{2}PRIMEIRO  LIVRO  DOS  MACABEUS{/}
{C}RESISTIR  EM  NOME  DA  F\u00c9{/}

O t\u00edtulo dos livros procede do apelido \u00abMacabeu\u00bb, dado a Judas, o filho mais famoso de Matatias. O texto foi escrito em hebraico no in\u00edcio do s\u00e9c. I a.C., mas o original perdeu-se. \u00c9 prov\u00e1vel que o segundo livro tenha sido redigido logo em grego. A B\u00edbia cat\u00f3lica conserva apenas a vers\u00e3o em l\u00edngua grega.
Os livros dos Macabeus s\u00e3o a \u00fanica fonte que nos informa sobre a Hist\u00f3ria do povo eleito na \u00e9poca helenista, desde a tentativa da heleniza\u00e7\u00e3o imposta aos judeus no come\u00e7o da governa\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Hircano, ou seja, de 176 a 134 a.C. O rei grego Ant\u00edoco Epif\u00e2nio quis for\u00e7ar os judeus a adoptar os costumes, a cultura e mesmo a religi\u00e3o dos gregos. Matatias, sacerdote judeu, op\u00f5e-se-lhe e chefia a revolta contra os soberanos gregos e o grupo judaico que a eles se aliou. A resist\u00eancia procura a todo o custo preservar a identidade religiosa e cultural do povo judaico. De in\u00edcio, o objectivo era conquistar a liberdade religiosa e a pureza do culto. Pouco a pouco, o movimento pretendeu alcan\u00e7ar tamb\u00e9m a independ\u00eancia dos judeus. Iniciada por Matatias, a resist\u00eancia continuou depois, sob a direc\u00e7\u00e3o sucessiva de seus filhos Judas, J\u00f3natas e Sim\u00e3o.
Ambos os livros est\u00e3o irmanados num tema: gra\u00e7as \u00e0 interven\u00e7\u00e3o divina, Judas Macabeu e os seus irm\u00e3os reconquistaram a autonomia nacional e a liberdade de culto que Ant\u00edoco IV Epif\u00e2nio tentara aniquilar.
O primeiro livro, ap\u00f3s uma panor\u00e2mica da situa\u00e7\u00e3o [1Cr_1,1] [1Cr_2,1], avan\u00e7a uma trilogia, correspondente aos feitos dos tr\u00eas Macabeus: Judas [1Cr_3,1] a [1Cr_9,22], J\u00f3natas [1Cr_9,23] a [1Cr_12,1] e Sim\u00e3o [1Cr_13,1] a [1Cr_16,1], que cobrem respectivamente per\u00edodos de seis, dezassete e nove anos, intercalados pelas datas extremas 166 e 134 a.C.
O segundo livro abarca apenas a hist\u00f3ria de Judas Macabeu e apresenta-se como resumo duma obra anterior. Concentra os acontecimentos \u00e0 volta do santu\u00e1rio de Jerusal\u00e9m; sublinha a import\u00e2ncia da festa da purifica\u00e7\u00e3o e dedica\u00e7\u00e3o do Templo [1Cr_10,1] a [1Cr_10,8]; baseia-se numa teologia finalista em que os acontecimentos s\u00e3o interpretados como vontades divinas; e inova nos cap\u00edtulos da ressurrei\u00e7\u00e3o, da cria\u00e7\u00e3o (cf. [1Cr_7,28]), e da efic\u00e1cia da ora\u00e7\u00e3o e do sacrif\u00edcio em favor dos mortos.
No conjunto, a religi\u00e3o e a na\u00e7\u00e3o judaica andam de bra\u00e7o dado: a revolta \u00e9 guerra querida e aben\u00e7oada por Deus, que n\u00e3o abandona os que se esfor\u00e7am por Lhe serem fi\u00e9is. A f\u00e9 traduz-se em interven\u00e7\u00f5es na vida da comunidade, \u00e9 fermento libertador com ecos na sociedade e na Hist\u00f3ria. A estreita associa\u00e7\u00e3o entre religi\u00e3o revelada e patriotismo n\u00e3o est\u00e1 isenta de ambiguidades. Sabemos que o Evangelho clarificou as \u00e1guas e destrin\u00e7ou os campos, mas n\u00e3o retirou qualidade \u00e0 grandeza de alma de her\u00f3is convictos, que levaram at\u00e9 ao fim o seu testamenho.

{2}SEGUNDO LIVRO DOS MACABEUS{/}
{C}A F\u00c9 LEVA AO HERO\u00cdSMO{/}

Diversamente do que parece, o segundo livro dos Macabeus n\u00e3o \u00e9 a continua\u00e7\u00e3o do primeiro, mas uma narrativa paralela a [1Mc_1,1] [1Mc_1,7]. Descreve os acontecimentos que ocorreram na Judeia entre 175-161 a.C. O autor escreveu directamente em grego, resumindo uma obra de cinco volumes, escrita por Jas\u00e3o de Cirene [2Mc_2,19] [2Mc_2,32].
Porque \u00e9 que o autor sentiu necessidade de retomar uma hist\u00f3ria j\u00e1 conhecida? Qual a originalidade? Podemos dizer que a inten\u00e7\u00e3o do autor \u00e9 reler os mesmos factos, para mostrar que a luta em defesa do povo se enra\u00edza na atitude de f\u00e9, que confia plenamente no aux\u00edlio de Deus. Deste modo, a resist\u00eancia contra o opressor implica f\u00e9 e ac\u00e7\u00e3o, m\u00edstica e pr\u00e1tica ou, na vis\u00e3o do autor, lutar com as m\u00e3os e rezar com o cora\u00e7\u00e3o. Trata-se, portanto, de uma releitura por dentro do movimento revolucion\u00e1rio, cuja efic\u00e1cia repousa na for\u00e7a de Deus, presente na ac\u00e7\u00e3o do povo. Nessa perspectiva de f\u00e9, nem mesmo a morte se apresenta como obst\u00e1culo ou sinal de der-rota. Pelo contr\u00e1rio, o testemunho dos m\u00e1rtires, coroado pela f\u00e9 na ressurrei\u00e7\u00e3o, mostra que n\u00e3o h\u00e1 limites para a resist\u00eancia, pois Deus gera a vida onde os opressores produzem a morte. Confiado nesse Deus, o povo nada mais tem a temer, pois em qualquer circunst\u00e2ncia tem a certeza da vit\u00f3ria.
