{2}CARTA AOS HEBREUS{/}
{C}CRISTO \u00c9 O \u00daNICO SACERDOTE VERDADEIRO{/}

A assim chamada carta aos Hebreus \u00e9 comummente atribu\u00edda a S\u00e3o Paulo. Entretanto, o seu estilo n\u00e3o tem nada parecido com o de Paulo, e at\u00e9 ao s\u00e9c. IV a Igreja do Ocidente recusou-se a atribu\u00ed-la ao Ap\u00f3stolo. O seu autor \u00e9 desconhecido, da segunda gera\u00e7\u00e3o crist\u00e3 [Hb_2,3], e escreveu-a por volta do ano 80. Nada indica tamb\u00e9m que o texto seja uma carta: faltam endere\u00e7o e sauda\u00e7\u00e3o, e o estilo \u00e9 impessoal, sem nenhuma refer\u00eancia a destinat\u00e1rios. O g\u00e9nero liter\u00e1rio \u00e9 mais o de serm\u00e3o ou homilia. S\u00f3 no final [Hb_13,20] a [Hb_13,25] aparecem elementos t\u00edpicos de um bilhete, talvez enviado juntamente com o discurso e recomendando a sua leitura.
Os destinat\u00e1rios s\u00e3o um grupo de leitores que se acham em grande perigo de rejeitar a f\u00e9 em Jesus como revelador e portador da Salva\u00e7\u00e3o. Eles sentem dificuldade em aceitar, tanto a forma humilhante e dolorosa da apari\u00e7\u00e3o terrestre de Jesus [Hb_2,1], como os pr\u00f3prios sofrimentos que t\u00eam de suportar por serem crist\u00e3os ([Hb_10,32] ss; [Hb_12,3] ss) e ainda a desilus\u00e3o de n\u00e3o verem realizada a salva\u00e7\u00e3o final ([Hb_10,36] s; [Hb_3,14]; [Hb_6,12]). Por outro lado, parece que a religi\u00e3o do Antigo Testamento exerce forte influ\u00eancia nesse grupo. Pode-se supor que sejam judeus convertidos da comunidade crist\u00e3 de Roma.
O escrito \u00e9 de grande import\u00e2ncia no quadro geral do Novo Testamento, pelo facto de apresentar Jesus como Aquele que supera a institui\u00e7\u00e3o cultual do Antigo Testamento. Paulo havia mostrado a caducidade da Lei, anunciando que n\u00e3o \u00e9 a piedade legalista que salva. Agora, o autor da carta aos Hebreus mostra que a piedade cultual ligada ao Templo e aos sacrif\u00edcios n\u00e3o assegura o perd\u00e3o e a comunh\u00e3o com Deus. O \u00fanico acto salvador que obt\u00e9m de uma vez por todas o perd\u00e3o \u00e9 o sacrif\u00edcio de Jesus, que derramou o seu sangue e entregou a sua vida por n\u00f3s. Ora, Jesus n\u00e3o realiza nada parecido com uma oferenda religiosa nos moldes cultuais judaicos: em lugar de uma ac\u00e7\u00e3o sagrada realizada no recinto do Templo e com rituais precisos, Ele morreu fora do Templo e da cidade santa, como criminoso eliminado da sociedade [Hb_13,12].
Jesus \u00e9, portanto, {N}o \u00fanico mediador{/} entre Deus e os homens. Doravante, \u00e9 Ele o \u00fanico santu\u00e1rio e sacerdote, e o sacrif\u00edcio por Ele realizado \u00e9, daqui em diante, o \u00fanico agrad\u00e1vel a Deus [Hb_9,11] a [Hb_9,14]. As consequ\u00eancias s\u00e3o radicais:
-Excepto Jesus, nada mais \u00e9 absoluto: nenhuma institui\u00e7\u00e3o ou estrutura, tanto civil como religiosa, tem car\u00e1cter absoluto e intoc\u00e1vel. Sendo \u00fanico mediador, Jesus abre completamente a comunica\u00e7\u00e3o entre Deus e os homens, e dos homens entre si.
-O povo possui a liberdade de participar inteiramente da realidade de Jesus e, portanto, de ter acesso \u00e0 intimidade com o pr\u00f3prio Deus.
-Perante a pessoa e vida de Jesus, todas e quaisquer institui\u00e7\u00f5es, estruturas religiosas ou civis t\u00eam car\u00e1cter relativo e provis\u00f3rio, sendo pass\u00edveis de revis\u00e3o cr\u00edtica, reformula\u00e7\u00e3o e renova\u00e7\u00e3o.
-O verdadeiro culto a Deus realiza-se atrav\u00e9s da pr\u00f3pria vida. O modo de servir a Deus n\u00e3o s\u00e3o os ritos religiosos, mas a obedi\u00eancia \u00e0 sua vontade, que se manifestou radicalmente na doa\u00e7\u00e3o vivida por Jesus at\u00e9 \u00e0 morte [Hb_10,1] a [Hb_10,10]. O \u00fanico valor do culto consiste em exprimir, concreta ou simbolicamente, o culto que os homens prestam a Deus atrav\u00e9s da pr\u00f3pria vida.
