{2}JEREMIAS{/}
{C}UMA NOVA ALIAN\u00c7A{/}

Jeremias \u00e9 da tribo de Benjamim e origin\u00e1rio de Anatot, pequena cidade do interior. Embora de fam\u00edlia sacerdotal, est\u00e1 ligado \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es prof\u00e9ticas do Norte, principalmente a Oseias, e n\u00e3o \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es do sacerd\u00f3cio e da corte de Jerusal\u00e9m. Como Miqueias, pertence ao mundo campon\u00eas. De maneira cr\u00edtica, traz consigo a vis\u00e3o dos camponeses sobre a situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.
A actividade prof\u00e9tica de Jeremias desenrolou-se entre os anos 627 e 586 a.C., e pode ser dividida em quatro per\u00edodos:
{K}Primeiro per\u00edodo: durante o reinado de Josias (627-609 a{/}.{N}C{/}.{N}){/}
Com apenas oito anos de idade, Josias foi nomeado rei pelo \u00abpovo da terra\u00bb. Aqui esta express\u00e3o indica a camada rural da sociedade. No in\u00edcio deste per\u00edodo, Jeremias acusa a idolatria e luta para que seja erradicada totalmente do pa\u00eds. De contr\u00e1rio, a situa\u00e7\u00e3o vai piorar cada vez mais. A convers\u00e3o torna-se necess\u00e1ria e urgente.
No \u00e2mbito internacional, a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica est\u00e1 a mudar rapidamente: a Ass\u00edria, grande pot\u00eancia da \u00e9poca, enfraquece-se cada vez mais, e j\u00e1 n\u00e3o consegue controlar as regi\u00f5es dominadas. Josias, agora na maioridade, aproveitando o enfraquecimento da presen\u00e7a ass\u00edria, encontra uma \u00f3ptima oportunidade para realizar uma ampla reforma. Na pol\u00edtica, ele procura anexar o territ\u00f3rio do Norte, pertencente \u00e0 Ass\u00edria desde a queda de Samaria em 722 a.C. Na economia, deixa de pagar os impostos cobrados pelos dominadores. Ao mesmo tempo, Josias promove a reforma religiosa. Baseado no \u00abLivro da Lei\u00bb (provavelmente o n\u00facleo mais antigo do Deuteron\u00f3mio), encontrado no Templo, tenta eliminar todos os \u00eddolos do pa\u00eds e estabelecer um novo relacionamento social centrado na Lei. \u00c9 um per\u00edodo de prosperidade e optimismo. Por isso at\u00e9 Jeremias emite bom conceito sobre Josias ([Jr_22,15] [Jr_16,1]). 
{K}Segundo per\u00edodo:durante o reinado de Joaquim (609-598 a.C.) {/}
Com a decad\u00eancia da Ass\u00edria, as rela\u00e7\u00f5es internacionais come\u00e7am a ganhar novas fei\u00e7\u00f5es. Outros povos, \u00e1vidos de conquista e supremacia, despontam no horizonte: citas, medos, babil\u00f3nios e tamb\u00e9m os eg\u00edpcios que tentam ressurgir de um per\u00edodo decadente. Com isto, a faixa da Palestina passa, de novo, a ser palco de disputas pol\u00edticas e militares. Nesta \u00e9poca morre Josias (609 a.C.), quando tenta impedir a incurs\u00e3o do Fara\u00f3 Necao, que procura deter o avan\u00e7o da Babil\u00f3nia. No regresso, mesmo derrotado, Necao vai a Jerusal\u00e9m, dep\u00f5e Joacaz, substituto de Josias, e coloca no trono de Jud\u00e1 o desp\u00f3tico Joaquim. Esta atitude do Fara\u00f3 pretendia dar na regi\u00e3o uma demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a. Pode ser tamb\u00e9m que Necao confiasse mais em Joaquim do que em Joacaz. O povo detestava Joaquim, e Jeremias critica violentamente este rei ([Jr_22,13] [Jr_22,19]). \u00c9 desta \u00e9poca o famoso discurso sobre o Templo ([Jr_7,1] [Jr_7,15]; cf. cap. [Jr_26,1]), que quase custou a vida ao profeta.
A Babil\u00f3nia surge como grande pot\u00eancia, sob o reinado de Nabucodonosor. Jeremias adverte os israelitas de que os babil\u00f3nios, em breve, invadir\u00e3o o pa\u00eds. Por causa disso, ele \u00e9 aprisionado como traidor. Mesmo assim, Jeremias continua a denunciar o povo que se esqueceu de Deus, por falsear o culto, pela falsa seguran\u00e7a, pelas idolatrias e pelas injusti\u00e7as sociais. E aponta os principais respons\u00e1veis: s\u00e3o as pessoas importantes que det\u00eam o poder em Jerusal\u00e9m (rei, ministros, falsos profetas, sacerdotes). O profeta tinha raz\u00e3o, e a sua vis\u00e3o realista confirmou-se: em 598 a.C., o ex\u00e9rcito babil\u00f3nio estava \u00e0s portas de Jerusal\u00e9m. Nessa altura, o rei Joaquim morreu, provavelmente assassinado. O seu filho e substituto, Jeconias, n\u00e3o teve tempo para nada: ap\u00f3s tr\u00eas meses, Jeru-sal\u00e9m era invadida. Ent\u00e3o ele, juntamente com altos oficiais e outras personagens importantes, foram levados para Babil\u00f3nia (597 a.C., primeira deporta\u00e7\u00e3o). Sedecias, tio de Jeconias, foi instalado por Nabucodonosor, para reinar em Je-rusal\u00e9m. 
{K}Terceiro per\u00edodo:durante o reinado de Sedecias (597-586 a.C.){/}
Neste momento decisivo da Hist\u00f3ria de Israel, Sedecias submete-se aos babil\u00f3nios e mostra-se indeciso. Em tal situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, surge uma quest\u00e3o religiosa: Afinal, quem \u00e9 o povo de Deus? Os desterrados na Babil\u00f3nia, ou aqueles que ficaram em Jud\u00e1? Jeremias nega-se a participar numa vis\u00e3o simplista (cap. [Jr_24,1]) e coloca o assunto dentro da pol\u00edtica realista: Sedecias e a corte de Jerusal\u00e9m s\u00e3o incapazes de salvar o povo do desastre. Por isso os deportados ainda s\u00e3o os que podem trazer esperan\u00e7a, pois est\u00e3o a aprender uma dura li\u00e7\u00e3o. Essa ideia leva Jeremias novamente \u00e0 pris\u00e3o. Pressionado pelos seus oficiais, Sedecias tenta armar uma revolta contra a Babil\u00f3nia. Avizinha-se o desastre previsto por Jeremias: Jerusal\u00e9m \u00e9 sitiada pelos babil\u00f3nios. Entretanto, Jeremias tamb\u00e9m v\u00ea nos camponeses uma luz salvadora [Jr_32,15]. Em 587 a.C. d\u00e1-se a segunda deporta\u00e7\u00e3o.
{K}Quarto per\u00edodo:depois da queda de Jerusal\u00e9m (586 a{/}.{N}C{/}.{N}){/}
Em 586 a.C., Nabucodonosor resolve destruir completamente Jerusal\u00e9m: incendeia o Templo, o pal\u00e1cio, as casas, e derruba as muralhas. Mas concede que Jeremias fique no pa\u00eds. Ent\u00e3o, o profeta vai viver com Godolias, novo governador da Judeia. Nesse mesmo ano, Godolias \u00e9 assassinado por um grupo anti-babil\u00f3nico, que se v\u00ea for\u00e7ado a fugir para o Egipto, obrigando Jeremias a ir com eles. Ficam a morar na cidade de T\u00e1fnis, de onde mais uma vez o profeta lan\u00e7a as suas den\u00fancias (cf. [Jr_40,7] a [Jr_44,30]).
\u00c9 dif\u00edcil situar os or\u00e1culos dentro de cada per\u00edodo correspondente. Por isso, nas notas indica-se o contexto dos or\u00e1culos mais importantes, para facilitar a compreens\u00e3o. 
Podemos dizer que a miss\u00e3o de Jeremias fracassou em querer que o seu povo voltasse \u00e0 genu\u00edna alian\u00e7a com Deus. Ele tornou-se uma esp\u00e9cie de \u00abanti-Mois\u00e9s\u00bb, sendo levado para o Egipto e vendo o seu povo perder as institui\u00e7\u00f5es e a pr\u00f3pria terra. No entanto, a sua confian\u00e7a no Deus que \u00e9 sempre fiel deu-lhe a capacidade de mostrar, ao povo e a n\u00f3s, que este mesmo Deus manter\u00e1 o seu relacionamento connosco, sem precisar de institui\u00e7\u00f5es mediadoras [Jr_31,31] [Jr_31,34].
