{2}HABACUC{/}
{C}O JUSTO VIVER\u00c1 PELA SUA FIDELIDADE{/}

O livro de Habacuc apresenta uma articula\u00e7\u00e3o simples e ordenada: um curto t\u00edtulo [Hab_1,1], seguido dum duplo di\u00e1logo do profeta com o seu Deus e uma liturgia final cuja conclus\u00e3o relembra o Senhor e a sua for\u00e7a.
No primeiro di\u00e1logo [Hab_1,2] [Hab_1,11], o profeta interpela o pr\u00f3prio Deus (vv. 2-4) acerca da viol\u00eancia e da opress\u00e3o que invadem o pa\u00eds, a ponto de anestesiar a Lei, distorcer o direito e encurralar o justo. A resposta (vv. 5-11) \u00e9 a evid\u00eancia da invas\u00e3o do territ\u00f3rio por um inimigo que aplica um castigo, semeando combates e saques, amontoando prisioneiros de guerra. Ultrapassou, no entanto, a medida.
O segundo [Hab_1,12] [Hab_2,6] decalca o movimento do anterior: o profeta dirige a Deus um veemente apelo [Hab_1,12] [Hab_1,17] contra o opressor que exagerou na miss\u00e3o de instrumento escolhido por Deus. A resposta [Hab_2,2] [Hab_2,6], a gravar para a posteridade, atesta que, a seu tempo, o orgulho n\u00e3o vingar\u00e1, os \u00eddolos inertes e mudos n\u00e3o socorrem ningu\u00e9m, enquanto que o justo viver\u00e1, encontrar\u00e1 a vida atrav\u00e9s da sua fidelidade. O passo [Hab_2,4] recobrou f\u00f4lego novo ao entrar na feliz pol\u00e9mica entre a salva\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica da f\u00e9 e o m\u00e9rito das obras (cf. [Rm_1,17]; [Gl_3,11]; [Hab_10,38]).
As cinco \u00abmaldi\u00e7\u00f5es\u00bb [Hab_2,6] [Hab_2,20] resumem o pronunciamento divino sobre os abusos do inimigo opressor e os horizontes sombrios que o esperam. Em contraste, o salmo de [Hab_3,1] [Hab_3,19] evoca, em contexto lit\u00fargico, estremecimentos e medos do justo, mas insiste na certeza de que um dia a justi\u00e7a se h\u00e1-de tornar realidade palp\u00e1vel, porque o Deus dos justos \u00e9 o Deus vivo na Hist\u00f3ria.
Os \u00abcaldeus\u00bb, povo cruel e impiedoso [Hab_1,6], s\u00e3o certamente os ex\u00e9rcitos neo-babil\u00f3nicos que, na \u00faltima d\u00e9cada do s\u00e9culo VII e na primeira do s\u00e9culo VI a.C., p\u00f5em termo ao imp\u00e9rio ass\u00edrio e organizam a conquista de todo o Pr\u00f3ximo Oriente, incluindo a sujei\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m e a deporta\u00e7\u00e3o do ano 598. Tais seriam os tempos da profecia de Habacuc, muito perto de Naum e contempor\u00e2neo de Jeremias.
Fiel \u00e0 miss\u00e3o de fornecer aos contempor\u00e2neos a leitura divina de comportamentos e acontecimentos, Habacuc n\u00e3o esbateu a solidariedade com os irm\u00e3os e introduziu, a prop\u00f3sito, uma anota\u00e7\u00e3o original: ousou interpelar Deus sobre os motivos da sua ac\u00e7\u00e3o, pediu-Lhe contas sobre o governo do mundo. Fiel a Deus, mas desamparado, teve o arrojo de apelar a Deus contra o pr\u00f3prio Deus, cuja interven\u00e7\u00e3o na Hist\u00f3ria parecia incompreens\u00edvel. Ser\u00e1 preciso punir um mal com um mal maior? N\u00e3o andar\u00e1 Deus a apoiar o triunfo duma for\u00e7a injusta? J\u00e1 se chamou a isto o problema do Mal. Foi esc\u00e2ndalo para Habacuc, pioneiro de muitos humanos atrav\u00e9s dos tempos.
