \u00e9 s\u00f3 apar\u00eancia e o que \u00e9 verdadeira riqueza e verdadeira felicidade. E todas as experi\u00eancias que a B\u00edblia nos descreve apontam para a mesma direc\u00e7\u00e3o: o homem n\u00e3o pode salvar-se por si pr\u00f3prio. Come\u00e7a com grandes projectos e belas inten\u00e7\u00f5es, mas sempre, cedo ou tarde, cai. Muitos povos julgavam que os deuses tinham inveja de n\u00f3s; a B\u00edblia elimina essas suspei\u00e7\u00f5es desde o cap. 3 do G\u00e9nesis, e \u00e9 ent\u00e3o quando apresenta uma primeira mensagem de esperan\u00e7a, sem a precisar: no fim haver\u00e1 uma vit\u00f3ria da humanidade sobre o mal.
Mas isso n\u00e3o se far\u00e1 sem Deus. E o livro do \u00caxodo ensina-nos a caracter\u00edstica particular da salva\u00e7\u00e3o crist\u00e3 quando recorda as interven\u00e7\u00f5es de Deus Salvador. O que a B\u00edblia sublinha, quando a multid\u00e3o guiada por Mois\u00e9s \u00e9 livre dos seus perseguidores, numa das margens do Mar dos Juncos, n\u00e3o \u00e9 em primeiro lugar que foi salva mas que houve um Deus Salvador: {C}Jav\u00e9... foi a minha salva\u00e7\u00e3o... \u00e9 o Deus de meu pai {/}[Ex_15,2]. O texto mostra claramente que Israel era incapaz de salvar-se por si mesmo e que nem sequer tivera a coragem de enfrentar o perigo. Mas Jav\u00e9 interv\u00e9m gratuitamente em favor deles. Interveio tanto por fidelidade \u00e0s promessas que havia feito aos seus pais [Ex_15,2] como porque queria que Israel fosse seu parceiro [Ex_15,13].
A passagem do mar, afinal, n\u00e3o foi mais do que um pequeno incidente no tocante \u00e0 hist\u00f3ria, e a salva\u00e7\u00e3o que se oferecia a esses fugitivos pode parecer-nos muito longe dos grandes problemas que atormentam a humanidade; sem d\u00favida o essencial  est\u00e1 feito. Ser\u00e3o precisos s\u00e9culos para descobrir toda a amplitude da salva\u00e7\u00e3o, mas j\u00e1 nesta p\u00e1gina lemos que o homem n\u00e3o se salva pelas suas pr\u00f3prias for\u00e7as. \u00c9 assunto de Deus e do seu amor [Ex_15,13], ou melhor, da sua livre generosidade. E n\u00f3s j\u00e1 estamos, de certo modo, salvos, quando sabemos que Deus \u00e9 um Deus que interv\u00e9m e que ama; \u00e9 tanto nosso companheiro de viagem como nossa meta.
O homem ser\u00e1 para Deus um companheiro pouco fiel e sempre inseguro. A reconcilia\u00e7\u00e3o com Deus e o perd\u00e3o dos pecados ser\u00e3o o tema central da salva\u00e7\u00e3o anunciada pelos profetas quando falarem de uma era de paz e de reconcilia\u00e7\u00e3o com a Natureza. Do mesmo modo, no Novo Testamento, a nossa reconcilia\u00e7\u00e3o com Deus Pai gra\u00e7as \u00e0 morte de Jesus ser\u00e1 o \u00e2mago da salva\u00e7\u00e3o crist\u00e3.

{N}2.9: A LITURGIA CELESTE {/}[Ex_25,40]
Estes longos cap\u00edtulos dedicados em primeiro lugar \u00e0 descri\u00e7\u00e3o de todos os objectos de culto que Mois\u00e9s tinha que fabricar no deserto, e depois, \u00e0 sua confec\u00e7\u00e3o, n\u00e3o ser\u00e1 certamente o que mais nos seduz no livro do \u00caxodo. E no entanto eram de grand\u00edssima import\u00e2ncia para quem fez a \u00faltima redac\u00e7\u00e3o do livro. \u00c9 f\u00e1cil comprovar que a narra\u00e7\u00e3o interrompida em [Ex_24,8] \u00e9 retomada directamente em [Ex_31,18], e que o bloco dos cap\u00edtulos 25-31 termina com uma lembran\u00e7a do S\u00e1bado cuja conclus\u00e3o ocupa os primeiros vers\u00edculos do cap\u00edtulo 35. Fica claro ent\u00e3o que os cap\u00edtulos 25-31 e 35-40 faziam inicialmente um s\u00f3 conjunto e que foram colocados posteriormente no livro.
O livro, na sua vers\u00e3o anterior, tinha por conclus\u00e3o a celebra\u00e7\u00e3o da alian\u00e7a perp\u00e9tua entre Deus e Israel, seguida imediatamente do pecado original de Israel, a festa do bezerro de ouro. Mas, no momento de o incluir na B\u00edblia, mudaram um pouco a orienta\u00e7\u00e3o primitiva. Agora sublinha-se que a alian\u00e7a de Deus com Israel encontra a sua perfeita express\u00e3o no culto que Israel, o \u00fanico entre todas as na\u00e7\u00f5es, prestava a Jav\u00e9 no seu Templo.
Dissemos brevemente no coment\u00e1rio a [Ex_25,1] que toda essa vis\u00e3o da Tenda-Santu\u00e1rio no deserto tinha como que dois fundamentos. Por um lado, conservava-se a lembran\u00e7a de uma tenda que continha os objectos sagrados da tribo n\u00f3mada (para Israel era essencial o cofre chamado{C} arca{/}) e que o acompanhava nas suas desloca\u00e7\u00f5es. Por outro lado, queria afirmar-se que o povo de Mois\u00e9s j\u00e1 tinha no deserto uma antecipa\u00e7\u00e3o do Templo de Jerusal\u00e9m sob a forma de um imenso santu\u00e1rio m\u00f3vel. Essa tenda, concebida e executada \u00e0 medida de uma multid\u00e3o de 600.000 pessoas, n\u00e3o existiu sen\u00e3o na imagina\u00e7\u00e3o dos seus autores, mas com isso queriam afirmar a import\u00e2ncia do culto na voca\u00e7\u00e3o de Israel. Estes cap\u00edtulos dedicados a todo o material do culto afirmavam o dom\u00ednio de Deus; est\u00e3o colocados logicamente onde os puseram, antes de todas as demais leis que se ir\u00e3o encontrar no Lev\u00edtico e nos N\u00fameros.
A Tenda - ou, mais tarde, o Templo - \u00e9 o lugar onde se celebra a liturgia segundo as leis dada pelo pr\u00f3prio Deus. \u00c9 o que significa o vers\u00edculo [Ex_25,40]: {C}Faz tudo de acordo com o modelo que te foi mostrado no alto da montanha.{/} O mesmo se diz em [Ex_26,30] e [Ex_27,8]. Encontrar-se-\u00e1 uma confirma\u00e7\u00e3o de um culto terrestre semelhante \u00e0 liturgia celeste noutras passagens da B\u00edblia: [Sb_9,8]; [Ecl_24,9] - [Ecl_24,11]. No Novo Testamento o discurso de Est\u00eav\u00e3o alude a ele. \u00c9 bom recordar isto para compreender o que diz o evangelho de Jo\u00e3o a respeito do Templo, que \u00e9 corpo - n\u00f3s dir\u00edamos que \u00e9 pessoa - de Jesus [Jo_2,21]. A carta aos Hebreus evoca o Templo celeste onde Cristo entrou levando o seu pr\u00f3prio sangue [Jo_9,11] - [Jo_9,12] e em seguida passa a outra imagem [Jo_10,19]: o Templo \u00e9 o corpo de Cristo.
O Apocalipse de Jo\u00e3o fala tamb\u00e9m desse Templo celeste no qual s\u00e3o pronunciadas as senten\u00e7as de Deus em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Hist\u00f3ria, a partir de [Jo_11,19] at\u00e9 ao cap. 16. No final da Hist\u00f3ria, essa vis\u00e3o do Templo sair\u00e1 de cena, porque no estado final, Deus \u00e9 tudo em todos: [Jo_21,22].
Toda esta lembran\u00e7a n\u00e3o est\u00e1 porventura a mais, porquanto o nosso cristianismo ocidental esqueceu essa longa tradi\u00e7\u00e3o que, ao inv\u00e9s, marca profundamente a liturgia  eucar\u00edstica da Igreja grega.

{N}2.10: OS MILAGRES DO DESERTO {/}[Ex_40,36]
N\u00e3o podemos duvidar de que atrav\u00e9s de toda a aventura do Sinai houve sinais muito importantes da interven\u00e7\u00e3o de Deus. N\u00e3o se v\u00ea como poderiam ter nascido essas tradi\u00e7\u00f5es sobre as maravilhas no deserto sem que tivesse acontecido alguma coisa. Embelezaram-nas, acrescentaram-lhes muito elementos, mas ali como em toda a parte s\u00f3 se empresta aos ricos. Jamais saberemos como aconteceram as coisas. Acontecimentos que, vistos \u00e0 dist\u00e2ncia, n\u00e3o poderiam ser mais do que fruto da casualidade, foram reconhecidos como obras de Deus pelos que os viveram e sentiram na sua pr\u00f3pria carne, e que ficaram impressionados por mil pormenores concretos que n\u00e3o deixavam lugar para d\u00favidas. Os que depois transmitiram essas recorda\u00e7\u00f5es eram incapazes de salvaguardar o contexto, pelo que os factos transmitidos perdiam o seu sentido divino e tornavam-se comuns. Sabendo que havia acontecido algo de maravilhoso, os que transmitiam as hist\u00f3rias expressaram-nas \u00e0 sua maneira multiplicando os prod\u00edgios, como se faz com as hist\u00f3rias edificantes. Pode dizer-se, em geral, que se inventaram milagres para colmatar os que j\u00e1 n\u00e3o sabiam contar-se tal como tinham acontecido.
J\u00e1 fal\u00e1mos do man\u00e1 e das codornizes no coment\u00e1rio a [Ex_17,8]. No que diz respeito \u00e0 nuvem, \u00e9 um facto que quando come\u00e7a um pequeno ciclone no Sinai (o que n\u00e3o \u00e9 raro), d\u00e1-se conta dele frequentemente por um redemoinho que levanta gr\u00e3os de areia t\u00e3o finos que formam uma poeira fina e impalp\u00e1vel: uma verdadeira coluna luminosa que se move lentamente, totalmente resplandecente \u00e0 luz do sol. \u00c9 muito prov\u00e1vel que a nuvem do \u00caxodo provenha de testemunhos relativos a esses fen\u00f3menos. Mas o que interessa aqui \u00e9 a interpreta\u00e7\u00e3o que se lhe deu. A nuvem era uma bela imagem, dada por Deus, e que podia exprimir muitas coisas para as quais n\u00e3o h\u00e1 palavras: a presen\u00e7a misteriosa de Deus connosco, luminosa e ao mesmo tempo obscura.

{N}2.11: O DEUS SANTO QUE TORNA SANTO {/}[Lv_10,3]
{C}Darei a conhecer a minha santidade atrav\u00e9s dos que se aproximam de Mim. {/}Esta \u00e9 uma palavra bem esclarecedora sobre o destino de um povo santo. Muitos entender\u00e3o a sua perten\u00e7a a um povo ou a uma Igreja como um chamamento para levar uma vida mais exigente [1Ts_4,7] querer\u00e3o que a perfei\u00e7\u00e3o da sua vida quotidiana seja um testemunho rendido \u00e0 verdade em que acreditaram [1Pd_3,1], ou querer\u00e3o honrar aquele cujo nome levam [Mt_5,16]; [Rm_2,24]. Outros tirar\u00e3o uma conclus\u00e3o bem diferente: Se a Igreja \u00e9 Santa, h\u00e1 que ver as suas actua\u00e7\u00f5es com um preconceito favor\u00e1vel e atribuir apenas \u00e0 fraqueza humana as faltas que a opini\u00e3o p\u00fablica reprova e que ningu\u00e9m poder\u00e1 negar. Outros sustentar\u00e3o que essa santidade nos obriga ao sil\u00eancio e \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o obediente do que dizem ou fazem os que se sentam na cadeira de Mois\u00e9s [Mt_23,2] [Hb_4,19].
A palavra de Deus p\u00f5e aqui a claro a responsabilidade terr\u00edvel daqueles que Deus escolheu. Quer honrem a Deus, quer estorvem a irradia\u00e7\u00e3o da sua Gl\u00f3ria, Deus ser\u00e1 conhecido atrav\u00e9s deles. A escolha da parte de Deus de um povo que ser\u00e1 santo e como tal diferente dos outros, n\u00e3o significa que esse povo seja melhor que os outros povos: o fim do s\u00e9culo desenterrou e p\u00f4s a claro muitas faltas cometidas pelo povo crist\u00e3o \u00e0 escala continental e perante as quais a consci\u00eancia dos mais altos respons\u00e1veis quase n\u00e3o se calou. Verdade ou mentira, alguns autores s\u00e9rios puderam dizer que a viol\u00eancia religiosa atingiu o seu ponto mais alto entre os crist\u00e3os. E embora hoje em dia os bispos pe\u00e7am perd\u00e3o pelos pecados cometidos pelos seus predecessores, esquecem por vezes os esc\u00e2ndalos actuais de que s\u00e3o respons\u00e1veis. 
Mas a verdade \u00e9 que Deus manifestar\u00e1 a sua santidade em todos os casos: dar\u00e1 a conhecer ao mundo os pecados cometidos em segredo pelos seus [2Sm_12,12],  humilhar\u00e1 aqueles que deveriam ter sido o seu orgulho - e at\u00e9 aceita ser diminu\u00eddo durante algum tempo juntamente com eles [Ez_36,1] - [Ez_36,20] e [Ez_36,22]. Numa palavra, ningu\u00e9m poder jogar ou proteger-se com o seu nome. [Is_42,8] e [Is_48,11], sendo apenas um escudo entre outros [Is_45,9]. O segundo livro dos Macabeus, t\u00e3o duro contra os perseguidores do povo de Deus, n\u00e3o \u00e9 menos severo com este povo: todas as nossas persegui\u00e7\u00f5es, diz, merecemo-las pelos nossos pecados, e um sinal do interesse muito especial que Deus tem connosco e que n\u00e3o tarda em fazer-nos pagar as nossas infidelidades [2Mc_5,18]; [2Mc_7,18].

{N}2.12: PENALIZA\u00c7\u00c3O DA MULHER{/}[Lv_12,5]
Este par\u00e1grafo \u00e9 um dos que aprovam de maneira indiscut\u00edvel o status inferior da mulher. No cap 27, a valoriza\u00e7\u00e3o das pessoas marcar\u00e1 inequivocamente o valor menor da mulher, mas poderia dizer-se que ali se trata de uma aprecia\u00e7\u00e3o do ponto de vista econ\u00f3mico, no caso de um homem ou de uma mulher puderem ser vendidos como escravos. Em contrapartida, aqui est\u00e1 muito claro que a mulher \u00e9 muito menos digna de se aproximar de Deus. S\u00f3 nos podemos alegrar de que essas leis tenham sido consideradas, desde o primeiro conc\u00edlio de Jerusal\u00e9m [Hb_15,10], como disposi\u00e7\u00f5es transit\u00f3rias que tinham apenas valor para o povo judeu e somente para o tempo que antecedia a vinda do descendente de Abra\u00e3o [Gl_3,19]. 
Mas, por outro lado, embora n\u00e3o se possa mudar a Sagrada Escritura, n\u00e3o ser\u00e1 esta discrimina\u00e7\u00e3o o ponto de partida de uma d\u00e1diva de Deus? J\u00e1 que Deus gosta de acabar com os privil\u00e9gios adquiridos, e se Ele tolerou durante algum tempo essa inferioridade oficial, n\u00e3o ter\u00e1 por acaso sido para dar mais generosamente \u00e0s mulheres carismas que os homens quase n\u00e3o t\u00eam?

{N}2.13: PROIBI\u00c7\u00d5ES SEXUAIS{/}[Lv_18,6]
O par\u00e1grafo [Lv_1,5] era um pouco como o pre\u00e2mbulo das leis que se seguem: justificava a imposi\u00e7\u00e3o das leis num terreno onde os povos vizinhos quase n\u00e3o tinham escr\u00fapulos. As regras morais, sobretudo no campo sexual, foram sempre para uma boa parte o resultado de um consenso social cujas origens n\u00e3o podiam ser recordadas. Faziam parte das tradi\u00e7\u00f5es de cada povo. Foi um facto que os diversos povos que entraram no territ\u00f3rio de Cana\u00e3 adoptaram os seus costumes ao mesmo tempo que a sua religi\u00e3o naturista. Deus, no entanto, imp\u00f5e ao seu povo costumes diferentes. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel discutir, s\u00f3 h\u00e1 que obedecer, e a obedi\u00eancia v\u00ea-se refor\u00e7ada por uma experi\u00eancia que se estende por gera\u00e7\u00f5es: a licenciosidade sexual conduz \u00e0 morte [Dt_4,3] - [Dt_4,4]. 
H\u00e1 portanto aqui uma s\u00e9rie de leis cuja a interpreta\u00e7\u00e3o poderia variar depois como foi o caso dos matrim\u00f3nios entre consangu\u00edneos, um problema que provocou o decreto de Jerusal\u00e9m [Act_15,20]. Mas o conjunto foi mantido pela tradi\u00e7\u00e3o judaica e quando Paulo p\u00f5e em d\u00favida a imposi\u00e7\u00e3o da Lei e dos costumes judaicos aos convertidos do mundo grego, nem por um instante discute as proibi\u00e7\u00f5es sexuais do Lev\u00edtico. Nos resumos da moral elementar como o s\u00e3o as passagens [1Cor_5,9] - [1Cor_5,11] e [1Cor_6,9] - [1Cor_6,10] voltamos a encontr\u00e1-las. Em [Rm_1,22] - [Rm_1,27] Paulo v\u00ea uma uni\u00e3o estreita entre as rela\u00e7\u00f5es homosexuais e a idolatria: o exemplo da sociedade grega, na qual tinha sido educado, tinha-o instru\u00eddo a esse respeito.
\u00c9 espantoso ver hoje em dia os crist\u00e3os que se levantam contra essas leis como se a Palavra de Deus tivesse que interpretar-se, suavizar-se e acabar no museu pelo simples motivo de que sectores muito importantes do mundo contempor\u00e2neo recusam qualquer disciplina sexual. Mas que autoridade podem atribuir a si pr\u00f3prios os pregoeiros de uma sociedade sem filhos e portanto em vias de desaparecimento? [Lv_18,25]. A via crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9 o resultado de um consenso democr\u00e1tico, mas imp\u00f5e-se antes pela for\u00e7a do Esp\u00edrito. O povo que Deus escolheu [1Pd_2,9] recebeu uma determinada vis\u00e3o do homem e da maneira como deve atingir a sua maturidade e n\u00e3o pode renegar nem a Cruz nem a maneira de imitar Deus que o faz diferente dos n\u00e3o-crist\u00e3os. No coment\u00e1rio de [1Cor_7,1] referimos o argumento maior de Paulo para justificar a disciplina sexual do crist\u00e3o: a nossa consagra\u00e7\u00e3o a Cristo pelo baptismo. Mas as proibi\u00e7\u00f5es propriamente ditas n\u00e3o s\u00e3o inventadas por Paulo, s\u00e3o antes  essencialmente do Lev\u00edtico.

{N}2.14: A MORADA E A TENDA {/}[Nm_9,15]
Do mesmo modo que noutros lugares do \u00caxodo e dos N\u00fameros [Nm_3,25], aqui a Morada cuja constru\u00e7\u00e3o ocupa a maior parte do \u00caxodo 25-40 identifica-se com a Tenda do Testemunho. Al\u00e9m disso, \u00e9 claro que o livro do \u00caxodo fala indiferentemente da Tenda do Testemunho e da Tenda das Reuni\u00f5es.
Digamos em primeiro lugar que as duas palavras {C}Testemunho e Reuni\u00e3o {/}s\u00e3o parentes entre si em hebraico.{C} Testemunho {/}\u00e9 o Testemunho ou Declara\u00e7\u00e3o Divina que se guarda na Arca e que se exprime entre outras coisas atrav\u00e9s dos dez mandamentos. {C}Reuni\u00e3o: {/}\u00e9 o lugar onde  Deus se encontra com Mois\u00e9s quando quer conversar com ele [Ex_29,42]; [Nm_12,5]; [Nm_17,7] - [Nm_17,8]. Em ambos os casos trata-se de uma tenda no segredo da qual Deus Se manifesta unicamente a Mois\u00e9s  [Nm_12,5].
Mas quando depois se quis montar toda a fic\u00e7\u00e3o da Morada grandiosa, o primeiro esbo\u00e7o do Templo de Jerusal\u00e9m, procurou-se identificar com a Tenda da qual as tradi\u00e7\u00f5es mais antigas conservavam a lembran\u00e7a (ver especialmente [Ex_38,21]). Na realidade, se se queria uma Morada grandiosa para o culto divino, sonhava-se ainda mais com um tempo em que Deus Se encontraria com o seu amigo e lhe falaria cara a cara [Nm_12,7] - [Nm_12,8]. Em todo o livro de Job est\u00e1 impl\u00edcito este sonho que os profetas acariciaram de vez em quando [Is_30,20]. 
O par\u00e1grafo presente faz o elogia de um tempo em que Deus intervinha pessoalmente, dava ordens e tomava nas suas m\u00e3os a direc\u00e7\u00e3o do povo. J\u00e1 tivemos ocasi\u00e3o de recordar que os livros santos apresentam a hist\u00f3ria passada como uma grande epopeia em que Deus levava soberanamente todas as coisas a um fim onde a sua justi\u00e7a e a sua salva\u00e7\u00e3o se manifestavam. V\u00ea-se isso desde a hist\u00f3ria de Abra\u00e3o, volta-se a ver no livro de Josu\u00e9, e muito depois, nas Cr\u00f3nicas. Mas isso era um ponto de vista da f\u00e9, e na altura os que foram os autores da Hist\u00f3ria tiveram uma experi\u00eancia bastante diferente: o pouco que se tinha feito com grandes esfor\u00e7os continha muitas sombras e a presen\u00e7a de Deus tinha sido normalmente muito discreta, mesmo quando n\u00e3o se duvidava dela.  Em alguns lugares vemos a estranheza e at\u00e9 o esc\u00e2ndalo do crente que compara o que acontece perante os seus olhos com o que as tradi\u00e7\u00f5es contam sobre o passado e n\u00e3o compreende que Deus tenha mudado [Sl_77,1]: Porque \u00e9 que os c\u00e9us est\u00e3o fechados e j\u00e1 n\u00e3o respondem? [Is_63,7] - [Is_3,16]; [Sl_74,9] - [Sl_74,10].
Que secreto desejo impulsionou os homens de f\u00e9 a tornar o passado mais belo do que foi e Deus mais generoso? Em primeiro lugar, projectou-se sobre a Hist\u00f3ria antiga tudo o que se gostaria de ver no presente, come\u00e7ando pela hist\u00f3ria de Ad\u00e3o e continuando pela de Mois\u00e9s e pela de David; mas depois projectou-se para o futuro o que se lia nos livros de Hist\u00f3ria e come\u00e7ou-se a esperar. Foi o aguilh\u00e3o da esperan\u00e7a que fez amadurecer em Israel a esperan\u00e7a de uma nova era com um Messias enviado por Deus. Em todas as culturas se pensou numa idade de ouro no in\u00edcio dos tempos, mas depressa ficou decidido que apenas haveria uma idade do ferro. Na realidade em todas as latitudes houve homens e mulheres que \u00abesperaram contra toda a esperan\u00e7a\u00bb. [Rm_4,18], mas evidentemente foi na revela\u00e7\u00e3o b\u00edblica que a loucura da esperan\u00e7a se instalou mais profundamente.

{N}2.15: OS ANCI\u00c3OS {/}[Nm_11,24]
O \u00caxodo 18 via a origem dos ju\u00edzes ou Anci\u00e3os, numa sugest\u00e3o do sogro madianita de Mois\u00e9s. Aqui, pelo contr\u00e1rio, \u00e9 Deus quem o ordena. Seja como for, estes anci\u00e3os ser\u00e3o a autoridade com mais profundas ra\u00edzes na tradi\u00e7\u00e3o israelita. No tempo dos reis, o poder central vai reduzir o seu papel e manipul\u00e1-los, como se v\u00ea em [1Rs_21,8] - [1Rs_21,12]. Voltar\u00e3o a ocupar o primeiro lugar durante o Ex\u00edlio na Babil\u00f3nia, como se pode ver em Ezequiel [Ez_8,1]; [Ez_14,1]; [Ez_20,1]. De volta do Ex\u00edlio a sua autoridade combinar-se-\u00e1 com a dos sacerdotes: o sin\u00e9drio ou supremo conselho do povo judeu na \u00e9poca do Novo Testamento ser\u00e1 composto por sacerdotes, anci\u00e3os e mestres da Lei. De facto, esses anci\u00e3os s\u00e3o os chefes das mais importantes fam\u00edlias. Mas, fora da Palestina, em todas as comunidades espalhadas entre as na\u00e7\u00f5es, os sacerdotes n\u00e3o desempenhar\u00e3o um papel activo, j\u00e1 que o Templo n\u00e3o est\u00e1 ali, e quem ter\u00e1 a autoridade nas sinagogas ser\u00e3o os anci\u00e3os. 
Os anci\u00e3os exprimem a ideia de um povo de Deus feito de comunidades, em que os chefes n\u00e3o se sintam superiores \u00e0 comunidade e os problemas solucionam-se de uma  forma mais humana que administrativa. S\u00e3o o oposto de uma autoridade que pretende impor-se de cima. A B\u00edblia reserva o direito do rei e do sumo sacerdote escolhidos por Deus, mas mant\u00e9m uma atitude cr\u00edtica quando um chefe pretende tornar-se dono do povo de Deus [1Sm_8,11]; [2Sm_24,1]; [1Rs_12,1]. No dia que o Apocalipse nos mostra o povo de Deus reunido no c\u00e9u para receber Cristo que se apresenta vitorioso, vinte e quatro anci\u00e3os s\u00e3o seus representantes e est\u00e3o sentados ao redor do trono: j\u00e1 n\u00e3o se fala de reis [Ap_4,4].
N\u00e3o esque\u00e7amos que na Igreja primitiva, a autoridade dos ap\u00f3stolos, verdadeiras testemunhas de Cristo e da f\u00e9, n\u00e3o diminu\u00eda em nada a dos anci\u00e3os. Para os escolher seguia-se o modelo das sinagogas; presidiam \u00e0 comunidade e \u00e0 sua eucaristia, mas o facto da palavra {C}anci\u00e3o{/} ter tido o mesmo sentido que {C}presb\u00edtero {/}n\u00e3o significa necessariamente que tenham sido os equivalentes aos "presb\u00edteros" da actualidade. No N. T. os ap\u00f3stolos s\u00e3o fi\u00e9is ao esp\u00edrito comunit\u00e1rio do passado e ao mesmo tempo conscientes da sua autoridade como testemunhas de Cristo; n\u00e3o \u00e9 por acaso que Pedro e Jo\u00e3o d\u00e3o a si pr\u00f3prios o t\u00edtulo de anci\u00e3os [1Pd_5,1]; [Jo_1,1]; [3Jo_1,1].
A comunica\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito aos anci\u00e3os introduz v\u00e1rios ensinamentos. Por um lado, as autoridades do povo de Deus n\u00e3o podem decidir sen\u00e3o sob a inspira\u00e7\u00e3o  da sabedoria divina; mas tamb\u00e9m o esp\u00edrito que recebem os anci\u00e3os \u00e9 o mesmo que residia em Mois\u00e9s, e isto significa que ningu\u00e9m poder\u00e1 mudar as bases da revela\u00e7\u00e3o. Pode surpreender-nos que o Deuteron\u00f3mio preveja para a vinda do Profeta que todos dever\u00e3o ouvir: gra\u00e7as a este texto fica aberto o futuro, e embora Jesus recorde a inspira\u00e7\u00e3o divina da Lei, nem por isso se julgar\u00e1 obrigado a limitar-Se aos esquemas  de Mois\u00e9s. 

{N}2.16: DEUS PERDOA {/}[Nm_14,11]
A p\u00e1gina seguinte e a ora\u00e7\u00e3o de Mois\u00e9s s\u00e3o muito semelhantes ao que lemos no \u00caxodo [Ex_32,9], [Ex_32,13]. Encontraremos algo semelhante em Jeremias. Este di\u00e1logo \u00e9 por certo uma maneira de exprimir tanto o que deveria ser a reac\u00e7\u00e3o de Deus justo que castiga a desobedi\u00eancia como qual ser\u00e1 a atitude de Deus que v\u00ea para l\u00e1 do momento presente. Ele nunca Se sentir\u00e1 diminu\u00eddo pelas nossas faltas. Perdoa tudo castigando. Poderia pensar-se que este  \u00abperd\u00e3o de Deus\u00bb mostra apenas a continuidade da sua obra atrav\u00e9s das idades: castiga a gera\u00e7\u00e3o presente, que n\u00e3o entrar\u00e1 na Terra, mas n\u00e3o deter\u00e1 a obra que iniciou ao escolher  um povo. Essa obra deve continuar at\u00e9 ao fim da Hist\u00f3ria. 
No entanto, a palavra perdoar d\u00e1 a entender algo mais. N\u00e3o existe nada em Deus que recorde as pequenezas da nossa psicologia. Pelo contr\u00e1rio Ele \u00e9, no n\u00edvel mais amplo, a capacidade de Se dar na compreens\u00e3o e no amor ou no jogo m\u00fatuo. E por mais profundo que seja o mist\u00e9rio de Deus, \u00e9 demasiadamente importante para n\u00f3s sustentar esta palavra de perd\u00e3o, que s\u00f3 ter\u00e1 sentido onde houver olhar m\u00fatuo e d\u00edvida verdadeira  que o amor reconhece. N\u00e3o pe\u00e7amos ao livro dos N\u00fameros, pois aqui trata-se de tradi\u00e7\u00f5es antigas, o desenvolvimento e as delicadezas que ir\u00e3o aparecendo depois. Mais que da paci\u00eancia de Deus, os profetas falar\u00e3o principalmente da sua fidelidade; e posteriormente vir\u00e1 a consci\u00eancia de uma rela\u00e7\u00e3o m\u00fatua entre Deus e a pessoa humana num s\u00f3 esp\u00edrito [1Cor_6,17]. Ali tudo \u00e9 perdoado, e Deus \u00e9 mais que paciente j\u00e1 que Se entregou a Si mesmo. 

{N}2.17: O DEUS QUE CASTIGA {/}[Nm_17,1]
De novo neste relato, \u00abDeus castiga\u00bb. Alguns ao lerem isto com demasiada pressa, descobrem aqui apenas este ensinamento, sempre o mesmo: os que se portam mal ser\u00e3o castigados. No caso presente falar-se-\u00e1 daqueles que se revoltam contra os representantes de Deus. Outros ficar\u00e3o com a ideia de um Deus muito aborrecido e rancoroso e queixar-se-\u00e3o tal como os israelitas em [Nm_17,27]: Se continuarmos assim todos morreremos. 
N\u00e3o nos deve surpreender que nesses livros Deus actue com autoridade, Se aborre\u00e7a e castigue mesmo em ocasi\u00f5es em que os culpados agiram talvez com ignor\u00e2ncia.  E que Lhe importa a Ele hoje, se essas actua\u00e7\u00f5es nos escandalizam (ver o livro de Job)? Est\u00e1 fora de d\u00favida que Deus se adapta \u00e0 imagem que n\u00f3s fazemos d'Ele. Ao contr\u00e1rio do professor que ensina sem se preocupar demasiado sobre como ser\u00e3o interpretadas as suas palavras, Deus fala a cada um com a linguagem que lhe \u00e9 familiar. Devolve a cada um as suas pr\u00f3prias condena\u00e7\u00f5es e d\u00e1 aos que repreende os sinais que eles poder\u00e3o interpretar. Uma vez que Deus Se queria revelar a um povo ainda primitivo, acostumado a uma justi\u00e7a activa que ignorava as motiva\u00e7\u00f5es dos culpados, n\u00e3o podia sen\u00e3o adoptar os seus modos. 
Mesmo no caso desta hist\u00f3ria ter sido ver\u00eddica, que perderam os culpados? A que felicidade e a quantos anos de vida tinham direito perante Deus? Podemos falar de autoridade quando nos referimos \u00c0quele que desde as origens viu todas as nossas vidas? N'Ele j\u00e1 n\u00e3o contam o n\u00famero dos nossos dias na terra nem os anos em que pudemos  gozar de uma alegria, nem os sofrimentos, talvez horr\u00edveis que nos levaram \u00e0 nossa maturidade eterna.

{N}2.18: O SUMO SACERDOTE {/}[Nm_35,22]
Veja-se o que prescrevem os vers\u00edculos 25 e 28: at\u00e9 \u00e0 morte do Sumo Sacerdote.
O sumo Sacerdote n\u00e3o \u00e9 apenas o encarregado de cumprir ritos. A partir do momento em que foi consagrado por uma un\u00e7\u00e3o muito solene [Ex_29,1]; [Lv_8,1] passa a ser e ser\u00e1 at\u00e9 \u00e0 sua morte uma defesa contra os castigos divinos.  Como vimos nos epis\u00f3dios dedicados a Aar\u00e3o, \u00e9 ele quem protege o povo da ira de Deus [Nm_17,12]. Possui o privil\u00e9gio terr\u00edvel de todos os anos entrar no santu\u00e1rio mais reservado do Templo, o Santo dos Santos, para a Festa do Perd\u00e3o [Hb_9,7]. Ali derrama sobre a cobertura da Arca, o Instrumento de Expia\u00e7\u00e3o, o sangue da vitela sacrificada [Nm_19,1]. A veste sagrada que usa \u00e9 uma parte essencial do rito, da\u00ed a import\u00e2ncia que as regras da sua confec\u00e7\u00e3o ocupam no \u00caxodo [Ex_26,1] e [Ex_39,1]. Na \u00e9poca de Jesus, sob a ocupa\u00e7\u00e3o romana, o governador guardava essas vestes e s\u00f3 as entregava na altura da Festa, e imediatamente a seguir voltava a ficar com elas. Era esse o meio de que dispunha para ter o Sumo Sacerdote debaixo da sua al\u00e7ada. 
A morte do Sumo Sacerdote era ocasi\u00e3o de uma amnistia semelhante \u00e0 que acompanhava o ano Jubileu. Na \u00e9poca de Jesus, as mulheres da fam\u00edlia do Sumo Sacerdote preocupavam-se principalmente com os presos e davam-lhes esmolas para que n\u00e3o tivessem a ideia de pedir a Deus que o Sumo Sacerdote morresse apressando assim, a sua sa\u00edda da pris\u00e3o.  O preceito que se l\u00ea no [Ex_22,27] refere-se principalmente ao Sumo Sacerdote. Compreender-se-\u00e1 ent\u00e3o que esse ungido ou Messias do Senhor seja uma personagem sagrada (em linguagem b\u00edblica, uma pessoa santa) apesar dos seus aspectos  negativos. Veja-se a prop\u00f3sito disto a apresenta\u00e7\u00e3o de Cristo como Sumo Sacerdote dos novos tempos em Hb cap 5-10.

{N}2.19: A SABEDORIA DA B\u00cdBLIA{/} [Dt_4,5]
{C}\u00abQue povo \u00e9 t\u00e3o s\u00e1bio e inteligente como esta grande na\u00e7\u00e3o?\u00bb{/} . Este livro \u00e9 contempor\u00e2neo do cap 20 do \u00caxodo e dos nossos Dez Mandamentos. Foi escrito oito s\u00e9culos antes de Cristo e j\u00e1 nele lemos esta afirma\u00e7\u00e3o: Deus deu-nos uma tal sabedoria que n\u00e3o foi comunicada aos outros povos. Qualquer um poderia sorrir \u00e0 dist\u00e2ncia e pensar que, do campan\u00e1rio da sua aldeia, o escritor sagrado via apenas um recanto do mundo e que com prazer ignorava quer as milen\u00e1rias culturas eg\u00edpcias e mesopot\u00e2micas que o tinham precedido quer as grandes culturas e religi\u00f5es da long\u00ednqua \u00c1sia.
E no entanto, estava consciente de ser o deposit\u00e1rio de leis surpreendentes:
- a afirma\u00e7\u00e3o de Jav\u00e9, Deus \u00fanico, o qual n\u00e3o Se pode representar;
- a f\u00e9 no Deus Justo que exige a fidelidade interior e a pr\u00e1tica da justi\u00e7a acima de qualquer outra forma de culto;
- a obriga\u00e7\u00e3o rigorosa do s\u00e1bado como o meio para preservar a liberdade e a dignidade das pessoas;
- a protec\u00e7\u00e3o da vida humana e o respeito pelo estrangeiro, que frequentemente era antes um forasteiro, quer dizer, um israelita que vivia no territ\u00f3rio de uma tribo que n\u00e3o era a sua. 
- a rejei\u00e7\u00e3o de qualquer licenciosidade sexual. 
O autor do livro via j\u00e1 o benef\u00edcio destas leis que s\u00f3 seria apreciado em toda a sua amplitude quando todas as culturas vizinhas tivessem desaparecido.
Mas se o orgulho de serem os detentores de uma sabedoria superior podia fazer nascer em Israel o sentimento de serem privilegiados, pode-se tamb\u00e9m inverter a ordem dos termos: a certeza de ter sido chamado por Deus com um destino \u00fanico era um dos pilares da sabedoria de Israel. Todo o edif\u00edcio da Lei teria ca\u00eddo se n\u00e3o se tivesse acreditado na alian\u00e7a de Jav\u00e9 com Israel [Dt_4,13]; [Dt_4,20]. O Deuteron\u00f3mio inspirou-se fortemente na prega\u00e7\u00e3o dos primeiros profetas da escola de Elias, e vai repetir-nos de mil maneiras que s\u00f3 h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o para Israel na fidelidade \u00e0 sua voca\u00e7\u00e3o. 
Encontramos aqui um tra\u00e7o caracter\u00edstico da identidade do povo da B\u00edblia. Hoje em dia, temos portanto que abrir os olhos diante das religi\u00f5es do mundo e ver como atrav\u00e9s delas Deus fez uma obra de salva\u00e7\u00e3o em todas as culturas. \u00c9 muito importante reconhecer que nem a religi\u00e3o de Israel nem o cristianismo foram princ\u00edpios absolutos, mas que as suas doutrinas tiveram antecedentes noutras religi\u00f5es. Contudo, depois de todos esses aspectos terem sido esclarecidos e de se ter tentado elaborar uma \u00abgenealogia das religi\u00f5es\u00bb, nada se ter\u00e1 ainda dito sobre o que \u00e9 essencial na revela\u00e7\u00e3o b\u00edblica: desta revela\u00e7\u00e3o foi encarregue o \u00fanico povo a que Deus Se deu a conhecer face a face. Enquanto outros se dizem testemunhas do indiz\u00edvel de Deus, aqui Deus diz-Se e torna-Se pr\u00f3ximo. Em toda a parte as outras religi\u00f5es prop\u00f5em leis divinas, falam da sabedoria e procuram o Absoluto, mas em nenhuma parte por\u00e3o no centro da procura, ou do servi\u00e7o, ou da obedi\u00eancia, um conhecimento de Deus face a face [Dt_4,7]; [Dt_4,35]; [Cl_2,8] - [Cl_2,10].
\u00c9 verdade que o Deuteron\u00f3mio disse: \u00abOuvistes o som das palavras, mas n\u00e3o vistes nenhuma figura\u00bb [Dt_4,12]; [Dt_5,24]. Mas nessas palavras existe apenas uma rejei\u00e7\u00e3o a qualquer imagem e tamb\u00e9m o chamamento \u00e0 f\u00e9; n\u00e3o negam que Deus Se tenha manifestado.  O discurso que o autor atribuiu a Jav\u00e9 \u00e9 constantemente a palavra de um Deus que Se revela aos que ama e que O amam [Dt_4,37]; [Dt_7,8]; [Dt_6,4]. Passemos ao Novo Testamento e teremos o Discurso depois da Ceia, de Jo\u00e3o cap. 14-17. Isto n\u00e3o tem equivalentes nem antecedentes em nenhuma religi\u00e3o.

{N}2.20: FOSTE ELEITO{/} [Dt_7,6]
{C}Ele escolheu-te dentre todos os povos da terra para que sejas o seu pr\u00f3prio povo.{/} Ouve-se frequentemente esta pergunta: porque \u00e9 que Deus escolheu Israel em vez de qualquer outro povo? Devemos lembrar-nos que Deus n\u00e3o est\u00e1 na situa\u00e7\u00e3o de um jurado que escolhe entre diversos candidatos e que s\u00f3 pode avaliar os seus m\u00e9ritos e as suas aptid\u00f5es. A escolha de Israel fez-se na eternidade, mesmo antes da Hist\u00f3ria ser posta em marcha e de se diversificarem os povos. Por esse motivo a B\u00edblia faz remontar as suas genealogias at\u00e9 ao primeiro Ad\u00e3o [Gn_5,1]; [Lc_3,38].
P\u00f5e-se agora aos crist\u00e3os uma quest\u00e3o mais grave. Embora o judeu actual esteja consciente da sua originalidade no meio dos outros povos, pelo simples facto de ter nascido de pais judeus, em contrapartida a um crist\u00e3o custa-lhe dizer em que \u00e9 diferente dos outros, e mais ainda como foi escolhido por Deus. Ao contr\u00e1rio do primeiro caso, o que faz um crist\u00e3o n\u00e3o \u00e9 ter nascido nesta ou naquela fam\u00edlia, neste ou naquele povo. \u00c9 certo que nos pa\u00edses da Europa e da Am\u00e9rica at\u00e9 h\u00e1 pouco tempo, era-se crist\u00e3o de nascimento e chegava-se quase necessariamente ao baptismo. Os pais decidiam da f\u00e9 dos seus filhos e ao faz\u00ea-lo continuavam uma longa tradi\u00e7\u00e3o que ningu\u00e9m poderia criticar.  No entanto, esta tradi\u00e7\u00e3o deixava na sombra uma das caracter\u00edsticas essenciais do baptismo, que \u00e9 a resposta a um chamamento. Veja-se o texto de Jeremias que anuncia a nova Alian\u00e7a: trata-se de um reconhecimento m\u00fatuo de Deus e dos seus filhos ou filhas. 
Os Actos mostram-nos como a Igreja nasceu desses judeus que reconheceram em Jesus o seu Messias e que, com Ele, quiseram ser o povo da nova alian\u00e7a. E quando se deram conta que o conjunto do povo n\u00e3o os seguia, compreenderam melhor que tinham sido escolhidos. Alguns anos depois, os gregos e os n\u00e3o-judeus que em todos os pa\u00edses se deixavam impelir pelo Evangelho tinham uma experi\u00eancia semelhante: tinha-lhes sido necess\u00e1ria uma disciplina e um catecumenato para entrar na comunidade dos eleitos de Deus, mas tinha sido Deus que os tinha feito perseverar. Cada um deles era consciente de que a gra\u00e7a de Deus fez que se encontrassem com esta ou com aquela pessoa que os atraiu para a Igreja.
Na medida em que a chegada ao baptismo foi um percurso pessoal e um p\u00f4r \u00e0 prova da f\u00e9, a celebra\u00e7\u00e3o do baptismo foi acompanhada ou seguida de uma efus\u00e3o do Esp\u00edrito, por vezes muito forte no plano da sensibilidade, que a carta aos Hebreus recorda [Hb_10,32] - [Hb_10,33]; [Hb_12,18] - [Hb_12,24] e que a carta de Pedro pressup\u00f5e [1Pd_1,1]. Seja qual for o momento em que o Esp\u00edrito manifesta  a sua presen\u00e7a na vida de cada um [1Cor_12,7]; [Gl_3,2], \u00e9 dif\u00edcil encontrar uma f\u00e9 autenticamente crist\u00e3 que n\u00e3o se apoie numa experi\u00eancia espiritual. Esse dom do Esp\u00edrito \u00e9, conforme as Escrituras, a prova mais evidente de que fomos chamados pessoalmente [Rm_8,16]. 

{N}2.21: A OUTRA FACE DA HIST\u00d3RIA{/}[1Sm_29,1]
Este come\u00e7o do cap\u00edtulo deixa-nos um pouco desconcertados e n\u00e3o deixa de semear d\u00favidas sobre a consci\u00eancia que David podia ter da sua identidade israelita. O livro que se segue (na realidade ser\u00e1 apenas a segunda metade do Livro de Samuel) mostr\u00e1-lo-\u00e1 preocupado em realizar em proveito pr\u00f3prio a unidade de Israel. Mas as p\u00e1ginas que se acabaram de ler ser\u00e3o objectivas quando o apresentam como a esperan\u00e7a dos israelitas e como a nobre v\u00edtima de um Saul invejoso e man\u00edaco? \u00c9 talvez este o momento de recordar que n\u00e3o se sabe nada de uma tribo de Jud\u00e1 anterior a David; Jud\u00e1 era sem d\u00favida nessa altura apenas o nome de uma regi\u00e3o dos montes de Jud\u00e1, ocupada por v\u00e1rios cl\u00e3s, dos quais o mais importante era o dos Quenitas. E o n\u00facleo duro das tribos, os herdeiros de Mois\u00e9s, eram Efraim, Manass\u00e9s e Benjamim, a tribo de Saul.
Poder-se-ia dar a toda esta hist\u00f3ria uma interpreta\u00e7\u00e3o muito diferente. Face a Saul que, talvez desonestamente, procura realizar a unidade das tribos, David joga a sua pr\u00f3pria cartada como defensor da gente do Sul.  Com as suas guerrilhas realiza a unidade da tribo de Jud\u00e1, ao mesmo tempo paralisa os esfor\u00e7os de Saul para unificar Israel. Quem vir\u00e1 a ter \u00eaxito ser\u00e1 David, e Jud\u00e1, o novo advent\u00edcio, deslocar\u00e1 os que at\u00e9 ent\u00e3o preservavam o ideal de Israel em forma\u00e7\u00e3o. David receber\u00e1 para a sua dinastia as promessas de Deus, mas ir\u00e1 contribuir para enraizar fortemente os rancores m\u00fatuos do norte e do sul, preparando assim o cisma, sessenta anos depois.
Isto convida-nos a reflectir sobre a ac\u00e7\u00e3o de Deus e sobre a ac\u00e7\u00e3o dos homens na Hist\u00f3ria do povo de Deus, e tamb\u00e9m sobre a parte que toca aos escritores inspirados no fabrico da Hist\u00f3ria sagrada. Existe toda a liberdade para dar outras interpreta\u00e7\u00f5es, e talvez estejam mais certas, mas ser\u00e3o apenas interpreta\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o mudar\u00e3o a Hist\u00f3ria.
Porque a B\u00edblia j\u00e1 lhe deu o sentido e todos os escritores sagrados prolongaram essa primeira vis\u00e3o dos livros de Samuel. No primeiro livro, David passa a ser o vencedor de Golias; no fim do segundo ser\u00e1 o autor dos Salmos. O livro das Cr\u00f3nicas far\u00e1 dele o verdadeiro criador do Templo e de todo o culto de Israel. Pode-se pensar que David pouco se assemelhou a essa personagem lend\u00e1ria, mas ningu\u00e9m poderia negar que a sua hist\u00f3ria, tal como nos foi transmitida, foi portadora de uma for\u00e7a espiritual e humana enormes. Determinou em grande parte o destino dos judeus, e sem ela Jesus perderia as suas ra\u00edzes humanas. Temos que reconhecer aqui que o livro inspirado escapa aos homens e que Deus Se serve dele para dirigir soberanamente os destinos do povo.

{N}2.22: A REDEN\u00c7\u00c3O {/}[Mt_20,27]
Resgatar, reparar, libertar, resgate: estas palavras, cuja diferen\u00e7a nem sempre vemos, acompanham as imagens e as ideias que habitualmente formamos sobre a Reden\u00e7\u00e3o.
Por detr\u00e1s das palavras do Novo Testamento que traduzimos por resgatar, pode ser conveniente distinguir quatro palavras hebraicas do Antigo Testamento, que nem sempre foram traduzidas pelas mesmas palavras gregas.
Em primeiro lugar, temos o verbo resgatar. Este resgate \u00e9 uma aquisi\u00e7\u00e3o, mas o que se adquire \u00e9 um bem que a maior parte das vezes pertenceu \u00e0 fam\u00edlia e que esta recupera. A palavra resgate encontra-se mais vezes no pequeno livro de Rute do que em todo o resto da B\u00edblia. No Novo Testamento, poderia ser traduzido com maior frequ\u00eancia pelo verbo libertar: [Rm_8,23]; [Ef_1,7]; [Cl_1,14]; [Gl_3,13]; [Gl_4,5]. Em [Hb_9,15] e [1Tm_2,14], o \u00fanico termo que conv\u00e9m \u00e9 resgatar.
Tamb\u00e9m aparece a palavra aquisi\u00e7\u00e3o Quando a B\u00edblia recorda a elei\u00e7\u00e3o que Deus fez de um povo que Lhe pertence, fala por vezes de uma aquisi\u00e7\u00e3o, para indicar que Deus Se faz dono e propriet\u00e1rio de Israel, e que ningu\u00e9m, da\u00ed em diante, poderia arrebatar-Lho. Encontraremos esse sentido em [2Pd_2,1], para designar os que tinham sido chamados a fazer parte do povo de Deus. Em [Ap_14,3] e [Ap_14,4], s\u00e3o os 144.000 eleitos e virgens do Monte Si\u00e3o que foram adquiridos (ou tomados) dentre os restantes seres humanos.
No presente texto de Mateus, e no texto paralelo de [Mc_10,45], pelo contr\u00e1rio, e depois em [1Tm_2,6], a palavra que traduzimos por resgate deve ser entendida como o sacrif\u00edcio de expia\u00e7\u00e3o que se devia pagar por uma falta cometida. Aqui, em Mateus, Jesus refere-Se ao Servo de Deus do livro de Isa\u00edas, que oferece a sua vida para reparar as faltas do seu povo [Is_52,13] - [Is_53,12]. \u00c9 o \u00fanico lugar do evangelho em que Jesus d\u00e1 esse sentido \u00e0 sua morte, mas os Actos mostram-nos que os pregadores do Evangelho gostavam de utilizar a profecia de Isa\u00edas para proclamar Jesus como Messias. Ter\u00e1 sido a partir da\u00ed, certamente, que desenvolveram as tr\u00eas afirma\u00e7\u00f5es que lemos em v\u00e1rios lugares da prega\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica: Jesus morreu pelos nossos pecados; morreu, para que sejam perdoados os pecados; tornou-Se v\u00edtima pelos nossos pecados.
Essa ideia de sacrif\u00edcio pelos nossos pecados pode surpreender-nos na medida em que, instintivamente, tentamos iludir a nossa responsabilidade em rela\u00e7\u00e3o a essa desordem universal que \u00e9 o pecado; reconhe\u00e7amos, al\u00e9m do mais, que nos sentimos humilhados pelo simples facto de outro ter de pagar por n\u00f3s. Mas o nosso enfado prov\u00e9m do facto de esse resgate ter sido com bastante frequ\u00eancia comentado de forma muito surpreendente. Enquanto os textos b\u00edblicos que falam de resgate, considerados no seu conjunto, insistem mais no aspecto de liberta\u00e7\u00e3o do que no aspecto de pagamento, alguns entenderam que a morte de Jesus foi um pagamento que Ele fez ao dem\u00f3nio para abrandar o seu dom\u00ednio sobre a humanidade. Outros falam de ofensas feitas a Deus, que exigiam uma repara\u00e7\u00e3o, e que ficaram saldadas atrav\u00e9s dos sofrimentos e do sacrif\u00edcio de Cristo.
\u00c9 bem verdade que Jesus morreu pelos nossos pecados, mas a Reden\u00e7\u00e3o vai muito mais al\u00e9m do que o pagamento de uma s\u00e9rie de d\u00edvidas. H\u00e1 um ordenamento do mundo, bem como um ordenamento do homem, que supera as nossas perspectivas a curto prazo. Era necess\u00e1rio que tudo culminasse num equil\u00edbrio perfeito, para que tudo pudesse voltar para Deus. Jesus tinha por miss\u00e3o assegurar esse regresso de um mundo afastado, e o pecado era o maior factor do nosso afastamento. A unidade do universo e dos filhos de Deus dispersos s\u00f3 podia ser realizada atrav\u00e9s de uma reconcilia\u00e7\u00e3o que seria tamb\u00e9m uma reconcilia\u00e7\u00e3o com Deus depois da falta original - a dos esp\u00edritos tutores e regedores da cria\u00e7\u00e3o. A morte volunt\u00e1ria de Jesus era a recomposi\u00e7\u00e3o, em sentido figurado, de tal quebra. Da\u00ed a garantir que Jesus, no momento de morrer, teve diante dos seus olhos todas as nossas faltas individuais, \u00e9 totalmente descabido; contudo, todas as nossas faltas fazem parte do passivo e nenhuma das nossas \u00abrevoltas\u00ab [Is_53,5] e [1Jo_3,4] podia ser assim esquecida sem mais.
Os que no passado entenderam esse texto de Paulo como afirma\u00e7\u00e3o de um pecado importante efectivamente cometido pelo primeiro homem, n\u00e3o deixaram de ver na morte de Jesus a repara\u00e7\u00e3o desse pecado t\u00e3o misterioso. Muitas vezes os artistas pintaram um cr\u00e2nio, que seria de Ad\u00e3o, ao p\u00e9 da cruz. No entanto, os evangelhos n\u00e3o est\u00e3o interessados nem nesse pecado, nem nesse pecador: ver coment\u00e1rio sobre o Pecado Original, em [Gn_3,1].
At\u00e9 aqui fic\u00e1mo-nos por uma vis\u00e3o intelectual e moral da Reden\u00e7\u00e3o, mas devemos ir mais longe. Quando os ap\u00f3stolos comentam o sacrif\u00edcio de Jesus, morto pelos nossos pecados, morto para nossa liberta\u00e7\u00e3o [Rm_3,25]; [Rm_4,25]; [Rm_5,6] - [Rm_5,11]; [2Cor_5,20] - [2Cor_5,21] e [1Pd_2,21] - [1Pd_2,25], n\u00e3o pretendem principalmente dar uma explica\u00e7\u00e3o, mas antes provocar a nossa admira\u00e7\u00e3o frente \u00e0 grandeza do amor divino. Generosidade de Deus Pai, em primeiro lugar [Rm_8,3]; [Jo_3,16]; [1Jo_4,10] - [1Jo_4,11], mas imediatamente a seguir reconhecimento e humilde prostra\u00e7\u00e3o frente ao sacrif\u00edcio volunt\u00e1rio do Filho [Rm_5,7] - [Rm_5,11]. Da\u00ed procede a sua entrega total \u00e0 pessoa de Jesus [Gl_2,19] - [Gl_2,20].
Foi dito que nunca houve ningu\u00e9m t\u00e3o amado como Jesus o foi, \u00e9 e vir\u00e1 a ser, e este \u00e9 outro aspecto da Reden\u00e7\u00e3o. Se acreditamos que o sacrif\u00edcio de Cristo salva a humanidade inteira [1Jo_2,2], bem como que este mesmo Filho-Verbo ilumina toda a consci\u00eancia humana [Jo_1,9], tamb\u00e9m \u00e9 um facto que a imensa maioria dos povos nunca soube nada disso. Contudo, a partir do momento em que Deus elege para Si um povo ao qual Se revela e ao qual revela o seu plano de salva\u00e7\u00e3o [Is_54,13]; [Jr_31,34]; [Ef_3,5], toda uma parte da Reden\u00e7\u00e3o se realizar\u00e1 atrav\u00e9s das rela\u00e7\u00f5es m\u00fatuas entre Deus e esse povo eleito [Is_62,1] - [Is_62,5]; [Sf_3,17]. Os que foram chamados viram o amor de Deus e acreditaram [1Jo_4,16]. Fica assim aberta para Deus a possibilidade de fazer com eles uma experi\u00eancia \u00fanica, a do amor rec\u00edproco, na claridade plena.
\u00c9 essa a raz\u00e3o pela qual Jesus quer - sendo essa tamb\u00e9m uma das suas maiores motiva\u00e7\u00f5es - que o seu sacrif\u00edcio purifique [Ef_5,26] e santifique [1Cor_6,11] aqueles que adquiriu [Act_20,28] ou vai adquirir para Deus [Ap_5,9] - [Ap_5,10]; [Ap_14,3]. Jesus consagra-Se por eles [Jo_17,19]; [Hb_10,14]. Por outro lado, a contempla\u00e7\u00e3o das humilha\u00e7\u00f5es e do amor do Filho sugerir-lhes-\u00e1, a eles, todas as loucuras pr\u00f3prias do amor, tal como constituir\u00e1, na eternidade, a admira\u00e7\u00e3o das pot\u00eancias celestes [1Pd_1,12].

{N}2.23: JESUS E OS FARISEUS {/}[Mt_23,1]
O cap\u00edtulo 23 de Mateus deve ler-se \u00e0 luz das oposi\u00e7\u00f5es e persegui\u00e7\u00f5es que a Igreja sofreu na Palestina, at\u00e9 ao momento em que os crist\u00e3os foram exclu\u00eddos da comunidade judia. A ruptura foi definitiva com os decretos emitidos pelos fariseus no ano 95, no seu conc\u00edlio de J\u00e2mnia, quando reorganizaram a comunidade israelita, depois da destrui\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m. Foi ent\u00e3o que determinaram o c\u00e2none dos livros sagrados e que tamb\u00e9m encerraram a religi\u00e3o judaica em tradi\u00e7\u00f5es e costumes muito precisos, pondo fim a uma atitude mais aberta que tinha facilitado, na \u00e9poca de Cristo, um incremento impressionante do proselitismo judeu no mundo romano, e que tinha multiplicado as convers\u00f5es dos \u00abgregos\u00bb.
O Evangelho de Mateus, escrito durante esses anos, apresenta-se muito pol\u00e9mico em rela\u00e7\u00e3o aos fariseus, pois apresenta-os como prot\u00f3tipos desse juda\u00edsmo, advers\u00e1rio da Igreja. Ao falar dos fariseus do tempo de Jesus, Mateus tende a ver neles os seus principais inimigos. Contudo, embora quando o faz deforme a realidade hist\u00f3rica melhor espelhada por Lucas, n\u00e3o podemos, por isso, rejeitar o testemunho que ele nos deixa de uma oposi\u00e7\u00e3o fundamental entre farisa\u00edsmo e evangelho: o livro de Mateus \u00e9 palavra de Deus, e isso significa que nos d\u00e1 a vis\u00e3o que Deus quis que conserv\u00e1ssemos, sobre as situa\u00e7\u00f5es enfrentadas por Jesus.
Apesar de, sob muitos aspectos, Jesus ter feito sua a interpreta\u00e7\u00e3o da B\u00edblia dada pelos fariseus (que eram numerosos entre os primeiros disc\u00edpulos), a sua religi\u00e3o, constitu\u00edda, em grande parte, por deveres e direitos, n\u00e3o estava em conson\u00e2ncia com outra vis\u00e3o resultante do \u00fanico facto de Jesus ser o Filho, entregue pelo Pai, para salva\u00e7\u00e3o dos pecadores.
No presente cap\u00edtulo, Mateus apresenta uma pol\u00e9mica entre Jesus e os fariseus. Esta n\u00e3o pode deixar nenhum crist\u00e3o indiferente, pois o farisa\u00edsmo \u00e9 a express\u00e3o, em \u00e9poca determinada, de uma atitude religiosa t\u00e3o presente entre n\u00f3s como o era no tempo de Jesus. Em tempos passados, muitos autores crist\u00e3os falaram dos fariseus como se todos eles tivessem sido gente hip\u00f3crita, de m\u00e1 f\u00e9. Ao ler esses coment\u00e1rios, pressup\u00f5e-se que tais autores intu\u00edam, sem no entanto querer reconhecer, at\u00e9 que ponto eles pr\u00f3prios, cl\u00e9rigos, mestres, suposta elite do povo crist\u00e3o, ocupavam na Igreja o mesmo lugar dos fariseus na sociedade do seu tempo, e ca\u00edam sob as mesmas acusa\u00e7\u00f5es do evangelho. Ansiosos por se distinguirem deles, mais n\u00e3o podiam fazer sen\u00e3o pint\u00e1-los de forma caricatural. Hoje, pelo contr\u00e1rio, h\u00e1 muitos, na Igreja, que gostariam, n\u00e3o s\u00f3 de justificar os fariseus por semelhantes alega\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m de ignorar ou, inclusivamente, de rejeitar as advert\u00eancias do evangelho que se lhes referem. \u00c9 poss\u00edvel que a raz\u00e3o de tal fervor seja a mesma que inspirou a atitude oposta em \u00e9pocas passadas - canonizam os fariseus na mesma medida em que passaram a ocupar os seus postos, incorrendo no mesmo perigo: o de serem aqueles s\u00e1bios e prudentes aos quais n\u00e3o foi revelado o mist\u00e9rio de Jesus.

{N}2.24: MANDAVA NOS ESP\u00cdRITOS IMPUROS{/} [Mc_1,16]
Sabemos muito pouco sobre o que ter\u00e1 sido a vida de Jesus durante os dezoito meses, ou um pouco mais, que passou com os disc\u00edpulos. Jo\u00e3o teve a preocupa\u00e7\u00e3o de nos falar dos primeiros encontros [Jo_1,29] - [Jo_1,34]. Marcos assinala aqui a chamada que Jesus lhes dirigiu certo dia: \u00abN\u00e3o fostes v\u00f3s que Me escolhestes\u00bb.

{N}2.25: OS IRM\u00c3OS DE JESUS {/}[Mc_3,31]
Aqui pretendemos apenas completar o que j\u00e1 dissemos no coment\u00e1rio a este vers\u00edculo [Mc_3,31]. Podemos estranhar que os testemunhos do evangelho a este respeito sejam habitualmente interpretados com t\u00e3o pouca imparcialidade. Ser\u00e1 porque a insist\u00eancia (e por vezes os excessos) da prega\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica referente a Maria s\u00e3o rebatidos por um exame mais objectivo dos textos? O que chama mais a aten\u00e7\u00e3o, \u00e9 que, neste ponto, muitos negam testemunhos e dados sem mais argumentos que alguns \u00abtalvez\u00bb e \u00abpode-se pensar\u00bb.
Recordemos primeiro que \u00abMaria sempre virgem\u00bb n\u00e3o \u00e9 apenas uma tradi\u00e7\u00e3o antiga, como inclusivamente tem sido escrito por autores cat\u00f3licos, mas faz parte da f\u00e9 e do Credo. N\u00e3o se trata de um sentimento piedoso em rela\u00e7\u00e3o a factos discut\u00edveis que seriam alheios \u00e0 revela\u00e7\u00e3o. Se Deus-Filho \u00danico Se fez realmente homem, e foi concebido atrav\u00e9s de uma acto livre, digno simultaneamente de Deus e de uma mulher consciente da gra\u00e7a \u00fanica de que estava a ser objecto, a que viria a ser sua m\u00e3e no sentido mais forte da palavra, \u00e9 imposs\u00edvel que Deus n\u00e3o a tenha feito sua de forma exclusiva e definitiva. Nenhuma pessoa que tenha tido uma experi\u00eancia espiritual forte se atrever\u00e1 a p\u00f4r este ponto em quest\u00e3o. E \u00e9 este sentimento (referimo-nos a uma intui\u00e7\u00e3o da verdade divina) que est\u00e1 subjacente \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o constante da f\u00e9 crist\u00e3. Esclarecer plenamente este ponto n\u00e3o \u00e9, portanto, outra coisa sen\u00e3o descobrir o rosto de Deus tal como Ele Se manifestou nas Escrituras. E se outras Igrejas continuam a desconhecer este aspecto das maravilhas divinas, isso n\u00e3o \u00e9 raz\u00e3o suficiente para que o calemos.
Ora bem, ser\u00e3o amb\u00edguos, estes textos? Dissemos que se os irm\u00e3os de Jesus fossem filhos de sua M\u00e3e, o autor deveria ter escrito: \u00abtua M\u00e3e e os filhos de tua M\u00e3e\u00bb. Mas isto n\u00e3o se l\u00ea em parte nenhuma. Ainda mais, se tr\u00eas evangelhos quiseram recordar a resposta de Jesus nesse momento, por que raz\u00e3o n\u00e3o a confirmaram com um texto que se ajustava muito bem ao caso, e que todos conheciam: \u00abtornei-me estrangeiro para os meus irm\u00e3os, um estranho para os filhos de minha m\u00e3e\u00bb [Sl_69,9]. Este salmo \u00e9 citado em mais de quinze lugares do N.T., mas nunca aparece o vers\u00edculo 9, aquele que mais devia chamar a aten\u00e7\u00e3o da Igreja se Jesus tivesse tido irm\u00e3os.
S\u00e3o muito d\u00e9beis os argumentos que negam que a palavra irm\u00e3o designe aqui parentes. O \u00fanico que encontr\u00e1mos foi o que se segue. Certo exegeta descobre que em determinado lugar do N.T. (e apenas nesse lugar), se encontra a palavra grega primo [Cl_4,10] e conclui: se Paulo a usou nesse lugar, porque n\u00e3o a ter\u00e1 utilizado ao falar dos irm\u00e3os do Senhor, se estes fossem realmente primos? Paulo utilizou-a simplesmente nos Colossenses porque os seus correspondentes gregos conheciam Aristarco como primo de Barnab\u00e9, mas noutro lugar falou dos irm\u00e3os do Senhor, porque era esse o nome que todos davam aos primos de Jesus num contexto aramaico. Al\u00e9m disso, como j\u00e1 referimos, os textos gregos da B\u00edblia conservaram sempre o termo irm\u00e3o quando o encontravam no texto hebraico ou aramaico.
Fal\u00e1mos do peso que tem o testemunho de [Mc_15,40], apoiado por [Mc_15,47] e [Mt_27,56] em rela\u00e7\u00e3o a Maria, m\u00e3e de Tiago e de Jos\u00e9. E basta isso para que v\u00e1rios exegetas proponham conjecturas e hip\u00f3teses para impugnar esta afirma\u00e7\u00e3o. Ao fim e ao cabo, s\u00f3 nos podemos interrogar por que raz\u00e3o a virgindade de Maria e a men\u00e7\u00e3o do seu filho \u00fanico provocam tanto mal-estar a muita gente s\u00e9ria e inteligente. \u00abOdiaram-Me sem motivo\u00bb, diz [Jo_15,25].

{N}2.26: O BOM USO DOS SINAIS {/}[Mc_8,12]
A esta gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o ser\u00e1 dado nenhum sinal. Na realidade, Jesus deu muitos sinais [Jo_20,30] e Jo\u00e3o insiste no facto de que os seus milagres fazem parte dos sinais que permitem reconhec\u00ea-l'O [Jo_10,38]. Contudo, aqui d\u00e1 a impress\u00e3o que Jesus Se nega a faz\u00ea-los porque tentam for\u00e7\u00e1-l'O a isso [Jo_6,30] e porque n\u00e3o se d\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para passar do sinal \u00e0 f\u00e9 [Jo_6,26].
H\u00e1 outras passagens, por\u00e9m, onde Jesus Se queixa de precisarmos sempre de sinais para acreditar [Jo_4,48]. Para Ele, o sinal que Deus d\u00e1, tal como a ora\u00e7\u00e3o escutada, \u00e9 como o dom de uma pessoa que se revela, e \u00e9 assim que devemos acolh\u00ea-lo [Jo_16,24]. Parece muitas vezes que, nas nossas rela\u00e7\u00f5es com Deus, consideramos a confian\u00e7a como uma coisa dif\u00edcil e dolorosa, e parece-nos justo que Deus n\u00e3o a reclame sem ter dado provas claras da sua exist\u00eancia, de que nos ouve e de que os nossos servi\u00e7os ou obedi\u00eancia ser\u00e3o recompensados. Contudo, desde o momento em que Lhe exigimos tais garantias, negamos-Lhe a \u00fanica coisa que Lhe interessa. Que gosto sentir\u00e1 Deus em que cumpramos as nossas obriga\u00e7\u00f5es religiosas ou realizemos boas obras? Isso em nada O afecta. Pelo contr\u00e1rio, toda a sua alegria (e esta palavra n\u00e3o \u00e9 demasiado forte), consiste em come\u00e7ar j\u00e1 aqui na Terra esse jogo do amor rec\u00edproco em que somos capazes de dar um passo adiante para ver como reagir\u00e1, e um segundo, e um d\u00e9cimo, se Ele Se obstina em n\u00e3o responder. \u00c9 assim que nos aproximamos da vida eterna.

{N}2.27: QUEM N\u00c3O ACREDITAR SER\u00c1 CONDENADO {/}[Mc_16,16]
O texto original diz: Quem n\u00e3o acreditar ser\u00e1 condenado. Mesmo que entendamos isto como aquele que resiste a acreditar, esta frase encerra uma afirma\u00e7\u00e3o terr\u00edvel, de efeitos incalcul\u00e1veis.
Quem n\u00e3o acredita \u00e9 aquele a quem \u00e9 apresentada a mensagem. No contexto deste par\u00e1grafo, uma s\u00e9rie de sinais acompanhar\u00e3o a mensagem, sinais esses bastante eloquentes para que possa ser reconhecida como mensagem vinda do C\u00e9u. Quem n\u00e3o acreditar, em tais circunst\u00e2ncias, ser\u00e1 condenado, quer dizer que, ao ser julgado por Deus e prestar contas dos seus actos bons ou maus, receber\u00e1 uma condena\u00e7\u00e3o por essa desconfian\u00e7a, pois houve uma falta da sua parte. O mesmo se l\u00ea em [Mt_10,40].
Quem acreditar e for baptizado, ser\u00e1 salvo, quer dizer, gozar\u00e1 desde j\u00e1 dos dons que Deus tem reservados para os que O reconheceram na pessoa do seu Filho, os que, gra\u00e7as \u00e0 f\u00e9, beneficiam de um reordenamento de todo o seu ser. Estes s\u00e3o simultaneamente benefici\u00e1rios e cooperadores do mist\u00e9rio de salva\u00e7\u00e3o que Deus leva a cabo no cora\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria da humanidade. De facto, nessa obra, que interessa tanto aos que est\u00e3o perto como aos que est\u00e3o longe, uma parte essencial est\u00e1 reservada para o seu povo especial. E se este renunciasse a cumprir essa miss\u00e3o, a humanidade estaria condenada a perder-se, em todo o sentido da palavra.
Podemos interrogar-nos como p\u00f4de Deus permitir que tais verdades fossem interpretadas de forma t\u00e3o tendenciosa pela Igreja ocidental, e isto at\u00e9 finais do s\u00e9culo dezanove. Os portadores da f\u00e9 estavam convencidos de que todos deviam acolher a sua prega\u00e7\u00e3o, mesmo que eles falassem uma l\u00edngua odiada, ou incompreendida, ou n\u00e3o apresentassem os sinais indicados no evangelho. Quiseram impor o baptismo sem terem preparado previamente um renascimento das pessoas, como se atribu\u00edssem ao rito um efeito m\u00e1gico. Afirmavam que quem n\u00e3o acreditasse perdia a salva\u00e7\u00e3o eterna e estava condenado a um inferno sem fim, o que o texto n\u00e3o diz. Ver, a este respeito, a Introdu\u00e7\u00e3o ao livro de Jonas.
Essa interpreta\u00e7\u00e3o inexacta que transformava a institui\u00e7\u00e3o eclesial no partido dos salvos, frente \u00e0 massa dos perdidos, satisfazia o fundo de viol\u00eancia subjacente no cora\u00e7\u00e3o de qualquer comunidade, quando se julga eleita por Deus para entregar ao mundo a \u00fanica verdade.
Podemos estranhar que esta interpreta\u00e7\u00e3o incorrecta da Escritura tenha sido t\u00e3o vulgarmente aceite, sem terem aparecido profetas que a combatessem. Tal facto encerra um mist\u00e9rio. No entanto, saibamos reconhecer que essa vis\u00e3o do mundo a branco e preto, sem meias tintas, estimulou em milh\u00f5es de crentes uma vontade f\u00e9rrea de dominar os seus instintos, e realizar muitas vezes ac\u00e7\u00f5es her\u00f3icas: tudo menos pecar.

{N}2.28: A LISTA DOS DOZE {/}[Lc_6,14]
Veja-se a nota a [Mc_3,14]. Sabemos que a lista dos Doze n\u00e3o \u00e9 a mesma nos tr\u00eas evangelhos sin\u00f3pticos, aos quais se deveria juntar [Act_1,13]. N\u00e3o sabemos se devemos traduzir Judas de Tiago, por filho ou irm\u00e3o de Tiago. V\u00ea-se, no entanto, que este substitui Tadeu (chamado Lebb\u00e9, nalguns manuscritos antigos), citado por Mateus e Marcos. Ser\u00e1 Tadeu o mesmo que Judas de Tiago? Ou ter\u00e1 sido um dos Doze que se retirou e em breve foi esquecido, sendo ent\u00e3o substitu\u00eddo por Judas de Tiago, aquele que depois do Pentecostes recebeu o t\u00edtulo de ap\u00f3stolo ao lado do seu irm\u00e3o, sendo tamb\u00e9m ele um dos irm\u00e3os do Senhor? Lucas fala-nos da substitui\u00e7\u00e3o de Judas Iscariotes [Act_1,15], mas n\u00e3o era obrigado a falar-nos de outras substitui\u00e7\u00f5es, que eram poss\u00edveis, visto ter havido um tempo em que se dava o t\u00edtulo de ap\u00f3stolos a alguns que passavam por fundadores de Igrejas. Fora isso, n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o alguma para identificar Bartolomeu com Natanael: o facto de [Jo_1,45] - [Jo_1,50] nos mostrar este \u00faltimo entre os primeiros disc\u00edpulos, n\u00e3o \u00e9 prova de que ele tenha pertencido ao n\u00famero dos ap\u00f3stolos.
Sim\u00e3o, o zelota, \u00e9 chamado o cananeu em [Mt_10,4]. Este voc\u00e1bulo, em hebraico, significa o mesmo que zelota em grego: fan\u00e1tico. Referia-se a terroristas que assaltavam os romanos e seus colaboradores.

{N}2.29: A TUA F\u00c9 TE CUROU {/}[Lc_8,43]
Numerosos manuscritos antigos t\u00eam, para este vers\u00edculo, um texto mais longo e mais pr\u00f3ximo de [Mc_5,25]. Esse pormenor \u00e9 pouco importante comparado com a palavra de Jesus: A tua f\u00e9 te curou. Encontramo-la em Mateus e Marcos, no mesmo relato, e al\u00e9m disso quatro vezes em Lucas [Lc_7,50]; [Lc_17,19]; [Lc_18,42] e [Act_14,9]. De que f\u00e9 se trata? Por muito mal informados que estivessem os doentes, sabiam no entanto o suficiente para ver em Jesus um profeta [Mc_6,15], aproximando-se d'Ele com uma certeza comum: Deus visitou o seu povo [Lc_7,16].
\u00c9 esta a f\u00e9 que se encontra no povo simples e sem teologia. E Jesus \u00e9 o primeiro a dar-lhe valor. Se nos remetermos aos relatos de milagres do Antigo Testamento, que podem ser comparados com os do evangelho - embora, de facto, s\u00f3 se encontrem nos cap\u00edtulos consagrados a Elias e Eliseu [1Rs_17,1]; [2Rs_1,1] - [2Rs_7,1] - a f\u00e9 n\u00e3o est\u00e1 ausente, mas n\u00e3o \u00e9 o mais importante [Nm_21,9]. Os relatos p\u00f5em em destaque o carisma do profeta, e o profeta, que tem a f\u00e9 e o carisma, pede a Deus o milagre. O evangelho, pelo seu lado, e muito especialmente o de Marcos, d\u00e1 testemunho do poder de Jesus, Aquele que, ao contr\u00e1rio do profeta, n\u00e3o pede a Deus, d\u00e1 uma ordem. Lucas, pelo seu lado, compraz-se em recordar as palavras de Jesus que celebram o poder da f\u00e9.
Muita gente menospreza esse poder da f\u00e9, pensando imediatamente: \u00e9 a mesma f\u00e9 que atrai a clientela dos charlat\u00e3es. N\u00e3o v\u00eaem nisso mais do que auto-sugest\u00e3o, a mesma que em determinados casos d\u00e1 a chibatada de que se necessitava, mas que n\u00e3o tem valor, quer no plano m\u00e9dico, quer, ainda menos, no religioso.
A palavra de Jesus convida-nos, antes, a invejar essa f\u00e9 sem instru\u00e7\u00e3o que reconhece com frequ\u00eancia os profetas, mas que n\u00e3o faz grande uso da Igreja instalada; ela \u00e9 uma das nossas grandes riquezas. No mundo que nos rodeia, no in\u00edcio de tudo o que \u00e9 grande, esteve a f\u00e9, se n\u00e3o sob a forma de \u00abDeus visitou o seu povo\u00bb, pelo menos na sua vers\u00e3o laicizada: a sorte nos ajudar\u00e1. Todos os homens, de todas as religi\u00f5es, entendem essa linguagem.
O Antigo Testamento, embora mostre essa f\u00e9 em ac\u00e7\u00e3o (veja-se [Hb_11,1]), pouco fala dela. Os escritos do Novo Testamento, pelo contr\u00e1rio, fazem a todo o momento o elogio da f\u00e9, tratando-se por\u00e9m, com maior frequ\u00eancia, da f\u00e9 em Cristo, Senhor. Esses livros falam-nos de crentes que vivem de forma consciente a sua vida nova de baptizados, e o mais importante da f\u00e9, segundo Cristo (veja-se nota em [Act_4,12]), \u00e9 que ela permite o acesso aos bens sobrenaturais. Estamos, portanto, \u00e0 beira do terreno em que se debatem os pobres. Mas aqui o Evangelho recorda-nos essa grande maioria dos nossos irm\u00e3os, para quem n\u00e3o est\u00e1 assegurado o p\u00e3o do dia seguinte, e para quem m\u00e9dicos e servi\u00e7os de sa\u00fade constituem um luxo fora do seu alcance. A sua f\u00e9, mal ou pouco instru\u00edda, muito condicionada pelas necessidades do momento ([2Rs_4,39]; [Jo_2,3]), n\u00e3o \u00e9 menos valiosa aos olhos de Deus. Um optimismo irracional leva-os, por vezes, a pensar que Deus os tirar\u00e1 de apuros, e Deus reconhece-Se nessa ideia que os pobres fazem d'Ele.

{N}2.30: O PR\u00d3XIMO {/}[Lc_10,29]
Os mais antigos coment\u00e1rios rab\u00ednicos da B\u00edblia - contempor\u00e2neos dos evangelhos - mostram que os mestres estavam divididos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pergunta de quem \u00e9 o pr\u00f3ximo. A pergunta feita a Jesus tinha, portanto, uma grande actualidade. Al\u00e9m disso, as interpreta\u00e7\u00f5es da palavra pr\u00f3ximo estendiam-se da fam\u00edlia mais pr\u00f3xima aos familiares, a todo o irm\u00e3o judeu, inclusivamente aos pros\u00e9litos que ainda n\u00e3o eram plenamente judeus. Mas ningu\u00e9m tinha atravessado essa barreira, tanto nacional como religiosa.
A resposta de Jesus \u00e9, pois completamente nova. Tal como foi demonstrado pelo fil\u00f3sofo Henri Bergson, passar do membro pr\u00f3ximo do mesmo grupo social a um pr\u00f3ximo que pode ser qualquer outra pessoa, n\u00e3o \u00e9 apenas uma amplia\u00e7\u00e3o: \u00e9 aceder a outro mundo. O amor ao pr\u00f3ximo, que se tentava praticar entre judeus e gregos, na Igreja primitiva, apesar das desconfian\u00e7as m\u00fatuas (e isso era uma das principais preocupa\u00e7\u00f5es de Paulo: [2Cor_8,1] - [2Cor_9,1]), era uma riqueza nova dada ao mundo. S\u00e3o Jo\u00e3o, pelo seu lado, via-o como um mandamento completamente novo [Jo_13,34]; [1Jo_2,8]. Se actualmente a resposta de Jesus j\u00e1 n\u00e3o nos parece t\u00e3o extraordin\u00e1ria, \u00e9 s\u00f3 porque essa par\u00e1bola j\u00e1 transformou as consci\u00eancias. No entanto, esse amor ao pr\u00f3ximo continua a aparecer como uma novidade no mundo actual; embora se d\u00eaem numerosos exemplos de ajuda ao pr\u00f3ximo afastado quando se trata de casos individuais e de salvar os marginalizados, \u00e9 facto mais surpreendente quando o amor permite o reencontro de grupos sociais entre os quais existem barreiras.

{N}2.31: O ROSTO HUMANO DE DEUS {/}[Lc_18,1]
As par\u00e1bolas em que Jesus empresta a Deus um rosto t\u00e3o humano, provocar\u00e3o certamente algum mal-estar \u00e0s pessoas que t\u00eam uma forma\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica. Num primeiro tempo, comove-nos essa humanidade de Deus; mas depois reconsidera, e ent\u00e3o a par\u00e1bola passa a ser para ele apenas uma compara\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o nos devemos fiar demasiado. Porventura n\u00e3o \u00e9 Deus Um e \u00danico, o Absoluto e a primeira Subst\u00e2ncia, eterno, imut\u00e1vel e imperturb\u00e1vel? \u00c9 a\u00ed, no entanto, que a f\u00e9 v\u00ea com maior clareza do que a raz\u00e3o. O Deus dos fil\u00f3sofos, mesmo quando se Lhe concedem generosamente os dotes de toda a pessoa digna desse nome, n\u00e3o deixa de ser habitualmente concebido \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a dos princ\u00edpios e dos professores.
Jesus, pelo contr\u00e1rio, convida-nos a ver em Si tudo o que admiramos nas pessoas realmente inteligentes, aquelas que gostam de utilizar o humor e a fantasia; nos amantes, que pouco respeitam a modera\u00e7\u00e3o; nos pais, preocupados com os seus filhos. \u00c9 certo que tais par\u00e1bolas deram origem a figura\u00e7\u00f5es de Deus e pr\u00e1ticas religiosas que muitas vezes esqueceram o mist\u00e9rio do Infinito. Mas n\u00e3o devemos desconfiar menos das certezas da nossa prega\u00e7\u00e3o e dos discursos relativos \u00c0quele que a nossa teologia ignora muito mais do que conhece. Tornar-nos-emos mais indulgentes em rela\u00e7\u00e3o aos excessos da piedade popular, se recordarmos que a miss\u00e3o pr\u00f3pria da revela\u00e7\u00e3o crist\u00e3 consiste em iniciar uma comunh\u00e3o simples e confiante entre Deus e os seus filhos e filhas. A nossa B\u00edblia deixou a outros a prostra\u00e7\u00e3o e s\u00f3 fala dela ao mencionar a cidade celeste: [Ap_4,10]; [Ap_5,14]; [Ap_7,11].

{N}2.32: ESTAVA PROFETIZADO NAS ESCRITURAS {/}[Lc_24,45]
Lucas mostra-nos Jesus ressuscitado a dar aos ap\u00f3stolos e \u00e0 Igreja as bases de uma interpreta\u00e7\u00e3o crist\u00e3 das Escrituras [Lc_24,27] e [Lc_46,1] - [Lc_47,1].
Os sofrimentos do Messias e a sua ressurrei\u00e7\u00e3o. Seria dif\u00edcil encontrar um \u00fanico texto que o diga explicitamente, mas toda a Hist\u00f3ria b\u00edblica \u00e9 feita de mortes e de ressurrei\u00e7\u00f5es. Muitos salmos s\u00e3o a ac\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as de um fiel que se encontrava \u00e0 beira do t\u00famulo e ao qual Deus devolveu a vida. O famoso poema do Servo, que lemos em [Is_53,1], fala, sem d\u00favida alguma, na inten\u00e7\u00e3o do autor, da minoria fiel que assegurar\u00e1 o futuro de Israel. Mas, de facto, Deus quis que falasse dessa minoria fiel sob a figura de um Servo. Deus permitiu que falasse de morte injusta e de ressurrei\u00e7\u00e3o, de perd\u00e3o dos pecados e de uma posteridade de justos, para expressar o destino desse povo fiel. Basta isso para que apliquemos o texto \u00c0quele que resumia na sua pessoa a descend\u00eancia de Abra\u00e3o e o destino do povo eleito.
Uma palavra de Jesus, em [Jo_10,35], recorda-nos que n\u00e3o se pode alterar a Escritura. Poder-se-ia dizer que, em tal ou tal lugar, as palavras ultrapassaram o pensamento do autor, aparecendo a\u00ed por acaso... Mas \u00e9 um facto que est\u00e3o presentes e, embora devamos dar prioridade ao essencial da mensagem, a palavra que surpreende, ou a imagem ins\u00f3lita, devem ser recebidas como uma chamada \u00e0 reflex\u00e3o. Numa discuss\u00e3o, o oponente poderia dizer que a resposta de Jesus em [Jo_10,35] n\u00e3o era indiscut\u00edvel, aplicando a Si pr\u00f3prio o texto; de igual modo, seria muito dif\u00edcil provar por A mais B que a Escritura anunciava a morte e a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus se, \u00e0 partida, ela n\u00e3o tivesse reconhecido Cristo como o Messias. Uma discuss\u00e3o puramente racionalista do texto s\u00f3 muito raramente conduzir\u00e1 \u00e0 f\u00e9; no epis\u00f3dio das Tenta\u00e7\u00f5es, em [Mt_4,1] e [Lc_4,1], o dem\u00f3nio faz um uso excelente dos textos que cita.
A interpreta\u00e7\u00e3o crist\u00e3 da Escritura n\u00e3o se limita a uma investiga\u00e7\u00e3o racional que reponha os textos no seu contexto, para n\u00e3o dizer mais do que o autor sagrado quis dizer. Quando Jesus disse: Estava profetizado na Escritura, n\u00e3o pretende, em primeiro lugar, provar que estava escrito. Melhor seria dizer que a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus confere \u00e0 Escritura uma dimens\u00e3o que esta antes n\u00e3o tinha. J\u00e1 havia uma interpreta\u00e7\u00e3o judaica que se ia tecendo \u00e0 medida que a experi\u00eancia do povo de Deus se alargava, mas agora os novos factos obrigavam a fazer uma nova leitura dos textos. D\u00e1-o a entender [Mt_13,52], ao falar de um doutor da Lei que, depois de ter vivido a experi\u00eancia do Reino de Deus, descobre tesouros novos no texto antigo.
A Letra \u00e9 um instrumento com que o Esp\u00edrito joga livremente, e a experi\u00eancia de todos os dias ensina-nos que a sabedoria do livro sagrado penetra nos cora\u00e7\u00f5es sem passar sempre pelos caminhos da l\u00f3gica. \u00c9 muito frequente que uma imagem sugira uma linha de pensamento, estabelecendo a liga\u00e7\u00e3o com outras imagens que o livro nos oferece, com outras passagens em que se encontram as mesmas palavras, e se unem os fios de modo a estabelecer uma interpreta\u00e7\u00e3o, ou a descobrir o jogo de Deus nas situa\u00e7\u00f5es em que vivemos.
O crente, ou o profeta, que rel\u00ea a Escritura, n\u00e3o atrai\u00e7oa os textos, mas d\u00e1-lhes uma vida nova e, no fim, ter\u00e1 criado uma obra po\u00e9tica, no sentido primitivo do termo: o poeta \u00e9 aquele que cria. A poesia n\u00e3o se sujeita em primeiro lugar \u00e0s normas did\u00e1cticas, e o mesmo se pode dizer, a um n\u00edvel mais elevado, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Escritura. Deus \u00e9 tanto poeta como mestre (para n\u00e3o dizer que \u00e9 muito mais poeta), e o Esp\u00edrito Santo insinua a verdade para al\u00e9m da letra. Agrade-nos ou n\u00e3o, esse tipo de interpreta\u00e7\u00e3o po\u00e9tica ou prof\u00e9tica \u00e9 geralmente mais poderoso do que a exegese racional para iluminar o esp\u00edrito. \u00c9 bem certo que se devem prevenir as lucubra\u00e7\u00f5es deturpadas e perversas, e a segunda carta de Pedro levanta-se com for\u00e7a contra as interpreta\u00e7\u00f5es pessoais (veja-se a nota a [2Pd_1,20] sobre a Inspira\u00e7\u00e3o da B\u00edblia). \u00c9 por isso que a Escritura \u00e9 lida na Igreja; isso n\u00e3o quer dizer que s\u00f3 devamos repetir o que disseram os antigos ou o que diz a hierarquia, mas que temos os olhos e os ouvidos abertos para nos assegurarmos de que nos mantemos na grande corrente da tradi\u00e7\u00e3o e de que n\u00e3o andamos perdidos.
Assim se deu a profecia na Igreja primitiva, e a Escritura deixou-nos dois modelos insuper\u00e1veis da mesma na carta aos Hebreus e no Apocalipse. Houve um livro, sobretudo, que facilitou o florescer dessa profecia: o Livro dos Salmos. Julgava-se que fosse todo ele obra de David, e que, al\u00e9m disso, o Messias era filho de David. Estes dois dados reunidos estimularam o desenvolvimento de muitas investiga\u00e7\u00f5es sobre este ou aquele vers\u00edculo dos salmos. Os letrados e os monges meditavam sobre as intui\u00e7\u00f5es e sobre a ora\u00e7\u00e3o de David e, a partir da\u00ed, tentavam compreender melhor o mist\u00e9rio de Cristo.
Nas duas passagens de Lucas que cit\u00e1mos, Jesus at\u00e9m-Se ao que constituir\u00e1 a base da prega\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica, e a essas primeiras li\u00e7\u00f5es se refere Lucas, quando nos diz que Jesus instruiu os seus ap\u00f3stolos atrav\u00e9s do Esp\u00edrito Santo, depois da Ressurrei\u00e7\u00e3o [Ac_1,2].

{N}2.33: A PALAVRA (VERBO) \u00c9 DEUS, OU N\u00c3O? {/}[Jn_1,1]
E a Palavra era Deus. Esta afirma\u00e7\u00e3o tem sido discutida, n\u00e3o s\u00f3 porque exige um m\u00ednimo de reflex\u00e3o, mas, sobretudo, porque fere certos preconceitos doutrinais. Tal \u00e9 o caso das Testemunhas de Jeov\u00e1, que n\u00e3o hesitam em traduzir: a Palavra era um Deus. E, para justificar tal tradu\u00e7\u00e3o, apoiam-se no texto de [Jo_10,34] - [Jo_10,36]: a palavra grega Theos, dizem eles, tanto pode significar um Deus como Deus e, quando se trata de Deus, aparece sempre o artigo em Grego: O Theos, o Deus. Mas aqui n\u00e3o nenhum artigo, portanto, trata-se de um Deus.
A realidade \u00e9 muito diferente. Quando se trata, n\u00e3o de um sujeito, mas de um atributo, como \u00e9 o caso em: era Deus, o Grego b\u00edblico coloca o artigo se Deus \u00e9 considerado uma Pessoa, mas n\u00e3o o coloca se Deus significa a natureza divina. Certamente Aquele que \u00e9 Deus (ou as pessoas que s\u00e3o Deus) constituem uma s\u00f3 coisa com a natureza divina, mas a pessoa n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa que a natureza. Portanto, n\u00e3o se usa artigo quando se diz aquilo que \u00e9 Deus, e usa-se quando se designa Aquele que \u00e9 Deus.
Temos um exemplo disso no livro dos Reis. Em [1Rs_8,60], Salom\u00e3o declara: \u00abAssim todos os povos da terra saber\u00e3o que Jav\u00e9 \u00e9 Deus e que n\u00e3o h\u00e1 outro fora d'Ele\u00bb. Deus aparece sem artigo: s\u00f3 Jav\u00e9 \u00e9 Ser divino. Pelo contr\u00e1rio, em [1Rs_18,21], Elias diz ao povo: \u00abSe Jav\u00e9 \u00e9 Deus, segui-O, se \u00e9 Baal, segui-o\u00bb. Deus aparece com artigo, porque a elei\u00e7\u00e3o se faz entre duas pessoas. De igual modo, em [Dt_32,39] e [Js_2,11] v\u00eaem-se dois exemplos de Deus sem artigo, querendo dizer, de cada vez, que Jav\u00e9 \u00e9 um ser Todo-poderoso e soberano.
Se passarmos para o Novo Testamento, encontramos um novo dado. Recordamos, no coment\u00e1rio a [Jo_20,11], que, desde os dias da Ressurrei\u00e7\u00e3o e do Pentecostes, a f\u00e9 crist\u00e3 tinha adquirido a certeza de que Jesus era Filho de Deus no sentido mais firme do termo. Rapidamente se come\u00e7ou a jogar com as palavras Deus e Senhor para designar o Pai e o Filho, sem que este \u00faltimo fosse privado da sua categoria divina. \u00c9 f\u00e1cil ver como Paulo os nomeia sempre juntos: para ele, Deus \u00e9 o Pai e, segundo o que dissemos sobre o usos do artigo em grego, Paulo escreve sempre: o Deus, porque se trata da pessoa do Pai.
Em tais condi\u00e7\u00f5es, se Jo\u00e3o queria dizer que a Palavra era de natureza divina, ou seja, que partilhava da natureza divina de Deus-Pai, mas sem ser a mesma pessoa que o Pai, s\u00f3 podia exprimir-se tal como fez: a Palavra era Deus, sem artigo. E diz, imediatamente a seguir: Estava com Deus desde o come\u00e7o: e aqui aparece o Deus, com artigo, porque diz que a Palavra estava voltada para a Pessoa de Deus-Pai.
\u00c9 verdade que, desde o in\u00edcio da Igreja, tanto para os judeus como para os gregos, a f\u00e9 crist\u00e3 em Jesus, Filho de Deus, nascido de Deus, e que partilha o mist\u00e9rio divino do Pai, constitu\u00eda um desafio para a raz\u00e3o filos\u00f3fica e para as religi\u00f5es que tinham sido ensinadas, e o mesmo continua a ser, ainda hoje, para as Testemunhas de Jeov\u00e1. Ora, traduzir: a Palavra (ou o Verbo) era um Deus, \u00e9 completamente absurdo, visto que, se quisessem ser consequentes com o seu argumento, tamb\u00e9m em [Jn_16,27] deveriam traduzir: Sa\u00ed de um Deus, pois a\u00ed tamb\u00e9m n\u00e3o aparece artigo.

{N}2.34: JO\u00c3O E OS SAMARITANOS {/}[Jn_1,47]
Eis um israelita verdadeiro. Quando o Evangelho fala do Messias, percorre habitualmente, n\u00e3o o vocabul\u00e1rio comum dos judeus, mas o dos samaritanos, herdeiros afastados do reino de Israel e das tribos do norte. Falou de Elias, o grande profeta de Israel, do Profeta mencionado por Deuteron\u00f3mio [Dt_18,15], um dos livros que tamb\u00e9m figuravam na B\u00edblia dos samaritanos; no vers\u00edculo 45, a frase est\u00e1 deturpada e toda a for\u00e7a foi colocada em: do qual falou Mois\u00e9s na Lei, porque os samaritanos reivindicavam Mois\u00e9s, mas n\u00e3o os profetas, quase todos judeus; Jesus \u00e9 o filho de Jos\u00e9, um nome querido pela gente do norte, que era o territ\u00f3rio das tribos de Jos\u00e9. Natanael, ent\u00e3o, responde: Tu \u00e9s o Rei de Israel. Jesus replica evocando o sonho de Jacob em Betel, um homem e um lugar que ainda s\u00e3o tipicamente samaritanos.
Tudo isso nos leva a pensar que pelo menos algumas partes do evangelho de Jo\u00e3o ter\u00e3o sido escritas para os samaritanos, ou, mais precisamente, para comunidades crist\u00e3s do outro lado do Jord\u00e3o, que se sentiam mais pr\u00f3ximas dos samaritanos do que dos judeus. No cap\u00edtulo 4, a conversa excepcionalmente longa com a samaritana apresentar\u00e1 as mesmas caracter\u00edsticas, at\u00e9 \u00e0 resposta do v. 42, porque a express\u00e3o Salvador do mundo parece ter nascido, por essa altura, na prov\u00edncia da Samaria. Nos cap\u00edtulos seguintes Jo\u00e3o escrever\u00e1 muitas vezes: os judeus, como se falasse de um grupo estrangeiro.
A descoberta, na China, de documentos importantes provenientes de crist\u00e3os chamados nestorianos, que levaram at\u00e9 l\u00e1 o Evangelho durante o s\u00e9culo sexto, lan\u00e7ou alguma luz sobre as suas antigas tradi\u00e7\u00f5es. Provinham de pa\u00edses situados a oriente do Jord\u00e3o, e consideravam-se herdeiros de Jo\u00e3o; as suas tradi\u00e7\u00f5es olhavam com desconfian\u00e7a os judeus da Judeia.

{N}2.35: OS S\u00cdMBOLOS DO EVANGELHO DE JO\u00c3O {/}[Jn_2,11]
\u00c9 verdade que o Evangelho de Jo\u00e3o se dedicou \u00e0 revela\u00e7\u00e3o do simbolismo de muitos pormenores dos acontecimentos de que o evangelista foi testemunha; Jo\u00e3o achou a chave dos mesmos no seu conhecimento das Escrituras. Alguns poder\u00e3o fazer hoje a pergunta: ter\u00e1 Deus querido todos estes simbolismos? Jesus tinha-os presentes no seu esp\u00edrito quando actuava? N\u00e3o s\u00e3o antes uma interpreta\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o, talvez admir\u00e1vel, mas n\u00e3o menos subjectiva?
\u00c9 imposs\u00edvel dar uma resposta simples a tais perguntas. Tivemos oportunidade de recordar que nunca houve uma interpreta\u00e7\u00e3o \u00ab\u00fanica\u00bb da Escritura. Ela \u00e9 portadora do Esp\u00edrito [2Tm_3,16] e \u00e9 o Esp\u00edrito que revela a cada um parte dos tesouros que ela encerra. Assinalaremos aqui alguns simbolismos que parecem ter sido inscritos por Jo\u00e3o no seu relato das bodas de Can\u00e1.
{N}CAN\u00c1{/}
O evangelista conservou na mem\u00f3ria este acontecimento de Can\u00e1, mas rel\u00ea-o agora \u00e0 luz da Ressurrei\u00e7\u00e3o, e as aproxima\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas multiplicam-se porque a alegria das Bodas de Deus com a humanidade \u00e9 agora revelada.
As primeiras palavras do relato situam a festa no tempo: ao terceiro dia. \u00c9 o \u00faltimo dia da \u00absemana inaugural\u00bb que se segue ao Pr\u00f3logo do Evangelho de Jo\u00e3o, sendo pois o s\u00e9timo dia desde o come\u00e7o do minist\u00e9rio na Galileia, segundo a apresenta\u00e7\u00e3o que dele faz o quarto evangelista.
Esse terceiro dia re-situa o acontecimento na Hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o. Por ocasi\u00e3o da teofania e da conclus\u00e3o da Alian\u00e7a no Sinai, Deus tinha dito a Mois\u00e9s: \u00abVai ter com o povo e manda que se purifique hoje e amanh\u00e3...; e estejam preparados para depois de amanh\u00e3 (o terceiro dia), porque Jav\u00e9 descer\u00e1 depois de amanh\u00e3 sobre a montanha do Sinai, \u00e0 vista de todo o povo\u00bb [Ex_19,10] - [Ex_19,11].
O terceiro dia, por\u00e9m, tamb\u00e9m recorda ao crente a Ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo e as promessas da vida eterna.
No entanto, em Can\u00e1 ainda \u00abn\u00e3o tinha chegado a sua hora\u00bb, hora da paix\u00e3o e da cruz, mas tamb\u00e9m a hora em que resplandecer\u00e1 a sua Gl\u00f3ria de Filho de Deus e o seu amor pelos homens.
\u00abA M\u00e3e de Jesus\u00bb, primeira a ser mencionada no relato, interv\u00e9m discretamente junto a seu Filho; est\u00e1 atenta \u00e0 falta de vinho, sem o qual a festa teria sido um fiasco. Maria, filha de Israel, apresenta ao seu Filho a ang\u00fastia do seu povo; junto com este, Ela aguarda a salva\u00e7\u00e3o que lhe foi prometida. Perante o pedido de sua M\u00e3e, Jesus responde num tom muito diferente: \u00abMulher, que existe entre n\u00f3s?\u00bb Com efeito, que existe de comum entre a falta de vinho, um incidente lament\u00e1vel, mas banal, e o \u00abprimeiro dos sinais\u00bb pelo que Jesus manifesta a sua gl\u00f3ria? A partir desse momento, Jesus instaura o Reino de Deus sobre a Terra.
A refer\u00eancia \u00e0 Hora insiste nessa dist\u00e2ncia entre o facto pontual e a revela\u00e7\u00e3o messi\u00e2nica do acontecimento. Maria compreende que a resposta de Jesus ultrapassa infinitamente as apar\u00eancias, e ordena aos criados: \u00abFazei o que Ele mandar\u00bb; Maria, por sua vez, convida os criados \u00e0 atitude fundamental que A fez viver e agir desde o dia da Anuncia\u00e7\u00e3o: Eis aqui a escrava do Senhor, fa\u00e7a-se em mim segundo a tua palavra [Lc_1,38].
Maria revela-Se sob um duplo aspecto: como filha de Israel, vemo-la solid\u00e1ria com o seu povo; como M\u00e3e de Jesus \u00e9, desde j\u00e1, figura da Igreja, o Israel de Deus.
Jesus manda servir o vinho \u00e0 mesa de Can\u00e1, utilizando as talhas de pedra que continham a \u00e1gua das purifica\u00e7\u00f5es rituais, s\u00edmbolo ritual do juda\u00edsmo. Esse vinho, outorgado em profus\u00e3o, e conservado at\u00e9 esse dia, proclama a eclos\u00e3o da Nova Alian\u00e7a, anunciada pelos profetas e inaugurada em Jesus Cristo.
Desse modo, a Hist\u00f3ria da humanidade tem apenas dois tempos: o tempo da promessa e o tempo do cumprimento. Pelo seu mist\u00e9rio pascal, Cristo leva \u00e0 sua plenitude e transfigura essa Hist\u00f3ria: convida a humanidade a participar do banquete eterno das Bodas do Cordeiro [Ap_19,9].

{N}2.36: EU DESCI DO C\u00c9U {/}[Jn_6,33]
Porque o p\u00e3o de Deus (ou o p\u00e3o que Deus d\u00e1) \u00e9 aquele que desce do c\u00e9u e d\u00e1 vida ao mundo. Neste cap\u00edtulo deparamos sete vezes com essa express\u00e3o: desce do c\u00e9u. \u00c9 suficiente para nos dar a entender que, para Jo\u00e3o, essa afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 essencial. \u00c9 muito dif\u00edcil de aceitar por quem tenha uma forma\u00e7\u00e3o um pouco racionalista: como \u00e9 que o Filho, sendo Deus, pode descer do c\u00e9u? No s\u00e9culo quarto os nestorianos foram acusados de dividir Cristo: insistiam de tal forma na realidade humana de Jesus, que parecia tratar-se de uma pessoa \u00e0 parte do Filho de Deus. Era quase como se, do alto do C\u00e9u, o Filho eterno se tivesse unido intimamente a um homem a quem pilotava, assumindo tudo o que esse homem excepcional fizesse. Pode ser que os nestorianos tenham cometido esse erro, pois n\u00f3s tamb\u00e9m o cometemos com muita frequ\u00eancia. Existe uma forma muito comum de falar de Jesus, que coloca uma grande dist\u00e2ncia entre Ele e o mist\u00e9rio de Deus, onde habita o Filho eterno.
\u00c9 prov\u00e1vel que alguns digam: o Filho n\u00e3o pode perder a sua condi\u00e7\u00e3o divina e troc\u00e1-la por uma condi\u00e7\u00e3o humana. Por certo Ele n\u00e3o perde a sua natureza divina, mas de alguma forma dep\u00f5e-na para voltar a tom\u00e1-la [Jo_10,17] - [Jo_10,18], o que \u00e9 muito diferente. Essa encarna\u00e7\u00e3o do Filho de Deus [Jo_1,14] s\u00f3 pode chocar a nossa raz\u00e3o, bem como a concep\u00e7\u00e3o do ser divino existente entre os fil\u00f3sofos gregos. No entanto, encontramo-la em todos os textos do Novo Testamento que nos falam do mist\u00e9rio do Filho; ver [Jo_3,32]; [Jo_6,62]; [Jo_8,14] e nota a [Fl_2,6].

{N}2.37: A CRISE DOS DISC\u00cdPULOS {/}[Jn_6,66]
Jo\u00e3o \u00e9 o \u00fanico que nos fala de tal crise entre os seguidores de Jesus e do afastamento de numerosos disc\u00edpulos, embora os sin\u00f3pticos tamb\u00e9m d\u00eaem a entender que se verificou uma redu\u00e7\u00e3o na multid\u00e3oque O rodeava. [Mc_9,30] diz-nos, pouco depois, que Jesus seguia de povoa\u00e7\u00e3o em povoa\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o queria que se conhecesse o seu paradeiro, porque estava ocupado na forma\u00e7\u00e3o dos seus disc\u00edpulos. Podemos pensar, ent\u00e3o, que j\u00e1 n\u00e3o acorriam multid\u00f5es, e, se tivermos em conta o que diz Jo\u00e3o neste par\u00e1grafo, compreende-se melhor como, nos outros evangelhos, Jesus passa do ensino das multid\u00f5es \u00e0 forma\u00e7\u00e3o dos verdadeiros fi\u00e9is.
Contudo, se houve uma crise grave, qual foi o motivo? Jo\u00e3o d\u00e1 uma resposta dupla. A primeira \u00e9 que a turba estava decepcionada com o messianismo (outros dir\u00e3o com a nega\u00e7\u00e3o do messianismo) de Jesus. Em Israel, cada um fazia a sua ideia pessoal do Messias, embora houvesse um ponto comum, que era a restaura\u00e7\u00e3o nacional. Pois bem, quando a popularidade de Jesus atinge o seu ponto mais alto, desmorona-se. [Mc_6,45] confirma \u00e0 sua maneira a desilus\u00e3o de que nos fala Jo\u00e3o em [Jo_6,14] - [Jo_6,17].
O segundo motivo \u00e9 mais profundo. Recusar o messianismo tal como o povo o entendia n\u00e3o punha em quest\u00e3o os ensinamentos de Jesus; aqui, pelo contr\u00e1rio, Jo\u00e3o quis fazer-nos captar a incapacidade dos simpatizantes de se porem \u00e0 altura da revela\u00e7\u00e3o que Jesus lhes entregava. Estimavam-no enormemente como Mestre, maravilhavam-se com os seus poderes de cura, acreditavam que Deus actuava por meio d'Ele, mas, quando come\u00e7aram a perceber o que Jesus trazia consigo, abandonaram-n'O. H\u00e1 pessoas que s\u00f3 juram por este ou aquele grande homem, aceitando como sagrado tudo o que ele diga. Tal atitude provoca fastio ou zombaria; felizmente, essas pessoas n\u00e3o s\u00e3o numerosas, e a maioria mostra mais sabedoria. Ora, foi precisamente essa maioria do povo judeu, alertada pela Lei contra qualquer culto \u00e0 personalidade, que se escandalizou com o facto de Jesus evitar qualquer compara\u00e7\u00e3o e qualquer tentativa de lhe atribuir um lugar entre os Mestres e Profetas.
Jo\u00e3o n\u00e3o imaginou de forma directa e imediata o discurso do cap\u00edtulo 6; deve ter reunido aqui v\u00e1rias frases que Jesus opunha \u00e0 esperan\u00e7a messi\u00e2nica, tal como a via espelhada no povo. Ora bem, Jesus diz e repete que Ele \u00e9 o p\u00e3o que desceu do c\u00e9u. Al\u00e9m disso, o que \u00e9 ainda mais grave, todas as suas afirma\u00e7\u00f5es se desligam do Antigo Testamento, que ele cita cuidadosamente. Que longe se est\u00e1 dos escritos religiosos do seu tempo e, inclusivamente, dos livros mais tardios do Antigo Testamento! Jerusal\u00e9m... o Templo, os suspiros de Israel oprimido, a compaix\u00e3o do Eterno pelo seu povo... Muito pelo contr\u00e1rio, Jesus parece estar apenas interessado em que o Pai seja descoberto no Filho: a\u00ed est\u00e1 o reino. Finalmente, se a hora \u00e9 \u00fanica, \u00e9 porque Deus Se tornou presente.
Os disc\u00edpulos fazem marcha atr\u00e1s porque n\u00e3o est\u00e3o dispostos a abandonar toda a sua heran\u00e7a religiosa s\u00f3 pela f\u00e9 n'Aquele que exerce sobre eles uma tal atrac\u00e7\u00e3o: n\u00e3o escut\u00e1-l'O e acreditar nas suas palavras, mas acreditar n'Ele. Quem poderia censur\u00e1-los? Ningu\u00e9m pode vir a Mim, se isso n\u00e3o lho \u00e9 concedido pelo Pai (65).
Jesus nunca lhes disse para renegarem as suas pr\u00e1ticas religiosas, mas apenas que elas deviam ser coroadas por qualquer coisa completamente distinta: a busca e a experi\u00eancia da comunh\u00e3o com Deus pelo Filho, e gra\u00e7as \u00e0 vida no Esp\u00edrito. \u00c9 f\u00e1cil ver que essa crise dos disc\u00edpulos de Jesus est\u00e1 sempre latente no mundo crist\u00e3o: a ideia de que a totalidade de Deus e do universo nos seja oferecida inclusivamente hoje n'Ele e s\u00f3 n'Ele \u00e9 intoler\u00e1vel para os s\u00e1bios, e alguns n\u00e3o descansar\u00e3o enquanto n\u00e3o tiverem feito de Jesus um dos maiores ou o maior dentre os homens, mas sem acreditar n'Ele.

{N}2.38: N\u00c3O H\u00c1 OUTRO NOME {/}[Act_4,12]
N\u00e3o existe salva\u00e7\u00e3o em nenhum outro. Poder\u00edamos interrogar-nos que entende Pedro por salva\u00e7\u00e3o. Deus tinha-Se manifestado como \u00fanico Salvador do seu povo e como \u00fanico Nome pelo qual os homens deviam ser salvos. Mas agora, como proclama Pedro, toda a obra de Deus, em Israel, passar\u00e1 por esse Messias j\u00e1 instalado \u00e0 sua direita [Sl_110,1]. A salva\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se encontra em mais ningu\u00e9m \u00e9, em primeiro lugar, a \u00abliberta\u00e7\u00e3o de Israel\u00bb [Lc_2,25], que muitos dos auditores de Pedro esperavam. E Pedro n\u00e3o hesita em prometer-lhes tempos melhores [Lc_3,20].
Contudo, os profetas nunca separaram a salva\u00e7\u00e3o de Israel de uma renova\u00e7\u00e3o interior dos crentes. Os ap\u00f3stolos acentuam imediatamente essa salva\u00e7\u00e3o trazida aos que cr\u00eaem; n\u00e3o se fala de crist\u00e3os, mas de \u00absalvos\u00bb. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que tinham consci\u00eancia de ser salvos e que o manifestavam na sua vida quotidiana. Contudo, tal situa\u00e7\u00e3o poderia durar? No entusiasmo do primeiro momento, quem acredita sente-se renovado e tem a impress\u00e3o de que os seus problemas est\u00e3o resolvidos. Ou ent\u00e3o, mais simplesmente, como dizem algumas pessoas: \u00abOntem isso paralisava-me de terror; agora j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 para mim um drama\u00bb. A presen\u00e7a de uma pessoa amada que passa a ser o centro da nossa exist\u00eancia basta para nos dar asas: Jesus era amado. O mesmo se diga do dom do Esp\u00edrito.
Os ap\u00f3stolos nunca teriam pensado em renegar o passado de Israel, a revela\u00e7\u00e3o feita aos profetas, os recursos e a f\u00e9 da comunidade judaica, que tinha produzido ap\u00f3stolos e m\u00e1rtires, sem considerar a multid\u00e3o de justos humildes e an\u00f3nimos. Por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 o mesmo acreditar em Deus a partir das interven\u00e7\u00f5es da sua Provid\u00eancia, ou acreditar na alian\u00e7a de Deus com Israel, escrita tanto na Hist\u00f3ria como na Escritura; ou ent\u00e3o, receber Jesus como o Filho \u00danico, Deus encarnado, que veio a n\u00f3s para partilhar a nossa condi\u00e7\u00e3o. Este acontecimento \u00fanico \u00e9 mais poderoso do que qualquer outra revela\u00e7\u00e3o para atrair o cora\u00e7\u00e3o humano para a confian\u00e7a em Deus Pai, e para a humildade e o amor verdadeiro, a exemplo de Jesus.
Pois bem, com Jesus, a f\u00e9 tinha adquirido uma nova dimens\u00e3o. Por isso, as cartas de Paulo n\u00e3o falam apenas da f\u00e9 em Cristo [Act_21,21]; [Gl_2,16] ...  , mas da f\u00e9 de Cristo, ou seja, da f\u00e9 pr\u00f3pria dos crist\u00e3os, que se apoia em Cristo, que \u00e9 segundo Cristo [Act_3,16]; [Rm_3,22]; [Fl_3,9] ...) A prova de que a f\u00e9 de Cristo transformou o panorama psicol\u00f3gico espiritual do crente temo-la no dom do Esp\u00edrito, que acompanhava o baptismo. Atrav\u00e9s deste, n\u00e3o se dava apenas um carisma, um favor sens\u00edvel, destinado a recompensar o crente, mas abria-se um mundo novo diante de si e no seu interior.
Esta salva\u00e7\u00e3o pessoal, que em breve ocupar\u00e1 o primeiro lugar na Igreja, \u00e9 uma renova\u00e7\u00e3o profunda da alma crente. Em primeiro lugar, h\u00e1 o perd\u00e3o dos pecados. Com efeito, Jesus p\u00f4s a descoberto o pecado, como nunca ningu\u00e9m tinha feito at\u00e9 Ele; basta ler o Serm\u00e3o da Montanha. Para alguns dos ouvintes de Pedro, o pecado tamb\u00e9m consiste em ter aprovado a condena\u00e7\u00e3o de Jesus, e para todos os outros o n\u00e3o ter escutado a sua chamada repetida. Mas agora Deus oferece uma reconcilia\u00e7\u00e3o muito mais profunda do que as do passado, essencialmente porque manifestou o seu imenso amor e o seu poder de perd\u00e3o, atrav\u00e9s da cruz de Cristo. Mesmo que os crentes ainda n\u00e3o soubessem exprimir bem a sua f\u00e9 nesse Filho de Deus, estavam conscientes de que tinham ganhado tudo: para retomar a linguagem dos profetas, eles eram o \u00abresto de Israel\u00bb e os \u00abresgatados - ou salvos - de Si\u00e3o\u00bb [Is_4,3].
Ora, quando Pedro diz que quem acredita se salva, n\u00e3o se trata sobretudo de escapar a uma condena\u00e7\u00e3o ou a um Apocalipse iminente [Act_2,21]. A salva\u00e7\u00e3o \u00e9 uma plenitude. Os salvos s\u00e3o, ao mesmo tempo, benefici\u00e1rios e cooperadores do mist\u00e9rio de salva\u00e7\u00e3o que Deus efectua no cora\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria humana. Al\u00e9m disso, quando olham \u00e0 sua volta, n\u00e3o podem duvidar que entraram em corpo e alma num estado, antes, numa verdade pr\u00f3pria dos que acreditaram e entraram na Igreja.
Quando Pedro diz, n\u00e3o s\u00f3 para Israel, mas para todos os povos: Debaixo do C\u00e9u n\u00e3o existe outro Nome dado aos homens, n\u00e3o est\u00e1 a limitar a obra da salva\u00e7\u00e3o. N\u00e3o nega o trabalho de Deus nessa grande parte da humanidade que n\u00e3o chegar\u00e1 a conhecer Cristo; antes pelo contr\u00e1rio, fala para os que o escutam e para esse povo que Deus j\u00e1 elegeu para ser portador dos seus mist\u00e9rios. Tamb\u00e9m n\u00e3o diz que os que n\u00e3o cr\u00eaem ser\u00e3o condenados, mas que perdem essa salva\u00e7\u00e3o, que era o grande dom de Deus.

{N}2.39: BAPTISMO E IMPOSI\u00c7\u00c3O DAS M\u00c3OS {/}[Act_8,14]
Este par\u00e1grafo faz distin\u00e7\u00e3o entre o baptismo e a imposi\u00e7\u00e3o das m\u00e3os, que confere o Esp\u00edrito [Act_19,6]. Ambas as coisas se distinguem nitidamente em [Hb_6,2]. Os evangelhos, pelo contr\u00e1rio, falavam do baptismo pelo Esp\u00edrito Santo, que n\u00e3o era sen\u00e3o o baptismo de Cristo, e opunham-no ao baptismo de \u00e1gua, que era o de Jo\u00e3o Baptista.
H\u00e1 que recordar aqui as palavras de Pedro em [Act_10,47]: estas pessoas que receberam o Esp\u00edrito Santo da mesma forma que n\u00f3s. Se nos ativermos igualmente ao pormenor das explica\u00e7\u00f5es de Pedro em [1Pd_11,16], devemos concluir que desde os primeiros dias os ap\u00f3stolos quiseram transmitir, atrav\u00e9s da imposi\u00e7\u00e3o das m\u00e3os (ver  [Nm_27,18]), o dom que tinham recebido. Talvez Jesus lhes tenha dito qualquer coisa nos dias que se seguiram \u00e0 Ressurrei\u00e7\u00e3o e durante os quais lhes deu as suas instru\u00e7\u00f5es atrav\u00e9s do Esp\u00edrito Santo: [Act_1,2]. Contudo, n\u00e3o falam do baptismo \u00abno Esp\u00edrito\u00bb, tal como Jesus tinha dito. Parece, portanto, que, desde as suas origens, a inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3 ter\u00e1 inclu\u00eddo ambos os ritos e s\u00f3 nos podemos interrogar se estavam os dois unidos ou se havia um intervalo entre eles. Por outro lado, \u00e9 certo que a imposi\u00e7\u00e3o das m\u00e3os passou a ser a nossa Confirma\u00e7\u00e3o, sem qualquer ruptura de sentido ou de pr\u00e1tica.
As controv\u00e9rsias modernas sobre um baptismo do Esp\u00edrito, que seria independente do sacramento da Confirma\u00e7\u00e3o, devem-se \u00e0 conjuntura actual. Como o Baptismo e a Confirma\u00e7\u00e3o se administram com a maior frequ\u00eancia, sem que tenha havido o processo normal de convers\u00e3o e de descoberta de Cristo, o Senhor, que lhes confere o seu sentido pleno, as manifesta\u00e7\u00f5es vis\u00edveis ou carism\u00e1ticas do Esp\u00edrito s\u00e3o mais raras ou mais discretas. Por isso, a certos grupos parece importante retomar esse processo, com a esperan\u00e7a muitas vezes recompensada de obter tais gra\u00e7as. Contudo, pretender que o Esp\u00edrito nos \u00e9 dado atrav\u00e9s da confirma\u00e7\u00e3o, e que \u00e9 necess\u00e1rio acrescentar outros ritos, seria sem d\u00favida menosprezar a forma comum e tradicional da vida crist\u00e3.

{N}2.40: O DECRETO DE JERUSAL\u00c9M {/}[Act_15,28]
Dissemos no coment\u00e1rio a [Act_15,22] que possivelmente Lucas juntou aqui numa s\u00f3 narra\u00e7\u00e3o o encontro de Jerusal\u00e9m e o decreto assumido posteriormente por Tiago para a sua diocese com maioria de judeus. Devemos notar que v\u00e1rios manuscritos pertencentes ao grupo chamado ocidental cont\u00eam um texto diferente nos vers\u00edculos 20 e 29. Neles as proibi\u00e7\u00f5es s\u00e3o parcial e totalmente suprimidas, e em troca pede-se aos crist\u00e3os n\u00e3o-judeus que respeitem a grande lei da caridade j\u00e1 sugerida no Lev\u00edtico [Lv_19,18] e [Lv_19,34]: n\u00e3o fa\u00e7ais aos outros o que n\u00e3o quereis que vos fa\u00e7am.
Quando se examina este cap\u00edtulo juntamente com o de Paulo em [Gl_2,1], v\u00e1rios pormenores fazem pensar que o encontro se desenrolou na altura da festa da Dedica\u00e7\u00e3o do Templo. Desta liturgia prov\u00e9m o texto de Am\u00f3s com a men\u00e7\u00e3o da tenda de David, que \u00e9 o Templo. E os ap\u00f3stolos comparados a colunas do Templo [Gl_2,9], e a alus\u00e3o ao jugo que \u00abos nossos pais n\u00e3o foram capazes de suportar\u00bb. Seguindo o exemplo de modera\u00e7\u00e3o dado pelos mesmos judeus a respeito dos pros\u00e9litos que a eles se juntavam, a Igreja ia mais longe ainda e garantia-lhes a liberdade a respeito das leis sobre o puro e o impuro.
Parece, portanto, que o texto actual foi retocado mais tarde para o colocar em conson\u00e2ncia com o decreto mencionado em [Act_21,25], o qual mantinha essas regras para as regi\u00f5es pr\u00f3ximas da Palestina.

{N}2.41: JESUS \u00c9 O SENHOR:  SER\u00c1 ESTA AFIRMA\u00c7\u00c3O UMA INVEN\u00c7\u00c3O DA F\u00c9? {/}[Rm_1,5]
A figura de Jesus, tal como ressalta dos evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, \u00e9 a figura de um Rabi, dum doutor da Lei segundo a mais pura tradi\u00e7\u00e3o do povo de Israel [Jo_3,2]. Mesmo que, com o desenrolar da Hist\u00f3ria, se tenha dado aos conflitos com os Fariseus um pouco mais de import\u00e2ncia do que eles realmente tiveram, tamb\u00e9m n\u00e3o se esqueceu, por outro lado, que os ensinamentos de Jesus, sob muitos aspectos, estavam pr\u00f3ximos da doutrina dos Fariseus [Mc_2,16]; [Mc_12,28]; [Mc_12,32]. Disc\u00edpulos ou opositores, eles viam-n'O como um doutor da Lei autodidacta [Jo_7,15]. Como, portanto, se ter\u00e1 passado disso \u00e0 figura do Cristo, tal como aparece, sobretudo, nas cartas de Paulo: Senhor da Hist\u00f3ria, novo Ad\u00e3o, Aquele que recebeu o \u00abNome\u00bb incomunic\u00e1vel?
Na ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus acreditaram os ap\u00f3stolos e toda a comunidade crist\u00e3, que nasceu dessa certeza. Que Ele fosse o Messias, ningu\u00e9m duvidava; que fosse Filho de Deus, num sentido muito especial, completamente oposto \u00e0quilo que os judeus entendiam por esse termo, tamb\u00e9m era objecto de cren\u00e7a. Mas foi preciso muito tempo para da\u00ed tirar todas as ila\u00e7\u00f5es, e \u00e9 verdade que esta passagem foi mais dif\u00edcil de aceitar por aqueles que tinham conhecido Jesus pessoalmente, e O tinham visto atrav\u00e9s dos \u00f3culos da sua cultura judaica. N\u00e3o porque Jesus n\u00e3o tivesse sido plenamente Judeu, at\u00e9 pela sua maneira de ensinar, mas porque aquilo que eles tinham amado n'Ele os impedia de ver mais longe. Reconheciam-se certamente na carta de Tiago, o mais \u00abjudeu\u00bb dos escritos apost\u00f3licos; o autor desta carta, ao mesmo tempo que reconhece Jesus como \u00abnosso Senhor\u00bb, come\u00e7a por ver n'Ele o mestre de uma nova lei, que retoma o que h\u00e1 de melhor no Antigo Testamento.
As comunidades crist\u00e3s da Palestina v\u00e3o ligar-se, portanto, a essa imagem que lhes ficou do rabi galileu, impelidas nesse sentido pelo grupo de Nazar\u00e9, os \u00abirm\u00e3os de Jesus\u00bb [Gl_1,19]. Ele tinha ressuscitado, \u00e9 certo, mas n\u00e3o tinha feito o mundo voltar \u00e0 estaca zero, e a sua heran\u00e7a era, primeiro que tudo, uma moral depurada. Durante v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es, estes \u00abjudeo-crist\u00e3os\u00bb v\u00e3o sentir-se como que estrangeiros perante a f\u00e9 da Igreja, cujo centro, entretanto, passar\u00e1 de Jerusal\u00e9m para Roma.
Foi a\u00ed que Paulo desempenhou o papel decisivo, sem o ter escolhido. Ele n\u00e3o inventou o Cristo Senhor e Redentor: Este j\u00e1 estava presente nas primeiras proclama\u00e7\u00f5es de Pedro [Act_2,32] - [Act_2,36]; [Act_3,15]. Mas Paulo n\u00e3o tinha sido marcado (e ao mesmo tempo limitado) pela imagem e as palavras do rabi galileu; pelo contr\u00e1rio, a sua convers\u00e3o tinha sido um encontro com o pr\u00f3prio Deus, na pessoa de Jesus, e ele tinha assumido uma posi\u00e7\u00e3o eminente, por semelhan\u00e7a com a prega\u00e7\u00e3o itinerante do Mestre [2Cor_5,16].
Se Jesus n\u00e3o tivesse ressuscitado, teria continuado a ser um mestre: at\u00e9 a\u00ed as suas palavras eram quase mais importantes do que a sua pessoa. Mas o corpo desaparecido do t\u00famulo, na manh\u00e3 de P\u00e1scoa, se correspondia \u00e0 verdade, constitu\u00eda, s\u00f3 por si, uma fenda aberta nas leis do universo. Em seguida, todas as apari\u00e7\u00f5es do ressuscitado traziam consigo uma \u00fanica Mensagem: Jesus, Senhor! Estava-se longe de Jeremias, envolto numa aur\u00e9ola de gl\u00f3ria, ou de Elias, arrebatado ao c\u00e9u. No Pentecostes, Pedro disse que, atrav\u00e9s dessa ressurrei\u00e7\u00e3o, Deus acabara de reabilitar o seu \u00absanto Servo\u00bb [Act_3,13], mas acrescentara: \u00abDeus constituiu-O Senhor\u00bb. Muito em breve ser\u00e1 necess\u00e1rio reconhecer em Jesus o \u00abfilho da mulher elevado ao c\u00e9u, para a\u00ed receber em suas m\u00e3os o Livro da Hist\u00f3ria\u00bb [Ap_12,5;] [Ap_5,7]. Paulo e Jo\u00e3o t\u00eam o direito de falar, pois s\u00e3o verdadeiras testemunhas: ambos foram convidados a admirar de relance as moradas celestes [Ap_4,1]; [2Cor_12,2].
Agora era a pessoa de Jesus que revelava a chave das suas palavras, pois Ele era Deus, nascido de Deus. Quando Paulo falar\u00e1 de Cristo como \u00abimagem de Deus\u00bb [Cl_1,15], n\u00e3o come\u00e7ar\u00e1 por nos convidar a reconhecer nos gestos de Jesus a bondade do Pai: pensar\u00e1 primeiro que tudo no Filho que, desde as origens, \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o, a projec\u00e7\u00e3o e a sabedoria activa do Deus eternamente invis\u00edvel. Foi Ele que atravessou o tempo, e a nossa Hist\u00f3ria, para que, por Ele, toda a cria\u00e7\u00e3o e a Hist\u00f3ria dos homens se reconciliem com o mist\u00e9rio divino [Cl_1,20].
Nos evangelhos, Jesus queria ser apenas o arauto do Reino de Deus. Com Paulo, por\u00e9m, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 Reino a n\u00e3o ser no Filho, feito homem e ressuscitado [Cl_3,1]. Nisso reside o fosso que separa a f\u00e9 crist\u00e3 e a posi\u00e7\u00e3o daqueles que, dentre os judeus, sentem mais simpatia pela figura de Jesus. N\u00e3o foi Paulo que ergueu um muro de incompreens\u00e3o: a fonte de esc\u00e2ndalo era a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus, bem como a sua morte na cruz.
O esc\u00e2ndalo n\u00e3o \u00e9 menor para o crist\u00e3o de hoje. Por muita f\u00e9 que tenhamos, somos por vezes assaltados pela d\u00favida: ser\u00e1 tudo isto verdade? E muitos livros escritos por descrentes, ou at\u00e9 por crist\u00e3os instru\u00eddos, v\u00eam confirmar as nossas d\u00favidas: \u00abA ressurrei\u00e7\u00e3o? N\u00e3o tem outra base para al\u00e9m de um t\u00famulo encontrado vazio... -  e mesmo assim, quem sabe?... Em seguida houve quem interpretasse, quem julgasse ver... Disseram que tinha ressuscitado, mas isso era uma forma de O envolver numa aur\u00e9ola e de consolidar a esperan\u00e7a da comunidade...\u00bb.
Todas estas raz\u00f5es, por\u00e9m, n\u00e3o prov\u00eam de uma convic\u00e7\u00e3o \u00edntima no cora\u00e7\u00e3o do crente; um instinto divino diz-lhe que a verdade reside no mist\u00e9rio e n\u00e3o nas interpreta\u00e7\u00f5es que pretendem elimin\u00e1-lo [1Jo_2,27]. Dizemos bem: \u00abum instinto divino\u00bb, pois n\u00e3o se trata de uma quest\u00e3o de sentimento. N\u00f3s acreditamos, o que significa, em primeiro lugar, que recebemos o testemunho dos ap\u00f3stolos e da Igreja, e que acreditamos, tal como eles acreditaram. Mas, se acolhermos a f\u00e9, Deus n\u00e3o nos deixar\u00e1 sozinhos frente \u00e0s nossas d\u00favidas, pois h\u00e1 uma promessa para aquele que cr\u00ea: o dom do Esp\u00edrito Santo [Act_2,38]. Os textos b\u00edblicos, tanto do Antigo como do Novo Testamento, dizem claramente que n\u00e3o haver\u00e1 f\u00e9 que se mantenha sem uma experi\u00eancia espiritual [Hb_12,18] - [Hb_12,24], e isto \u00e9 ainda mais verdade para aqueles que vivem, como \u00e9 muitas vezes o nosso caso, numa civiliza\u00e7\u00e3o imperme\u00e1vel \u00e0 f\u00e9 [1Cor_12,3].

{N}2.42: O VOCABUL\u00c1RIO DA JUSTIFICA\u00c7\u00c3O {/}[Rm_3,20]
A partir do momento em que abordamos os textos t\u00e3o importantes de Paulo sobre a \u00abjustifica\u00e7\u00e3o\u00bb, \u00e9 bom precisar o sentido das palavras que ele emprega e que deveremos exprimir bem na nossa l\u00edngua, que n\u00e3o \u00e9 a sua. A diferen\u00e7a, quanto ao resto, n\u00e3o reside apenas aqui, entre o Grego e o Portugu\u00eas; Paulo utiliza as palavras da B\u00edblia grega dos Setenta, aquela que, em certa medida, tinha determinado a linguagem religiosa dos judeus de l\u00edngua grega, e essas palavras devem ser compreendidas \u00e0 luz das experi\u00eancias religiosas do Antigo Testamento.
O nosso vocabul\u00e1rio sobre a justifica\u00e7\u00e3o e a gra\u00e7a foi fortemente marcado pelas intermin\u00e1veis controv\u00e9rsias teol\u00f3gicas e pelas pol\u00e9micas entre cat\u00f3licos e protestantes dos s\u00e9culos XVI a XVIII. Os nossos antepassados de antes de Cristo estavam bem longe de imaginar semelhantes quest\u00f5es. O vocabul\u00e1rio da reden\u00e7\u00e3o, do pecado e da justifica\u00e7\u00e3o nasceu da experi\u00eancia que deles tinham os v\u00e1rios grupos ou pessoas, sobre algu\u00e9m, menos importante, e outro, mais poderoso, que passava a ser seu protector. O mais poderoso estabelece uma alian\u00e7a com obriga\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas. Sucede que o inferior se revolta, peca contra o seu soberano [2Rs_18,14]; [Ez_17,15] e o atrai\u00e7oa. O soberano, pelo seu lado, pode apreciar a fidelidade do seu aliado, considerando-o justo.
A\u00ed temos, portanto, as palavras da Alian\u00e7a. N\u00e3o se duvida, por certo, da miseric\u00f3rdia de Deus, de que Ele saiba ou n\u00e3o perdoar, mas o povo tamb\u00e9m est\u00e1 consciente da justi\u00e7a de Deus: se puser em pr\u00e1tica os mandamentos da Alian\u00e7a, merecer\u00e1 um olhar favor\u00e1vel da parte de Deus. Os profetas trar\u00e3o uma evolu\u00e7\u00e3o \u00e0 espera do ju\u00edzo: nesse dia Deus justificar\u00e1 os seus, ou seja, reconhec\u00ea-los-\u00e1 como justos, e perdoar-lhes-\u00e1. Outra ideia abre caminho, enquanto o povo continua a pecar: o homem precisa de convers\u00e3o, e esta s\u00f3 pode ser obra de Deus [1Rs_18,37]; mas n\u00e3o \u00e9 isso que corresponde \u00e0 palavra justifica\u00e7\u00e3o.
Depois do ex\u00edlio, na ora\u00e7\u00e3o dos Salmos, vemos desenvolver-se o desejo do crente sincero de cumprir o melhor poss\u00edvel os preceitos da Lei, sabendo que, quem os puser em pr\u00e1tica, viver\u00e1 por Eles [Lv_18,5]. Conhecedor da sua pr\u00f3pria debilidade, n\u00e3o se cansar\u00e1 de pedir a Deus um cora\u00e7\u00e3o puro, disposto a observar a sua Lei. Por\u00e9m, quando lemos que Deus justifica, isso significa sempre que Ele reconhece a justi\u00e7a de algu\u00e9m e a proclama.
Era esta a forma pela qual sentiam e se exprimiam os crentes de origem judaica, ou os convertidos \u00e0 religi\u00e3o judaica, aos quais Paulo se dirigia. Este, por\u00e9m, prop\u00f5e uma reorienta\u00e7\u00e3o radical das palavras e da atitude religiosa. At\u00e9 ent\u00e3o, a justifica\u00e7\u00e3o dependia sobretudo do homem e da sua fidelidade em p\u00f4r em pr\u00e1tica os preceitos da Lei. A justi\u00e7a era um conjunto de qualidades reunidas no cora\u00e7\u00e3o e na vida do crente, mas era apreciada, em primeiro lugar, como uma perfei\u00e7\u00e3o moral e legal, que merecia a benevol\u00eancia de Deus. A rela\u00e7\u00e3o com Deus era, em grande parte, jur\u00eddica: a Lei estabelecia um c\u00f3digo de direitos e obriga\u00e7\u00f5es, e mesmo quando a piedade esperava muito da miseric\u00f3rdia divina, cada um assumia-se como respons\u00e1vel pela sua pr\u00f3pria justifica\u00e7\u00e3o.
Paulo, por\u00e9m, revela o valor universal da vinda do Cristo, ou seja, do Messias. Por Ele, e gra\u00e7as \u00e0 f\u00e9, Deus reordena a pessoa humana. A palavra grega utilizada por Paulo tanto significava \u00abjusti\u00e7a\u00bb como \u00abprocesso de justifica\u00e7\u00e3o\u00bb (chegar a ser justo, ou tornar-se justo, ou reconhecer como justo). A partir de agora a justifica\u00e7\u00e3o passar\u00e1 a ser uma refundi\u00e7\u00e3o da pessoa no mais profundo de si mesma: a f\u00e9 crist\u00e3 abre o esp\u00edrito, situando-o no cora\u00e7\u00e3o da verdade. Se a palavra justi-ficar (h\u00edfen propositado) nos desconcerta, \u00e9 f\u00e1cil substitu\u00ed-la por outras palavras portuguesas, de origem muito pr\u00f3xima: recti-ficar, re-abilitar, re-ordenar, re-ajustar, re-formar (h\u00edfenes propositados).
Essa meia volta sofrida pela palavra ser\u00e1 acompanhada por uma evolu\u00e7\u00e3o da palavra, passando a significar compra ou reden\u00e7\u00e3o (ver nota a [Mt_20,28]). Por outro lado, o facto de a nova justi\u00e7a constituir uma perfei\u00e7\u00e3o interior, obra de Deus, leva-nos a re-situar as palavras santo e justo uma em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 outra.
Para o Antigo Testamento, a santidade \u00e9 pr\u00f3pria de Deus, pois exprime o seu mist\u00e9rio, aquilo que O mant\u00e9m afastado de tudo o que n\u00e3o \u00e9 Ele, e de tudo aquilo que d'Ele se pode dizer. Santo op\u00f5e-se a profano. No livro de Daniel e nos Salmos chama-se santos aos seres celestiais que est\u00e3o perto de Deus; n\u00f3s dir\u00edamos os anjos [Dn_4,10] e [Dn_4,14]; [Sl_89,6]. No dom\u00ednio terrestre, a palavra santo aplica-se \u00e0s pessoas e coisas consagradas a Deus, que, portanto, obedecem a leis diversas das leis pr\u00f3prias dos profanos: s\u00e3o assim os sacerdotes, o Santu\u00e1rio e os objectos de culto. Mesmo quando Deus diz a todo o povo: \u00abSede santos porque Eu sou santo\u00bb, a palavra n\u00e3o tem o sentido que actualmente lhe dar\u00edamos. Ela associa a ideia de justi\u00e7a \u00e0 de ser um povo diferente dos outros por ter sido consagrado a Deus. No Antigo Testamento, quando se quer exprimir que uma pessoa \u00e9 perfeita e agrad\u00e1vel aos olhos de Deus, utilizam-se as palavras justa e piedosa.
Desde o momento em que a justi\u00e7a \u00e9 entendida como uma refundi\u00e7\u00e3o da pessoa e lhe d\u00e1 acesso \u00e0 comunh\u00e3o com Deus, passa a ser sin\u00f3nimo de santidade. Encontramos, em dois lugares, as duas palavras associadas, por ordem diferente [1Cor_6,11]; [Ap_22,11], o que demonstra que n\u00e3o se trata de duas etapas sucessivas, ou de duas ac\u00e7\u00f5es divinas diferentes, mas de duas palavras cujo sentido se completa para uma pessoa familiarizada com a linguagem grega dos Setenta. Vulgarmente a palavra santo tem, em Paulo, o sentido de \u00abconsagrado a Deus\u00bb, e \u00e9 assim que muitas vezes encontramos a express\u00e3o \u00abos santos\u00bb para designar os crist\u00e3os. Contudo, tamb\u00e9m Paulo manifesta que os que s\u00e3o consagrados a Deus devem ser imaculados e irrepreens\u00edveis, quer dizer, santos, no sentido em que n\u00f3s o entendemos [1Cor_1,8]; [Cl_1,22]; essa santidade crist\u00e3 ser\u00e1 uma imita\u00e7\u00e3o da perfei\u00e7\u00e3o divina [Mt_5,45].

{N}2.43: N\u00c3O EXISTE PROCLAMA\u00c7\u00c3O SEM RISCOS {/}[Gl_5,1]
Porque sou ent\u00e3o perseguido? (v. 11) Quem escreve estas cartas \u00e9 o mesmo Paulo ao qual os judeus perseguiam de uma cidade para outra. E se ele assim era perseguido, n\u00e3o era por acaso. \u00c9 prov\u00e1vel que o seu car\u00e1cter austero lhe tenha valido muitos inimigos, mas isso n\u00e3o explica o mais importante.
Recordemos que Deus o tinha elegido como ap\u00f3stolo do mundo greco-romano, mas teria sido imposs\u00edvel evangelizar em poucos anos esse mundo pag\u00e3o sem se ter apoiado nas in\u00fameras comunidades judias que se tinham formado desde h\u00e1 s\u00e9culos em todas as cidades do Imp\u00e9rio. Nos s\u00e9culos anteriores a Jesus, os imigrantes judeus e as suas comunidades tinham preparado o caminho para a difus\u00e3o da Palavra de Deus, estabelecendo \u00e0 sua volta la\u00e7os por vezes agressivos, mas, ao mesmo tempo, conquistando simpatias pessoais e ganhando adeptos.
Paulo tinha, pois, de encontrar nessas comunidades judias, os primeiros \u00abgregos\u00bb, que depois conquistariam outros. Mas, que aconteceria se a maioria dos judeus, a exemplo dos da Palestina, se recusavam a acreditar? Poderia ent\u00e3o tentar manter-se sem provocar choques, ou apresentar-se discretamente como uma seita judia que seguia a Pessoa e os ensinamentos de Jesus, e procurar conquistar alguns n\u00e3o judeus, sem ofender os judeus. Com efeito, estes, embora fossem uma minoria,  dispunham de tanta for\u00e7a no Imp\u00e9rio romano, que a sua hostilidade atrairia sobre a Igreja os mais graves perigos, podendo chegar mesmo a amorda\u00e7ar o apostolado crist\u00e3o. N\u00e3o era mais prudente ficar dentro da sinagoga?
Contudo, Paulo prefere correr o risco. Incita os judeus a converter-se, a reconhecer Aquele em quem se tinham realizado as promessas de Deus e, se se negarem a crer, Paulo separar-se-\u00e1 deles. Esta ruptura dolorosa ser\u00e1 o motivo das primeiras persegui\u00e7\u00f5es contra os crist\u00e3os. At\u00e9 o pr\u00f3prio Paulo ser\u00e1 v\u00edtima delas. Mas, ser\u00e1 precisamente essa atitude decidida e a afirma\u00e7\u00e3o firme e clara de Jesus Senhor e Salvador, que dar\u00e1 \u00e0s primeiras comunidades crist\u00e3s o seu dinamismo apost\u00f3lico.
\u00c9 certo que essa prega\u00e7\u00e3o intr\u00e9pida inclui uma certa forma de viol\u00eancia, da qual agora j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil tomar consci\u00eancia, mas n\u00e3o por isso devemos ignorar ou desprezar o caminho que Paulo elegeu, o caminho do pr\u00f3prio Jesus.

{N}2.44: O MIST\u00c9RIO DO FILHO {/}[Fl_2,6]
O hino de Paulo que encontramos em Filipenses [Fl_2,6] - [Fl_2,11] \u00e9 um dos mais importantes do Novo Testamento. Sabe-se que desde os primeiros dias a prega\u00e7\u00e3o dos Ap\u00f3stolos, o grande desafio da f\u00e9 foi o de colocar a Cristo em rela\u00e7\u00e3o ao Deus \u00fanico, seu Pai. O ponto de partida de qualquer esfor\u00e7o para definir a f\u00e9 era a certeza de que Jesus era \u00abo Filho\u00bb: este era o seu Nome no sentido b\u00edblico da palavra [Hb_1,4], ou seja, o que melhor exprimia o essencial do seu ser e da sua miss\u00e3o. A Ressurrei\u00e7\u00e3o havia-o confirmado, e quando os Ap\u00f3stolos recapitulavam o passado, lembravam-se de muitas palavras e recomenda\u00e7\u00f5es de Jesus, bem como de v\u00e1rios dos seus gestos que confirmavam essa evid\u00eancia. Tendo chegado depois de muitos servos e profetas, tinha agido com a autoridade e liberdade de Filho [Mt_11,26]. As primeiras prega\u00e7\u00f5es de Pedro afirmam a glorifica\u00e7\u00e3o e a eleva\u00e7\u00e3o de Jesus Messias a uma categoria divina [Act_2,33], e durante algum tempo conformaram-se com estas express\u00f5es. Mas agora, na carta aos Filipenses, Paulo vai definir a traject\u00f3ria do Filho de Deus que desceu at\u00e9 n\u00f3s.
{C}Ele tinha a condi\u00e7\u00e3o divina. {/}O texto op\u00f5e condi\u00e7\u00e3o divina no v. 6 \u00e0 {C}condi\u00e7\u00e3o de servo {/}do v. 7. Em linguagem comum, falar de condi\u00e7\u00e3o \u00e9 muitas vezes o mesmo que falar de um estatuto que as pessoas reconhecem a algu\u00e9m e \u00e9 como um t\u00edtulo exterior \u00e0 pessoa, e por isso a palavra {C}condi\u00e7\u00e3o {/}poderia enganar-nos neste lugar: Paulo afirma que Ele - o Filho, j\u00e1 se v\u00ea - gozava da natureza divina. O Filho compartilha tudo o que \u00e9 Deus Pai (e pode dizer-se em certo sentido que \u00e9 a imagem do Pai), mas \u00e9-o de maneira muito diferente. Isto n\u00e3o nos deve parecer estranho, pois a imagem \u00e9 tamb\u00e9m o reverso do seu modelo. Em todo o caso, n\u00e3o devemos for\u00e7ar demasiado o sentido de imagem, pois este termo \u00e9 parte de uma s\u00e9rie de palavras que se aproximam da rela\u00e7\u00e3o do Filho com o Pai: o {C}Verbo {/}[Jo_1,1], a{C} imagem {/}[Cl_1,15], a {C}irradia\u00e7\u00e3o{/} de Deus [Hb_1,3]. Todavia se queremos conhecer a identidade ou a personalidade do Filho, descobrimo-la neste abaixamento seguido de uma exalta\u00e7\u00e3o ou glorifica\u00e7\u00e3o que deslumbra a Paulo.
Temos aqui, n\u00e3o uma primeira express\u00e3o ainda n\u00e3o amadurecida, como alguns pensaram, da divindade de Cristo, mas uma penetra\u00e7\u00e3o muito profunda do mist\u00e9rio de Jesus Filho de Deus. O nosso vocabul\u00e1rio da Trindade e das Pessoas divinas iguais diz algo da verdade, mas deixa de fora toda uma parte do mist\u00e9rio. Conformamo-nos demasiadas vezes com palavras e com a imagem de tr\u00eas Pessoas bastante semelhantes umas \u00e0s outras, que t\u00eam uma comum natureza, e esquecemo-nos de que Deus \u00e9 o Pai - o Pai de quem tudo procede. O que o Filho \u00e9, apesar de tudo receber do Pai, nunca existiu sem o seu abaixamento: {C}esvaziou-Se a Si mesmo. {/}Tamb\u00e9m aqui o nosso vocabul\u00e1rio habitual tem os seus limites. Falamos do Filho que \u00e9 por sua vez verdadeiro Deus e verdadeiro homem, e facilmente imaginamos um Filho que \u00e9 ao mesmo tempo Deus no c\u00e9u e homem na terra. Alguns te\u00f3logos afirmaram que a sua humanidade era como instrumento incorporado \u00e0 sua divindade, com o que acentuavam ainda mais a ideia de que manejava l\u00e1 de cima a sua natureza humana.
Aqui Paulo fala-nos de um Filho eterno, est\u00e1vel na natureza divina e que um dia, por obedi\u00eancia ao Pai, Se sacrificou para nos salvar e assumiu uma natureza humana enquanto continuava est\u00e1vel l\u00e1 em cima onde tudo \u00e9 imut\u00e1vel. Se o Pai projecta o seu Verbo na eternidade, isto n\u00e3o \u00e9 para ter uma c\u00f3pia de Si mesmo e menos ainda um rival; \u00e9 porque a din\u00e2mica do amor est\u00e1 inscrita na mesma ess\u00eancia de Deus amor. O dom total de Si mesmo que o Pai faz, d\u00e1 origem a este outro rosto do amor que consiste em renunciar a Si mesmo: \u00e9 pr\u00f3prio do Filho perder-Se a Si mesmo para ser de novo recuperado em Deus.
\u00c9, pois, o mesmo mist\u00e9rio divino, onde encontramos o modelo que Jesus propor\u00e1 aos seus disc\u00edpulos (os te\u00f3logos gostam de utilizar, a esse respeito, a palavra grega \u00abk\u00e9nosis\u00bb, que significa simplesmente \u00abreduzir-se a nada\u00bb). E consta que, segundo [Mc_8,34] e mais ainda em [Lc_8,23] e em [Jo_12,24], Jesus fala deste \u00abperder-se a si mesmo\u00bb, n\u00e3o como um dever que imporia aos seus disc\u00edpulos, mas como algo necess\u00e1rio a todos.
Este {C}reduzir-se a nada {/}de que nos fala Paulo significa muito mais que as humilha\u00e7\u00f5es que Jesus conheceu e aceitou na sua natureza humana. Paulo, ao dizer que Jesus n\u00e3o Se apegou \u00e0 sua igualdade com Deus, n\u00e3o se refere a alguns privil\u00e9gios e a algum bem-estar que Jesus podia reservar para Si no meio dos homens, pois \u00e9 em Deus mesmo que o Filho Se reduziu a nada. O movimento pelo qual Deus projecta o seu Verbo na eternidade continua na cria\u00e7\u00e3o do universo. No termo do seu abaixamento, o Filho nascer\u00e1 no nosso mundo e dentro do nosso tempo, um tempo que leva todas as criaturas \u00e0 morte.
A B\u00edblia diz-nos que o Filho veio buscar e salvar o que estava perdido [Lc_19,10], e que Deus enviou o seu pr\u00f3prio Filho para enfrentar o pecado [Rm_8,3]. \u00c9 preciso confrontar estas verdades com o que acab\u00e1mos de dizer. Como \u00e9 poss\u00edvel que este abaixamento do Filho seja uma caracter\u00edstica eterna da sua Pessoa, e que ao mesmo tempo a sua vinda e a sua Paix\u00e3o tenham como finalidade reparar uma queda original posterior \u00e0 cria\u00e7\u00e3o? Porque, embora a B\u00edblia nos diga que a queda teve lugar no universo espiritual antes da chegada do homem, \u00e9 inteiramente obra das criaturas. Aqui todas as respostas e discuss\u00f5es s\u00e3o v\u00e3s, pois n\u00e3o podemos compreender nem a eternidade nem as m\u00fatuas rela\u00e7\u00f5es entre a eternidade e o tempo: para Deus n\u00e3o h\u00e1 um antes e um depois. A B\u00edblia imp\u00f5e-nos uma vis\u00e3o da Hist\u00f3ria em que se sucedem cria\u00e7\u00e3o, pecado e reden\u00e7\u00e3o, mas tudo j\u00e1 n\u00e3o faz sen\u00e3o uma coisa s\u00f3 no mundo de Deus.
A Ressurrei\u00e7\u00e3o n\u00e3o diz respeito somente a uma natureza humana que o Filho assumira, mas que \u00e9 inseparavelmente um regresso do Filho ao Pai. O Filho \u00abque por um pouco de tempo foi feito um pouco menor que os anjos\u00bb  [Hb_2,9], reencontra o Nome e a Gl\u00f3ria - Jo\u00e3o afirma-o expressamente em [Jo_17,5]. E passa a ser verdadeiro Deus e verdadeiro homem; Ele \u00e9 o homem em Deus, ou o homem glorificado Jesus Cristo \u00e9 Senhor, e traz consigo de volta toda a cria\u00e7\u00e3o [Cl_1,20].
A Pessoa misteriosa do Filho tem, por isso, dos rostos. No nosso mundo e no tempo, n\u00e3o se v\u00ea mais que a traject\u00f3ria de Jesus, de que Maria e os Ap\u00f3stolos foram testemunhas. Esta manifesta\u00e7\u00e3o correspondia a outras vindas da Sabedoria ao nosso mundo [Sb_9,10]; [Ecl_24,8]; [Jo_1,5]; [Jo_1,8] - [Jo_1,10] e com elas terminaram. Por outro lado, na eternidade, o Filho nasce do Pai, mas \u00e9 s\u00f3 para esvaziar-Se de Si mesmo e perder-Se, para logo ser retomado. Chega ent\u00e3o \u00e0 sua consuma\u00e7\u00e3o o gozo m\u00fatuo que t\u00eam de Si as Pessoas divinas. Mas Paulo n\u00e3o nos conduz a esse ponto e \u00e9 no evangelho de Jo\u00e3o que se nos d\u00e3o algumas luzes a esse respeito [Jo_14,1] - [Jo_17,1].
N\u00e3o podemos sen\u00e3o admirar estas express\u00f5es de Paulo. Reconhe\u00e7amos tamb\u00e9m a pobreza da nossa linguagem, que ser\u00e1 sempre incapaz para abarcar o mist\u00e9rio de Deus. Durante s\u00e9culos, os crist\u00e3os separaram-se em nome dessas express\u00f5es diferentes da f\u00e9, em lugar de aceitar humildemente que haja outros que estejam mais sens\u00edveis do que n\u00f3s a determinados aspectos do mist\u00e9rio: ainda n\u00e3o h\u00e1 muito tempo que Jo\u00e3o Paulo II reconheceu que, por n\u00e3o se haver entendido bem a linguagem dos crist\u00e3os chamados nestorianos, haviam sido considerados durante s\u00e9culos (e infalivelmente!) como her\u00e9ticos. N\u00e3o existe uma s\u00f3 maneira de expressar a f\u00e9, pois de contr\u00e1rio a Igreja n\u00e3o teria recebido, um de cada vez, o Evangelho de Marcos e o de Jo\u00e3o.

{N}2.45: CRISTO, PRINC\u00cdPIO E FIM DO UNIVERSO {/}[Cl_1,5]
N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil ver que a passagem [Cl_1,15] - [Cl_1,20] \u00e9 um hino. \u00c9 uma esp\u00e9cie de par\u00eantese no texto, porque sem ele passar-se-ia normalmente do vers\u00edculo 14 para o 21; mas n\u00e3o se pode dizer que foi introduzido mais tarde na carta de Paulo, porque serve de conclus\u00e3o \u00e0 ora\u00e7\u00e3o que o antecede e liga-se muito naturalmente ao que se segue.
Esta apresenta\u00e7\u00e3o excepcional do lugar que Cristo ocupa no plano de Deus merece que nos detenhamos nela. Todo o plano de Deus criador est\u00e1 centrado no Filho; Ele j\u00e1 estava presente em Deus como a imagem do Pai; depois da sua ressurrei\u00e7\u00e3o passa a ser a cabe\u00e7a desse povo particular de Deus que \u00e9 a Igreja, mas ao mesmo tempo \u00e9 o centro em torno do qual se move a nossa Hist\u00f3ria e n'Ele conseguir\u00e1 a sua unidade o Universo.
Sabe-se que desde a ressurrei\u00e7\u00e3o a primeira comunidade crist\u00e3 acreditou em Cristo como no Messias e salvador de Israel. Al\u00e9m disso, desde esse momento, acreditou tamb\u00e9m que era de origem divina. \u00c9 sempre dif\u00edcil precisar o seu pensamento enquanto n\u00e3o h\u00e1 palavras para isso, e portanto os primeiros crist\u00e3os, e em especial os Ap\u00f3stolos, testemunhas oficiais de Jesus, quiseram precisar em que sentido Lhe chamavam e acreditavam n'Ele como Filho de Deus.
Nos dias que precederam o Pentecostes, a comunidade juntamente com a ora\u00e7\u00e3o dialogou e reflectiu sobre a sua f\u00e9 [Act_1,14]. O testemunho de Maria sobre a concep\u00e7\u00e3o de Jesus deve ter pesado fortemente; foi por isso que Lucas o cita amplamente nos seus dois primeiros cap\u00edtulos, que procedem de um antigo documento das Igrejas da Palestina. Tamb\u00e9m foi muito importante o depoimento das tr\u00eas testemunhas da Transfigura\u00e7\u00e3o. Mas foi durante toda essa gera\u00e7\u00e3o que viu a prepara\u00e7\u00e3o dos evangelhos quando os profetas da Igreja primitiva (entre os quais temos de incluir Paulo) fizeram progredir o vocabul\u00e1rio crist\u00e3o; definiram o sentido que tinha a categoria divina atribu\u00edda a Jesus.
O primeiro passo aconteceu quando se deu a Jesus o t\u00edtulo de Senhor [1Cor_1,3]; [2Cor_1,2]. Mas ainda n\u00e3o se precisava a situa\u00e7\u00e3o e a personalidade do Filho perante o Pai.
A esse respeito temos aqui um texto muito rico. Todo o pano de fundo de Paulo \u00e9 b\u00edblico. No livro dos Prov\u00e9rbios, na parte mais recente que deve remontar ao s\u00e9c. II ou III antes de Cristo, l\u00ea-se um poema sobre a Sabedoria [Sb_8,22] onde esta \u00e9 apresentada como uma pessoa. A Sabedoria assinala o plano activo de Deus sobre a sua cria\u00e7\u00e3o, anterior ao Universo, origem de tudo o que h\u00e1 de ordem, de beleza e de harmonia no mundo. Ela desce para junto dos homens, porque \u00e9 a\u00ed que se encontra as suas del\u00edcias, e instala-se em Israel para inspirar os seus s\u00e1bios. No livro de Ben Sirac encontra-se de novo um poema sobre a Sabedoria [Sb_24,1] - [Sb_24,29] no qual ela \u00e9 de novo personificada. Mas o sentido muda um pouco: a Sabedoria significa desta vez o esp\u00edrito da Lei. Desceu do c\u00e9u, onde celebrava o culto divino no santu\u00e1rio celestial, e deitou ra\u00edzes em Jerusal\u00e9m: encontra-se como que encarnada no Livro da Lei.
Poderiam comparar-se estes textos. Mas embora o texto de Colossenses lhes deva a sua estrutura, \u00e9 independente deles e mostra-se muito mais audaz: Cristo tem uma especificidade, uma realidade, uma senhoria sobre o mundo que faltava nos textos sobre a Sabedoria.
{N}15.{/} {C}Ele \u00e9 a imagem do Deus invis\u00edvel. {/}Onde encontrou Paulo essa palavra {C}imagem {/}que aplica a Cristo e que n\u00e3o se acha nos textos sobre a Sabedoria? Certamente pensou em [Gn_1,27]. Aplicou ao Filho do Homem o que l\u00e1 se diz do homem, tal como [Hb_2,6] faz interpretando o [Sl_8,1]. Quase em nenhuma outra parte da B\u00edblia se encontra a palavra {C}imagem{/} associada a Deus, porque as imagens de Deus estavam totalmente exclu\u00eddas. Apesar disso temos [Nm_12,8] onde Mois\u00e9s contempla a imagem de Deus, o [Sl_17,15] e [Ez_1,28]. O mesmo [Dt_4,12], que reafirma: \u00abN\u00e3o vistes nenhuma figura, ouvia-se apenas uma voz\u00bb, deve t\u00ea-lo incitado a ver no Filho feito homem a imagem do Pai invis\u00edvel.
{N}16.{/} {C}N'Ele foram criadas todas as coisas. {/}Cristo n\u00e3o \u00e9 criado; Paulo livra-se bem de diz\u00ea-lo, j\u00e1 que a Sabedoria \u00e9 \u00abcriada\u00bb em [Pr_8,22] e tamb\u00e9m em [Ecl_24,8] e [Ecl_24,9], embora saindo da boca de Deus. Ele \u00e9 a imagem a partir da qual tudo foi criado. N\u00e3o se pode fazer d'Ele uma super-criatura anterior a toda a cria\u00e7\u00e3o (como afirmam as Testemunhas de Jeov\u00e1) porque antes da cria\u00e7\u00e3o n\u00e3o existe sen\u00e3o Deus, e que pode haver em Deus que n\u00e3o seja eterno e uno com Ele? Se Ele era ent\u00e3o o Filho [Hb_1,2] e [Hb_1,4] \u00e9 porque n\u00e3o era criatura.
{C}Tudo foi criado para Ele.{/} Outro elemento novo. Ele que servia a Sabedoria obtinha os favores de Jav\u00e9 [Pr_8,35], mas aqui tudo retorna a Cristo. Como afirmava j\u00e1 [1Cor_15,24], Ele s\u00f3 entregar\u00e1 o Reino quando todo o Universo lhe for submetido.
{N}17.{/} {C}Tudo n'Ele subsiste.{/} Aqui est\u00e1 o princ\u00edpio da unidade do Universo; lembremos que, para os gregos, o todo \u00e9 tamb\u00e9m o Universo.
{N}19-20.{/} {C}Para reconciliar consigo (Deus) todas as coisas{/}, depois que o sangue da sua cruz restabeleceu a paz. A Reden\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma repara\u00e7\u00e3o dos pecados que tivermos cometido mas um acontecimento de ordem c\u00f3smica. H\u00e1 ali um ponto que nos escapa, porque a ideia que temos do Universo \u00e9 a que a ci\u00eancia nos d\u00e1 a partir do que vemos, e o que vemos nele e medimos \u00e9 de ordem material e f\u00edsica: velocidades, dist\u00e2ncias, anos-luz... Mas n\u00e3o sabemos como v\u00ea um esp\u00edrito esse conjunto, porque para ele as dist\u00e2ncias n\u00e3o existem: qual \u00e9 a realidade do Universo aos olhos de Deus? Todas as interpreta\u00e7\u00f5es s\u00e3o poss\u00edveis, e Paulo diz-nos que a obra levada a cabo pelo Filho, morto na Palestina h\u00e1 dois mil anos, completa a ordem do Universo.

{N}2.46: A MULHER E O DRAG\u00c3O {/}[Ap_12,1]
Esta vis\u00e3o da mulher retoma o sol, a lua e as estrelas do sono de Jos\u00e9 em [Gn_37,9], mas o papel do sol e da lua levam-nos imediatamente a pensar na mulher do C\u00e2ntico dos  [Ct_6,10]. No G\u00e9nesis, tratava-se de Jos\u00e9 no meio dos seus irm\u00e3os, no C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos, era Israel no meio das na\u00e7\u00f5es (ver linhas precedentes de [Ct_6,8] - [Ct_6,9]). Aqui aparece a mulher como centro da cria\u00e7\u00e3o. O cap\u00edtulo apresenta-se como continua\u00e7\u00e3o de [Gn_3,15], mas sem ignorar o Emanuel e sua M\u00e3e em [Is_7,14] (e [Mq_5,2]).
Este cap\u00edtulo \u00e9 um daqueles que d\u00e3o a entender a mistura de pe\u00e7as diferentes, da\u00ed que se tenham imaginado muitas solu\u00e7\u00f5es para o reorganizar e para tentar encontrar os elementos originais; a multiplicidade desses ensaios demonstra que nenhum acabou por se impor. Este cap\u00edtulo, tal como o primeiro cap\u00edtulo dos Ef\u00e9sios, divide-se em dois tempos: primeiro, o que se passa no plano eterno de Deus, depois, a sua realiza\u00e7\u00e3o na Terra; isto est\u00e1 muito de acordo com a vis\u00e3o da hist\u00f3ria pr\u00f3pria dos apocalipses.
{N}1-2{/}: a mulher e a Encarna\u00e7\u00e3o no centro do plano de Deus sobre o universo.
{N}3-4a{/}: a apresenta\u00e7\u00e3o do drag\u00e3o, anjo poderoso. Diz-se que ele provocar\u00e1 a rebeli\u00e3o na esfera celeste, mas n\u00e3o que esta tenha lugar nesse momento.
{N}4b-6{/} o drag\u00e3o decidiu devorar o filho da mulher, e Deus interv\u00e9m: o filho ser\u00e1 senhor das na\u00e7\u00f5es, mesmo que a mulher tenha de viver no deserto (como a M\u00e3e do Emanuel).
{N}7-9{/} divis\u00e3o do mundo dos esp\u00edritos e expuls\u00e3o dos malvados.
{N}10-12{/} o coro (no sentido da trag\u00e9dia antiga) louva as decis\u00f5es de Deus.
{N}13-18{/} passa-se \u00e0s consequ\u00eancias desta crise no tempo e na Hist\u00f3ria. Quem \u00e9 apresentada a ju\u00edzo \u00e9 a Igreja, no dia seguinte \u00e0 Ressurrei\u00e7\u00e3o. Mas \u00e9 dif\u00edcil interpretar o rio que o drag\u00e3o vomita por detr\u00e1s da mulher. Em 17-18, volta \u00e0s persegui\u00e7\u00f5es contra os crist\u00e3os do Imp\u00e9rio, aos quais Jo\u00e3o se dirige.
Se quis\u00e9ssemos agora precisar o sentido da vis\u00e3o, ter\u00edamos de re-situ\u00e1-la no livro. Ver, a esse respeito, a nota a [Ap_8,1]. A vis\u00e3o das duas testemunhas, no cap. 11, \u00e9 a evangeliza\u00e7\u00e3o e a chamada \u00e0 convers\u00e3o ao longo de toda a Hist\u00f3ria. Agora a vis\u00e3o da Mulher e do drag\u00e3o apresenta os protagonistas da luta que ocupar\u00e1 os cap\u00edtulos seguintes. A Mulher \u00e9 a humanidade desposada com Deus. N\u00e3o digamos que \u00e9 a Igreja, porque ela estava presente antes de Cristo, e \u00e9 ela que o d\u00e1 \u00e0 luz, mas em cada \u00e9poca identifica-se com o povo salvo. Antes de Cristo, ela era a esposa do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos, aguardando ansiosa a visita do seu Rei. Depois passa a constituir uma \u00fanica coisa com os seus filhos que, agora, s\u00e3o os seguidores do Evangelho, testemunhas e profetas de Jesus; de facto, na cultura hebraica, os filhos de..., quer sejam de Ad\u00e3o, quer de Belial ou dos profetas, designam uma colectividade que constitui uma \u00fanica coisa com o pai lend\u00e1rio a que est\u00e3o vinculados.
Aqui Jo\u00e3o conservou a sua linguagem, mas aparece um elemento novo: a M\u00e3e de Jesus \u00e9 uma pessoa concreta, e de repente a Mulher sai do mundo dos s\u00edmbolos para se encarnar em Maria.
Se Jo\u00e3o reconhece em Maria a Mulher, tanto em Can\u00e1 como no Calv\u00e1rio, tamb\u00e9m \u00e9 muito leg\u00edtimo conservar aqui essa identifica\u00e7\u00e3o. Por outro lado, seria um erro pensar que o sinal impressionante seja uma forma de designar, de um modo exclusivo, esta pessoa ou aquela comunidade que Jo\u00e3o teria em mente: a profecia d\u00e1 um sinal que abarca a totalidade do tempo e depois Jo\u00e3o aplica-a, ou n\u00f3s aplicamo-la, com mais ou menos acerto, aos acontecimentos e \u00e0s pessoas situadas na linha indicada. A figura da Mulher no centro do Apocalipse \u00e9 extremamente importante, porque, embora a B\u00edblia esteja quase completamente dominada pelo modo de pensar dos homens, e marcada por experi\u00eancias vividas apenas por homens, um dos tra\u00e7os dominantes da revela\u00e7\u00e3o crist\u00e3, e o que confere a sua identidade \u00e0 f\u00e9, \u00e9 conceber toda a rela\u00e7\u00e3o dos homens com Deus como a prepara\u00e7\u00e3o de um matrim\u00f3nio grandioso. O C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos e o sinal da Mulher exprimem o que se encontra no cora\u00e7\u00e3o de toda a revela\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica. De igual modo \u00e9 verdade que, quando a Igreja defende a predestina\u00e7\u00e3o de Maria, a sua virgindade perp\u00e9tua e a sua presen\u00e7a em toda a obra da salva\u00e7\u00e3o, ela reafirma um dos tra\u00e7os essenciais do Deus da B\u00edblia: n\u00e3o reconhecer os privil\u00e9gios de Maria significa n\u00e3o voltar a encontrar-se unicamente com Deus; significa adulterar o rosto que Deus quis dar a Si pr\u00f3prio.
Contudo, tamb\u00e9m \u00e9 um facto que no nosso s\u00e9culo a piedade mariana invadiu muitos dom\u00ednios dos quais at\u00e9 ent\u00e3o estava ausente. Nos s\u00e9culos passados, a pr\u00f3pria f\u00e9 e a pr\u00f3pria vis\u00e3o de Deus e de Cristo-Esposo apoiavam-se em convic\u00e7\u00f5es e numa piedade diferentes. Uma pl\u00eaiade de apaixonados voltou a encontrar nela a Esposa do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos, vendo totalmente nela, antes de mais, a figura da Igreja: sabiam que eles pr\u00f3prios constitu\u00edam uma parte importante do mist\u00e9rio e da predestina\u00e7\u00e3o de Deus. A identifica\u00e7\u00e3o de Maria com a mulher n\u00e3o deveria ser agora mais uma maneira de subestimar a nossa pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o e o amor \u00fanico com o qual o Pai nos conheceu. Jesus convidou os seus ap\u00f3stolos a acreditar que se encontravam no centro do plano de Deus, mais do que a invejar os maiores santos do passado, e a viver por meio de interpostas pessoas.

{N}2.47: PROFECIAS {/}[Ap_20,7]
Observamos aqui uma brusca mudan\u00e7a de velocidade da vis\u00e3o prof\u00e9tica. Jo\u00e3o falou largamente da idolatria romana e das persegui\u00e7\u00f5es do poder totalit\u00e1rio; depois, com o cap\u00edtulo 20, entramos nos tempos que se seguem e Jo\u00e3o parece ver neles apenas a felicidade da paz recuperada. A besta totalit\u00e1ria e o falso Cristo - institui\u00e7\u00f5es, mais do que pessoas - foram enviados para o fogo eterno, e os agentes de Satan\u00e1s foram pura e simplesmente eliminados [Ap_19,21]. S\u00f3 depois desses mil anos de paz, resumidos em algumas linhas, o dem\u00f3nio come\u00e7a novamente a trabalhar; em dois par\u00e1grafos, a grande revolta (Paulo falar\u00e1 da apostasia em [2Ts_2,3]) \u00e9 dominada, e a Hist\u00f3ria termina com o dem\u00f3nio a ser novamente enviado para o inferno.
Encontramos aqui o que j\u00e1 se notava nos profetas do Antigo Testamento: a profecia v\u00ea nos acontecimentos do momento uma presen\u00e7a antecipada do Ju\u00edzo, passa por cima de tudo o que eles t\u00eam de positivo e s\u00f3 quer mostrar o que neles clama por uma interven\u00e7\u00e3o de Deus. Em seguida, todo o tempo que transcorrer\u00e1 entre o fim do sistema actual, condenado, e o fim da hist\u00f3ria, \u00e9 apenas um grande engano: o profeta n\u00e3o fora chamado a descrever previamente o desenrolar da Hist\u00f3ria.
Existe uma continuidade entre a profecia do Antigo Testamento e a profecia crist\u00e3. Mesmo quando a revela\u00e7\u00e3o chega ao seu termo, e de forma definitiva, com o Apocalipse, o carisma prof\u00e9tico n\u00e3o se extingue. Muitas pessoas voltam-se actualmente para as mensagens celestes, tanto mais numerosas quanto mais se alargou o mundo, e quanto mais as revolu\u00e7\u00f5es em curso tenham deitado por terra as nossas certezas. Seja qual for a parte de credibilidade e de ilus\u00e3o das mensagens celestes que florescem um pouco por toda a parte, seria muito injusto menosprezar todas essas advert\u00eancias; prov\u00eam, com frequ\u00eancia, de profetas cujo carisma \u00e9 dif\u00edcil de negar. A maior parte do tempo, limitam-se a repetir, de forma intensiva, com imagens que impressionam a nossa imagina\u00e7\u00e3o que nos convencem, as chamadas do Evangelho \u00e0 convers\u00e3o e \u00e0 imin\u00eancia do ju\u00edzo de Deus sobre os sistemas idol\u00e1tricos que nos aprisionam. Mesmo que a sua mensagem n\u00e3o inclua mais nada do que aquilo que encontramos na Escritura lida com f\u00e9, essas profecias n\u00e3o s\u00e3o in\u00fateis, porque tocam aqueles a quem a Igreja ou as circunst\u00e2ncias n\u00e3o permitiram entrar na B\u00edblia.
N\u00e3o se trata, pois, de ignorar a profecia crist\u00e3 do nosso tempo desde o escabelo da nossa ci\u00eancia teol\u00f3gica, muitas vezes de car\u00e1cter t\u00e3o racionalista; o Esp\u00edrito e os esp\u00edritos s\u00e3o t\u00e3o necess\u00e1rios como os prelados na vida da Igreja, inclusivamente quando tocam o monop\u00f3lio da autoridade. Contudo, \u00e9 necess\u00e1rio aplicar-lhes, isso sim, os crit\u00e9rios da B\u00edblia. Dever\u00edamos escutar as advert\u00eancias, prestar aten\u00e7\u00e3o aos sinais pr\u00f3ximas que se nos apresentam; por outro lado, por\u00e9m, tudo aquilo que, nessas mensagens, pretendesse mostrar-nos de outra forma o que est\u00e1 para vir, deve ser atribu\u00eddo \u00e0 ilus\u00e3o e \u00e0s limita\u00e7\u00f5es humanas do profeta, e n\u00e3o ao Esp\u00edrito de Deus.

{N}2.48: A SALVA\u00c7\u00c3O DOS N\u00c3O-CRIST\u00c3OS {/}[Ap_22,3]
O Novo Testamento, palavra definitiva, n\u00e3o nos deveria dizer como se salvar\u00e3o os que n\u00e3o conheceram o \u00danico Salvador? Mas n\u00e3o o faz, e o Apocalipse, que encerra o livro, fala-nos apenas de uma luta sem quartel das pot\u00eancias do mal, instaladas em todas as esferas da sociedade, contra a Igreja nascente. Em momento algum menciona os in\u00fameros n\u00e3o-crist\u00e3os que n\u00e3o foram as testemunhas da Palavra, nem os instrumentos do mal.
O mesmo ocorre nas cartas de Paulo: os n\u00e3o-crist\u00e3o s\u00e3o os de fora; s\u00e3o um mundo em que o esp\u00edrito mau actua livremente. Inclusivamente o texto de [1Tm_2,4] (Deus quer que todos os homens se salvem...) ignora a quest\u00e3o que nos preocupa, referindo-se apenas \u00e0 vontade divina de fazer chegar a todos os homens a mensagem da salva\u00e7\u00e3o.
Ignorar at\u00e9 este ponto os que constituem a imensa maioria poderia fazer do cristianismo uma mensagem sect\u00e1ria: j\u00e1 dissemos uma palavra sobre essa frase \u00abfora da Igreja n\u00e3o h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o\u00bb, a prop\u00f3sito de [Mc_16,16]. No entanto, n\u00e3o devemos surpreender-nos: os livros do Novo Testamento dirigiam-se a pequenas comunidades cujo universo se limitava ao mundo greco-romano, e cujos problemas n\u00e3o ultrapassam a sua cidade. A\u00ed se desenrolava o combate para esses crist\u00e3os tantas vezes mal vistos ou perseguidos: dever-se-ia dizer-lhes que, da sua fidelidade, dependia a salva\u00e7\u00e3o do mundo.
Nada, por\u00e9m, justifica, no Evangelho, uma discrimina\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos que n\u00e3o receberam a revela\u00e7\u00e3o b\u00edblica: vejamos como actua Jesus com os n\u00e3o-judeus em [Mc_7,24] - [Mc_8,10]. Do mesmo modo, a par\u00e1bola do Ju\u00edzo final [Mt_25,31] n\u00e3o estabelece qualquer distin\u00e7\u00e3o entre crentes e n\u00e3o crentes. Isso \u00e9 suficiente para nos levar a repensar o problema da salva\u00e7\u00e3o dos que n\u00e3o receberam a f\u00e9. A quest\u00e3o, quanto ao resto, n\u00e3o consiste agora em saber se Deus tem um Esp\u00edrito bastante aberto para Se interessar pelos \u00abde fora\u00bb, mas em compreender de que modo Ele disp\u00f4s a Hist\u00f3ria humana de maneira que todos sejam salvos pelo \u00fanico Salvador, mas que apenas uma minoria deva conhecer o Filho feito homem. Porqu\u00ea voca\u00e7\u00f5es t\u00e3o opostas: conhecer ou n\u00e3o a grande manifesta\u00e7\u00e3o divina? Se acreditamos que Deus actua com uma generosidade sem limites e sem distin\u00e7\u00e3o de pessoas, como podemos ver nisso uma obra digna d'Ele?
Muitos crist\u00e3os, hoje, gostariam de pensar que s\u00f3 a linguagem e a cultura nos separam daqueles que n\u00e3o partilham a nossa f\u00e9, que a diversidade religiosa nasce das nossas limita\u00e7\u00f5es e que a verdade deve ser encontrada para al\u00e9m dos diferentes credos. Quer estejam abertos \u00e0s espiritualidades orientais, quer imersos na nossa cultura liberal, existe a grande tenta\u00e7\u00e3o de negar as diferen\u00e7as e de remeter tudo para o terreno das religi\u00f5es comparadas. A revela\u00e7\u00e3o crist\u00e3 op\u00f5e-se a esse tipo de concess\u00f5es: mesmo que aceitemos que haja outras revela\u00e7\u00f5es de Deus e que outras religi\u00f5es se apoiem em profetas que n\u00e3o s\u00e3o os nossos, mas que devemos respeitar, o Filho \u00e9 \u00fanico, assim como Deus \u00e9 um. No entanto, sem renegar a unicidade da salva\u00e7\u00e3o crist\u00e3, podemos ampliar a nossa vis\u00e3o tradicional: bastaria p\u00f4r em evid\u00eancia, n\u00e3o uma confronta\u00e7\u00e3o, mas um desafio, das sabedorias n\u00e3o-crist\u00e3s com a sabedoria do povo de Deus. Durante s\u00e9culos a cristandade tentou tranquilizar-se rebaixando essas outras sabedorias e religi\u00f5es: s\u00e3o apenas balbuciamentos humanos, comparados com a plena luz que Deus nos d\u00e1. Mas, porque n\u00e3o havemos de reconhecer a exist\u00eancia de dois caminhos, igualmente queridos por Deus, embora o Esp\u00edrito do mal tenha semeado neles todo o tipo de confus\u00e3o e de miragens?
N\u00e3o podemos duvidar da nossa voca\u00e7\u00e3o privilegiada, mas tamb\u00e9m n\u00e3o podemos concluir que Deus mede os dons que concede aos outros e que os salva por benevol\u00eancia exagerada. Deus salva uns manifestando-Se, e outros deixando que procurem [Act_17,27]; o que aqui nos parece uma contradi\u00e7\u00e3o, \u00e9, de facto, uma exig\u00eancia absoluta da santidade de Deus. Porque Deus n\u00e3o Se pode revelar sem ficar simultaneamente oculto, n\u00e3o pode prometer nem comprometer qualquer parte de Si, sem mergulhar imediatamente no mist\u00e9rio ou, se preferirmos, sem nos submergir na nossa condi\u00e7\u00e3o de criatura.
Falar do Deus Santo \u00e9 confessar que temos uma consci\u00eancia aguda, n\u00e3o tanto do que Ele \u00e9, mas da sua ac\u00e7\u00e3o, sempre imprevis\u00edvel. Os acontecimentos que vivemos, com a sua boa dose de trag\u00e9dias e de esc\u00e2ndalos, apresentam-se-nos ent\u00e3o como um jogo divino: vemos que se desenvolvem sobre um fundo de realidade onde n\u00e3o h\u00e1 mais nada al\u00e9m do mist\u00e9rio da liberdade divina. O nosso Deus \u00e9 um fogo devorador, e n\u00f3s ficamos impotentes frente \u00e0s iniciativas e \u00e0 exuber\u00e2ncia das suas riquezas inalcan\u00e7\u00e1veis, tantas vezes terr\u00edveis, que s\u00e3o capazes de nos esmagar com a nossa sabedoria.
O Deus Santo quis a coisa mais inconceb\u00edvel para a raz\u00e3o humana: fazer que seres criados se voltem para Ele na sua eternidade. Assumiu, assim, riscos impressionantes: que podem e que devem conhecer eles de Deus? Que experi\u00eancias deve efectuar no decorrer da sua exist\u00eancia, t\u00e3o limitada no tempo? Que devem adivinhar do Ser superior do qual prov\u00eam, para que a sua vida presente seja um prel\u00fadio da eternidade? Que traumatismos s\u00e3o necess\u00e1rios para os preparar para essa metamorfose?
O ap\u00f3stolo Tiago defende que em Deus n\u00e3o h\u00e1 trevas e que n'Ele tudo \u00e9 luz. Contudo, essa luz n\u00e3o \u00e9 nossa e cega-nos. Qual \u00e9 o crente que, ao sair da ora\u00e7\u00e3o, est\u00e1 livre de ser perturbado, de repente, por uma desgra\u00e7a imprevista? Como p\u00f4de Deus permitir isso...? Vamos ainda mais longe: nunca houve um amigo de Deus, a quem Ele Se tenha revelado para al\u00e9m das normas comuns, que n\u00e3o tenha tido de passar por per\u00edodos de prova interior, por vezes terr\u00edvel, onde parecia que tudo o que j\u00e1 tinha experimentado n\u00e3o passara de um sonho. Com efeito, Deus n\u00e3o pode revelar-Se, sem que as nossas palavras, e depois as nossas experi\u00eancias, atrai\u00e7oem a sua verdade.
Esse mist\u00e9rio de uma luz que se d\u00e1 e que se nega encontra-se no mais profundo da obra da salva\u00e7\u00e3o. As tens\u00f5es que no pr\u00f3prio Deus se entrela\u00e7am e terminam na unidade, s\u00e3o a raz\u00e3o \u00faltima das contradi\u00e7\u00f5es inscritas no plano de salva\u00e7\u00e3o com os seus diversos caminhos: a maioria dos homens empreender\u00e1 a busca de Deus por conta pr\u00f3pria, mesmo que Deus reserve para Si uma discreta interven\u00e7\u00e3o; contudo, outros s\u00e3o eleitos para serem o seu povo e receberem o seu pr\u00f3prio testemunho. Viver\u00e3o outras experi\u00eancias e ser\u00e3o testemunhas de uma sabedoria divina ignorada pelos que n\u00e3o foram chamados. \u00c9 assim que o Deus santo salva a Hist\u00f3ria humana, utilizando tanto a sua m\u00e3o esquerda como a direita, tanto o seu rosto luminoso como o seu rosto obscuro.
Deus predisp\u00f4s que a maioria dos homens n\u00e3o conhecessem o seu Salvador durante a sua vida terrena, porque isso \u00e9 bom e necess\u00e1rio. Contudo, n\u00e3o podemos dizer que por isso sejam menos amados: Deus ama cada um e cada uma com um amor total, que ser\u00e1 capaz de os transfigurar em todas as suas dimens\u00f5es, quando chegar a hora. Ent\u00e3o, quando chegar essa hora, ningu\u00e9m se queixar\u00e1 de ter feito o seu caminho sem o peso e as riquezas da revela\u00e7\u00e3o, porque as fraquezas que foram nosso quinh\u00e3o na Terra aparecer\u00e3o como os instrumentos do amor particular que Deus tem por n\u00f3s desde a sua eternidade. E dentre esses inumer\u00e1veis filhos e filhas de Deus que na Terra n\u00e3o s\u00e3o seu povo, Ele sabe eleger bons amigos para Si.
Mas Deus quis manifestar-Se a um povo que fez seu, porque isso tamb\u00e9m \u00e9 bom e necess\u00e1rio. A primeira chamada feita a Abra\u00e3o, a chamada a acreditar em Cristo, depois, fizeram nascer um povo, n\u00e3o superior aos restantes, mas diferente deles. Esse povo \u00e9 realmente privilegiado porque Deus Se lhe deu a Si mesmo. N\u00e3o s\u00f3 O conhecemos, como tamb\u00e9m nos exercitamos desde j\u00e1 no que ser\u00e1 a vida de todos na eternidade, a rela\u00e7\u00e3o de amor m\u00fatuo, na ternura e na fidelidade. E esse povo desempenha uma fun\u00e7\u00e3o essencial na Hist\u00f3ria humana, embora tenha escrito muitas p\u00e1ginas pouco brilhantes. Entre aqueles que experimentaram as riquezas do amor de Cristo, quem hesitar\u00e1 em dizer que recebeu a melhor parte? Dever\u00edamos, portanto, dizer, que esse privil\u00e9gio imerecido nos confere superioridade sobre os que n\u00e3o foram chamados? S\u00e3o Paulo respondeu a esta interroga\u00e7\u00e3o na sua carta aos Romanos, cap\u00edtulo 3.
\u00c9 o momento de olhar mais de perto a contrapartida do dom de Deus. Se a revela\u00e7\u00e3o da B\u00edblia nos desse plena seguran\u00e7a e fizesse de n\u00f3s exemplos de virtude, poder\u00edamos falar de desigualdade. Mas foi o Deus santo que nos aproximou d'Ele, e n\u00f3s vamos ser incendiados pelo fogo da sua santidade. Quem poder\u00e1 suportar o peso do primeiro mandamento: \u00abAmar\u00e1s ao Senhor, teu Deus, com todo o teu cora\u00e7\u00e3o, com toda a tua alma, com todas as tuas for\u00e7as?\u00bb E quem actuar\u00e1 melhor do que esses ap\u00f3stolos aos quais Jesus censurava constantemente a sua falta de f\u00e9? A Hist\u00f3ria b\u00edblica \u00e9 composta por uma longa lista de rebeldias e incompreens\u00f5es que t\u00eam continuidade na hist\u00f3ria da Igreja. Jesus deu a entender que os salvos, no sentido que Ele confere ao termo, s\u00e3o muito poucos. O povo eleito \u00e9, mais do que qualquer outro, um povo de pecadores, e nisto se restabelece o equil\u00edbrio [Ml_1,11] - [Ml_1,12].
Embora pecador, o crente gostaria de partilhar com todos as riquezas da sua f\u00e9 [2Cor_5,14]. Contudo, h\u00e1 um limite que n\u00e3o podemos ultrapassar: Deus n\u00e3o nos consultou sobre o destino que queria oferecer a cada um, e muitas vezes sofreremos ao ver que Deus mant\u00e9m aqueles que amamos em caminhos dos quais Cristo est\u00e1 ausente [Rm_9,3].
Nunca deixaremos de fazer a s\u00edntese do caminho crist\u00e3o e dos outros caminhos, embora, por outro lado, haja alguns que pensam que j\u00e1 a fizeram, porque, na base da revela\u00e7\u00e3o, se encontram as palavras elei\u00e7\u00e3o e gra\u00e7a. N\u00e3o falar da elei\u00e7\u00e3o seria renegar toda a Hist\u00f3ria b\u00edblica. E essa elei\u00e7\u00e3o \u00e9 confirmada pela palavra gra\u00e7a, que unicamente a f\u00e9 crist\u00e3 coloca no centro das nossas rela\u00e7\u00f5es com Deus. Por\u00e9m, com que objectivo querer\u00edamos edificar uma s\u00edntese, a todo o custo, ou realizar a unidade, antes da chegada do dia de Deus? O que conta n\u00e3o \u00e9 o que se tenha podido edificar aqui na Terra. Dever\u00edamos antes interrogar-nos se os dois caminhos, tanto o caminho em que Deus Se revela, como aqueloutro em que vamos caminhando \u00e0s apalpadelas, n\u00e3o ser\u00e3o igualmente necess\u00e1rios para que, por fim, as riquezas do amor de Deus possam ser plenamente reconhecidas: ver [Rm_15,8].

{N}2.49: APARI\u00c7\u00d5ES E ANJOS {/}[Gn_16,1]
Que devemos pensar destas apari\u00e7\u00f5es de anjos? S\u00e3o realidade, ou maneira de  dizer? Esclare\u00e7amos o seguinte:
N\u00e3o devemos confundir anjos e Anjo de Jav\u00e9. Somente nos livros mais tardios do Antigo Testamento (e no Novo, evidentemente) \u00e9 que se fala de anjos com o sentido que hoje lhes damos: seres espirituais que ocupam um lugar no ordenamento do mundo e na salva\u00e7\u00e3o dos homens. Veja-se [Zc_1,1]; [Zc_2,1]. Tamb\u00e9m em [Dn_9,21]; [Dn_10,12]; [Dn_10,21]. Pelo contr\u00e1rio, os antigos israelitas falavam do Anjo de Jav\u00e9, ou seja, de um mensageiro de Jav\u00e9 para exprimir muitas coisas que n\u00e3o sabiam explicar e que significavam uma interven\u00e7\u00e3o de Deus. Quando uma epidemia dizima  providencialmente o ex\u00e9rcito ass\u00edrio, \u00e9 o Anjo de Jav\u00e9. Ver [Is_37,36] e tamb\u00e9m [2Sm_24,16]. Sabendo que ningu\u00e9m pode ver a Deus, quando algu\u00e9m tinha uma apari\u00e7\u00e3o falava-se do Anjo de Jav\u00e9. Ver [Jz_6,11].
Toda a B\u00edblia mostra que Deus Se d\u00e1 a conhecer aos que O buscam, usando um sem-n\u00famero de meios. Fala por meio dos acontecimentos; ilumina o cora\u00e7\u00e3o dos que l\u00eaem a Palavra; fala por meio de intui\u00e7\u00f5es e sonhos; fala por meio de vis\u00f5es ou palavras e, por vezes, como no caso dos grandes profetas, em forma mais directa, num contacto \u00edntimo e espiritual.
Mas n\u00e3o devemos tomar ao p\u00e9 da letra tudo o que se diz de apari\u00e7\u00f5es ou palavras recebidas de Deus, porque os povos antigos n\u00e3o se expressavam como n\u00f3s. Quando um homem se interrogava a si mesmo ou era tentado pelo Mal, eles expressavam por vezes esta tenta\u00e7\u00e3o interior por meio de personagens e diziam que o dem\u00f3nio ou Deus dialogavam com esse homem. Ver [Js_7,10]; [1Rs_3,4].
Muito possivelmente, Deus n\u00e3o agia com os homens antigos da B\u00edblia como no nosso tempo. Agora, depois da vinda de Cristo, tudo temos n'Ele e na sua Igreja, e Deus habitualmente reserva vis\u00f5es e apari\u00e7\u00f5es para aqueles que conduz por um caminho especial. Pelo contr\u00e1rio, nos primeiros s\u00e9culos da B\u00edblia, Deus comunicava-Se muito mais atrav\u00e9s destes meios mais evidentes, mas inferiores.

{N}2.50: RELIGI\u00c3O E F\u00c9 {/}[Dt_4,32]
Estes dois termos aparecem frequentemente quando falamos da nossa rela\u00e7\u00e3o com Deus. Devemos ent\u00e3o saber o que entendemos por \u00abreligi\u00e3o\u00bb e o que queremos dizer quando falamos de f\u00e9.
Os povos da antiguidade e muitos homens de hoje s\u00e3o \u00abreligiosos\u00bb: cr\u00eaem que o mundo em que vivem \u00e9 obra de um Deus criador \u00abque fez o c\u00e9u e a terra e tudo o que neles existe\u00bb. \u00c9 por isso que encontramos em todas as religi\u00f5es da antiguidade, tal como nas primeiras p\u00e1ginas da B\u00edblia, narra\u00e7\u00f5es da Cria\u00e7\u00e3o que explicam a origem do mundo e do homem. Sendo Deus o autor da Cria\u00e7\u00e3o, s\u00f3 Ele pode dar as regras do seu funcionamento: todas as religi\u00f5es associaram, muito naturalmente, \u00e0s suas narra\u00e7\u00f5es da origem, prescri\u00e7\u00f5es de ordem moral.
O Deus da religi\u00e3o (ou deuses, pois o polite\u00edsmo est\u00e1 muito difundido) \u00e9 servido por um clero que, em nome do povo, Lhe agradece os dons que concede aos homens e Lhe pede que renove os seus benef\u00edcios ao longo do ano que vem. \u00c9 o que acontece com as festas religiosas, constitu\u00eddas principalmente por ac\u00e7\u00f5es de gra\u00e7as e ofertas de prim\u00edcias, como verificamos nos textos rituais do Antigo Testamento. A religi\u00e3o \u00e9, por natureza, conservadora, pois assegura o bom andamento do mundo; sem \u00abesperan\u00e7a\u00bb, o homem nada de novo tem a esperar, mas s\u00f3 aguardar que o amanh\u00e3 lhe d\u00ea, como hoje, o que precisa neste mundo.
Ao abrir a B\u00edblia e ao fazer a nossa \u00abprofiss\u00e3o de f\u00e9\u00bb, reconhecemos que tamb\u00e9m somos um povo religioso; acaso n\u00e3o dizemos: \u00abCreio em Deus Todo-Poderoso, Criador do C\u00e9u e da Terra\u00bb? Mas esta religi\u00e3o que confessamos foi completamente transfigurada pela f\u00e9: o Deus criador \u00abrevelou-Se\u00bb, manifestou-se ao povo de Israel, a quem escolheu desde toda a eternidade para que fosse \u00absua testemunha no meio das na\u00e7\u00f5es\u00bb. Ao longo dos s\u00e9culos, Deus revelou-Se inclusive na Hist\u00f3ria de Israel: conduziu o seu povo, como um pai guia o seu filho [Dt_1,31] a uma plenitude que o homem n\u00e3o pode conceber nem sequer imaginar [Ef_1,15] - [Ef_1,23]; [Ef_3,14] - [Ef_3,21; [Cl_1,9] - [Cl_1,14]; [Cl_1,25] - [Cl_1,27].
Deus d\u00e1-Se a conhecer tal como \u00e9, e leva o homem  a uma comunh\u00e3o de amor eterno com Ele [Jo_17,21]. Por isso \u00e9 que a esperan\u00e7a, pelo menos como a define Paulo, [Rm_8,24] - [Rm_8,25] est\u00e1 no pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o da nossa f\u00e9, e se a nossa ac\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as se eleva sempre a Deus pelos bens que d'Ele recebemos, eleva-se mais, cada vez mais para o Pai que nos \u00abpermitiu participar da heran\u00e7a dos crist\u00e3os, na luz\u00bb, e para Aquele que \u00abnos arrancou do poder das trevas e nos transferiu para o Reino do seu Filho amado\u00bb [Cl_1,12] - [Cl_1,13].

{N}2.51: DEUS SALVA TODOS OS HOMENS{/} [Jn_4,1]
Jonas n\u00e3o ama os pag\u00e3os, e se Deus os salva, ele n\u00e3o est\u00e1 disposto a pagar por isso. Mas estas mesquinhezes, pr\u00f3prias de um crente bem med\u00edocre, n\u00e3o devem ocultar-nos um esc\u00e2ndalo do qual pareceria que Deus \u00e9 que tem a culpa. Como \u00e9 que Deus salva todos os homens, se ao mesmo tempo repete, ao longo de toda a B\u00edblia, que o \u00fanico eleito \u00e9 Israel, que s\u00f3 Jesus tem palavras de vida, e que n\u00e3o podemos ser salvos sem o baptismo? Acaso Deus tem duas maneiras de falar? Ou ent\u00e3o devemos crer que a salva\u00e7\u00e3o crist\u00e3 \u00e9 uma entre todas as que Deus deu aos povos de diferentes culturas e religi\u00f5es?
Um dos primeiros a interrogar-se acerca disso, o fil\u00f3sofo e m\u00e1rtir S\u00e3o Justino, pensou que, j\u00e1 antes de Jesus, o Verbo de Deus esteve no mundo como uma semente de verdade, e que iluminou os s\u00e1bios de todas as religi\u00f5es. Santo Agostinho, ao contr\u00e1rio, tomou ao p\u00e9 da letra [Mc_16,16]: \u00abQuem n\u00e3o acreditar, ser\u00e1 condenado\u00bb. Por isso viu-se obrigado a demonstrar que tudo o que vemos de bom nos n\u00e3o-crist\u00e3os \u00e9 fruto de um orgulho secreto. Neles n\u00e3o h\u00e1 sen\u00e3o virtudes humanas, ou seja, uma perfei\u00e7\u00e3o aparente que n\u00e3o tem valor aos olhos de Deus. Esta solu\u00e7\u00e3o radical inflamava o entusiasmo dos baptizados, e a Igreja n\u00e3o demorou a adopt\u00e1-la.
Deve dizer-se que a Igreja j\u00e1 se tinha sentado no trono de gl\u00f3ria que era perten\u00e7a s\u00f3 de Cristo, seu esposo. Sendo Ele o \u00fanico Salvador, a Igreja colocava-se como intermedi\u00e1ria que ningu\u00e9m podia ignorar se n\u00e3o queria condenar-se para sempre. Era verdade que o mist\u00e9rio da Igreja abra\u00e7ava a Humanidade inteira, mas confundiam-se duas quest\u00f5es: \u00e9 a Igreja necess\u00e1ria para a salva\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria humana? E estoutra: Acaso n\u00e3o h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o para aqueles que est\u00e3o fora da estrutura eclesial?
Foi assim que a Igreja do Ocidente se encastelou na posi\u00e7\u00e3o de Santo Agostinho e a refor\u00e7ou com a doutrina do pecado original, de que ele tinha tra\u00e7ado as grandes linhas (veja-se o coment\u00e1rio a [Gn_3,1] e a [Rm_5,12]). Sustentava-se imperturbavelmente que, devido ao pecado de Ad\u00e3o, todos os homens eram condenados ao Inferno, excepto aqueles que tinham sido baptizados ou que pelo menos tinham manifestado a vontade de receber o baptismo. E isto pregou-se at\u00e9 h\u00e1 bem pouco tempo.
Foi s\u00f3 na primeira metade do s\u00e9culo XX, especialmente no Conc\u00edlio Vaticano II, que este muro se abateu oficialmente. Durante os tr\u00eas s\u00e9culos anteriores, essa condena\u00e7\u00e3o sem apelo de todas as religi\u00f5es e da grande maioria dos homens que n\u00e3o entraram no movimento crist\u00e3o, tinha escandalizado in\u00fameros esp\u00edritos abertos, contribuindo para o ate\u00edsmo ocidental, mas a Igreja (ou melhor, as Igrejas) continuavam imut\u00e1veis. N\u00e3o podemos admirar-nos de que, mal se reconheceu que a vontade de Deus era a de salvar todos os homens (e isto n\u00e3o s\u00f3 em teoria, ou seja, que \u00abDeus quer salvar todos os homens na condi\u00e7\u00e3o de que acreditem e se tornem cat\u00f3licos romanos\u00bb), a massa dos crist\u00e3os tenha come\u00e7ado a desestimar a sua religi\u00e3o. N\u00e3o a negavam, pensavam que talvez era a melhor, mas que todas as religi\u00f5es tinham o mesmo valor. Bem depressa se chegou a pensar que neste campo n\u00e3o h\u00e1 caminho que se imponha e que cada um se salva como pode, se \u00e9 que ainda se pode falar de salvar-se ou ser salvo.
Os crente de hoje n\u00e3o podem assimilar, nalguns anos ou mesmo no decorrer dum s\u00e9culo, uma viragem de tal grandeza, e sem d\u00favida seremos incapazes, antes de passar muito tempo, de entender de vez  como Deus ama e salva todos os homens, e como o chamamento \u00e0 f\u00e9 \u00e9 uma gra\u00e7a \u00fanica. Devemos ouvir o que Deus diz ao profeta Jonas, mas n\u00e3o esqueceremos, apesar disso, que Jesus \u00e9 muito mais que qualquer Jonas ou Salom\u00e3o [Mt_12,41], mais que qualquer s\u00e1bio ou profeta do Oriente ou do Ocidente. Ningu\u00e9m, fora d'Ele, recebeu o Nome divino sem o qual a Humanidade n\u00e3o se salvar\u00e1 [Act_4,12].

{N}2.52: O INFERNO{/} [Mt_10,17] 
Tende cuidado com os homens. Este ponto ser\u00e1 desenvolvido em [Jo_15,18].
A\u00e7oitar-vos-\u00e3o nas sinagogas. No mundo romano, as v\u00e1rias colectividades \u00e9tnicas tinham determinada organiza\u00e7\u00e3o interna. Os judeus tinham a\u00ed as suas sinagogas e podiam castigar certos delitos segundo as suas pr\u00f3prias leis [Act_9,2].

{N}2.53: SABEDORIA DE JESUS {/}[Mc_6,1]
Este homem n\u00e3o \u00e9 o carpinteiro...? {C}\u00c9 este o \u00fanico lugar em que Jesus \u00e9 chamado{/} filho de Maria. {C}Na boca dos judeus, deveriam chamar-Lhe filho de Jos\u00e9, seria um facto estranho, talvez at\u00e9 um insulto. Mas manuscritos antigos cont\u00eam: o filho do carpinteiro, tal como em {/}[Mt_13,55]. {C}Al\u00e9m disso, Or\u00edgenes afirma que em nenhuma parte do evangelho Jesus \u00e9 chamado o carpinteiro. Outros manuscritos cont\u00eam: o filho do carpinteiro e de Maria. O texto actual deve ter sido modificado por respeito a Maria{/}.

{N}2.54: PURO E IMPURO{/} [Mc_7,14]
Na religi\u00e3o judaica, um ponto muito importante era manter-se puro, pois n\u00e3o se podia participar nos actos de culto sem possuir esse estado de pureza. A palavra {C}pureza {/}n\u00e3o tinha para eles o mesmo sentido que lhe damos agora. Homem puro era aquele que n\u00e3o se sentia contaminado, mesmo por inadvert\u00eancia, por algumas das coisas proibidas pela Lei.
Por exemplo, a carne de porco ou de coelho era considerada impura: n\u00e3o se devia comer. Uma mulher durante a sua menstrua\u00e7\u00e3o, ou qualquer pessoa que tivesse hemorragias, eram tidas por impuras durante um certo n\u00famero de dias, e ningu\u00e9m lhes podia sequer tocar. Um leproso era impuro at\u00e9 que ficasse curado. Se ca\u00eda um insecto morto no azeite, este tornava-se impuro e devia deitar-se fora etc. Todo aquele que se tivesse manchado com estas coisas, mesmo que n\u00e3o fosse por culpa sua, tinha de purificar-se, habitualmente com \u00e1gua, e outras vezes pagando sacrif\u00edcios.
Estas leis tinham sido muito \u00fateis para acostumar o povo judeu a viver de forma higi\u00e9nica. Serviam, al\u00e9m disso, para proteger a f\u00e9 dos judeus que viviam no meio de povos que n\u00e3o conheciam a Deus. Como poderiam conservar a sua f\u00e9 no Deus \u00fanico, se lhes fosse permitido conviver com esses povos, t\u00ea-los por amigos e imit\u00e1-los em tudo? Pois bem, com esses inumer\u00e1veis costumes religiosos que todo o judeu devia observar, afastavam-se necessariamente dos que n\u00e3o partilhavam a sua f\u00e9, levavam um estilo de vida diverso e permaneciam no meio dos seus correligion\u00e1rios.
Jesus retira a estes ritos o seu car\u00e1cter sagrado; nada do que Deus criou \u00e9 impuro; Deus n\u00e3o Se ofende porque toc\u00e1mos num doente, num cad\u00e1ver ou nalguma  coisa manchada com sangue. N\u00e3o Se importa que comamos isto ou aquilo. O pecado \u00e9 sempre algo {C}que saiu do cora\u00e7\u00e3o{/}, e n\u00e3o algo que fizemos sem querer.
\u00c9 verdade que o Antigo Testamento ensina os conceitos de \u00abpuro\u00bb e \u00abimpuro\u00bb, mas tudo isso foi escrito ao longo dos s\u00e9culos, e nem tudo que cada livro diz vale para todos os s\u00e9culos. Como dir\u00e1 Paulo na sua Carta aos G\u00e1latas [Gl_4,1] - [Gl_4,7], o povo de Deus passou por uma etapa de crian\u00e7a em que foi preciso dar-lhe regras precisas para form\u00e1-lo; mas \u00abquando chegou a plenitude dos tempos\u00bb, quando o povo de Deus se tornou adulto, essas regras perderam toda a raz\u00e3o de ser.
\u00c9 completamente leg\u00edtimo que haja crist\u00e3os que adoptem uma alimenta\u00e7\u00e3o vegetariana, ou comunidades crist\u00e3s que considerem a recusa do \u00e1lcool ou do tabaco como um testemunho que ajuda o meio em que vivem. Mas n\u00e3o devem dizer que isso faz parte da f\u00e9, nem podem julgar os que conservam a sua liberdade. De contr\u00e1rio estariam a rebaixar a salva\u00e7\u00e3o crist\u00e3, ao esquecerem que ela vai mais al\u00e9m de qualquer quest\u00e3o de \u00abcomida ou bebida\u00bb [Rm_14,17].

{N}2.55: O NOME DE JESUS {/}[Mc_16,15]
Quando Jesus ressuscita, a sua natureza humana come\u00e7a a participar da gl\u00f3ria divina. Jesus \u00e9 agora Filho-de-Deus-com-poder [Rm_1,4], e pede-nos que acreditemos em seu {C}Nome, {/}isto \u00e9, no poder divino que acaba de receber e que actua n'Ele.
O{C} Nome{/} \u00e9 um termo que para n\u00f3s significa pouco, mas para os judeus significava a presen\u00e7a activa de Deus. Este termo permitia falar da presen\u00e7a misteriosa de Deus sem menosprezo da sua grandeza. Por exemplo, a B\u00edblia diz-nos que Deus caminhava com os hebreus para a Terra Prometida (mas n\u00f3s sabemos que Deus n\u00e3o caminha); e diz tamb\u00e9m que o seu {C}Nome{/} [Nm_6,27], o seu {C}Rosto {/}[Ex_33,11]{C} {/}ou o seu {C}Anjo {/}[Ex_23,23] estava no meio deles. Deus n\u00e3o podia encerrar-Se num Templo de pedras, mas a B\u00edblia dizia que o seu Nome residia nesse lugar para aben\u00e7oar a partir da\u00ed todas as actividades do seu povo [1Rs_8,27], [1Rs_8,29].
O {C}Nome{/} significava, pois, o poder ou a presen\u00e7a divina. E Paulo diz que Jesus ressuscitado recebeu um Nome que est\u00e1 acima de qualquer outro nome [Fl_2,9]. Deus Pai deu-Lho, e Jesus, que o recebe do Pai, n\u00e3o \u00e9 menos que Ele: tudo o que \u00e9 do Pai \u00e9 agora seu. Jesus n\u00e3o recebe somente um t\u00edtulo ou uma gl\u00f3ria divina, pois a Gl\u00f3ria divina n\u00e3o podia ser dada a ningu\u00e9m mais sen\u00e3o a Deus; se Ele recebe um t\u00edtulo divino (j\u00e1 anunciado em [Is_9,5]), \u00e9 porque na realidade j\u00e1 havia recebido do Pai a divindade, isto \u00e9, o seu mesmo Ser divino.
Jesus \u00e9 ent\u00e3o Deus igual ao Pai, mas \u00e9-o de um modo diferente, porque tudo recebe d'Aquele que tudo tem. Por isso tamb\u00e9m est\u00e1 escrito que o seu Nome \u00e9 {C}O FILHO {/}[Hb_1,4]. E quando nos dirigimos ao Pai invocando o Nome de Jesus, isso significa muito mais do que escudar-nos nos seus m\u00e9ritos [Hb_5,9], ou valer-nos da sua poderosa intercess\u00e3o [Hb_7,25]; no Nome de Jesus apresentamo-nos como filhos, sabendo que Deus nos abra\u00e7a no mesmo amor paterno que tem pelo seu  {C}Filho querido {/}[Ef_1,6].
Da\u00ed em diante Jesus submete, pouco a pouco, com poder divino, a Hist\u00f3ria dos homens e o percurso pessoal de cada um de n\u00f3s. Os disc\u00edpulos s\u00e3o enviados ao mundo para san\u00e1-lo e santific\u00e1-lo. Os milagres e curas, cuja import\u00e2ncia se enfatiza neste par\u00e1grafo, n\u00e3o s\u00e3o o fim, mas simples sinais e meios; o fim da evangeliza\u00e7\u00e3o \u00e9 que toda a Cria\u00e7\u00e3o se re\u00fana em torno da Pessoa do Filho de Deus feito homem, por obra do seu Esp\u00edrito. \u00abN\u00e3o temais, diz-nos Jesus, a minha Igreja n\u00e3o \u00e9 um ref\u00fagio contra o mundo, suas sedu\u00e7\u00f5es e problemas, mas cada um de v\u00f3s, ao ser baptizado, come\u00e7a a ser ap\u00f3stolo\u00bb.
{C}Os sinais que acompanhar\u00e3o aqueles que acreditarem {/}[Mc_16,17]. Os Actos dos Ap\u00f3stolos narram alguns desses sinais e milagres nos primeiros anos da Igreja. Hoje continuam a verificar-se, com outros mais, em todos os lugares onde os crist\u00e3os tomam a s\u00e9rio a sua miss\u00e3o de evangelizar o mundo.

{N}2.56: OS CASTIGOS DE DEUS {/}[Lc_13,1]
Neste passo Jesus p\u00f5e em figura de ju\u00edzo a ideia que temos dos castigos de Deus. N\u00e3o se pode crer em Deus sem crer na justi\u00e7a, e entre os Gregos, que tinham deuses caprichosos e pouco honrados, a justi\u00e7a era uma for\u00e7a divina superior aos pr\u00f3prios deuses. Mas cada julga-se o centro do mundo e o melhor de todos. Se a desgra\u00e7a cai sobre algu\u00e9m, n\u00f3s pensamos que isso \u00e9 justo; mas quando nos toca a n\u00f3s, perguntamo-nos: \u00abQue \u00e9 que eu fiz a Deus, para me acontecer isto?\u00bb
O Evangelho toma em conta v\u00e1rios aspectos desta pergunta. Em primeiro lugar, procuremos ultrapassar o esp\u00edrito de classe ou de partido (veja-se [Lc_6,32]); o mal feito pelos nossos inimigos n\u00e3o \u00e9 maior do que o que fazemos n\u00f3s pr\u00f3prios. Em segundo lugar, a justi\u00e7a de Deus ultrapassa muit\u00edssimo a nossa, e s\u00f3 se realiza verdadeiramente no outro mundo (o caso de L\u00e1zaro: [Lc_16,19]).
As desgra\u00e7as que nesta vida nos parecem \u00abcastigos de Deus\u00bb n\u00e3o s\u00e3o, afinal, mais do que sinais, medidas pedag\u00f3gicas de que o Senhor Se serve para que estejamos conscientes do pecado, pois Ele tira o bem at\u00e9 do mal. E muitas vezes Deus converte um pecador dando-lhe uma gra\u00e7a inesperada (veja-se o caso de Zaqueu: [Lc_19,1]).
Ent\u00e3o, porque \u00e9 que se fala tanto dos castigos de Deus no Antigo Testamento? Precisamente porque o povo de Deus n\u00e3o tinha ainda ideia do mais al\u00e9m, e era necess\u00e1rio mostrar-lhes os castigos de Deus na vida presente para que acreditassem na sua justi\u00e7a. De facto, Deus continua a dar sinais semelhantes, tanto \u00e0s pessoas singulares como \u00e0s colectividades, e \u00e9 bom que os saibamos reconhecer, sabendo embora que esta n\u00e3o \u00e9 a \u00faltima palavra da justi\u00e7a divina.

