{N}1.1: INTERPRETA\u00c7\u00c3O DA ESCRITURA {/}[Gn_3,1]
{N}FUNDAMENTALISMO{/}
A interpreta\u00e7\u00e3o que damos aos cap\u00edtulos 1-3 do G\u00e9nesis \u00e9 muito diferente da que se podia dar no s\u00e9culo passado, quando todos consideravam essas p\u00e1ginas uma descri\u00e7\u00e3o de como Deus criou o mundo e, especialmente, o homem. A interpreta\u00e7\u00e3o do pecado de Ad\u00e3o ser\u00e1 tamb\u00e9m diferente. Isto convida-nos a dizer aqui algumas palavras sobre estas interpreta\u00e7\u00f5es divergentes da Escritura e sobre a Inspira\u00e7\u00e3o dos Livros Sagrados. 
A diverg\u00eancia deve-se \u00e0s v\u00e1rias respostas que podem ser dadas \u00e0 pergunta seguinte: Sendo as Escrituras simultaneamente Palavra de Deus que vale para todos os tempos, e palavra humana condicionada pelo temperamento do seu autor, pela sua cultura e pelas necessidades do seu tempo, como distinguir a parte destas duas componentes para alcan\u00e7ar a mensagem que nos diz respeito?
As interpreta\u00e7\u00f5es fundamentalistas d\u00e3o-nos uma primeira resposta. Todos conhecemos a palavra {C}fundamentalismo, {/}apesar de talvez n\u00e3o termos uma ideia concreta  do seu significado. Em poucas palavras, \u00e9 um modo de ler as Escrituras que se prende ao texto como se entende \u00e0 primeira vista, sem se preocupar com o significado que estas p\u00e1ginas talvez tivessem para quem as escreveu e com o que o autor sagrado subentendia nestas palavras, de acordo com a cultura do seu tempo. O fundamentalista real\u00e7a sobretudo que cada texto \u00e9 inspirado por Deus e n\u00e3o leva em conta os dois aspectos da dita palavra: 
- primeiro, a palavra n\u00e3o passa a sua mensagem se n\u00e3o quisermos saber antes como \u00e9 que o pr\u00f3prio autor a entendia,
- segundo, uma p\u00e1gina, ou um determinado livro, perde parte do seu valor como palavra de Deus se o afastarmos das Escrituras. Porque cada livro tem os seus limites e os seus acentos pr\u00f3prios e devemos ter em conta o conjunto das Escrituras para n\u00e3o falsear as perspectivas.
Quem n\u00e3o situa os textos no tempo deles perde uma dimens\u00e3o importante das Escrituras que \u00e9 a pedagogia de Deus. Pois desde o in\u00edcio e desde o tempo dos Patriarcas at\u00e9 \u00e0 vinda de Jesus e ao tempo dos Ap\u00f3stolos, toda a Hist\u00f3ria Sagrada foi um longo processo em que os esfor\u00e7os humanos, a influ\u00eancia dos profetas e as conjunturas internacionais se uniram \u00e0 cont\u00ednua press\u00e3o do Esp\u00edrito de Deus para fazer crescer e amadurecer em Israel a revela\u00e7\u00e3o destinada ao mundo. Aquele que desconhece esta pedagogia ou maneira de actuar de Deus na vida do seu povo falar\u00e1, por certo, da Hist\u00f3ria Sagrada, mas esta limitar-se-\u00e1 para ele a uma s\u00e9rie de guerras e prova\u00e7\u00f5es do povo de Israel em que este povo constantemente demonstrou ser pouco fiel e, pelo contr\u00e1rio, Deus manifestou a sua justi\u00e7a e a sua miseric\u00f3rdia. Muito lhe escapar\u00e1, tanto mais que, ao n\u00e3o levar em conta o tempo em que se escreveu cada um dos livros, n\u00e3o perceber\u00e1 que a maneira pr\u00f3pria de cada um para focalizar esta hist\u00f3ria depende do n\u00edvel de amadurecimento religioso da comunidade religiosa no tempo em que o livro foi escrito. 
O erro de interpreta\u00e7\u00e3o do fundamentalista \u00e9 ainda maior no caso dos primeiros cap\u00edtulos do G\u00e9nesis. Prefere ignorar tudo o que a hist\u00f3ria do \u00c9den deve aos relatos mitol\u00f3gicos do M\u00e9dio Oriente, escritos e amplamente difundidos s\u00e9culos antes do relato b\u00edblico aparecer. Depois interpreta estas p\u00e1ginas da B\u00edblia como se tivessem sido ditadas ao autor sagrado, como se o pr\u00f3prio Deus lhe tivesse mostrado os seus pr\u00f3prios apontamentos acerca do que fez no in\u00edcio: Sim, tomou a argila (mesmo n\u00e3o tendo m\u00e3os), e soprou (apesar de n\u00e3o ter boca), e disse ao primeiro homem (em que l\u00edngua, se nessa altura n\u00e3o existiam?), e chamou-lhe Ad\u00e3o (um nome que ir\u00e1 ter um significado s\u00f3 muitos s\u00e9culos mais tarde, quando se tiver formado o idioma hebraico), e veio uma serpente que falava, e a mulher n\u00e3o ficou surpreendida que uma serpente lhe falasse...
Na realidade, n\u00e3o podemos condenar de maneira t\u00e3o absoluta o fundamentalismo, pois quer os judeus quer o pr\u00f3prio Jesus e os ap\u00f3stolos interpretavam at\u00e9 um certo ponto as Escrituras como o fazem hoje os fundamentalistas. Isto deve-se a que eles n\u00e3o tinham nem a vis\u00e3o cient\u00edfica da Hist\u00f3ria que agora temos, nem a cultura que dela deriva. Para dar exemplos: escapava-lhes  que os livros chamados \u00abde Mois\u00e9s\u00bb tinham sido escritos v\u00e1rios s\u00e9culos depois dele, e at\u00e9 posteriormente aos livros dos profetas. Estavam mesmo convencidos que o conjunto dos Salmos tinha David como autor. Os efeitos desta ignor\u00e2ncia, eram, no entanto, limitados pelo facto de que estavam mergulhados na cultura hebraica que tinha produzido todos esses livros. Mais ainda a tradi\u00e7\u00e3o da sinagoga encarregava-se de limitar os excessos que podiam resultar de uma interpreta\u00e7\u00e3o deste ou daquele livro fora do conjunto das Escrituras. Para dar outro exemplo, se nos referirmos aos cap\u00edtulos do Jardim do \u00c9den, o nome de Ad\u00e3o significava simultaneamente para eles o pai da ra\u00e7a e a pr\u00f3pria ra\u00e7a - do mesmo modo que cada povo n\u00f3mada chamava pelo seu nome o antepassado m\u00edtico da comunidade. E abstinham-se de concluir do pecado de Ad\u00e3o que a sua falta tivesse tido mais import\u00e2ncia que qualquer outra rebeli\u00e3o da colectividade. Em contrapartida, ao longo dos s\u00e9culos que se seguiram, ao mesmo tempo que a cristandade se afastava das suas ra\u00edzes culturais hebraicas, os te\u00f3logos que entendiam \u00e0 letra toda a hist\u00f3ria de Ad\u00e3o chegaram a pensar que se tratava de um \u00fanico pecado do primeiro homem, aquilo que era castigado pela morte e pelo inferno para toda a humanidade. A Igreja ainda hoje est\u00e1 a pagar um erro t\u00e3o monstruoso. 
Embora o fundamentalismo limitado de Jesus e dos ap\u00f3stolos (que me perdoem esta express\u00e3o) n\u00e3o lhes permitisse verificar nos textos b\u00edblicos uma pedagogia de Deus da qual n\u00e3o duvidavam, o preju\u00edzo n\u00e3o era muito porque viviam em tempos em que as mudan\u00e7as pol\u00edticas de maior transcend\u00eancia n\u00e3o alteravam a cultura religiosa e os valores da vida do dia a dia. Entretanto, a f\u00e9 era transmitida pela comunidade e pela fam\u00edlia, uma f\u00e9 que pedia antes de mais a observ\u00e2ncia de condutas comprovadas e indiscut\u00edveis.  As op\u00e7\u00f5es eram simples: seguir a Lei ou ser um rebelde. E a Lei ordenava quer as rela\u00e7\u00f5es dos crentes com os judeus quer as normas de conduta nas diversas \u00e1reas da exist\u00eancia. Tinha uma import\u00e2ncia menor para os crentes que viram a Hist\u00f3ria como uma pedagogia de Deus e que tamb\u00e9m leram os acontecimentos vividos como determinados por Deus que nos vai guiando e instruindo (no entanto, ver [Mt_16,2]). 
As revolu\u00e7\u00f5es culturais do nosso s\u00e9culo e mais especialmente, da segunda metade deste, voltaram a p\u00f4r-nos num caminho de procura. Quer tenhamos que apreciar o que \u00e9 transit\u00f3rio na doutrina da Igreja e o que n\u00e3o pode mudar, quer queiramos entender a evolu\u00e7\u00e3o r\u00e1pida das comunidades eclesiais, precisamos de aprofundar as mudan\u00e7as testemunhadas pelas Escrituras, no campo da f\u00e9 vivida. E \u00e9 a\u00ed que uma vis\u00e3o fundamentalista nos pode paralisar, pois esta procura transformar os testemunhos t\u00e3o diferentes e at\u00e9 opostos que comp\u00f5em as Escrituras numa religi\u00e3o codificada pelo pr\u00f3prio Deus. Nessa altura a Palavra de Deus depressa d\u00e1 lugar a um catecismo, que certamente se apoia na Escritura, mas nem por isso \u00e9 sacramento da Palavra ou \u00e9 capaz de dar vida.

{N}1.2: COMO SE ESCOLHERAM OS LIVROS SAGRADOS {/}[Esd_7,1]
No presente cap\u00edtulo, Esdras \u00e9 chamado v\u00e1rias vezes {C}escriba, {/}ou {C}doutor da Lei. Lei de Jav\u00e9, {/}para os judeus; {C}Lei do Deus dos C\u00e9us, {/}na carta oficial do governo persa que identificava Jav\u00e9 com o Deus dos C\u00e9us. Julga-se habitualmente que Esdras juntou os livros que compunham o primeiro n\u00facleo da nossa B\u00edblia. Os livros de Mois\u00e9s eram a parte essencial dela.
\u00c9 ent\u00e3o quando a Lei de Deus come\u00e7a a ser identificada com um conjunto de livros tidos por sagrados: veja-se, a esse respeito, [2Mc_2,13] que atribui essa iniciativa a Neemias.
Conv\u00e9m perguntar-nos aqui como se reconhecem os livros sagrados. Ao comprar uma B\u00edblia cremos que cont\u00e9m os livros inspirados, que \u00e9 palavra de Deus... Mas, quem decidiu, e com que crit\u00e9rios, quais eram os livros sagrados? Esta pergunta \u00e9 fundamental, pois sejamos cat\u00f3licos ou protestantes, e seja qual for a Igreja a que perten\u00e7amos, toda a nossa f\u00e9 se baseia nessas Escrituras. Se n\u00e3o existe nenhuma autoridade capaz de decidir quais s\u00e3o os livros inspirados e que cr\u00e9dito podemos atribuir-lhes, n\u00e3o haver\u00e1 f\u00e9 crist\u00e3. Em que divergem esses livros dos outros escritos atribu\u00eddos a s\u00e1bios, a pessoas santas ou profetas? Em que medida nos entregam eles a verdade \u00fanica e eterna que n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o o pr\u00f3prio Deus com o seu mist\u00e9rio?
{N}O C\u00c2NON DAS ESCRITURAS{/}
\u00c9 chamada \u00abc\u00e2non\u00bb (uma palavra grega que significa {C}r\u00e9gua, {/}ou {C}direito como uma r\u00e9gua) {/}a lista oficial dos livros sagrados que s\u00e3o sempre e ser\u00e3o normativos da f\u00e9. Em poucas palavras, a seguran\u00e7a da f\u00e9 repousa na seguran\u00e7a que Deus deu aos ap\u00f3stolos de Jesus, e mediante eles \u00e0 Igreja, uma assist\u00eancia especial do seu Esp\u00edrito para que determine sem erro quais s\u00e3o os livros sagrados. Voltaremos a este assunto a prop\u00f3sito dos livros ditos deuterocan\u00f3nicos.
E, para come\u00e7ar, vejamos como esses livros sagrados chegaram a ser reconhecidos, primeiro pela comunidade israelita, e depois pela Igreja.
O ponto de partida de cada um deles \u00e9 ser um escrito redigido por um profeta, ou por um disc\u00edpulo de profeta, ou por um s\u00e1bio acostumado a ensinar a Lei de Deus. Por vezes esse autor estava consciente de ser inspirado, tanto no que escrevia como no que proclamava. Outras vezes quis ensinar ou comentar a Lei de Deus, ou descobrir como se verificava nos acontecimentos, e f\u00ea-lo com f\u00e9 e convic\u00e7\u00e3o de que estava expressando a f\u00e9 de Israel, ou da Igreja, mas sem com isso pensar que o seu livro era palavra de Deus.
Depois houve os azares da vida e os danos do tempo: livros queimados, esquecidos. O livro depositado numa biblioteca rudimentar, como podia ser ent\u00e3o, cai nas m\u00e3os de um sacerdote ou de um letrado que o acha bom, mas n\u00e3o apto para os novos tempos. Toma parte dele, ou toma-o por inteiro, e acrescenta-lhes par\u00e1grafos e p\u00e1ginas. Pode ser que o livro seja copiado e espalhado e que muitas pessoas o fixem na mem\u00f3ria - pois muito poucos podiam ter um exemplar. Mas tamb\u00e9m pode acontecer que um livro caia no esquecimento.
Chega depois o momento em que a comunidade religiosa, quer se trate da judaica quer da crist\u00e3, se preocupa por juntar os seus livros sagrados. Ent\u00e3o as autoridades religiosas procuram os livros existentes nas v\u00e1rias comunidades, apreciam o interesse que se tem por eles, e observam os que a grande maioria dos crentes t\u00eam por inspirados. Finalmente decidem em nome de Deus quais s\u00e3o os livros que elas reconhecem, os que ser\u00e3o considerados da\u00ed em diante como portadores da Palavra de Deus.
A partir desse momento, sabendo que a Igreja goza da assist\u00eancia do Esp\u00edrito de Deus, os crentes fazem um acto de f\u00e9 e reconhecem esses livros como inspirados por Deus. Sabem que, embora esses livros tenham passado por v\u00e1rias m\u00e3os, s\u00e3o no seu estado final uma parte da mensagem que Deus quer deixar ao seu povo, para todos os lugares e todos os tempos.
Como se v\u00ea, em todo este processo a actua\u00e7\u00e3o de Deus foi muito discreta, como \u00e9 na Hist\u00f3ria presente da Igreja ou nas nossas vidas. Esteve com o autor; esteve com o sacerdote ou o secret\u00e1rio que reviu ou talvez desfigurou o texto original; esteve com o inc\u00eandio que destruiu certos livros tidos como sagrados; esteve com os leitores que se enamoraram deste ou daquele escrito e os salvaram do esquecimento. De algum modo pode parecer um jogo de azar, mas Deus tem sempre o trunfo, e salva o seu livro, ou melhor, deixa-no-lo impresso.
O que acabamos de dizer vale para todos os livros que comp\u00f5em a B\u00edblia: foi a comunidade religiosa, judaica primeiro, e a crist\u00e3 depois, que os escolheu e os reconheceu, e nisto \u00e9-nos pedido um acto de f\u00e9, sem o qual n\u00e3o ter\u00edamos hoje o Livro Sagrado. A f\u00e9 \u00e9 uma decis\u00e3o em que reconhecemos e escolhemos ao mesmo tempo um Povo e o seu Livro.
N\u00e3o sabemos nem jamais saberemos por que caminho este ou aquele livro entrou nesse C\u00e2non ou Regra das Escrituras, mas a verdade \u00e9 que entrou, e que a comunidade, hebraica ou crist\u00e3, nunca o renegou.
{N}DEPOIS DE ESDRAS{/}
Parece que o primeiro n\u00facleo da B\u00edblia reunido por Esdras ordenava j\u00e1 os livros segundo duas categorias: a Lei e os Profetas.  A Lei, ou seja, os cinco livros atribu\u00eddos a Mois\u00e9s; os Profetas, ou seja, tanto os livros hist\u00f3ricos de inspira\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica como os escritos dos profetas. Foi sem d\u00favida um pouco mais tarde que apareceu a terceira categoria, a dos Escritos, \u00e0 medida que se iam reunindo esses livros de car\u00e1cter diverso, mas que podiam habitualmente ser considerados como uma \u00abliteratura de sabedoria\u00bb. O pr\u00f3logo do livro de Ben Sir\u00e1 \u00e9 o testemunho de uma \u00e9poca, um s\u00e9culo e meio antes de Cristo, em que essa estrutura j\u00e1 se tinha imposto.
O facto de considerar esses livros como livros sagrados n\u00e3o impediu algumas pessoas que se julgavam autorizadas a fazer edi\u00e7\u00f5es revistas por elas, ou a acrescentar-lhes novos escritos, como foi o caso de Qumran. Pois se via nessa Escritura a express\u00e3o da f\u00e9 do povo de Deus, havia alguns que se consideravam os int\u00e9rpretes aut\u00eanticos dessa f\u00e9. Foram acrescentados ent\u00e3o outros livros, quer a colec\u00e7\u00e3o hebraica, quer a b\u00edblia grega dos Setenta: n\u00e3o havia uma divis\u00e3o entre as duas, pelo facto de que at\u00e9 na Palestina se utilizava a dos Setenta.
Mas essa situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o podia durar para sempre: era necess\u00e1rio que algum dia as autoridades tomassem posi\u00e7\u00e3o e fixassem um c\u00e2non s\u00f3 dos livros sagrados. Era necess\u00e1rio, al\u00e9m disso, que decidissem que o livro estava terminado ou se permanecia aberto a novos escritos. A vinda de Jesus e a constitui\u00e7\u00e3o da Igreja iam precipitar essa nova etapa.
{N}O C\u00c2NON JUDEU FIXADO EM J\u00c2MNIA{/} 
Depois da queda de Jerusal\u00e9m e da destrui\u00e7\u00e3o do Templo, que terminou com a rebeli\u00e3o e a guerra hebraica contra os ex\u00e9rcitos romanos, os fariseus, a \u00fanica for\u00e7a viva sobrevivente entre os partidos ou \u00abseitas\u00bb que haviam dividido a sociedade judaica, fizeram o mais que puderam para restaurar as institui\u00e7\u00f5es religiosas. Foi na Escola sinagogal de J\u00e2mnia, nos anos 80 a 100 da nossa era, que se estabeleceu uma lista de livros considerados necess\u00e1rios e cujo car\u00e1cter sagrado exigia que as pessoas se purificassem depois de lhes haver tocado. O primeiro crit\u00e9rio para os escolher foi a aceita\u00e7\u00e3o geral desses livros e o seu uso na liturgia. Conservou-se a vers\u00e3o hebraica de Ester que os ess\u00e9nios de Qumran refutavam pela sua falta de esp\u00edrito religioso, aceitou-se Daniel e as Cr\u00f3nicas, e refutou-se a totalidade dos livros que s\u00f3 figuravam na B\u00edblia grega, mesmo quando alguns deles n\u00e3o eram sen\u00e3o tradu\u00e7\u00f5es de um original hebraico (como 1Macabeus, Ben Sir\u00e1 ou Eclesi\u00e1stico,  Judite).
Esse C\u00e2non n\u00e3o foi proposto em forma de lei, mas imp\u00f4s-se, e desde esse momento julgou-se que o Livro estava terminado. Com o nome de Lei, os Profetas e os Escritos, ou seja: Tora, Nebiim e Qetubim (em abreviatura, TaNak), a B\u00edblia hebraica alcan\u00e7ou a sua forma definitiva.
{N}O C\u00c2NON DA IGREJA{/}
A Igreja n\u00e3o estava ainda preparada para uma tal decis\u00e3o; contentava-se com utilizar a B\u00edblia grega sem discutir o valor dos seus livros. A sua aten\u00e7\u00e3o foi-se concentrando no uso dos escritos novos que come\u00e7avam a multiplicar-se, ao passo que a Igreja se ia estendendo a novos Pa\u00edses e tamb\u00e9m iam desaparecendo um ap\u00f3s outro os Ap\u00f3stolos de Jesus que tinham sido testemunhas oficiais e a autoridade suprema da f\u00e9. As tradi\u00e7\u00f5es orais que continham factos e gestos de Jesus juntavam-se a um certo n\u00famero de cartas enviadas pelos Ap\u00f3stolos ou que tinham sido escritas com o seu nome. Eram frequentes as rela\u00e7\u00f5es entre os diversos Pa\u00edses das costas do Mediterr\u00e2neo, e punham em comum as suas riquezas. Roma tinha o evangelho de Marcos, as grandes cartas de Paulo, os Actos. A S\u00edria, provavelmente, ofereceu Mateus e a carta de Tiago. A \u00c1sia menor e as cidades gregas trouxeram o seu contributo. Uma frase da segunda carta de Pedro, escrita cerca do ano 125, mostra-nos que j\u00e1 nessa \u00e9poca as cartas de Paulo eram consideradas como textos inspirados, \u00abcomo fazem com as outras Escrituras\u00bb, sem d\u00favida os livros do Antigo Testamento [2Pd_3,16].
Nem tudo foi recebido com a mesma considera\u00e7\u00e3o. Ao longo do segundo s\u00e9culo da nossa era rejeitaram-se Evangelhos ou Actos, de facto mais tardios que os nossos, que pareciam afastar-se da f\u00e9 apost\u00f3lica ou revelar fantasia. Como estes, o {C}Evangelho de Tom\u00e9,{/} que p\u00f4de sem d\u00favida conservar palavras aut\u00eanticas de Jesus que n\u00e3o chegaram at\u00e9 n\u00f3s de outro modo. Como sucedeu com o c\u00e2non judaico, o crit\u00e9rio principal parece ter sido a aceita\u00e7\u00e3o geral do texto e o seu uso lit\u00fargico: mas tamb\u00e9m queriam que esse escrito proviesse de um Ap\u00f3stolo ou do seu contexto directo. Isso explica que as Ep\u00edstolas chamadas Cat\u00f3licas, escritas na sua maior parte nas duas gera\u00e7\u00f5es seguintes, se apresentassem como cartas de Pedro, de Judas e de Tiago.
Embora se tenha de esperar at\u00e9 finais do s\u00e9culo quarto para encontrar Conc\u00edlios e documentos que d\u00e3o autoridade \u00e0 lista dos livros do Novo Testamento tal como a temos hoje, desde os finais do s\u00e9culo segundo havia-se chegado a  acordo sobre o conjunto. Faltavam apenas os livros em discuss\u00e3o, e por raz\u00f5es parecidas: os orientais n\u00e3o aceitavam a carta aos Hebreus porque viam bem que n\u00e3o era de Paulo, e os romanos n\u00e3o queriam reconhecer o Apocalipse, pois estavam convencidos de que n\u00e3o era do Ap\u00f3stolo Jo\u00e3o.
{N}OS DEUTEROCAN\u00d3NICOS{/}
Ao mesmo tempo que se fixava o C\u00e2non do Novo Testamento, preocupavam-se com as Escrituras herdadas de Israel que tinham passado a constituir o Antigo Testamento. Voltaram a aparecer com argumentos parecidos as mesmas discuss\u00f5es que haviam enfrentado, tratando-se dos judeus, os partid\u00e1rios da lista alargada dos Setenta e a lista mais reduzida da B\u00edblia hebraica. O Oriente no seu conjunto inclinava-se para a lista reduzida; o Ocidente, pela lista alargada, com Agostinho \u00e0 cabe\u00e7a. Se esta conquistou a pouco e pouco a ades\u00e3o da cristandade, deve-se a S\u00e3o Jer\u00f3nimo, e o facto \u00e9 tanto mais not\u00e1vel enquanto ele mesmo, influenciado pelo ambiente judaico na Palestina, se opunha firmemente a ela.
Jer\u00f3nimo tinha levado a cabo a tradu\u00e7\u00e3o para latim da B\u00edblia a partir do texto hebraico, seguindo uma sugest\u00e3o de Or\u00edgenes que queria que a Igreja procurasse a Escritura no seu texto original, em vez de l\u00ea-la e traduzi-la a partir da vers\u00e3o dos Setenta, como se fazia desde o tempo dos Ap\u00f3stolos. Apreciava t\u00e3o pouco os textos gregos que havia traduzido com grande rapidez, numa s\u00f3 noite (e sem computadores!) todo o livro de Tobias. Isso, no entanto, n\u00e3o o havia impedido de incluir esses livros na sua tradu\u00e7\u00e3o, a Vulgata latina. N\u00e3o faltavam todavia os que, lendo a Vulgata latina, vers\u00e3o oficial e quase \u00fanica da Igreja, questionavam os livros que nela se encontravam. O livro de Ben Sir\u00e1, chamado Eclesi\u00e1stico, \u00abo livro da consola\u00e7\u00e3o\u00bb, gozava de grande prest\u00edgio, e era frequente ir procurar no segundo livro dos Macabeus e no livro da Sabedoria as primeiras profiss\u00f5es de f\u00e9 na ressurrei\u00e7\u00e3o.
Por isso, quando se submeteu aos Padres do Conc\u00edlio de Trento, no s\u00e9culo XVI, um decreto que formulara o C\u00e2non com toda a autoridade da Igreja e de modo irrevers\u00edvel, a maioria remeteu-se \u00e0 pr\u00e1tica geral do povo crist\u00e3o educado pela Vulgata de S\u00e3o Jer\u00f3nimo, e aprovou a lista grega quase completa. N\u00e3o fez nenhuma distin\u00e7\u00e3o entre os livros da B\u00edblia hebraica juntamente com os que s\u00f3 figuravam na B\u00edblia grega, e os que havia muito tempo eram chamados {C}Deuterocan\u00f3nicos, {/}quer dizer, livros da segunda lista.
{N}OS ESCR\u00daPULOS DOS PROTESTANTES{/}
Entre os que tinham um pouco de cultura hist\u00f3rica e b\u00edblica, e ami\u00fade mais que um pouco, eram numerosos os que teriam querido excluir os Deuterocan\u00f3nicos. Na Igreja Cat\u00f3lica, o decreto infal\u00edvel do Conc\u00edlio de Trento p\u00f4s fim \u00e0s discuss\u00f5es. Mas n\u00e3o se passou o mesmo nas Igrejas nascidas da Reforma. Durante certo tempo as suas B\u00edblias inclu\u00edram os Deuterocan\u00f3nicos, mas numa sec\u00e7\u00e3o \u00e0 parte, precisando que a sua leitura era \u00fatil mas que ningu\u00e9m se podia apoiar neles para uma discuss\u00e3o. Depois deixaram de os publicar. S\u00f3 h\u00e1 algumas dezenas de anos a esta parte recome\u00e7aram a inclu\u00ed-los, mas numa sec\u00e7\u00e3o especial. Resta-nos alegrar-nos com o abandono de uma constru\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica arbitr\u00e1ria que foi aceite durante quatro s\u00e9culos, a qual punha entre os tempos do Antigo Testamento hebraico - durante os quais Deus n\u00e3o podia falar sen\u00e3o em  hebraico, e o do Novo Testamento em que falava grego -  um per\u00edodo de tr\u00eas s\u00e9culos chamado Intestament\u00e1rio, do qual estavam exclu\u00eddos a priori a inspira\u00e7\u00e3o divina e o progresso da f\u00e9.

{N}1.3:{/} {N}A INSPIRA\u00c7\u00c3O DA ESCRITURA {/}[2Tm_3,16]
Toda a Escritura \u00e9 inspirada por Deus. A tradu\u00e7\u00e3o seria possivelmente mais exacta se tom\u00e1ssemos a liberdade de a modificar um pouco: \u00abToda a Escritura \u00e9 portadora do Esp\u00edrito de Deus\u00bb. Porque n\u00e3o basta dizer que a B\u00edblia foi escrita sob o impulso do Esp\u00edrito; devemos acrescentar que os textos s\u00e3o para n\u00f3s Palavra de Deus apenas na medida em que permanecemos no terreno do Esp\u00edrito. Sabe-se que a B\u00edblia n\u00e3o \u00e9, em primeiro lugar, um livro culto, mas tamb\u00e9m seria pouco dizer que \u00e9 um texto religioso. Este texto \u00e9 \u00fatil para ensinar, para refutar, para corrigir, apenas na medida em que nela tivermos reservado um lugar para o Esp\u00edrito. A liturgia oriental de S\u00e3o Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo \u00e9 muito eloquente a esse respeito: o livro dos evangelhos \u00e9 depositado junto com o p\u00e3o e o vinho na mesa das oferendas, e levado at\u00e9 ao altar, rodeado pelos mesmos ritos. Toda a liturgia mostra que os dois sacramentos, o da Palavra e o da Eucaristia, est\u00e3o no mesmo plano, e tanto se invoca o Esp\u00edrito sobre o p\u00e3o e o vinho, para que se tornem corpo e sangue de Cristo, como sobre o livro, para que seja portador do sopro de Deus.
Assim se entende, portanto, que um mesmo texto possa dar lugar a coment\u00e1rios de esp\u00edrito muito diverso. Para um comentarista carism\u00e1tico ou amante da poesia, a elei\u00e7\u00e3o das palavras \u00e9 muito importante, porque, em parte, orienta as resson\u00e2ncias que se procurar\u00e1 noutras passagens inspiradas. Para aquele que ensina ou \u00e9 ensinado, pelo contr\u00e1rio, \u00e9 essencial a simplicidade da linguagem. Para quem repreende, o texto \u00e9 a base de uma advert\u00eancia que atinge directamente as pessoas, denunciando os actos nas circunst\u00e2ncias presentes. Da\u00ed que a compreens\u00e3o da B\u00edblia dependa principalmente, n\u00e3o de algum matiz hebraico ou grego, mas dos dons de conhecimento de que nos fala Paulo em muitos lugares, e que s\u00e3o a condi\u00e7\u00e3o de todo o apostolado eficiente ([Rm_10,2]; [Ef_1,17]; [Fl_1,9]; [Cl_1,9]; [Cl_3,10]) e o Evangelho de Jo\u00e3o, no cap\u00edtulo 17.
{N}A INSPIRA\u00c7\u00c3O DA ESCRITURA{/}
J\u00e1 dissemos que o livro sagrado \u00e9 totalmente obra, tanto de Deus como daquele que o redigiu. O autor come\u00e7ou a trabalhar, talvez sem saber a promo\u00e7\u00e3o que Deus ia dar-lhe, acreditando apenas que estava a fazer qualquer coisa de \u00fatil, e entregou-se a essa miss\u00e3o tanto com as suas preocupa\u00e7\u00f5es, como com as limita\u00e7\u00f5es da sua cultura. Deus, pelo seu lado, ordenou simultaneamente a escrita e as posteriores altera\u00e7\u00f5es ao livro (ver nota sobre C\u00e2none dos livros sagrados), de tal modo que cada livro passasse a fazer parte integrante de uma revela\u00e7\u00e3o total e definitiva.
Para n\u00f3s, que temos um m\u00ednimo de ci\u00eancia hist\u00f3rica, o presente \u00e9 resultado do passado e, quando aprofundamos um pouco a hist\u00f3ria dos escritos b\u00edblicos, em muitos casos parece que a corrida sem obst\u00e1culos que os conduziu at\u00e9 fazerem parta do c\u00e2none tem muito de casual: porque se reteve tal livro em vez daqueloutro? Seria necess\u00e1rio optar por Abdias, Ester ou a carta de Judas? Para Deus, o movimento \u00e9 inverso, o fim precede os acontecimentos que nele desembocar\u00e3o segundo traject\u00f3rias imprevistas, em que interv\u00eam muitas personagens; no seu plano, o primeiro lugar cabe a Cristo e \u00e0 salva\u00e7\u00e3o que Ele traz ao universo. Dizer que Deus inspirou o livro quer dizer que Ele quis esse livro como instrumento do qual o seu Esp\u00edrito saber\u00e1 fazer uso, quer seja para orientar a f\u00e9 da Igreja como um corpo, quer seja para assistir os crentes de todas as \u00e9pocas, que nele procurar\u00e3o consolo.
Se o tomarmos assim, livramo-nos do dilema insol\u00favel com que depararam muitos e que se poderia exprimir esquematicamente nestes termos: ou todas as palavras s\u00e3o inspiradas, mas assim, como atribuir a Deus todos os erros e debilidades do livro? Ou ent\u00e3o, s\u00f3 o sentido da mensagem \u00e9 inspirado, e as debilidades do relato devem-se ao escritor, mas assim, quem reconhecer\u00e1 a mensagem divina, se esta n\u00e3o se encontra nas palavras? Algumas pessoas d\u00e3o uma resposta que tem o seu valor, mas que se revela insuficiente: a inspira\u00e7\u00e3o, dizem elas, cobre a mensagem religiosa, mas deixa passar os erros em rela\u00e7\u00e3o a pontos hist\u00f3ricos ou cient\u00edficos. Isto \u00e9 verdade, em certa medida, mas se observarmos como os mesmos autores sagrados utilizaram os textos que liam na sua B\u00edblia, notaremos que para eles todas as palavras tinham um sentido: vejam-se as discuss\u00f5es de Paulo, em [Gl_3,1], sobretudo o que se refere aos descendentes e ao descendente. Al\u00e9m disso, se a inspira\u00e7\u00e3o cobre apenas a mensagem religiosa, que se deve entender por mensagem religiosa? Finalmente, ser\u00e1 a B\u00edblia, primeiro que tudo, uma mensagem?
Devemos pois afirmar que todo o texto \u00e9 inspirado, mas entendemo-lo num sentido muito diferente de como os mu\u00e7ulmanos entendem, por exemplo, a inspira\u00e7\u00e3o do Cor\u00e3o. Para eles o texto e todas as palavras do mesmo foram transmitidos por Deus em \u00c1rabe; \u00e9 esse o texto inspirado, que nem sequer deveria ser traduzido. Para um crist\u00e3o, pelo contr\u00e1rio, o texto b\u00edblico \u00e9 um sacramento e, por isso, o Esp\u00edrito nunca est\u00e1 acorrentado \u00e0 letra do original: Deus n\u00e3o fala Hebraico, mas revela-Se a pessoas que falam Hebraico ou Grego. Da\u00ed derivam duas consequ\u00eancias:
1. Os erros, ou melhor, os desvios do texto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa cultura, n\u00e3o nos deixam desconcertados: temos nele um instrumento tanto perfeito como imperfeito, do qual o Esp\u00edrito quer tirar partido e saber\u00e1, certamente, tirar partido. O Evangelho poder\u00e1 expressar-se e produzir os seus frutos noutras culturas; os exemplos passados n\u00e3o se opor\u00e3o \u00e0 busca de um novo estilo de vida.
2. A inspira\u00e7\u00e3o do texto original encontrar-se-\u00e1 tamb\u00e9m nas tradu\u00e7\u00f5es da Escritura, mesmo quando se saiba, como diz um prov\u00e9rbio, que uma tradu\u00e7\u00e3o constitui sempre um pouco de trai\u00e7\u00e3o.
{N}AS TRADU\u00c7\u00d5ES DA B\u00cdBLIA{/}
\u00c9 um facto que a imensa maioria dos crentes, inclusivamente quando a Igreja (ou as suas igrejas) os tenham pressionado a ler a B\u00edblia, s\u00f3 conheceram tradu\u00e7\u00f5es. Isso j\u00e1 acontecia na comunidade judaica. Nos tempos de Jesus, segundo c\u00e1lculos estimativos, 8% da popula\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio Romano, ou seja, cerca de seis milh\u00f5es de habitantes, correspondia a judeus. Por volta dessa mesma data, os habitantes da Palestina n\u00e3o ultrapassavam meio milh\u00e3o. A B\u00edblia grega, ou seja, a tradu\u00e7\u00e3o dos Setenta, era incomparavelmente a mais utilizada. Se at\u00e9 na pr\u00f3pria Palestina, no cora\u00e7\u00e3o do pa\u00eds \u00abhebreu\u00bb, era utilizada por numerosas comunidades, e \u00e9 essa vers\u00e3o a citada nos escritos do Novo Testamento! Isto basta para fazer compreender a situa\u00e7\u00e3o falsa e marginal de certa tend\u00eancia elitista que, at\u00e9 no seio da pr\u00f3pria Igreja, olha com desprezo quem n\u00e3o tenha, pelo menos, uns conhecimentos rudimentares de Hebraico.
Os ap\u00f3stolos, as comunidades crist\u00e3s, os pr\u00f3prios escritos do Novo Testamento, s\u00f3 conheceram como Palavra de Deus a tradu\u00e7\u00e3o dos Setenta. Ora bem, essa tradu\u00e7\u00e3o, muito fiel no caso do Pentateuco, \u00e9-o muito menos no que respeita os outros livros, navegando por vezes \u00e0 deriva atrav\u00e9s dos textos prof\u00e9ticos. Isto significa que a Igreja que se apoiou nela ficou privada dessa parte alien\u00e1vel da Palavra de Deus, que \u00e9 o Antigo Testamento? O cap\u00edtulo 15 dos Actos apresenta a esse respeito um caso muito interessante: o ap\u00f3stolo Tiago justifica a sua posi\u00e7\u00e3o recorrendo a um texto de Am\u00f3s que cita segundo a tradu\u00e7\u00e3o grega [2Tim_15,17]. Ora bem, esta \u00e9 muito diferente do texto original. Do exposto depreende-se que, desde o in\u00edcio da Igreja, tenha havido muitos que consideravam a vers\u00e3o dos Setenta t\u00e3o inspirada como o texto hebraico.
Em finais do s\u00e9culo terceiro, a Igreja romana adapta-se \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o da l\u00edngua e passa do Grego para o Latim; um s\u00e9culo mais tarde, S\u00e3o Jer\u00f3nimo leva a cabo a vers\u00e3o latina da Vulgata, que vir\u00e1 a ser a B\u00edblia oficial da Igreja Cat\u00f3lica at\u00e9 meados do s\u00e9culo XX. Jer\u00f3nimo, seguindo para o efeito o ponto de vista de Or\u00edgenes, deu prioridade ao texto hebraico, sendo este o texto que traduziu. Contudo, sabe-se que, n\u00e3o menosprezando a sua ci\u00eancia e os seus m\u00e9ritos, a tradu\u00e7\u00e3o continha muitos erros. No entanto, foi esse o texto que viria a ser pregado e comentado, e cujas palavras, por vezes err\u00f3neas, inspiraram muitas aproxima\u00e7\u00f5es entre um e outro texto, abrindo assim perspectivas para a vida espiritual.
Esta \u00e9, pois, uma realidade, que se ignora com muita facilidade, quando se discute sobre a inspira\u00e7\u00e3o ou a n\u00e3o inspira\u00e7\u00e3o do texto; afinal, s\u00e3o as tradu\u00e7\u00f5es que transmitem o esp\u00edrito do qual vive o povo de Deus. N\u00e3o ser\u00e1 de concluir, simplesmente, que o Esp\u00edrito que actua atrav\u00e9s do texto original inspirado, actua tamb\u00e9m, de forma muito livre, atrav\u00e9s das tradu\u00e7\u00f5es, com as suas perfei\u00e7\u00f5es ou imperfei\u00e7\u00f5es, consoante sejam deturpadas ou excelentes, mas respeitando sempre a sua liberdade?
{N}TRADU\u00c7\u00d5ES PRECISAS E VERS\u00d5ES PASTORAIS{/}
O que acab\u00e1mos de dizer para as grandes vers\u00f5es grega e latina aplica-se tamb\u00e9m \u00e0s vers\u00f5es modernas. O tradutor, j\u00e1 que trabalha para um audit\u00f3rio determinado, procurar\u00e1 transferir para outra l\u00edngua tudo o que possa do texto original. Ao tradutor que se dirija a estudiosos, j\u00e1 familiarizados com as l\u00ednguas e a Hist\u00f3ria antigas, permitir-se-\u00e1 empregar palavras rebuscadas ou raramente utilizadas, que reproduzam bem as palavras hebraicas; tamb\u00e9m n\u00e3o ter\u00e1 dificuldade em for\u00e7ar a frase portuguesa, de modo a faz\u00ea-la concordar com os per\u00edodos de uma carta de S\u00e3o Paulo, onde uma \u00fanica ora\u00e7\u00e3o pode estender-se por mais de dez linhas. Tentar\u00e1 fazer com que o conhecimento do texto b\u00edblico se inscreva, intelectual e sensivelmente, entre os conhecimentos que o leitor tenha da antiguidade cl\u00e1ssica.
Pelo contr\u00e1rio, o tradutor que se dirija a um p\u00fablico menos preparado, dar\u00e1 mais aten\u00e7\u00e3o aos pontos principais do texto, que devem ocupar o lugar preponderante da ora\u00e7\u00e3o, mesmo que para isso tenha de mudar a ordem das palavras, Porque o que \u00e9 importante n\u00e3o se ordena da mesma maneira em Hebraico, em Grego ou em Portugu\u00eas. Sabendo que a maior parte dos escritores sagrados falavam uma linguagem bastante compreens\u00edvel para os seus auditores, evitar\u00e1 tudo o que transforma a sua tradu\u00e7\u00e3o numa obra de \u00ablinguagem erudita\u00bb, e n\u00e3o far\u00e1 das ap\u00f3strofes de Paulo um discurso acad\u00e9mico. Mesmo que saiba que todo o texto \u00e9 inspirado, n\u00e3o hesitar\u00e1 em substituir duas palavras gregas por uma \u00fanica portuguesa que diga o mesmo, ou colocar duas palavras portuguesas, ali onde uma \u00fanica n\u00e3o bastaria para reproduzir a palavra hebraica. Far\u00e1, portanto, aquilo que faz todo o tradutor: quem quiser fazer uma tradu\u00e7\u00e3o \u00e0 letra, palavra por palavra, e colocar um artigo em Portugu\u00eas de cada vez que o encontra em Franc\u00eas, ou deixar de o colocar quando n\u00e3o o encontra em Franc\u00eas, n\u00e3o faria mais do que um mau trabalho.
Conhecemos o grande sinal do Pentecostes e da vinda do Esp\u00edrito. Os auditores de Pedro escutam os louvores de Deus em todas as l\u00ednguas, n\u00e3o s\u00f3 em Hebraico, a l\u00edngua sagrada, mas cada qual na l\u00edngua de seus pais. A diversidade de l\u00ednguas ser\u00e1, pois, uma necessidade na Igreja e nas tradu\u00e7\u00f5es da B\u00edblia. N\u00e3o se pode dizer que uma tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 mais verdadeira do que outra, enquanto n\u00e3o nos colocarmos na perspectiva pr\u00f3pria de cada uma delas: a Igreja n\u00e3o se dedica totalmente \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de especialistas; pelo contr\u00e1rio, em primeiro lugar, \u00e9 o povo simples que deve ser evangelizado na sua pr\u00f3pria l\u00edngua.
{N}O USO DOS TEXTOS INSPIRADOS {/}[2Pd_1,21]
Este texto vem completar o que diz [2Tm_3,16] sobre o uso dos textos b\u00edblicos. O autor op\u00f5e-se aos inovadores que se apoiam numa interpreta\u00e7\u00e3o in\u00e9dita de alguns textos para p\u00f4r em quest\u00e3o a f\u00e9 tradicional. Este par\u00e1grafo d\u00e1 a entender que a verdade \u00e9 dada por Deus ao seu povo e que ela \u00e9 guardada no interior do povo de Deus. A Escritura, nascida das suas experi\u00eancias e proclamada sob o impulso do Esp\u00edrito, s\u00f3 entrega a sua verdade aos que partilham os sentimentos desse povo e que vivem do seu esp\u00edrito. Este texto justifica a interven\u00e7\u00e3o da hierarquia na defesa da heran\u00e7a da f\u00e9 e a interpreta\u00e7\u00e3o tradicional de um texto na medida em que a f\u00e9 dependa dessa interpreta\u00e7\u00e3o. Sabe-se, no entanto, que mais de uma vez a hierarquia quis apoiar-se em textos b\u00edblicos para justificar concep\u00e7\u00f5es leg\u00edtimas, mas discut\u00edveis, que confundia indevidamente com a f\u00e9.
Na realidade, o presente texto vai mais al\u00e9m desse problema. Se a hierarquia pode e deve intervir frente a interpreta\u00e7\u00f5es pessoais que amea\u00e7am a f\u00e9, n\u00e3o \u00e9 porque s\u00f3 ela saiba ler as Escrituras, mas porque ela faz parte do jogo do Esp\u00edrito e det\u00e9m as chaves. A hierarquia desempenhou o seu papel na forma\u00e7\u00e3o dos livros santos, ao lado dos profetas, dos s\u00e1bios e dos respons\u00e1veis da comunidade humana, e por vezes com conflito com eles; de igual modo, ela desempenha o seu papel na interpreta\u00e7\u00e3o das Escrituras, que, em primeiro lugar, \u00e9 obra do Esp\u00edrito. Seria um erro acreditar que a chave das Escrituras est\u00e1 nas m\u00e3os dos especialistas que estudam a B\u00edblia a partir de disciplinas humanas, tais como a hist\u00f3ria, a lingu\u00edstica ou a sociologia. Os seus estudos transmitem um conhecimento mais exacto do texto, mas a experi\u00eancia espiritual e os novos passos da ac\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria s\u00e3o os terrenos decisivos em que o Esp\u00edrito actua, de modo a tornar a mensagem sempre actual, e a dar-lhe o seu verdadeiro sentido. \u00c9 ent\u00e3o que o \u00abmestre em religi\u00e3o (ou doutor da Lei), que se torna disc\u00edpulo do reino do C\u00e9u\u00bb, tira do seu ba\u00fa coisas novas e velhas [Mt_13,52].
Assim se entende, portanto, que um mesmo texto possa dar lugar a coment\u00e1rios de esp\u00edrito muito diverso. Para um comentarista carism\u00e1tico ou amante da poesia, a escolha das palavras \u00e9 muito importante, porque dirige, em parte, as resson\u00e2ncias que se dever\u00e3o procurar noutras passagens inspiradas. Por outro lado, para aquele que ensina ou \u00e9 ensinado, \u00e9 essencial a simplicidade da linguagem. Para quem repreende, o texto \u00e9 a base de uma advert\u00eancia que atinge directamente as pessoas e denuncia os actos nas circunst\u00e2ncias presentes. Da\u00ed que a compreens\u00e3o da B\u00edblia dependa, principalmente, n\u00e3o de determinada variante hebraica ou grega, mas dos dons de conhecimento de que nos fala Paulo em muitos lugares, e que s\u00e3o a condi\u00e7\u00e3o de todo o apostolado eficiente [Rm_10,2]; [Ef_1,17]; [Fl_1,9]; [Cl_1,9]; [Cl_3,10]; [Jo_17,1].

{N}1.4: A AUS\u00caNCIA DE ERROS NA B\u00cdBLIA {/}[Jo_10,35]
Ningu\u00e9m pode anular a Escritura. Com esta resposta, que deixa os seus ouvintes muito surpreendidos, Jesus convida-nos a olhar mais de perto muitos textos b\u00edblicos que menosprezamos e que n\u00e3o sabemos aprofundar, porque n\u00e3o enquadram com a nossa maneira de pensar e com as nossas pr\u00f3prias convic\u00e7\u00f5es religiosas. Os ouvintes de Jesus sabiam que o Nome do Deus \u00fanico n\u00e3o se pode comunicar a nenhuma criatura; mas era preciso excluir toda a comunh\u00e3o do homem com Deus para salvar esta certeza e esta f\u00e9? N\u00e3o se podia dizer que Deus Se torna presente dentro da pr\u00f3pria humanidade? Pois bem, todo o Evangelho de Jo\u00e3o p\u00f5e em evid\u00eancia, juntamente com a Divindade do Enviado de Deus, a vontade de Deus que quer divinizar-nos, ao passo que os advers\u00e1rios de Jesus se ficavam pelo plano dos preceitos e das tradi\u00e7\u00f5es que era preciso observar para se ser catalogado entre os bons. 
Mas tamb\u00e9m \u00e9 verdade que essa afirma\u00e7\u00e3o de Jesus toca o tema da aus\u00eancia de erro na Escritura, e sabemos que de h\u00e1 um ou dois s\u00e9culos para c\u00e1 o car\u00e1cter da verdade divina que se atribui aos Livros Sagrados tem sido contestado com argumentos procedentes de partes muito diversas.
{N}A AUS\u00caNCIA DE ERROS NA B\u00cdBLIA{/}
Para um crente, a aus\u00eancia de erros na Palavra de Deus \u00e9 ineg\u00e1vel, mas mesmo assim \u00e9 necess\u00e1rio precisar que tipo de verdade esperamos dessa Palavra. Basta, por exemplo, comparar dois relatos do mesmo facto nos diversos evangelhos, para ver que as contradi\u00e7\u00f5es verificadas nos pormenores s\u00e3o numerosas. Compare-se, por exemplo, [Mt_20,30] e [Mc_10,46]; [Mt_18,1] - [Mt_18,3] e [Mc_9,33] - [Mc_9,35]. Devemos admitir, portanto, que Deus n\u00e3o ditou aos autores dos livros sagrados uma acta oficial do sucedido. Os testemunhos e a forma de os transmitir oralmente at\u00e9 ao momento em que foram postos por escrito obedeceram \u00e0 regra geral: os melhores testemunhos dependem sempre, em parte, da pessoa que v\u00ea e que, sem querer, d\u00e1 logo uma certa interpreta\u00e7\u00e3o \u00e0quilo que viu.
Contudo, \u00e0 medida que se foi desenvolvendo a civiliza\u00e7\u00e3o moderna, foram surgindo dificuldades ainda maiores. Em primeiro lugar, verificou-se o desenvolvimento das ci\u00eancias, e levantaram-se muitos problemas devido \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o surgida entre a vis\u00e3o do mundo e das origens do homem dada pela ci\u00eancia, e a que tinham os autores da B\u00edblia, sobretudo nos primeiros cap\u00edtulos do G\u00e9nesis. Ent\u00e3o os crist\u00e3os dividiram-se. Enquanto os fundamentalistas se atinham \u00e0 letra do relato, chegando a negar os factos cient\u00edficos mais comprovados, os outros tiveram de reconhecer que a verdade do relato b\u00edblico n\u00e3o consistia na descri\u00e7\u00e3o das nossas origens, mas no lugar que essas p\u00e1ginas atribu\u00edam \u00e0s criaturas e ao homem no plano de Deus. Ver, a este respeito, nota a [Gn_1,1].
Surgiram depois as dificuldades hist\u00f3ricas. Foi necess\u00e1rio reconhecer que os autores da B\u00edblia n\u00e3o dispunham dos nossos meios para investigar o passado, mas, por outro lado, viam na Hist\u00f3ria uma ilustra\u00e7\u00e3o da ac\u00e7\u00e3o de Deus nela: o quadro era verdadeiro, embora nem todos os factos se pudessem verificar. A partir do momento em que o leitor entrava nessa perspectiva, podia aceitar, sem medo, que n\u00e3o se pode duvidar da Escritura.
Vem em seguida a evolu\u00e7\u00e3o da moral. Muitas leis morais herdadas da B\u00edblia e consideradas at\u00e9 ent\u00e3o obrigat\u00f3rias para toda a pessoa de boa f\u00e9, deixaram de ser evidentes para os nossos contempor\u00e2neos. N\u00e3o se deveriam relativizar as proibi\u00e7\u00f5es sexuais da B\u00edblia? Veja-se, a este respeito, o coment\u00e1rio a [1Cor_7,1].
O movimento de emancipa\u00e7\u00e3o feminista suscitou, por sua vez, uma objec\u00e7\u00e3o terr\u00edvel: a B\u00edblia foi totalmente escrita no marco de uma cultura patriarcal. As experi\u00eancias religiosas que narra foram na sua imensa maioria vividas, interpretadas e contadas por homens, em circunst\u00e2ncias que n\u00e3o proporcionavam \u00e0 mulher meios de express\u00e3o nem de manifesta\u00e7\u00e3o da sua pr\u00f3pria identidade. Que valor tem a imagem de um Deus machista, guerreiro e dominador, que ressalta de tantas p\u00e1ginas da B\u00edblia? E a inferioridade proclamada da mulher [1Tm_2,11] - [1Tm_2,15], n\u00e3o lan\u00e7a um manto de d\u00favida sobre toda a mensagem humana da B\u00edblia?
Um \u00faltimo ataque prov\u00e9m de um olhar mais imparcial a respeito das outras religi\u00f5es. A partir do momento em que se admitiu que Deus previu, efectivamente, a salva\u00e7\u00e3o de todos os homens, e n\u00e3o s\u00f3 daqueles que cr\u00eaem e s\u00e3o baptizados, de que servem tantos discursos do Novo Testamento, sobretudo aqueles que parecem dizer que, sem o Evangelho, sem o Baptismo, sem a f\u00e9 de Cristo, n\u00e3o h\u00e1 salva\u00e7\u00e3o? Ver, a este respeito, as notas a [Mc_16,15] e [Ap_22,3].
Assim, devemos dizer algumas palavras sobre a Aus\u00eancia de Erros na Escritura.
{N}A AUS\u00caNCIA DE ERROS: O SACRAMENTO DA PALAVRA{/}
O livro sagrado \u00e9 totalmente obra de Deus e totalmente obra de um autor humano, tal como dizemos na nota sobre a Inspira\u00e7\u00e3o, a prop\u00f3sito de [2Tm_3,16]. Deus n\u00e3o o ditou. Tamb\u00e9m n\u00e3o pressionou o autor para que dissesse o que nunca tinha pensado dizer, e para que o fizesse em contraposi\u00e7\u00e3o com a sua pr\u00f3pria cultura. A obra do Esp\u00edrito foi mais discreta, porque o Esp\u00edrito sabe fazer-Se nosso esp\u00edrito. Deus e o homem: o homem forneceu a sua experi\u00eancia religiosa e a da sua comunidade, cada uma delas com as suas limita\u00e7\u00f5es; Deus fez com que esse livro ocupasse o seu lugar num conjunto em que se devia inscrever toda a revela\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria a todos aqueles que Ele quisesse chamar para conhecerem o seu Filho \u00danico. S\u00f3 a partir desse duplo projecto, de Deus e do homem, se pode falar de erros ou de aus\u00eancia de erros na Escritura.
Devemos confessar que o uso habitual do termo aus\u00eancia de erros, para nos referirmos a este tema, \u00e9 bastante infeliz, pois, \u00e0 partida, provoca uma posi\u00e7\u00e3o defensiva. O advers\u00e1rio ataca: Essa B\u00edblia cont\u00e9m erros! E respondemos-lhe como podemos. O fundamentalista mant\u00e9m-se na sua. Adaptando a Hist\u00f3ria contada por Di Melo, certo arque\u00f3logo diz ao fundamentalista: \u00abAcab\u00e1mos de encontrar umas ossadas num terreno que tem 30.000 anos de idade; a vossa cria\u00e7\u00e3o do homem h\u00e1 apenas 5.000 anos \u00e9 uma f\u00e1bula!\u00bb \u00abUm momento\u00bb, responde o fundamentalista, \u00abo que se passa \u00e9 que Deus colocou esses ossos nesse lugar para provar a nossa f\u00e9\u00bb. A imensa maioria dos crentes responder\u00e1, simplesmente, que, embora a inspira\u00e7\u00e3o do autor garanta a verdade da mensagem religiosa, n\u00e3o o liberta dos seus limites humanos nem das caracter\u00edsticas da sua cultura. Contudo, seria certamente prefer\u00edvel recordar que a Verdade \u00e9 Deus.
Deus revela-Se e comunica-Se, mas o que Ele procura sempre \u00e9 colocar-nos na verdade, e nunca dar-nos verdades das quais poder\u00edamos fazer um pequeno tratado, para o qual bastaria olhar a fim de ter sempre a resposta adequada. Mais do que defender a B\u00edblia e falar de aus\u00eancia de erros em geral, de forma abstracta, dever\u00edamos interrogar-nos se, por vezes, a B\u00edblia n\u00e3o nos ter\u00e1 induzido em erro, ou n\u00e3o nos ter\u00e1 levado a tomar uma decis\u00e3o desacertada. Descobriremos certamente, mais de uma vez, certos preconceitos do autor e as limita\u00e7\u00f5es do seu olhar: isso \u00e9 pr\u00f3prio de qualquer cultura e de qualquer obra humana. Por\u00e9m, se abordarmos o texto com o olhar da f\u00e9, dele sempre se desprender\u00e1 a certeza de termos tocado a verdade. A p\u00e1gina, lida com f\u00e9 e colocada de novo no conjunto da B\u00edblia, n\u00e3o nos enganar\u00e1. Descobriremos que todo o Antigo Testamento \u00e9 uma longa pedagogia de Deus, que muitas verdades foram surgindo pouco a pouco e que algumas, inclusivamente, s\u00f3 se consolidaram com a vinda de Deus. Contudo, se precisarmos de uma chave para interpretar esse longo caminhar do povo de Deus, e reintroduzir algumas personagens muito ausentes, ou muito menosprezadas (como no caso das mulheres), encontr\u00e1-la-emos na pessoa do Filho de Deus feito homem; Deus ordenou toda a revela\u00e7\u00e3o de maneira a faz\u00ea-la conduzir tudo a Ele, e \u00e9 n'Ele que ela acaba.
No texto de Jo\u00e3o que cit\u00e1mos, Jesus apoiou-Se numa frase e numa palavra precisa. O leitor moderno tem, pois, o direito de se interrogar se tamb\u00e9m pode apoiar-se com a mesma certeza nas palavras que encontre. Mas nunca encontraremos crit\u00e9rios simples, de aplica\u00e7\u00e3o f\u00e1cil, que nos permitam ler, sem erros, as palavras inspiradas. A Hist\u00f3ria ensina-nos que as discuss\u00f5es religiosas entre advers\u00e1rios que faziam o mesmo uso da B\u00edblia muito poucas vezes levaram a uma reconcilia\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, quando temos de tomar uma decis\u00e3o, quantas vezes nos pergunt\u00e1mos se pod\u00edamos confiar na palavra b\u00edblica? O problema \u00e9 outro.
O uso da Palavra de Deus \u00e9 como um jogo que compromete toda a pessoa; as suas regras permanecem ocultas para quem olha a B\u00edblia de fora (como faz o dem\u00f3nio, nas Tenta\u00e7\u00f5es de Jesus). O crente que recebe a B\u00edblia como uma revela\u00e7\u00e3o da Sabedoria divina, a mesma que se manifestou plenamente em Jesus Cristo, saber\u00e1 discernir quando for necess\u00e1rio. Por\u00e9m, mesmo assim, continuar\u00e1 a haver lugar para os nossos pr\u00f3prios erros, porque a nossa cultura e a nossa experi\u00eancia religiosa n\u00e3o est\u00e3o mais asseguradas do que as dos s\u00e9culos passados.

{N}1.5:{/} {N}A ESCRITA E O LIVRO NOS TEMPOS B\u00cdBLICOS {/}[Jr_36,18]
{N}A ESCRITA{/}
Quando Abra\u00e3o percorria as terras desoladas da Palestina, contorneando as cidades de Cana\u00e3 ou do delta do Nilo, havia j\u00e1 doze ou quinze s\u00e9culos que a escrita tinha sido inventada; isto n\u00e3o quer dizer, \u00e9 evidente, que n\u00f3mades como Abraa\u00e3o a conhecessem. Nas duas extremidades do \u00abcorno f\u00e9rtil\u00bb, na Babil\u00f3nia e no Egipto, as necessidades do com\u00e9rcio tinham acelerado a inven\u00e7\u00e3o dos sistemas gr\u00e1ficos. No Egipto haviam-se inventado os hier\u00f3glifos (pinturas sagradas), um sistema de desenhos esquematizados que correspondiam cada um a objectos ou s\u00edlabas. Na Mesopot\u00e2mia, a escrita cuneiforme (em forma de cunha), cujos tra\u00e7os do ponteiro na argila correspondiam  principalmente a s\u00edlabas. A escrita eg\u00edpcia estava muito ligada a essa l\u00edngua, o que dificultava a sua adapta\u00e7\u00e3o a outras l\u00ednguas. A escrita cuneiforme, pelo contr\u00e1rio, foi adoptada por todos os povos da Mesopot\u00e2mia, da S\u00edria e de Cana\u00e3.
A escrita tornara-se indispens\u00e1vel para a diplomacia, o com\u00e9rcio e a administra\u00e7\u00e3o. Quando Mois\u00e9s conduzia o seu povo para fora do Egipto, evitou o caminho das fortalezas onde havia um funcion\u00e1rio que anotava as entradas e as sa\u00eddas. Por essa altura, os eg\u00edpcios da cidade real do fara\u00f3 Akh\u00e9naton utilizavam um dicion\u00e1rio eg\u00edpcio-babil\u00f3nico para as suas tradu\u00e7\u00f5es. Havia circula\u00e7\u00e3o de livros e encontraram-se nas escava\u00e7\u00f5es da Palestina e da S\u00edria tanto os hier\u00f3glifos eg\u00edpcios como a literatura babil\u00f3nica escrita em caracteres cuneiformes.
{N}O ALFABETO{/}
Quando, no s\u00e9culo X antes de Cristo, Salom\u00e3o reuniu os primeiros letrados de Israel, acabara-se de entrar na era do alfabeto. Havia j\u00e1 vinte s\u00e9culos que existia a escrita, mas cada vez mais se sentia a insatisfa\u00e7\u00e3o quanto aos sistemas de escrita, que exigiam demasiados esfor\u00e7os para aprender quer a ler quer a escrever. Depois de muitos ensaios, estava prestes a surgir uma novidade: o alfabeto de vinte e cinco a trinta letras, com a sua distin\u00e7\u00e3o de vogais e consoantes, um instrumento que podia adaptar-se a qualquer l\u00edngua. Foi na Fen\u00edcia, nas terras de Biblos, de Tiro e de S\u00eddon, que as necessidades do com\u00e9rcio estimularam a investiga\u00e7\u00e3o, e esta deu resultado. O alfabeto - ou um dos alfabetos fen\u00edcios - foi imediatamente adoptado em toda a parte menos no Egipto, e principalmente nos principados da terra de Cana\u00e3. Dele derivam todas as escritas ocidentais ou sem\u00edticas (como o \u00e1rabe e o hebraico).
Os textos b\u00edblicos foram escritos a partir dessa \u00e9poca numa sociedade onde a maioria n\u00e3o sabia ler, mas onde a administra\u00e7\u00e3o e o Templo n\u00e3o podiam ficar sem textos escritos. No tempo dos Reis, qualquer posto militar tinha pelo menos um funcion\u00e1rio capaz de receber e enviar mensagens. No que diz respeito \u00e0 B\u00edblia, depois de nove s\u00e9culos de tradi\u00e7\u00e3o oral (relativa \u00e0 hist\u00f3ria de Abra\u00e3o), e depois de tr\u00eas s\u00e9culos de tradi\u00e7\u00e3o oral muito mais oral que escrita (relativa a Mois\u00e9s), estava-se a entrar na era do livro.
{N}O TIJOLO E O PAPIRO{/}
Em que se escrevia? Escrevia-se em qualquer coisa, em tudo o que se tinha \u00e0 m\u00e3o: o bronze, a pedra, o reboco de cal dos santu\u00e1rios, os restos de cer\u00e2mica etc. Mas desde o come\u00e7o, ou seja, desde o s\u00e9culo trinta antes de Cristo, apareceram dois grandes suportes da escrita: o tijolo e o papiro..
Os povos da Mesopot\u00e2mia eram grandes consumidores de tijolos ou placas de argila cozida [Gn_11,3]. Vinte s\u00e9culos antes de Cristo n\u00e3o havia nada melhor que os tijolos para redigir tanto poemas como recibos. O s\u00e1bio processo de um contrato escrito e selado num tijolo que se envolvia num revestimento novo de argila e em que se repetia a escrita e se deixava secar lentamente, tornava imposs\u00edvel a fraude. Deste modo, tanto os anais dos reis como os grandes textos religiosos estavam gravados para todo o sempre; no s\u00e9culo oitavo antes de Cristo haviam-se classificado nas prateleiras da grande biblioteca de Assurbanipal mais tijolos-documentos do que seriam neces\u00e1rios para construir as muralhas.
Os eg\u00edpcios, por sua vez, utilizavam um material mais manej\u00e1vel, o papiro. A partir do s\u00e9culo trinta antes de Cristo cortava-se em tiras muito finas uma esp\u00e9cie de junco do Nilo, e com  essas tiras confeccionavam-se folhas cujo formato podia ter de 40  a 50 cm. Cada folha era composta de duas camadas: na primeira, as tiras de papiro eram colocadas horizontalmente; na segunda, verticalmente. A primeira formava o lado direito da folha, mais f\u00e1cil de escrever pois escrevia-se em linhas horizontais, da direita para a esquerda - o que revela um esp\u00edrito conservador - e de cima para baixo: era o interior do rolo. Mas tamb\u00e9m se podia escrever do outro lado: ent\u00e3o o rolo estava escrito por dentro e por fora [Ez_2,10]. O rolo normal era composto por vinte folhas pegadas uma ao lado da outra, cuja altura era metade do tamanho original, normalmente de m\u00e9dia altura interm\u00e9dia, o que dava um rolo de 20 cm. de altura e um comprimento de sete metros aproximadamente.
O \u00fanico inconveniente do papiro, e que n\u00e3o \u00e9 pequeno, \u00e9 que se deteriora rapidamente com a humidade. Quase n\u00e3o se conservou fora do Egipto, e neste s\u00f3 se encontrou em regi\u00f5es muito secas. Mas o tempo muito seco tamb\u00e9m o torna quebradi\u00e7o (como no caso dos papiros conservados em museus), mas conserva-se quando fresco. Podia lavar-se a tinta e escrever um texto novo, como se faz com o couro. Nas escava\u00e7\u00f5es da Palestina encontrou-se com frequ\u00eancia um recipiente de argila que servia para conter rolos de papiro, mas os papiros desapareceram h\u00e1 muito tempo.
Escrevia-se com tinta [Jr_36,18]; [Jr_32,13], feita de fuligem e de goma. Tal como faziam os nossos av\u00f3s com a tinta da China: guardava-se um peda\u00e7o de tinta dura que se dissolvia na altura do uso. Para os t\u00edtulos e notas \u00e0 margem usava-se tinta encarnada. O escriba utilizava uma cana cortada cuja ponta se tinha mascado. O escriba chegava com o seu material [Ez_9,2], o qual inclu\u00eda a placa sobre a qual escrevia, os peda\u00e7os de tinta e as canas para escrever. Normalmente escrevia sentado como um talhador, ou de joelhos, at\u00e9 ao tempo em que, como em Qumran, se preferia escrever sobre largas mesas.
{N}O PERGAMINHO{/}
O couro era pouco utilizado. Chama-se ent\u00e3o pergaminho [2Tm_4,13], do nome da cidade de P\u00e9rgamo especializada na prepara\u00e7\u00e3o de peles para esse uso. O seu emprego desenvolveu-se durante a era crist\u00e3, desde o momento em que a exporta\u00e7\u00e3o de papiro para o Ocidente foi dificultada, at\u00e9 \u00e0 altura em que se come\u00e7ou a fabricar o papel, inventado havia muito tempo j\u00e1 pelos chineses e que foi dado a conhecer pelos \u00e1rabes. O pergaminho podia usar-se em rolos, e os judeus tinham conservado esse uso. O livro feito de folhas cosidas s\u00f3 se usava para as necessidades do com\u00e9rcio e para tomar notas. O livro, feito de folhas de papiro ou de pergaminho, dobradas, cortadas e coladas, era ent\u00e3o chamado c\u00f3dex, do nome das placas de madeira com que se fazia a capa. Os crist\u00e3os, ao contr\u00e1rio dos judeus, recorreram bem depressa a ele para os textos b\u00edblicos; sem d\u00favida, h\u00e1 que ver nisso a marca do meio social a que pertenciam muitos deles, gente da classe m\u00e9dia e do com\u00e9rcio, n\u00e3o iletrados, mas mais interessados no aspecto pr\u00e1tico do que coibidos por escr\u00fapulos art\u00edsticos ou liter\u00e1rios.
Quanto aos nossos textos b\u00edblicos, a grande maioria dos documentos atrav\u00e9s dos quais nos chegou o texto original s\u00e3o {C}c\u00f3dices {/}(plural de c\u00f3dex), e estes eram pergaminhos. Quase s\u00f3 no Egipto se encontraram textos do Novo Testamento escritos em papiros, em rolos ou em fragmentos. E estes papiros s\u00e3o ami\u00fade mais antigos do que os nossos mais antigos pergaminhos.
{N}OS ESCRIBAS{/}
O uso do papiro, material perec\u00edvel, exigia que se recorresse a muitos escribas para recopiar os livros ou outros documentos importantes. Nos pa\u00edses do M\u00e9dio Oriente, o escriba era uma personagem letrada, altamente considerada, ami\u00fade um funcion\u00e1rio, como Baruc, o secret\u00e1rio - secret\u00e1rio e ministro do Rei - que se tornou secret\u00e1rio de Jeremias [Jr_32,1]; [Jr_35,1]; [Jr_43,1].
No mundo romano, as coisas eram diferentes: as tarefas culturais eram normalmente confiadas a gente obscura, por vezes escravos gregos que tinham por detr\u00e1s deles toda uma tradi\u00e7\u00e3o. Depois das invas\u00f5es b\u00e1rbaras, o trabalho do escriba foi principalmente uma actividade dos monges; estes preocuparam-se em conservar as riquezas do pensamento antigo, e esse trabalho que exigia tanto cuidado como paci\u00eancia, convinha muito bem ao seu estado. Da\u00ed a express\u00e3o: uma tarefa de beneditino.
Sempre era poss\u00edvel que o escriba cometesse erros. Por isso, desde a mais remota antiguidade, tinham-se estabelecido fiscaliza\u00e7\u00f5es; assim, por exemplo, punha-se um sinal de dez em dez linhas, e no final do livro anotava-se o n\u00famero exacto de linhas. Estas regras atingiram o seu m\u00e1ximo de rigor quando, nos tempos de Jesus, os massoretas refor\u00e7aram as fiscaliza\u00e7\u00f5es quando se tratava de qualquer c\u00f3pia de um texto b\u00edblico. Ent\u00e3o contavam-se todas as letras do livro, e indicava-se qual era a letra que ficava no meio. Isso explica que mesmo quando, depois de s\u00e9culos, aparecem manuscritos que cont\u00eam erros, esses erros muito raramente alteraram o sentido do texto.
As maiores diferen\u00e7as entre as c\u00f3pias de que dispomos e os seus originais s\u00e3o ami\u00fade explica\u00e7\u00f5es ou glosas, acrescentadas por algum escriba para precisar o sentido de uma palavra ou de uma frase que lhe parecia dif\u00edcil de compreender por parte do leitor. E n\u00e3o era raro que a explica\u00e7\u00e3o fosse err\u00f3nea. Normalmente os escribas demonstravam um grande respeito pelo texto, mas \u00e0s vezes colocavam \u00e0 margem e fora do texto uma nota explicativa de alguma express\u00e3o ou a correc\u00e7\u00e3o de um erro que haviam cometido: um exemplo claro disso \u00e9 [1Cor_4,6]. No caso de livros do Antigo Testamento \u00e9 muito mais dif\u00edcil falar de glosas, porque esses livros s\u00e3o por vezes o resultado de uma longa gesta\u00e7\u00e3o. Nesse caso, os textos mais antigos eram retomados, combinados, reformulados por novos autores que actuavam com plena responsabilidade: \u00e9 a \u00faltima redac\u00e7\u00e3o do texto, tal como entrou na B\u00edblia, que \u00e9 livro inspirado.

{N}1.6: OS TEXTOS ORIGINAIS DA B\u00cdBLIA{/}
{N}ONDE EST\u00c3O OS TEXTOS ORIGINAIS DA B\u00cdBLIA?{/}
\u00c9 a primeira quest\u00e3o que se apresenta ami\u00fade neste campo. Parte de uma preocupa\u00e7\u00e3o cr\u00edtica: visto que a B\u00edblia est\u00e1 traduzida em todas as l\u00ednguas, a partir de que textos se deve fazer a tradu\u00e7\u00e3o? Al\u00e9m disso, se as tradu\u00e7\u00f5es diferem, a que texto se podem referir os peritos para dizer qual \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o justa?
\u00c9 dif\u00edcil responder devidamente, se n\u00e3o se precisa primeiro que, no caso da B\u00edblia, o texto original n\u00e3o significa a mesma coisa tal como quando se discute, por exemplo, sobre o texto original de uma obra de autor antigo.
No que se refere a obras modernas, um ou v\u00e1rios autores escrevem um manuscrito. Este manuscrito \u00e9 o texto original: a miss\u00e3o do editor consiste em public\u00e1-lo. Poder\u00edamos perguntar-nos se o editor, ou a censura, n\u00e3o mudaram nada do texto original, e frequentemente podemos haver-nos com o manuscrito escrito pelo autor. A B\u00edblia nasceu num contexto completamente diverso. A maioria dos livros do Antigo Testamento passaram por um longa hist\u00f3ria at\u00e9 ao momento em que a comunidade religiosa tomou conta deles e decidiu difundi-los. O manuscrito passou por muit\u00edssimas m\u00e3os, foi copiado e sofreu por vezes muitas altera\u00e7\u00f5es. E assim at\u00e9 ao momento em que a comunidade o considerou livro sagrado, que da\u00ed em diante dever\u00e1 ser reproduzido tal como est\u00e1. Veja-se {C}O C\u00e2non das Escrituras.{/}
De facto, foi nos \u00faltimos quatro s\u00e9culos antes da era crist\u00e3 que se constituiu a colec\u00e7\u00e3o dos livros do povo de Israel conhecida por {C}TaNak {/}(abreviatura de: Lei, Profetas, Escritos): \u00e9 o nosso Antigo Testamento. Quanto ao Novo Testamento, passaram muito poucos anos entre a redac\u00e7\u00e3o do manuscrito e a sua promo\u00e7\u00e3o \u00e0 categoria de livro reconhecido pela comunidade: de uns dez a trinta anos para os Evangelhos. As Cartas de Paulo, salvo casos excepcionais, n\u00e3o foram retocadas; \u00e9 somente prov\u00e1vel que duas ou tr\u00eas das Cartas actuais sejam compostas por v\u00e1rios bilhetes de Paulo com os par\u00e1grafos mais importantes. Embora sobre alguns destes livros tenha havido d\u00favidas durante tr\u00eas s\u00e9culos antes de serem reconhecidos como inspirados, no entanto guardaram-se muito bem de os retocar.
{N}DOS COPISTAS AOS MUSEUS{/}
Fique bem claro que, de alguns livros da B\u00edblia, falta o manuscrito original no sentido moderno do termo: s\u00f3 possu\u00edmos c\u00f3pias. A raz\u00e3o \u00e9 simples: os manuscritos deterioravam-se rapidamente e era preciso voltar a copi\u00e1-los. (Ver o texto {C}O livro e a escrita, {/}especialmente o par\u00e1grafo {C}Os escribas).{/}
H\u00e1 j\u00e1 muitos s\u00e9culos que os peritos se afanaram por encontrar os manuscritos mais antigos, porque quanto menos vezes tenham sido copiados, menos erros cont\u00eam teoricamente. Mesmo assim fizeram um enorme trabalho de cotejo entre todos os manuscritos de que dispunham, para ver as diferen\u00e7as, procurando encontrar depois a pista dos diversos erros. \u00c9 o mesmo problema que se apresenta ao professor cujos alunos copiaram uns pelos outros. Com um pouco de sentido comum, e aplicando as regras da cr\u00edtica chamada textual, chega-se a saber quem copiou, de quem, e qual era o trabalho original.
Quanto ao Antigo Testamento hebraico, sabe-se que no s\u00e9culo X da nossa era os judeus alarmaram-se pelas pequenas diferen\u00e7as entre os manuscritos existentes. Ent\u00e3o escolheram o que lhes parecia melhor, proclamaram-no texto oficial e destru\u00edram todos os outros. Felizmente descobriram-se depois alguns manuscritos antigos que tinham escapado \u00e0 fogueira, e com eles puderam ser corrigidos alguns erros do texto oficial.
O texto grego do Antigo Testamento tinha o inconveniente de n\u00e3o ser, na maior parte das vezes, o texto original, mas a tradu\u00e7\u00e3o de um original hebraico. Frequentemente tratava-se de uma boa tradu\u00e7\u00e3o, mas uma boa tradu\u00e7\u00e3o nunca \u00e9 o original. Em compensa\u00e7\u00e3o, contava-se, no caso do grego, com belos manuscritos de {C}pergaminho{/} que remontavam ao s\u00e9culo IV da nossa era; ou seja, eram muito mais antigos que as c\u00f3pias actuais do texto hebraico. Em muitos casos tratava-se um texto mais pr\u00f3ximo do original hebraico antigo do que o texto oficial hebraico que hoje possu\u00edmos, e isso ajudou-nos muito a encontrar o sentido primitivo.
Para o Novo Testamento, o trabalho de cr\u00edtica forneceu resultados muito mais satisfat\u00f3rios, j\u00e1 que as c\u00f3pias de que dispomos est\u00e3o muito pr\u00f3ximas, no tempo, dos manuscritos dos autores. Para o conjunto do Novo Testamento, n\u00e3o s\u00f3 contamos com textos integrais de {C}pergaminho{/} do s\u00e9culo IV, como contamos com textos parciais copiados em {C}papiro,{/} alguns dos come\u00e7os do s\u00e9culo II, ou seja, cinquenta anos depois da apari\u00e7\u00e3o do livro. Entre eles est\u00e3o, por exemplo, as Cartas, os quatro Evangelho, este ou aquele livro, ou somente algumas p\u00e1ginas de um livro do Novo Testamento que pessoas privadas haviam copiado.
Este trabalho sobre os mesmos textos foi facilitado pelo estudo de todas as obras escritas a partir do s\u00e9culo I por autores crist\u00e3os. Eles citam textos da B\u00edblia, comentam-nos, discutem sobre o sentido dos textos ou das suas variantes com aqueles que n\u00e3o t\u00eam{C} {/}a mesma vis\u00e3o da f\u00e9. H\u00e1 muito poucos vers\u00edculos de um livro do Novo Testamento n\u00e3o citados por mais de um autor. \u00c9 pois um meio para saber o que eles liam na sua B\u00edblia, que n\u00e3o era sen\u00e3o a que n\u00f3s temos hoje.
Deste modo, h\u00e1 mais de um s\u00e9culo que se vem fazendo um trabalho enorme para descobrir o texto original, para al\u00e9m dos inumer\u00e1veis e pequenos pormenores em que os manuscritos diferem. O trabalho mereceu a pena: embora se continue a discutir sobre o texto exacto de numerosos vers\u00edculos, h\u00e1 muito poucos passos em que o sentido tenha sido gravemente alterado. Pode-se dizer, sem temor de errar, que nenhum texto da antiguidade, nenhum texto sagrado de outra religi\u00e3o, foi submetido a uma cr\u00edtica semelhante, pelo que n\u00e3o pode gloriar-se de tanta autenticidade.
{N}ONDE EST\u00c3O OS ORIGINAIS?{/}
O leitor ter\u00e1 chegado \u00e0 conclus\u00e3o de que n\u00e3o falamos dos originais, mas dos {C}nossos {/}originais. Na verdade trata-se das c\u00f3pias mais antigas e seguras. Encontram-se em todos os grandes museus e nas antigas bibliotecas europeias, quer provenham da cristandade europeia ou tenham sido trazidos do M\u00e9dio Oriente pelos pesquisadores (e por vezes salteadores) da arqueologia. \u00c9 completamente in\u00fatil ir consult\u00e1-los no lugar, sen\u00e3o pela curiosidade de ver o que eram certas obras de uma qualidade excepcional. Para os que gostam de saber e citar alguns nomes, podemos recordar os grandes c\u00f3dices (veja-se {C}O livro e a escrita){/} mais conhecidos: o{C} Vaticano, {/}o {C}Sina\u00edtico, {/}o {C}Alexandrino, {/}o {C}C\u00f3digo de Beza;{/} para n\u00e3o falar dos famosos {C}papiros de Bodmer.{/} 
Tanto o texto hebraico do Antigo Testamento, e a sua vers\u00e3o grega, como o texto grego do Novo Testamento est\u00e3o publicados em edi\u00e7\u00f5es baratas e encontram-se em todas as livrarias b\u00edblicas. Trata-se de textos onde, de entre todos os pormenores em que variam os manuscritos, os peritos escolheram a variante mais prov\u00e1vel. Al\u00e9m disso, em quase todas as edi\u00e7\u00f5es, algumas notas assinalam todas as variantes que se encontram em certos manuscritos.
Digamos, por fim, que s\u00f3 nos separam da Carta da B\u00edblia a nossa capacidade pessoal e o nosso esfor\u00e7o para nos instruirmos e desenvolvermos a nossa cultura. Quanto a receber a Palavra de Deus, n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de estudo: n\u00e3o esque\u00e7amos que \u00e9 um livro inspirado, isto \u00e9, portador do Esp\u00edrito, pelo que s\u00f3 \u00e9 aceite por aquele que est\u00e1 aberto ao Esp\u00edrito de Jesus.

