{2}PRIMEIRO E SEGUNDO LIVRO DE SAMUEL{/}
{C}A FUN\u00c7\u00c3O DA AUTORIDADE{/}

Os livros de Samuel relatam acontecimentos que se situam entre 1040 e 971 a.C. Temos neles uma an\u00e1lise cr\u00edtica do aparecimento da realeza em Israel, an\u00e1lise que pode ajudar a avaliar os nossos sistemas pol\u00edticos, bem como qualquer outra autoridade.
Em 1Sm_ temos duas vers\u00f5es do surgimento da autoridade pol\u00edtica central: {N}a primeira \u00e9 contr\u00e1ria e hostil \u00e0 monarquia {/}([1Sm_8,1]; [1Sm_10,17] a [1Sm_10,27]), representando a vis\u00e3o mais democr\u00e1tica das tribos do Norte, que viviam em terras mais produtivas. {N}A segunda vers\u00e3o \u00e9 favor\u00e1vel \u00e0 monarquia {/}([1Sm_9,1] a [1Sm_9,10] [1Sm_9,16]; [1Sm_11,1]) e representa a vis\u00e3o da tribo de Jud\u00e1, que vivia em terras menos produtivas. Unindo as duas vers\u00f5es, vemos que a autoridade \u00e9 um {N}mal necess\u00e1rio {/}(embora justific\u00e1vel, pode absolutizar-se, explorar e oprimir o povo) e, ao mesmo tempo, um {N}dom de Deus {/}(uma institui\u00e7\u00e3o mediadora, que deve representar, isto \u00e9, tornar presente o pr\u00f3prio Deus, \u00fanico Rei que liberta e governa o seu povo).
1Sm oferece, portanto, uma vis\u00e3o cr\u00edtica da autoridade pol\u00edtica. Mostra que Deus \u00e9 o \u00fanico Rei sobre o seu povo. Para ser leg\u00edtimo, o rei humano (e seus equivalentes) deve ser representante de Deus, isto \u00e9, servir a Deus atrav\u00e9s do servi\u00e7o ao povo. E isso compreende duas fun\u00e7\u00f5es:
- {N}fun\u00e7\u00e3o externa: {/}reunir e chefiar o povo, ajudando-o a proteger-se e a libertar-se dos inimigos ([1Sm_9,16]; [Sl_110,2]);
- {N}fun\u00e7\u00e3o interna: {/}organizar o povo e promover a vida social conforme a justi\u00e7a e o direito ([Sl_72,1]; [Dt_17,14] a [Dt_17,20]; [Pr_16,12]; [Pr_29,14]).
As duas fun\u00e7\u00f5es resumem-se, portanto, numa dupla rela\u00e7\u00e3o: obedecer a Deus e servir o povo. Qualquer autoridade que n\u00e3o obede\u00e7a a Deus e n\u00e3o sirva o povo \u00e9 ileg\u00edtima e m\u00e1, pois acaba por ocupar o lugar de Deus.
2Sm est\u00e1 centrado na figura de David, cuja hist\u00f3ria come\u00e7a propriamente em [1Sm_16,1], e nas lutas dos pretendentes ao trono de Jerusal\u00e9m. Podemos dizer que 2Sm continua a avalia\u00e7\u00e3o do sentido e da fun\u00e7\u00e3o da autoridade pol\u00edtica.
David \u00e9 apresentado como o rei ideal, que obedece a Deus e serve o povo. Gra\u00e7as \u00e0 sua habilidade pol\u00edtica, consegue aos poucos captar a simpatia das tribos, sendo primeiro aclamado rei de Jud\u00e1, sua tribo, e depois tamb\u00e9m rei das tribos do Norte. Ap\u00f3s ter conseguido reunir todo o povo, David conquista Jerusal\u00e9m e torna-a, ao mesmo tempo, o centro do poder pol\u00edtico e da religi\u00e3o de Israel. O ponto mais alto da sua hist\u00f3ria \u00e9 a profecia de Nat\u00e3 [2Sm_7,1], onde o profeta anuncia que o trono de Jerusal\u00e9m ser\u00e1 sempre ocupado por um messias (=rei ungido) da fam\u00edlia de David. \u00c9 a cria\u00e7\u00e3o da ideologia messi\u00e2nica: o povo ser\u00e1 sempre governado por um messias descendente de David. Logo depois come\u00e7a a competi\u00e7\u00e3o pelo poder e pela sucess\u00e3o e, finalmente, o trono \u00e9 ocupado por Salom\u00e3o que, por si, n\u00e3o era o herdeiro directo [2Sm_9,1] [1Rs_2,1].
David passou \u00e0 Hist\u00f3ria como o modelo da autoridade pol\u00edtica justa. Por isso, mesmo com o fim da realeza, os judeus permaneceram confiantes no ideal messi\u00e2nico e ficaram \u00e0 espera do messias que iria reunir o povo, defend\u00ea-lo dos inimigos e organiz\u00e1-lo numa sociedade justa e fraterna. Dizendo que Jesus \u00e9 descendente de David, os Evangelhos mostram que Ele \u00e9 o Messias esperado (da\u00ed o nome grego {N}Cristo {/}= Messias). Ele veio para reunir todos os homens e lev\u00e1-los \u00e0 vida plena, na justi\u00e7a e fraternidade do Reino de Deus.
