{2}LAMENTA\u00c7\u00d5ES{/}
{C}UM  POVO  HUMILHADO{/}

As Lamenta\u00e7\u00f5es provavelmente foram escritas na Palestina depois da queda de Jerusal\u00e9m em 586 a.C. Uma tradi\u00e7\u00e3o, talvez fundada em [2Cr_35,25], atribui-as ao profeta Jeremias, mas tudo indica que essa atribui\u00e7\u00e3o \u00e9 artificial.
S\u00e3o cantos f\u00fanebres que descrevem, de modo doloroso e po\u00e9tico, a destrui\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m pelos babil\u00f3nios e os acontecimentos que se sucederam a essa cat\u00e1strofe nacional: fome, sede, matan\u00e7as, inc\u00eandios, saques e ex\u00edlio for\u00e7ado (cf. [2Rs_24,1] a [2Rs_25,1]).
Estes poemas retratam a ang\u00fastia de um povo humilhado, que faz exame de consci\u00eancia, grita de arrependimento e suplica perd\u00e3o. Mostram o povo em situa\u00e7\u00e3o desesperada, que perdeu tudo, menos a f\u00e9. Uma lembran\u00e7a continua presente: Deus \u00e9 o Senhor de tudo e de todos. E, o que \u00e9 melhor: Ele n\u00e3o abandona o seu povo para sempre e est\u00e1 pronto para agir com miseric\u00f3rdia. Ent\u00e3o o desespero cede o lugar \u00e0 ora\u00e7\u00e3o, a uma confian\u00e7a invenc\u00edvel, mesmo quando j\u00e1 n\u00e3o existe motivo para nenhuma esperan\u00e7a.
Os quatro primeiros poemas s\u00e3o alfab\u00e9ticos: cada uma das 22 estrofes (os tr\u00eas versos de cada estrofe, em [Lm_3,1]) come\u00e7a pela sua letra, segundo a ordem do alfabeto hebraico. O processo, que implica algum artif\u00edcio, pretende ganhar em simbolismo o que perde em espontaneidade: o tema \u00e9 abordado na sua totalidade, de A a Z. Mas a beleza tr\u00e1gica e a mensagem das Lamenta\u00e7\u00f5es, embora de come\u00e7o ajustadas a circunst\u00e2ncias locais bem definidas, encerram ingredientes que desafiam os s\u00e9culos: o desalento face \u00e0 mis\u00e9ria provocada pelo desastre total, pol\u00edtico e religioso, o abandono arrependido do procedimento pecaminoso que for\u00e7ou Deus a esmagar o seu povo, a esperan\u00e7a no Senhor, guia e mestre da Hist\u00f3ria.
Com raz\u00e3o, a liturgia dos judeus prop\u00f5e a sua releitura anual, para evocar a trag\u00e9dia j\u00e1 referida e a demoli\u00e7\u00e3o do segundo Templo pelo ex\u00e9rcito romano, no ano 70 da nossa era. A liturgia crist\u00e3 introduz as Lamenta\u00e7\u00f5es na Semana Santa, para celebrar a paix\u00e3o de Cristo. E n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil reconhecer verdade e alcance escatol\u00f3gico ao quadro que p\u00f5e na boca de Jesus, a caminho do calv\u00e1rio ou j\u00e1 pregado na cruz, aquelas palavras cuja vers\u00e3o latina est\u00e1 imortalizada na polifonia de Vit\u00f3ria (\u00abO vos omnes\u00bb): \u00abV\u00f3s todos que passais! Atendei e vede se haver\u00e1 dor semelhante \u00e0 minha!?\u00bb [Lm_1,12].
