{2}PRIMEIRA CARTA DE S\u00c3O PEDRO{/}
{C}UM LAR PARA QUEM N\u00c3O TEM CASA{/}

Esta carta foi escrita \u00abaos que vivem dispersos como estrangeiros\u00bb por todas as regi\u00f5es da \u00c1sia Menor. S\u00e3o, portanto, emigrantes que vivem fora da p\u00e1tria [1Pd_1,17], seja porque partiram em busca de trabalho para sobreviverem, seja porque eram escravos comprados que permaneciam na casa dos seus senhores, longe do local de origem. Esses crist\u00e3os tinham deixado as suas ra\u00edzes, os parentes e amigos, e encontravam-se em situa\u00e7\u00e3o de isolamento em regi\u00f5es que n\u00e3o lhes davam o aconchego e acolhimento que tinham na pr\u00f3pria terra. Sofriam humilha\u00e7\u00f5es, inj\u00farias, persegui\u00e7\u00f5es por serem estrangeiros e crist\u00e3os. Pedro escreve, mostrando que a uni\u00e3o entre eles, quer na fam\u00edlia quer na comunidade, h\u00e1-de ser t\u00e3o fraterna e acolhedora, que formem juntos a \u00abcasa de Deus\u00bb. Por isso, a carta respira um clima de alegria, fraternidade e esperan\u00e7a. Esta uni\u00e3o e enraizamento na f\u00e9, atrav\u00e9s de um testemunho de vida, ser\u00e1 a retaguarda s\u00f3lida perante uma situa\u00e7\u00e3o hostil [1Pd_3,13] [1Pd_3,17]; [1Pd_4,4] [1Pd_4,5]. Por isso, no texto a vida crist\u00e3 aparece como algo simples e imediato. N\u00e3o h\u00e1 directivas complicadas de vida; unicamente o senso fundamental do amor e da lealdade. Amea\u00e7ados pela persegui\u00e7\u00e3o e na expectativa de um fim do mundo pr\u00f3ximo, esses crist\u00e3os n\u00e3o pensam em mudan\u00e7as estruturais para a constru\u00e7\u00e3o de uma nova sociedade; aceitam as estruturas e condi\u00e7\u00f5es da sua \u00e9poca, procurando dentro desse contexto testemunhar a justi\u00e7a, a lealdade e o sentido da responsabilidade humana. \u00c9 nesse ambiente que devemos ler as passagens sobre os escravos, as mulheres e o poder p\u00fablico [1Pd_2,13] - [1Pd_3,7]. A carta foi escrita em \u00abBabil\u00f3nia\u00bb, que provavelmente designa a cidade de Roma (cf. [Ap_18,2] [Ap_18,10] [Ap_18,21]). A data prov\u00e1vel \u00e9 o per\u00edodo imediatamente anterior \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o desencadeada por Nero no ano 64 d.C.

{2}SEGUNDA CARTA DE S\u00c3O PEDRO{/}
{C}PRESERVERAR NA ESPERAN\u00c7A{/}

Embora se apresente como sendo de Sim\u00e3o Pedro [2Pd_1,1]; [2Pd_3,1], esta segunda carta \u00e9 o \u00faltimo escrito do Novo Testamento, e foi provavelmente escrita no fim do s\u00e9c. I ou mesmo em meados do s\u00e9c. II. O seu autor imita o g\u00e9nero liter\u00e1rio do \u00abtestamento dos antepassados\u00bb, comum naquela \u00e9poca: colocar conselhos e advert\u00eancias na boca dos patriarcas pouco antes de morrerem.
Estamos no tempo em que a Igreja est\u00e1 a passar da \u00e9poca primitiva para a chamada era p\u00f3s-apost\u00f3lica. At\u00e9 a\u00ed o cristianismo fora vivido como novidade entusiasmante e esperava-se ardente e continuamente pela vinda gloriosa de Jesus. Nesse momento, por\u00e9m, o tempo do Jesus terrestre come\u00e7ava a perder-se no passado, e o futuro da parusia torna-se cada vez mais distante. A comunidade crist\u00e3 vai aos poucos sofrendo influ\u00eancias de pensamentos e religi\u00f5es diversas que amea\u00e7am deturpar o mist\u00e9rio crist\u00e3o e at\u00e9 mesmo a consci\u00eancia moral das comunidades com uma s\u00e9rie de ideias sem liga\u00e7\u00e3o com a vida.
A carta responde \u00e0 situa\u00e7\u00e3o, estimulando os desencorajados e denunciando com veem\u00eancia as doutrinas estranhas \u00e0 f\u00e9. Ao mesmo tempo que anuncia a cat\u00e1strofe final do mundo, ensina tamb\u00e9m a paci\u00eancia e a perseveran\u00e7a, o sentido da vida sob o julgamento de Deus, o progresso na f\u00e9 e na gra\u00e7a. Por outro lado, defende o essencial da f\u00e9 e insiste na Palavra de Deus, referindo-se \u00e0s cartas de Paulo como a um conjunto liter\u00e1rio bem conhecido de toda a Igreja. Em poucas palavras, a carta \u00e9 uma li\u00e7\u00e3o importante para o cristianismo, que deve aceitar ser fermento dentro de uma longa Hist\u00f3ria, embora deva recusar um estabelecimento triunfal num momento dessa mesma Hist\u00f3ria.
